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Remate

por Sofia Loureiro dos Santos, em 23.07.23

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À minha esquerda, em cima da secretária, o meu chapéu de palha comprado em Apt. Está calor e sinto um apaziguamento que se vai tornando cada vez mais raro. Na televisão Jessica Fletcher continua a ver Cabot Cove encolher de gente, tantos os cadáveres dos assassinados e, consequentemente, os brilharetes por ela desvendados.

Nada melhor para um sábado de manhã. E o chapéu faz-me lembrar alguns episódios mais ou menos caricatos da nossa viagem por terras de França.

Um episódio digno de nota foi a nossa chegada a Toulon. Armados de waze, seguimos aplicadamente as instruções repetidas desesperadamente quando não virávamos para onde nos era determinado. Mas havia muitas ruas que estavam barradas com pilares, abertas apenas a moradores. Depois de várias voltas, estacionámos o carro e fomos a pé descobrir o hotel.

A nossa atitude de estrangeiros perdidos chamou a atenção de um senhor muito magrinho, com sinais evidentes de cirurgia cervical, com a pele mais escurecida que a nossa, com roupas largas e enxovalhadas. Dirigiu-se a nós simpaticamente e, quando percebeu o que se passava, foi levar-nos ao hotel. Não contente com isso, para nos ensinar o caminho de carro, pois o hotel tinha parque de estacionamento e, a pé, era longe, entrou no carro e indicou-nos o caminho.

Ao chegarmos ao hotel, oferecemos-lhe uma nota para lhe agradecer. Ele recusou veementemente e nós ficámos envergonhadíssimos pelo nosso gesto, com grande receio de o ter ofendido. De facto estamos mais ou menos habituados a esta simpatia da parte de arrumadores de carros. Fiquei a pensar que, provavelmente pelo seu aspecto magrebino, concluímos que fazia parte desse grupo. Ou seja, sentimo-nos horrivelmente mal, espantados e agradecidos pela disponibilidade e generosidade de alguém que nunca tínhamos visto e que não iríamos encontrar mais.

Outro episódio foi o que se passou em Cannes, também no hotel. Ao pequeno-almoço, a senhora que estava a varrer o pátio e a limpar as mesas ouviu-nos falar português, abriu um sorriso cúmplice e cumprimentou-nos também em português. Encetámos uma pequena conversa, ficando a saber que era cabo-verdiana emigrada em França.

O recepcionista, que nos queria esclarecer de alguma coisa, depreendendo que não nos sabíamos exprimir em francês, pediu à senhora que fizesse de intérprete. Gerou-se uma confusão porque nós respondemos em francês, ela já não sabia em que língua deveria falar e o recepcionista ficou todo baralhado.

Como se vê, os hotéis foram sede de várias situações inusitadas. Em Nimes, depois de nos instalarmos a descansar após a viagem, a primeira coisa que o meu encalorado marido fez, como sempre fazia, foi ligar o ar condicionado. No entanto o aparelho ficou mudo e quedo, apesar das várias tentativas e intervenções realizadas pelo meu desesperado companheiro.

Ligou para a recepção, já ligeiramente irritado, e seguiu as instruções que lhe deram. Mas o efeito foi nenhum. Ligou de novo para que alguém fosse reparar a avaria do ar condicionado.

Entretanto, eu tinha-me instalado confortavelmente, recostada na cabeceira da cama, com o portátil sobre os joelhos ligado a uma tomada que estava estrategicamente mesmo atrás da mesa de cabeceira, tendo desligado o inútil candeeiro, a ouvir vagamente a TV.

Quando o recepcionista chegou, muito simpático, olhou para o aparelho e a seguir foi à minha mesa de cabeceira, apontando a tomada onde estava ligado o portátil. Foi explicando sorridente que eu tinha desligado o candeeiro.... e o ar condicionado; por isso não funcionava.

E Apt, para além dos chapéus de palha, deixou-me uma marcada impressão. Suspeito que também eu, embora sem querer, deva ter deixado alguma na Farmacêutica que me atendeu, quando a ela recorri e, no meu mais fantástico francês, pedi que me desse toilettes.

Depois de um silêncio espantado por parte da Farmacêutica, que me olhou com um ar meio assustado, disse: "Ah, mais oui, lingettes!"

Confesso que fiquei sem perceber o alívio dela, mas alguém a meu lado me esclareceu, quando saímos da Farmácia: "Pode dizer-se apropriadamente que a utilização de toilettes dispensa a utilização de lingettes. Em contrapartida, as toilettes são menos portáteis que as lingettes..."

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Enfim, peripécias várias que marcam pormenores de que não nos esquecemos mais.

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publicado às 18:01

Marseille

de Aix-en-Provence à capital da Provença

por Sofia Loureiro dos Santos, em 11.06.23

Chegámos cedo a Marselha. O hotel fica muito perto do Vieux-Port, da Grotte Cosquer e do Musée des Civilisations de l'Europe et de la Méditerranée (MuCEM). O dia estava muito bonito.

Fomos a pé até ao Vieux-Port, passando pela Cathédrale Sainte-Marie-Majeure, construída no séc. XIX num estilo neobizantino, ao lado da antiga, datada do séc. XII. É imponente e majestosa (demasiado), sobressaindo na paisagem como uma nota fora de tom.

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Em janeiro de 1943, após a ocupação alemã, Marselha foi palco de uma rusga, em que as tropas nazis prenderam cerca de 6.000 residentes no chamado "bairro criminoso", junto a um dos lados do Vieux-Port (onde está localizado o hotel onde ficámos). Foram deportados os judeus e, após esvaziarem totalmente o bairro, dinamitaram-no e destruiram-no. Marselha foi libertada poucos dias após o desembarque aliado na Provença (Operação Dragoon).

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Almoçámos numa espelunca, da qual só nos apercebemos depois de nos sentarmos. Comemos as piores moules frites de que há memória e fomos até à Basilique Notre-Dame-de-la-Garde (La Bonne Mère), construída no séc. XIX, dedicada a Notre-Dame-de-la-Garde, padroeira de Marselha. Fica no cume da colina de Notre-Dame-de-la-Garde, de onde se tem uma vista magnífica sobre Marselha.

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De tarde fomos à Grotte Cosquer, uma gruta submarina com pinturas rupestres, descoberta em 1991, por Henri Cosquer. Tal como para a Grotte Chauvet, foi feita uma réplica exacta da gruta, que abriu ao público apenas em junho do ano passado, permitindo as visitas e o estudo sem danificar a original. Calcula-se que tenha sido frequentada entre os 33.000 e os 19.000 de anos AP. Nas paredes e tectos, há pinturas de cavalos, bisontes, felinos e, achado raro, de focas e pinguins, para além de negativos de mãos. Não cesso de me surpreender com estes artistas pré-históricos.

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O dia seguinte estava destinado ao passeio pela cidade. Pois de todos os dias que passámos em França, sempre com um tempo ameno e agradável, S. Pedro escolheu este para a chuva, que caiu desde a manhã, miúda mas persistente, mantendo-se por quase todo o dia.

Pouco preparados para as intempéries, mas confiantes no apaziguamento da natureza, metemos pés ao caminho. Ao fim de pouco tempo estávamos totalmente encharcados. Comprámos uns guarda-chuvas numa loja de brique à braque (de chineses) e continuámos. Contornámos o Vieux-Port e seguimos pela La Canebière, uma larga avenida que atravessa o coração de Marselha desde o Vieux-Port, com uma actividade comercial assinalável, de onde partem várias ruas para os bairros mais interiores.

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Aventurámo-nos por um deles, que descobrirmos ser o bairro árabe de Marselha (Noailles). As ruas estreitas, mercados a céu aberto, onde se falavam várias línguas, incluindo o francês, onde as inúmeras lojas de produtos orientais tinham os nomes escritos em francês e numa outra língua árabe. Enorme bulício, muita gente, muitas cores, frutas, carne, legumes, ervas aromáticas, tomate, pimentos, courgettes, laranjas, muitas especiarias que deixavam no ar aquele aroma inconfundível. Dava mesmo a sensação de estarmos em Marrocos.

A quantidade de lojas de sabão (mais ou menos) artesanal é extraordinária. A fabricação de sabão em Marselha data de 1370. Tem as suas origens no sabões milenares provenientes da Síria, utilizando-se o azeite e o louro. Fiz o que me competia e comprei uma amostra variada.

Aproveitámos a tarde para visitar o MuCEM. Com tantas exposições ao dispor, optámos pela Le Grand Mezzé", sobre a dieta mediterrânica, suas origens e importância cultural e nutricional. Muito, muito interessante.

Esta exposição situa-se no rés-do-chão. Havia muita gente nas bilheteiras, e o ambiente estava húmido e peganhento, por causa da chuva. Na fila para a compra das entradas, houve um momento cinema mudo que muito apreciei. Na sua imponente figura de Achille Talon, com o guarda-chuva debaixo do braço, qual arma perigosa e letal, o meu querido acompanhante deixava cair sequencialmente algum dos muitos papéis, mapas, carteiras, etc., que tinha nas muito ocupadas mãos. De cada vez que se inclinava para as retirar do chão, o guarda-chuva ameaçava quem estava atrás, fazendo com que houvesse uma onda de gente que se afastava assustada. Ao ouvir os murmúrios das várias pessoas espantadas, virava-se para cada lado, perguntando da sua culpa e penitenciando-se da mesma, varrendo lateralmente as gentes com o mesmo guarda-chuva, provocando novas ondas e novos protestos mais ou menos indignados.

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Quando chegámos à porta de entrada da exposição, a senhora que aceitava os bilhetes disse terminantemente que tínhamos que deixar os guarda-chuvas de fora, apontando um cesto com algumas dessas temíveis armas. Hilariante.

O jantar foi calmo. Despedimo-nos de Marselha e de França. No dia seguinte partimos para Lisboa, cansados mas felizes.

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publicado às 10:26

No trigésimo sexto dezasseis de maio

de Arles a Aix-en-Provence

por Sofia Loureiro dos Santos, em 08.06.23

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Aix-en-Provence prometia. Cézanne é um dos meus pintores favoritos. A sua história passou por Aix-en-Provence, pelas paisagens, pelo mistral que nos abanou no caminho, pelas cores e pela forma do monte de Saint Victoire.

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Hotel Le Mozart

Bem instalados no Hotel Le Mozart, fomos a pé até ao Atelier de Cézanne, local onde pintou nos seus últimos anos de vida.

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Uma casa alta, com 3 andares. O Atelier que visitámos (bilhetes a 9 € com vídeo guide) não era mais que uma sala no 1º andar, onde se encontravam vários objectos, roupas, pincéis, caixas de tinta, escadotes, cómodas, jarros, mesas e fruta, os modelos das suas naturezas mortas. Confesso que me senti ludibriada por esta mini visita guiada. Não sei o que esperava, mas certamente era muito mais do que o que vi.

Cézanne viveu e morreu naquele local; foi em Aix-en-Provence que conheceu e se tornou amigo de Émile Zola, amizade que terá terminado a propósito de um livro escrito por Zola - L'Oeuvre - cuja personagem principal era inspirada em Cézanne. A história de que teria sido essa a razão de uma grande zanga entre eles já foi posta em causa. Um grande pintor de cores e formas, em que a geometria que desenhava estava presente em toda a natureza.

Sendo o trigésimo sexto dezasseis de maio desde que nos tínhamos casado, decidimos comemorar o dito com um belo repasto. Foi em La Brocherie, onde o aperitivo de champanhe iniciou uma excelente refeição: Poêlon du Pêcheur (para mim) e Côtes d’Agneau aux herbes de Provence (para ele), bem regada (Château La Dorgonne) e bem terminada com La crème brûlée à la lavande (para mim) e L’Assiette de Fromages (para ele).

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Longa já, esta viagem a dois (depois a três, depois a quatro), por vezes rápida, por vezes vagarosa, outras inesperada, outras dolorosa, mas sempre, sempre o nosso caminhar.

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publicado às 15:14

Pela Camarga

de Sète a Arles

por Sofia Loureiro dos Santos, em 28.05.23

Viajámos calmamente pela Camarga, lagos extensos com flamingos rosa, casas baixas, campos verdejantes. É uma área rica em cavalos e touros. A alimentação está cheia de bifes e de guisados de touro, os restaurantes cobertos de cartazes e motivos típicos de touradas.

Chegámos a Aigues Mortes (Águas Paradas) a meio da manhã, e desembocámos de imediato na cidade rodeada pelas muralhas, com praças cheias de cafés e esplanadas, ruas estreitas com imensas lojas de artesanato, algum genuíno, a maior parte de pouca qualidade. Muito sabonete artesanal e perfumes e lojas de roupa altamente original e sofisticada. Na Place de Saint-Louis, a estátua do mesmo (Luís IX) que liderou as sexta e sétima Cruzadas, tendo morrido na última.

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Depois de deambularmos pelas ruelas, partimos em direção a Arles, um dos locais emblemáticos de Vincent Van Gogh, que alí viveu, pintando muito e maravilhosamente, e morreu.

Muito se escreveu em relação à vida e à pintura de Van Gogh. Desde a sua devoção à religião, à sua vocação artística, ao seu relacionamento com a família, nomeadamente com o seu irmão Théo, à sua loucura, com acessos violentos (corte de uma orelha) ao seu suicídio.

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Arles tem vários espaços e locais que celebram obras e pedaços da sua vida. O Espaço Van Gogh, instalado no hospital onde esteve internado (l'hôtel-Dieu), foi um grande desapontamento. Prometiam uma medioteca, mas encontramos apenas lojas com muita bugiganga. O Café Van Gogh, aquele que serviu de modelo ao quadro Terrasse du café le soir, na Place du Forum.

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Antes de deixarmos Arles, no dia seguinte, ainda passámos pela ponte de Langlois, uma ponte de madeira, nos arredores, que resultou numa série de quadros de Van Gogh.

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Tenho sempre algum fascínio pelos locais onde viveram os artistas que admiro.

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publicado às 20:18

Na Veneza do Languedoc

de Nîmes a Sète

por Sofia Loureiro dos Santos, em 21.05.23

A caminho de Sète passámos por Montpellier, onde se fundou uma das mais antigas e prestigiadas Faculdades de Medicina do mundo medieval. Cidade no caminho de muitos peregrinos para Santiago de Compostela, foi também refúgio de judeus fugidos de Espanha e ponto de encontro e passagem de muçulmanos, dando-lhe uma multiculturalidade pujança religiosa e científica, em que a liberdade de ensinar e aprender foram precoces e determinantes.

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Passeámos um pouco pela cidade velha, demos uma voltinha pelas várias zonas pedonais, desembocámos na Place de La Comédie, depois na Place Jean Jaurès (com a sua estátua), fundador do L'Humanité e um dos fundadores do Partido Socialista Francês, defensor de Dreyfus, para além de muitos outros acontecimentos que protagonizou, tendo sido assassinado através de uma janela de um café.

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20230514_120611_1.jpgMontpellier tem na sua História figuras como Nostradamus, muito em voga quando é preciso justificar teorias mais ou menos conspirativas e misteriosas, como o fim do mundo, através das suas Profecias, e Jean Moulin, um herói da Resistência francesa (apenas para citar dois).

Do almoço não reza a História. Sète, a cidade dos canais - Canal du Midi, Canal du Rhône, que se ligam ao Mediterrâneo e formam a Bacia de Thau. A localização do seu porto é estratégica para comércio e viagens entre Marrocos e a Europa. Através dos seu canais há pontes que se desviam ou que se elevam para passagem dos navios de grande porte.

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ponte atravessada.jpgO Hotel em que ficámos estava muito bem localizado, mesmo em cima do Vieux-Port. Mas era de tal forma minúsculo - cama, casa de banho com privé de um lado, qual cela de prisioneiro no fundo de uma caverna, que mal tinha espaço para nos sentarmos com a porta fechada, e uma cabine de duche aberta para o quarto, para além de uma selha que servia de lavatório. Enfim, em vez de quarto com casa de banho era mais uma casa de banho com cama!

Fomos passeando pelo Vieux-Port, deambulando pelos canais, que fazem desta cidade um local muito simpático. Como sou fã de uma série policial francesa (Candice Renoir), é fácil imaginá-la perseguindo assassinos pelos canais, nas suas roupas cor-de-rosa e com toques de telemóvel sempre diferentes, subtilmente alterados pelos seus filhos gémeos.

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Jantamos muito bem, comendo ostras e sopa de peixe, uma delícia destas paragens.

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20230514_183442.jpgSabor de mar, não há dúvida que viver à beira de água inunda o espírito de azul.

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publicado às 11:17

Pont du Gard

de Avignon a Nîmes

por Sofia Loureiro dos Santos, em 20.05.23

Recuperando lentamente das vicissitudes de alguém a quem a idade tudo trás, um dos maiores problemas era comer, nomeadamente ao pequeno almoço. O café, que me é indispensável a esta hora da manhã, era intragável. Aliás intragável durante toda a viagem. Não sei que se passa com os franceses que assassinam alegremente o expresso, servindo uma água acastanhada, acre, em chávenas almoçadeiras, o que o faz arrefecer quase de imediato. Do outro lado da medalha, as fantásticas baguettes. Entretanto, a fruta é uma assunto que não lhes diz respeito. As sobremesas são sempre doces ou tábuas de queijo. As saladas de frutas que servem ao pequeno almoço são parcas e fingidas.

Mas não nos dispersemos em pormenores. A ideia era ir a Nîmes, passando por Pont du Gard. Esta ponte não é mais que uma porção do aqueduto romano de Nîmes, para atravessar o rio Gard, construído por volta do séc. I a.C. Tem 3 andares, sendo o superior o canal de conduta da água, que se encontrava desnivelado entre as duas pontas do mesmo, para permitir o escoamento da água, permitindo um débito médio de estimado em 40.000 metros cúbicos por dia (400 l de água por segundo!). É, sem dúvida, uma obra prima de engenharia daquela época.

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Após vários séculos de degradação e ruínas, reganhou interesse a partir do século XVI, tendo sido sujeito a vários épocas de obras e de restauração. A partir de 2002, com a ajuda da UNESCO e da União Europeia, foi realizado um projecto de preservação deste monumento. Hoje em dia há uma área envolvente que acolhe turistas e estudantes, com um museu dedicado à arqueologia do sítio e à descoberta da forma de construção e arquitectura do aqueduto, bastante interessante.

Desta vez não subimos a lado nenhum. Depois de contemplarmos o aqueduto e visitarmos o museu, dirigimo-nos a Nîmes, em busca do anfiteatro romano de Nîmes (les Arènes), um dos mais bem conservados do mundo. Terá sido construído por volta do séc. I a.C, e era destinado a grandes espectáculos, como combates de gladiadores (mais frequentemente) ou , mais raramente, caça a animais selvagens. Tem forma elíptica em que as bancadas, de vários níveis, envolvem a arena.

Mais uma vez, lá fui subindo muito a custo as bancadas, para poder apreciar, em toda a sua magnitude, a enormidade do recinto.

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Depois de respirar várias vezes de alívio e recuperar a serenidade, demos uma volta pela zona antiga e desembocámos no Festival Biennale de la BD, na Praça Charles de Gaulle. E lá foi ele, feliz que nem uma criança, igual às várias presentes, de tenra e menos tenra idade, que se acotovelavam entre as bancadas de livros e que enfileiravam para receber os autógrafos e desenhos dos seus autores favoritos.

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Um maravilhoso momento vernissage, como lhe chamamos.

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publicado às 09:13

Sur le pont d'Avignon

de Vallon-Pont-dʼArc a Avignon

por Sofia Loureiro dos Santos, em 19.05.23

O hotel em que ficámos é um pequeno hotel de charme, que resulta de uma casa do séc. XVI totalmente restaurada. Bom ambiente, silenciosa, com pessoas discretas. O quarto muito espaçoso, com tudo o que se precisa, um duche matinal revigorante e um pequeno almoço simples mas muito bem recheado.

Avignon foi a cidade dos Papas durante cerca de 100 anos, entre 1309 (Clemente V) e 1418 (Gregório XI). As divisões políticas e religiosas que levaram, de início, à mudança da residência Papal de Roma para Avignon, culminou depois, de 1378 a 1418 e em plena Guerra dos Cem Anos, na divisão da Igreja Cristã em duas correntes (o grande Cisma), havendo dois Papas simultaneamente: um de Roma e outro de Avignon (o anti-Papa).

Durante o século de residência em Avignon, os Papas transferiram toda a sua riqueza, as suas cortes, cientistas, artistas, arquitectos, enfim, todo o seu poder para lá. Construiram um palácio verdadeiramente opulento e sumptuoso, exactamente à medida de cada um que lhe foi acrescentando áreas, frescos, etc.

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É impressionante, logo que nos aproximamos, pois o palácio impõe-se de imediato na paisagem. A visita com audio-guia vale a pena. Vamos passando de sala em sala, com uma alturas de abóbadas espantosas. Impressionou-me sobretudo, uma sala que era praticamente inviolável, onde se depositavam dinheiro e outras preciosidades por baixo do chão! Subimos e descemos escadas, passando por áreas enormes e imaginando o frufru das vestes Papais, que deveriam ser pesadíssimas das jóias que as adornavam.

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Fomos ver ainda a Pont d'Avignon, presente no meu imaginário desde a minha infância, por causa da canção Sur le Pont d'Avignon (esta letra só foi fixada no século XIX, numa canção popular muito mais antiga). É uma ponte sobre o rio Ródano, construída de início sobre a ruína de uma ponte romana por um pastor (Bénézet d'Avignon), em 1177.

Sobre ela tem-se uma vista esplendorosa das margens do rio. Lá fui eu para as alturas. Mas desta vez a ponte era suficientemente larga e tinha muros suficientemente altos para que não me assustassem muito.

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Esta viagem foi verdadeiramente fit, de tanto que andei, subi e desci e do pouco que comi. Exaustos, ficámo-nos por um Croque Monsieur no hotel onde pernoitámos.

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publicado às 21:04

Grotte Chauvet

de Orange a Vallon-Pont-dʼArc

por Sofia Loureiro dos Santos, em 15.05.23

Para ganharmos força e ânimo, almoçámos em Orange. Eu estava com muita falta de apetite e sem saber bem o que deveria comer. Petisquei já não me lembro o quê, o que deixou o dono da Brasserie muito triste e preocupado. A seguir pedimos uma sobremesa, ao que ele perguntou se trazia duas colheres. Depois de uma negação veemente, pergunta espantado se madame ne vas pas piquer? Outra negação veemente. Quando chega a sobremesa, vêm as duas colheres, dizendo ele sabiamente - on ne sais jamais...

A Gruta Chauvet-Pont d'Arc faz parte de um complexo de grutas enfeitadas das gargantas de Ardèche. Foi descoberta em Dezembro de 1994, por Jean-Marie Chauvet e Christian Hillaire - espeleólogos - e por Éliette Brunel - viticultora.

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Maciço onde se encontra a Grotte Chauvet

Possui um inúmero acervo de desenhos e pinturas pré-históricas, das mais antigas que se descobriram até hoje. As datações realizadas encontraram desenhos e pinturas de duas épocas distintas: uma com cerca de 36.000 anos (antes do presente - AP) e outra com cerca de 24.000 anos AP, o que se pensa terá acontecido por uma derrocada do tecto na entrada da gruta, que a encerrou durante cerca de 12.000 anos. Esta gruta é duas vezes mais antiga que a Gruta de Lascaux.

Distinguem-se impressões de mãos humanas, com pigmento vermelho, gravuras com digitalização e desenhos com a noção de profundidade e movimento surpreendentes. Pensa-se que haveria grupos de desenhadores, sempre os mesmos, que aí entravam. Há esqueletos de ursos pré-históricos, o que indica que seria um bom local para hibernarem.

Oeuvre-aux-points-paumes©-Patrick-Aventurier-Cave

Hibou-gravé©-Patrick-Aventurier-Caverne-du-pont-

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Para preservar a gruta e os seus tesouros, foi feita uma segunda gruta, exactamente igual à primeira, que é aquela que visitamos, aberta ao público desde 2015.

Quando pensamos na evolução do Homem, naquilo que a arte e a criatividade representa nessa evolução, ficamos com a ideia que muito mudámos. Será mesmo assim? Ou foram os instrumentos que usamos que mudaram muito? A capacidade de desenvolvimento tecnológico aumenta exponencialmente e com isso a capacidade de representação do Homem, nas suas várias facetas.

Mas não estaria essa capacidade já desenvolvida na pré-história? Quando vejo estes desenhos fico perplexa e fascinada.

Depois de tantas emoções e atribulações, rumámos a Vallon-Pont-dʼArc, onde passámos a noite.

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publicado às 17:09

Campos de papoilas

de Apt a Orange

por Sofia Loureiro dos Santos, em 15.05.23

Pois descansada não foi muito, a noite. Eu, que sou resistente a tudo e já viajei inúmeras vezes para diversos sítios (dentro da Europa, bem entendido), fui acometida do mal do viajante*.

Partimos em direcção a Orange, ou a Cidade dos Príncipes. Mais umas subidas e descidas, mas passando por paisagens deliciosas, como os campos de papoilas, com lavanda nas bordas da estrada.

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O nosso objectivo era visitar o Teatro antigo de Orange, que está excepcionalmente bem conservado e ainda hoje é um local onde se apreciam peças de teatro.

Este Teatro foi construído no séc. I aC, no reinado de Augusto, filho adoptivo de Júlio César, seu tio-avô materno. Tinha capacidade para cerca de 10.000 espectadores. O muro estava decorado com estátuas e colunas de mármore, e tinha entradas por onde os actores apareciam. A sua altura e arquitectura contribuíam para a optimização da acústica.

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Havia o local para a orquestra, onde se colocava o coro, sendo as bancadas divididas em 3 áreas distintas para que os diversos grupos de pessoas não se misturassem. O Vomitorium era um local atrás das bancadas, onde se confraternizava com bebidas e comidas.

Foi um árduo trabalho obrigar-me a subir aquelas bancadas, com a altura que tinham (embora não tenha chegado lá mesmo acima). Mas lá fui conseguindo, apoiada ao desgraçado paciente que me acompanhava, tentando não ter ataques de pânico.

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Mas, de facto, valeu a pena.

Já não valeu a pena o Museu de Arte e História de Orange. Podemos ter tido azar e muitas das peças não estarem disponíveis.

A tarde foi reservada à Pré-história.

*Para quem quiser viajar pelas terras de França, fique a saber que os hipermercados não são obrigados a ter casas de banho públicas. E que o Imodiumlingual é um medicamento vivamente sugerido para levar na mala.

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publicado às 15:29

No Luberon

de Cannes a Apt

por Sofia Loureiro dos Santos, em 13.05.23

Vamos então mergulhar na Provença, mais especificamente, no Luberon. Percorrendo as estradas que atravessam o terreno acidentado, ora se sobe, ora se desce, com enormes maciços calcários que se elevam à nossa volta (Petit Luberon), observamos as aldeias que aparecem na encosta.

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Todas semelhantes, com as casas de uma cor de areia, que se agregam e galgam os montes, na encosta virada ao sol. Até lá, atravessamos campos de papoilas, ou de vinhas e papoilas, numa mistura de cores que só pode motivar os pintores. Muita gente de bicicleta, o que naquelas estradas estreitas e montanhosas é surpreendente.

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Chegámos a Apt, ao início da tarde. Depois de darmos umas voltinhas, acabámos por ir ter a um restaurante que se chama L'Intramuros. Lá dentro, um bricabraque de objectos, desde bicicletas a relógios. Come-se muito bem e somos bem atendidos.

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Depois de mais alguma passeata, passámos por uma loja de chapéus de palha, muitos e variados. A dona, muito simpática, tenta encontrar um chapéu que não me tape os olhos, e adapta um número 55 à minha cabeça. Fico a saber que é resistente ao sol e às intempéries, para além de ser arejado para o calor. Será que não voa com os ventos, que resiste ao mistral?

Nos arredores, mais aldeias semelhantes, com vários ateliers e lojas que vendem artesanato, muitas delas nitidamente feitas para turistas. Regressamos a Apt, para uma noite descansada, prontos a iniciar a próxima etapa - Orange.

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publicado às 17:20


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