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Um dia como os outros (164)

por Sofia Loureiro dos Santos, em 17.10.15

UmDiaComoOsOutros.jpeg

(...) A maior das surpresas foi, no entanto, a mudança de atitude dos líderes do PCP e do BE. Antes das eleições, apenas se podia contar com o PS, o PSD e o CDS, os partidos do chamado arco da governação, para a formação de maiorias. Após as eleições, PCP e BE alteraram radicalmente este quadro ao declararem estar disponíveis para, com o PS, formar uma maioria parlamentar e viabilizar um governo de esquerda. Esta mudança alterou a relação de forças entre os partidos e abriu a possibilidade de mais escolhas de governo. (...)

(...) estamos perante uma mudança de fundo no funcionamento do nosso sistema político, e em particular do Parlamento. PCP e BE, por decisão dos seus dirigentes, autolimitavam as possibilidades da sua participação e responsabilização nas escolhas de governo e na governação. Essa não era uma situação normal, nem desejável. No momento em que os líderes partidários declaram a sua disponibilidade para participar plenamente na vida parlamentar, incluindo na constituição de soluções de governo, não tem sentido serem outros a limitar essa participação e a destruir a normalidade agora alcançada. (...)

(...) Cerca de 20% de eleitores, do PCP e do BE, passam a poder ver concretizadas, pelo menos em parte, as propostas políticas dos seus partidos. Estes, por sua vez, passam também a poder ser responsabilizados pelas soluções que preconizam, pelos seus êxitos ou insucessos. (...)

(...) dizer que falta legitimidade ao PCP para participar numa solução de governo porque 90% dos eleitores votaram noutros partidos, exige lembrar que também 90% dos eleitores não votaram no CDS e que tal não foi, nem é, obviamente, impeditivo da sua participação em coligações de governo. Enfatizar as posições críticas do BE e do PCP sobre a União Europeia e o euro exige recordar que também o CDS foi (e não sabemos se ainda o é) profundamente eurocético e isso não impediu que fizesse parte de soluções governativas comprometidas com o projeto europeu. (...)

(...) argumentar que PCP e BE são partidos radicais (de esquerda) requer que se recorde que o Governo que agora cessa funções se deixou capturar por uma agenda ideológica radical (de direita), afastando-se do centro político. (...)

(...) dizer que o PS é mais próximo do PSD do que do PCP ou do BE, e que, portanto, seria mais “natural” uma aliança com a Coligação, esquece os efeitos do afastamento do centro político protagonizado pelo PSD nos últimos anos. O PSD que conhecemos no passado já não existe, está transformado num partido de direita, e já não de centro-direita, radicalizado, que não negoceia nem se aproxima das forças partidárias à sua esquerda. Hoje, exceção feita a alguns dos grandes objetivos macroeconómicos, é quase impossível encontrar pontos de convergência nas agendas políticas dos dois partidos em matérias como a educação, a saúde, a ciência, a proteção social, a modernização administrativa ou o investimento público. Não foi o PS que se tornou mais radical nas suas propostas. O PS mantém, para as principais áreas de política e de intervenção do Estado, uma posição de centro-esquerda. Foi antes a coligação PSD/CDS que se radicalizou à direita alienando o apoio de muitos militantes históricos dos dois partidos e afastando-se de tal forma do centro que tornou praticamente inviável qualquer aliança com o PS. (...)

(...) defender que o PS não tem legitimidade para negociar com outras forças partidárias à sua esquerda porque o seu eleitorado não lhe deu esse mandato, exige que se recorde que ninguém tem o dom de adivinhação das intenções dos eleitores. Apenas existe o dever de, com humildade, as interpretar. Mas uma coisa é certa: António Costa afirmou repetidamente na campanha eleitoral que recusava tanto o prosseguimento de políticas de austeridade como a ideia de que haveria partidos do arco da governação e partidos excluídos do exercício de funções de governo. E coligações pós-eleitorais, que se formaram depois das eleições, sem ser previamente sufragadas, aconteceram já, por mais de uma vez, na história recente do nosso Parlamento. Por exemplo, as coligações de governo PSD/CDS lideradas por Durão Barroso e Pedro Passos Coelho.

 

Maria de Lurdes Rodrigues

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publicado às 12:19


2 comentários

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De sivispacem a 18.10.2015 às 02:24

Sou um admirador da acção política da Doutora Maria de Lourdes Rodrigues...Um dos factos políticos a que me custou assistir foi,Ministra da Educação,vê-la quasi chegar às lágrimas num debate político na AR com um cretino qualquer de que já não lembro o nome...Apenas,como noutras discussões em curso,lembro que se Jerónimo de Sousa disser que o "seu" Grupo parlamentar vai votar "assim"ou "assado",É ISSO QUE ACONTECE...Idem,para o BE,( que ,a propósito,"estoirará"como a rã da fábula...) Quanto ao PS e ao PSD,sabemos que não é assim...Nem Costa,nem Passos Coelho (admitindo que será ELE o PM indigitado...pela PàF...o que "ainda não disseram 3 doutores"...) PODEM GARANTIR que TODOS os deputados do respectivo Grupo Parlamentar votam "a toque de caixa" No menos,podem...FALTAR !...No mais,podem DISSENTIR"..."Remember" o PSD/Madeira !...Os deputados do (sim!...)"arco da governação não são um "package" negociável...EM BLOCO !...Caso contrário,como disse o CHURCHILL a propósito da defesa da Cultura,PARA QUE É QUE ESTAMOS...a COMBATER ?!...
Cumprimentos,"kyaskyas"
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De Sofia Loureiro dos Santos a 18.10.2015 às 10:00

Sivispacem , tem toda a razão. Os deputados podem (e devem) pensar pela sua cabeça e representar os seus eleitores, independentemente da disciplina partidária. No entanto há matérias em que a mesma é importante, nomeadamente na votação dos orçamentos. Mas tudo está em aberto e os partidos da coligação estão atentos e, suspeito, bastante activos. A democracia é isto mesmo. E, finalmente ao fim de 4 anos, a política voltou a ser assunto do dia. Penso que é uma grande melhoria em relação ao marasmo anterior.
Cumprimentos

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