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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Paris em Maio, 1994

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Paris

 

Paris em Maio, 1994.

 

Aterrámos no meio do bulício do costume e fomos de táxi para o hotel, que um francês amigo tinha reservado, na Rive Gauche, ao pé do Grand Magazin Le Bom Marché, na Rue Saint Placide.

 

Com todos os clichés reunidos e explodindo numa jovem pouco viajada, tudo era deslumbrante: os carros que, ao serem arrumados batiam à frente e atrás, sem qualquer preocupação pelo amachucar dos para-choques, as baguette nas mãos dos parisienses, as montras lindíssimas e coloridas das pastelarias, o Sena, as pontes sobre o Sena, as margens do Sena com prédios altos e maciços, o Quai des Orfèvres de Maigret, o Hôtel-Dieu, os Bouquinistes, as estações de metro, as flores e as floristas, os queijos, a loja gourmand em que entrei um dia, esbaforida e exausta, e disse (num francês majestático e macarrónico) on veut deux cafés, a escadaria até ao Sacré Coeur, a vista deslumbrante do Sacré Coeur, as caminhadas pela longa avenida dos Campos Elísios, o Arco do Triunfo e o caos organizado do trânsito, a Torre Eiffel, o Louvre, o maravilhoso Musée d’Orsay dos impressionistas, a Place du Tertre com os seus caricaturistas, Montparnasse, o Quartier-Latin, onde comemos a pior mousse de chocolate de que me lembro, Saint-Germain des Près, os livros expostos nas ruas, as livrarias com múltiplos andares e toneladas de banda desenhada, o Astérix, o jardim das Tulherias, o túmulo de Napoleão, os quilómetros andados, as cores, os ruídos, os Bateaux-Mouche.

 

Foi uma tarde inesquecível, ladeando a Île de La Cité, onde se ergue a Catedral de Notre-Dame de Paris. É nestas alturas que sinto o apelo do sagrado, do transcendente, do etéreo. Dentro daquelas abóbadas, naquele ambiente a um tempo esmagador e libertador, com a luz filtrada pelos vitrais, tudo nos eleva para o sentido do divino. Naturalmente baixamos  voz, com uma reverência e um temor irracionais para quem, como eu, não é crente. Templos que nos induzem recolhimento, como se a presença dos milhares de pessoas que por ali passaram, rezaram, desesperaram, resguardaram, os milhares de trabalhadores que penaram para a sua construção e reconstrução, as esperanças, os medos e os ódios, nos fizesse mais humanos e nos induzissem à humildade e à perfeição.

 

Lembro-me que íamos jantar a uma Brasserie mesmo ao lado do Hotel, exaustos e inundados de Paris, numa das viagens que mais gratas memórias me deixou. Ao ver arder Notre-Dame, foi quase como se me despedisse definitivamente do início da minha vida adulta, do meu conhecimento do mundo, do meu verdadeiro sentir europeu, como se alguma coisa se partisse, encolhesse e regredisse, como se o incêndio não fosse mais que o esfumar de uma Europa intercultural e universalista que faz parte da nossa História mas que dificilmente fará já parte do nosso futuro.

Don't let anyone tell you how to drink your whisky

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Edimburgo é uma cidade muito agradável, elegante, com gente simpática, de aspecto próspero. Está muito frio e muito húmido, as cores escuras dos prédios, das igrejas, do Castelo, contrastam com as cores vivas do quadriculado dos tartans. Muitos restaurantes e bares, com várias ofertas bio, orgânica, vegan e tradicional, stew, cerveja e whisky.

 

 

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A prova do whisky é uma obrigação turística mas que não me custou nada a cumprir. Depois de uma subida acentuada até ao Edinburgh Castle, nada melhor que retemperar as forças no Ambar Whisky Bar.

 

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Serviram-me, por ordem de prova, acompanhados de uma tábua de queijos, uvas, salada de alfaces, chutney, pão e bolachas:

  1. Auchentoshan American Oak Lowlands Single Malt Scotch Whisky
  2. anCnoc 2002 Highlands Single Malt Whisky
  3. Dailuaine 16 Year Old Speyside Single Malt Scotch Whisky
  4. Lagavulin Distillers Edition Islay Malt Whisky

O barman, um rapaz bastante escocês e muito simpático, disse-me que provasse os whiskies plain e se visse necessidade, juntasse uma dash of water.

 

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Depois percorri mais uns quilómetros, pela Royal Mile, descendo até à Princess Street e subindo de novo até à Morrison Street. Eu, que me perco em qualquer lugar, sempre de mapa em punho nunca me enganei. Deve ter sido do whisky.

 

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Pombos de guerra

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Cher Ami

 

 

Na era das comunicações digitais, globais e internáuticas, em que a comunicação é instantânea e os segredos deixaram praticamente de existir, causa-nos uma enorme estranheza a utilização de pombos como mensageiros, ainda por cima em tempo de guerra, em que as informações são extremamente sensíveis.

 

E, no entanto, os pombos (especificamente uma determinada raça, os homing pigeons) foram importantíssimos para o esforço de guerra, em todos os lados do conflito, pela capacidade única de conseguirem regressar a um local de onde partiram (homing) por aquilo a que se chama magnetorecepção (capacidade de detectar um campo magnético para estabelecer coordenadas de altitude, direcção e localização). Há registos da utilização dos pombos como mensageiros militares desde o império romano.

 

Nas I Guerra Mundial um pombo (o Cher Ami) foi condecorado com a Croix de Guerre, pelos valorosos serviços prestados na Batalha de Verdun. Na II Guerra Mundial a Dickin Medal foi atribuída a 32 pombos.

 

Mesmo neste século ainda há notícias de pombos usados em comunicações militares. É extraordinária a capacidade do Homem em colocar a natureza ao seu serviço, transformando os animais em extensões das suas necessidades.

A poesia na Grande Guerra

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Gassed

John Singer Sargent

 

All a poet can do today is warn. That is why the true poet must be truthful

Wilfred Owen

 

poesia é um dos grandes testemunhos da I Guerra Mundial. Muitos dos poetas eram jovens que combateram e morreram nas batalhas ou como consequência delas. A poesia foi um meio de expressarem o seu medo, a sua fúria, a sua tristeza, a sua vulnerabilidade. Transformaram-se nas vozes das consciências dos povos, pela sua comovedora sinceridade e honestidade, numa linguagem que se desligou de artificialismos formais e nos aproxima do sofrimento, da amizade e da solidariedade.

 

Muitos foram os que publicara os seus poemas durante a Grande Guerra, havendo inúmeras antologias já do pós-guerra.

 

IN FLANDERS FIELDS

 

In Flanders fields the poppies blow

Between the crosses, row on row,

    That mark our place; and in the sky

    The larks, still bravely singing, fly

Scarce heard amid the guns below.

 

We are the Dead. Short days ago

We lived, felt dawn, saw sunset glow,

    Loved and were loved, and now we lie,

        In Flanders fields.

 

Take up our quarrel with the foe:

To you from failing hands we throw

    The torch; be yours to hold it high.

    If ye break faith with us who die

We shall not sleep, though poppies grow

        In Flanders fields.

 

John Mccrae

 

 

THE DEAD

 

These hearts were woven of human joys and cares,

      Washed marvellously with sorrow, swift to mirth.

The years had given them kindness. Dawn was theirs,

      And sunset, and the colours of the earth.

These had seen movement, and heard music; known

      Slumber and waking; loved; gone proudly friended;

Felt the quick stir of wonder; sat alone;

      Touched flowers and furs and cheeks. All this is ended.

 

There are waters blown by changing winds to laughter

And lit by the rich skies, all day. And after,

      Frost, with a gesture, stays the waves that dance

And wandering loveliness. He leaves a white

      Unbroken glory, a gathered radiance,

A width, a shining peace, under the night.

 

Rupert Brooke

A carruagem do Armistício

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Clairière de l'Armistice é o local onde se encontra uma réplica da carruagem de comboio onde foi assinada a rendição da Alemanha, na I Guerra Mundial, a 11 de Novembro de 1918 e onde também foi assinada a capitulação da França, na II Guerra Mundial, a 22 de Junho de 1940.

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Esta carruagem, no fim da I Guerra, foi colocada na zona onde está agora, não exactamente no mesmo sítio, tendo sido comprada pelo Governo Francês e restaurada para que fosse o símbolo vivo da vitória dos Aliados.

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Mas Hitler, vingando-se dos Franceses quando, em poucas semanas, esmagou a França, decidiu que a suprema humilhação destes e a suprema vitória dele seria obrigar a França a assinar a sua rendição precisamente na mesma carruagem e precisamente no mesmo sítio. Para isso foram demolidas as paredes do museu para a conduzir exactamente ao mesmo local.

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 Após a assinatura do Armistício de 1940, a carruagem foi transportada para Berlim.

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Em 1945, com o avanço das forças aliadas sobre Berlim, foi levada para a Turíngia, onde foi incendiada pelas SS por ordem de Hitler. A que vemos de novo na Clairière é uma carruagem adquirida novamente pelo governo francês, da mesma série da original (2419D), e recolocada com um museu adjacente.

 

Compiègne foi a última etapa. Tanto que ficou por ver, tanto que ficou por saber. As brumas adensam-se outra vez sobre a Europa. As crises da democracia, bem visíveis nos aproveitamentos populistas dos líderes de extrema direita, manipulando o medo do desemprego, e a insegurança, fazendo dos estrangeiros e dos refugiados o bode expiatório dos problemas económicos e do terrorismo, incentivando a xenofobia e o racismo, fazem temer uma nova ascensão das ditaduras, do nacionalismo e do racismo.

 

É essencial que nos lembremos do resultado dessas falácias e das manipulações que não são novas mas são sempre perigosas. É essencial que nos informemos e não cedamos ao medo. O conhecimento é o nosso melhor amigo.

La Madelon

Pays du coquelicot

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Aproximando-nos já a largos passos do fim desta espécie de peregrinação, fomos para Albert, uma cidade no departamento do Somme, que foi vastamente martirizada durante a I Guerra Mundial, precisamente na Batalha do Somme, uma ofensiva dos exércitos aliados, especificamente do Francês e do império Britânico, contra o Alemão. Iniciou-se a 1 de Julho e terminou a 18 de Novembro de 1916 e foi a mais sangrenta da Grande Guerra, com cerca de 1 milhão de homens mortos ou feridos. O primeiro dia da batalha foi ainda a mais mortífera para os ingleses, que perderam 57.470 homens, entre Albert e Bapaume.

 

Em todo o caminho vamos encontrando vários memoriais e monumentos que lembram episódios da guerra, inúmeros cemitérios de australianos, ingleses, etc.. Um deles, que ficava no local mais elevado da Batalha, onde se encontrava um moinho, lembrava a bravura e heroicidade dos australianos. 

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Noutro local presta-se homenagem ao Regimento do Newfoundland, um território pertencente ao Império Britânico que foi quase totalmente dizimado nesse primeiro dia da Batalha do Somme - 80% de mortos, feridos e desaparecidos, a maior parte deles nos primeiros 30 a 60 minutos de combate. Vimos ainda outro monumento que recorda a utilização de tanques, em Poizières. Uma enorme quantidade de memoriais, cemitérios e locais de homenagem em relação aos caídos no Somme.

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Chegados a Albert, num dia que começava a clarear, nada melhor que um café (que, convenhamos, poucos franceses sabem fazer) antes de nos aventurarmos pelo Musée Somme - 1916. Entrámos num café com aspecto simpático, decididos a beber um capuchino (deliciosa alternativa depois do meu companheiro se ter lembrado da iguaria). À porta dos toilettes um aviso importante e peculiar...

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... apenas porque 5 minutos não dá para grandes leituras, mas mesmo assim...

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... havia um confortável sofá para esperarmos, convidando a puxar de um livro.

 

Certos do grande amor pela literatura dos habitantes e visitantes de Albert, entrámos no museu do Somme. Depois de descermos para uma espécie de túnel subterrâneo, onde se encontrava um magote de adolescentes (ingleses) ruidosos de mais, assistimos primeiro a um filme de 15 minutos sobre a Batalha do Somme e os vários locais a visitar, para percorrermos depois uma espécie de trincheira onde se expunham várias cenas, muito bem montadas, sobre a vida dos militares nas trincheiras, com fardamentos, equipamentos, restos de armas e cacos de utensílios de todos os dias - higiene, saúde, alimentação, etc. - que dá uma ideia muito nítida do que deve ter sido aquele inferno e como se incorporava uma espécie de normalidade, inclusivamente com artesanato que os soldados faziam com os restos do metal das bombas, das balas, etc.

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Há ainda uma vitrine que lembra os feridos na face e os problemas de reconstituição cirúrgica e da evolução das próteses, através de fotografias de uma associação criada na altura pelo Coronel Picot - Union des Blessés de la Face et de la Tête ou, mais prosaicamente, Gueles casséesNo fim da "trincheira" pudemos ver o que tinha acontecido com o militar do qual nos tinham dado, à entrada, uma reprodução da sua carta militar. Tinha morrido, como tantos e tantos outros.

 

Ficámos alojados mesmo em frente à Catedral, num turismo de habitação muito simpático. O fim de tarde e a noite estavam tão fantásticos que jantámos na esplanada do "La Basilique". 

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Vim de lá com os olhos inundados de papoilas.

It's a long way to Tipperary

Ypres

Toda a Flandres (na França e na Bélgica) foi transformada num enorme cemitério, na altura da Primeira Grande Guerra. Particularmente em Ypres, as ruínas em que ficou demonstra bem a violência dos ataques que sofreu. Todos os exércitos aliados tiveram pesadas baixas e os canadianos foram expostos aos primeiros ataques com gás mostarda por parte dos alemães.

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Ypres - Catedral em ruínas

 

Na porta (Gate) de Menin Road (Menenpoort em flamengo), tal como ficou conhecida pelas tropas britânicas e dos países da Commonwealth que ali lutaram e morreram durante os anos da guerra, foi erigido um Memorial aos milhares de soldados que nunca foram identificados ou encontrados, sem sepultura conhecida. Os seus nomes estão gravados por todo o interior do memorial.

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Este memorial foi inaugurado em 1927 e, um ano depois, um grupo de ilustres cidadãos de Ypres encontrou uma forma de mostrar a sua gratidão a todos os que tinham morrido pela libertação da Bélgica. Diariamente, às 20:00h, é tocado o toque militar aos mortos – The Last Post, na porta do Memorial, no lado oriental de Ypres. A primeira cerimónia foi a 1 de Julho de 1928 e, desde esse dia, com um intervalo de alguns meses até 11 de Novembro de 1929, todos os dias à mesma hora é tocado o last post, com excepção dos 4 anos da ocupação germânica de Ypres, durante a II Guerra Mundial (20 de Maio de 1941 a 6 de Setembro de 1944).

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Todos os dias se junta uma multidão, aguardando a cerimónia. Repentinamente faz-se um silêncio total e todos os que conversavam animadamente se calam ao som das cornetas. É muitíssimo dramático e comovente e eu, que muito facilmente me comovo, chorei mesmo durante aqueles minutos. Há sempre alguém que declama uma das estrofes de um poema de Robert Laurence Binyon – The Fallen:

 

They shall grow not old, as we that are left grow old:

Age shall not weary them, nor the years condemn.

At the going down of the sun and in the morning

We will remember them.

 

Este foi um dia muito preenchido por emoções, como todos os que dedicamos a conhecer e a visitar tudo o que tem a ver com as duas grandes guerras. Já durante a manhã tínhamos visitado o Cemitério Militar Português de Richebourg, onde estão sepultados 1831 corpos de soldados portugueses, 238 sem identificação, mortos durante a campanha do Corpo Expedicionário Português, predominantemente na batalha de La Lys.

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Tanta juventude ceifada por todo o lado, nesta Europa que deveria ter aprendido com a sangria de 1914 – 1918, que voltou a sangrar entre 1939 e 1945, e que está, a pouco e pouco, a ressuscitar tantos fantasmas que julgávamos enterrados de vez, como a xenofobia e o racismo.

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Lille

 

Visitámos ainda, ao pé de Lille, na vila de Ascq o local aonde se deu o massacre de Ascq – uma resposta mortífera e totalmente desproporcionada de tropas alemães a um atentado feito pela Resistência (1 de Abril de 1944) a um comboio que transportava equipamento militar alemão. Do atentado não resultaram feridos e os danos materiais forma mínimos, mas as tropas SS chacinaram 80 civis. O local passa totalmente desapercebido e, pelo estado em que se encontra, dá a sensação de que os próprios franceses não lhe dão qualquer importância.

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O dia acabou num excelente restaurante em Ypres, onde também se vendiam louças e outros utensílios e decorações de cozinha, chamado DÉPOT. Uma tábua de queijos, patés e enchidos, bem regados com cerveja, da menos alcoólica, diga-se, pois as da casa, premiadas, tinham cerca de 8 graus, deu-nos o alento que necessitávamos depois de tão grandes emoções.

 

The Fallen

 

With proud thanksgiving, a mother for her children,

England mourns for her dead across the sea.

Flesh of her flesh they were, spirit of her spirit,

Fallen in the cause of the free.

 

Solemn the drums thrill: Death august and royal

Sings sorrow up into immortal spheres.

There is music in the midst of desolation

And a glory that shines upon our tears.

 

They went with songs to the battle, they were young,

Straight of limb, true of eye, steady and aglow.

They were staunch to the end against odds uncounted,

They fell with their faces to the foe.

 

They shall grow not old, as we that are left grow old:

Age shall not weary them, nor the years condemn.

At the going down of the sun and in the morning

We will remember them.

 

They mingle not with their laughing comrades again;

They sit no more at familiar tables of home;

They have no lot in our labour of the day-time;

They sleep beyond England's foam.

 

But where our desires are and our hopes profound,

Felt as a well-spring that is hidden from sight,

To the innermost heart of their own land they are known

As the stars are known to the Night;

 

As the stars that shall be bright when we are dust,

Moving in marches upon the heavenly plain,

As the stars that are starry in the time of our darkness,

To the end, to the end, they remain.

 

Robert Laurence Binyon

The Times - 21/ Setembro/ 1914.

 

 

De Dieppe a Dunkerque

 

A ideia era passar em Crecy, local da batalha do mesmo nome, um dos confrontos entre franceses e ingleses (que o ganharam) na Guerra dos Cem Anos (26 de Agosto de 1346). Sabíamos inclusivamente que havia um museu que gostaríamos de visitar.

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Sítio da batalha de Crécy 

 

Até lá percorremos quilómetros e quilómetros de terra plana, totalmente cultivada, em que não se via vivalma. Passámos por alguns agrupamentos de casas, de vez em quando, onde fomos obrigados a respeitar uma velocidade máxima de 50 ou 30 Km/h, até chegarmos ao poiso escolhido para a noite. Confesso que estava um pouco apreensiva, pois apesar do meu tão apregoado amor pelo campo, pelo silêncio e pela solidão, tanta solidão, tanto silêncio e tanto campo também me pareciam um pouco exagerados. Só me lembrava que de noite, se o céu estivesse limpo (o que não era o caso), poderíamos ver um céu totalmente estrelado, pois não se via uma única luz à volta, nem de casas nem pública. Ou como estava nublado, seria de uma escuridão assustadora.

 

Mas o sítio em que ficámos - La Nicoulette, em Saint Riquier, Gaspennes – era muito simpático, num quarto húmido, mas acolhedor e confortável. O rapazinho que nos recebeu, o filho do dono, aí com os seus 10 anos, totalmente desembaraçado, a explicar-nos as especificidades da chave e da abertura da porta, em francês e em inglês, era enternecedor.

 

Fomos então em busca do museu de Crécy, que encontrámos. Era composto de 3 salas, 1 dedicada à Batalha de Crécy, outra com a exposição de vários artefactos arqueológicos da Idade Média encontrados na zona, e outra dedicada à II Guerra Mundial, pois em Poitiers estavam localizadas as rampas de lançamento das bombas voadoras V1.

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Crónicas de Jean Froissart

 

O senhor que nos atendeu foi amabilíssimo, fartou-se de conversar sobre as batalhas de Crécy e Azincourt, sobre a Guerra dos Cem Anos e sobre bombas voadoras. A sua felicidade era evidente. Suspeito que não serão muitas as vezes em que um dos visitantes sabia tanto do assunto, dando-lhe oportunidade de trocar impressões e falar sobre as dinastias inglesas e francesas, dos Borguinhões e dos Armagnacs, das tácticas de batalhas medievais, etc. Acompanhava-o uma senhora, apresentada como sócia da Association EMHISARC, que estava verdadeiramente deliciada com o(s) visitante(s). Um muito pequeno núcleo museológico mas que nos deu um prazer imenso visitar.

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Museu de Crécy

 

No dia seguinte, depois de um pequeno almoço revigorante e completamente caseiro, partimos precisamente para Azincourt, onde partilhámos a visita ao museu com um grupo de miúdos de uma escola local, dos seus 8 ou 9 anos, que estavam divertidíssimos a experimentar a força que os besteiros tinham que fazer para poderem disparar as bestas, mas que se aborreceram mortalmente a ouvir excertos de Henrique V, de Shakespeare. A rapariga que guiava a visita, muito jovem, estava totalmente compenetrada do seu papel e desempenhava-o muito bem.

 

A seguir a 1944 (desembarque na Normandia) e a 1942 (Dieppe), só faltava uma batalha, ou o que dela resultara, de 1940 - Batalha de Dunkerque. Da praia foram depois evacuados cerca de 340.000 soldados, predominantemente britânicos mas também franceses (alvos fáceis de bombardeamentos inimigos), fugidos e cercados pelos alemães que, entretanto, tinham avançado pela França a uma velocidade avassaladora. Foram resgatados por milhares de barcos ingleses, numa operação chamada Dínamo (esta operação foi tema de um filme de que já aqui falei).

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A praia é grande, um areal imenso que é difícil imaginar pejado de homens, aguardando pelo seu resgate.

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 Finalmente, para descansar de tantas batalhas, fomos para Bergues, ao Bienvenue Chez Nous.

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Igreja de St. Martin

 

Sentimo-nos mesmo bem vindos, numa casa recuperada para turismo de habitação, com uma dona que adorava Portugal e nos contou as suas experiências gastronómicas em Guimarães, com cabrito assado.

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La vie en rose

Marianne Michel

Dieppe

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Em Dieppe o dia começou frio mas foi clareando pela tarde. Vimos o Sol a aparecer e a azular o céu, o que deu outras cores a todas as casas do porto. Muitos barcos, muita gente a passear, muito borbulhar de vozes, muitos cafés e muitas brasseries. Como era hora de almoço regalámo-nos com umas moules marinières e à la crème, acompanhadas de cidra e de cerveja.

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Depois deambulámos pela praia onde, em 19 de Agosto de 1942, houve uma tentativa de desembarque dos aliados, predominantemente com tropas Canadianas – operação Jubileu, que foi completamente repelida pelos alemães, tendo havido um enorme massacre: dos cerca de 8000 homens 1800 morreram. O comportamento dos locais foi perfeitamente neutral até perceberem o desfecho da operação quando passaram a colaborar com os alemães, na captura dos canadianos que tentavam fugir.

 

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Não é difícil imaginar o horror, mesmo olhando para aquela praia quase deserta, a enorme quantidade de militares a tentar desembarcar os equipamentos, a serem metralhados e bombardeados sem conseguirem avançar, amontoando-se uns em cima dos outros. Tenho lido várias vezes que se tratou de um teste ao desembarque na Normandia, talvez como forma de justificação de uma operação que correu tão mal.

 

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Entretanto, e já com Sol, começámos a ver um comboio de barcos todos engalanados com flores e bandeiras a encaminharem-se para o mar. Foi-nos explicado que era a fête de la mer. Não consegui encontrar a explicação nem a génese deste costume, que é bem o retrato de um domingo em paz.

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Maréchal, nous voilà!

Andre Dassary

(1941)

Rouen

Antes de chegarmos a Rouen passámos por Lisieux para tomar um café. Havia um mercado de rua (era sábado), do mesmo tipo das nossas feiras por todas as pequenas cidades e vilas de província. Encontrámos uma banca que vendia livros em segunda mão, tendo sido obrigatória a compra de alguns livros de banda desenhada de Achille Talon, muito apreciado por certas pessoas.

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Rouen é célebre por vários motivos, um deles a sua catedral, enorme, de estilo gótico, não só por ter sepultado o coração de Ricardo, Coração de Leão, mas também pelo facto de ter sido pintada por Monet numa série que retrata as suas diferentes luminosidades, com pelo facto de ter sido ficado bastante destruída pelos bombardeamentos aliados em 1944.

 

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Claude Monet

 

No centro histórico as casas têm cores acastanhadas e ocre e traves que se cruzam formando ângulos rectos. Encontrei uma num equilíbrio bastante instável, inclinada para o lado esquerdo, quase como se fosse desabar. Demos uma volta num daqueles pequenos comboios turísticos, aproveitando para descansar um pouco.

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A etapa seguinte levou-nos a Dieppe.

There'll Always be an England

Vera Lynn