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Um dia como os outros (191)

por Sofia Loureiro dos Santos, em 12.03.20

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(...) "A ironia é que Donald Trump é apenas o último de uma cadeia de culpados que erigiu uma sociedade que dedicou muito mais atenção à Defesa do que à Solidariedade e Saúde Pública. Até aqui há alguns meses, os Estados Unidos apareciam a falar de cátedra aos seus parceiros, porque estes não dedicavam os recursos que eles achavam suficientes à primeira daquelas prioridades. Agora, que parece que todos iremos penar com a  pandemia do covid-19, os Estados Unidos terão perdido essas superioridades morais de que se costumavam arrogar. O secretário (ministro) da Saúde norte-americano, Alex Azar, confessou outro dia à CNN que as autoridades não fazem ideia de quantas pessoas já serão sido testadas ao vírus, porque os testes realizados pelas instituições privadas lhes escapam. As instituições privadas, aliás, parecem ser um dos busílis do Problema, nomeadamente as Seguradoras, que se mostram cada vez mais evasivas a encaixar os prejuízos do que aí vem, o que está a obrigar o vice-presidente Mike Pence - encarregue da crise - a proclamações solenes garantindo a cobertura dos testes ao covid-19, garantias que não se vêem em mais nenhum outro país desenvolvido. E há quem pergunte: o que acontecerá com os 27 milhões de americanos que não possuem qualquer cobertura de saúde?... Numa aparição hoje naquele mesmo canal de televisão (CNN), o mesmo Mike Pence fez uma triste figura de si próprio ao mostrar não saber dar resposta satisfatória ao número escassíssimo de testes apresentados pelas estatísticas oficiais (abaixo). Ou seja: Azar não sabia e Pence continua a não fazer a mínima ideia." (...)

(...) O que me parece que tornará a situação da pandemia muito mais assustadora: trata-se de uma crise que é dirigida por incompetentes em que, ainda por cima, os meios parecem deficientes. E o facto de Donald Trump ser quem é, traz um gosto especial ao convite para que, agora, os americanos accionem todo o seu estado da arte do dispositivo de defesaos seus onze porta-aviões a energia nuclear, com os novíssimos caças F-35 (a 100 milhões a unidade) para combater o vírus! " (...)

António Teixeira

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publicado às 18:55

Um dia como os outros (190)

por Sofia Loureiro dos Santos, em 29.01.20

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"(...) Que, entre nós, o Livre o tenha decidido fazer em sede de orçamento sem uma discussão enquadradora e propondo que o grupo de especialistas a constituir integre “activistas anti-racistas”, levanta genuínas dúvidas se se trata de uma medida que procure ser consequente ou só mais um espúrio agitar das águas.

Que o deputado e líder do Chega, André Ventura, tenha reagido de forma abjecta à proposta, defendendo “que a própria deputada Joacine seja devolvida ao seu país”, mostra que mesmo que a discussão seja importante, ela dificilmente será profícua se for travada pelos extremos."

David Pontes

 

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"André Ventura sugere devolver "ao país de origem" Joacine Katar Moreira, que por sua vez quer devolver às ex-colónias bens culturais dos nossos museus que lhes pertençam. Francisco Rodrigues dos Santos quer devolver ao CDS a posição de partido que não caiba no táxi, mas sem ter Joacines e a tentar não se aproximar muito do Chega. Que, entretanto, também tem afastamentos a fazer e se demarca da saudação nazi feita por um participante no jantar do partido no Porto.

Parece anedota, mas é o resumo das últimas horas no país político dos pequenos, que vai mostrando poucos motivos para graças. (...)

(...) Por contraditório que possa soar, a afirmação racista, intolerante e completamente intolerável de André Ventura acaba por ter uma vantagem. Se até há pouco o deputado do Chega tentou usar de um tom manso e negar que seja extremista, xenófobo ou nacionalista, deixá-lo falar à vontade é a melhor forma de mostrar claramente quem é e as pessoas que abriga no partido. A saudação nazi vista durante o hino nacional não é um acaso de que Ventura possa realmente demarcar-se. É uma consequência do que o Chega defende e dos ódios de que se alimenta. (...)"

Inês Cardoso

 

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publicado às 14:24

Um dia como os outros (189)

por Sofia Loureiro dos Santos, em 29.12.19

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(...) Sagas que nos distraem do essencial que não queremos encarar, de que é entre nós que estão os monstros, que é possível, entre nós, essa impossibilidade da razão, essa total ausência de diálogo, essa crueldade que não chega a sê-lo, porque não nos reconhece existência, sentimentos ou semelhança. (...)

Fernanda Câncio

 

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publicado às 18:07

Um dia como os outros (188)

por Sofia Loureiro dos Santos, em 10.11.18

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 (…) Mas estes homens têm uma corte, porque o poder autocrático tem uma capacidade enorme de atrair a degenerescência da virtude, de poder ser usado para comprar e vender interesses e para dar aos pequenos da mesma espécie a ilusão de que também são grandes, porque estão à sombra dos gigantes. Aqueles a quem tenho chamado os nossos bolsonarinhos e trumpinhos desdenham Bolsonaro e Trump e não quereriam ver-se em sua companhia à mesa. (E daí não sei... Talvez, depende, não é impossível, podia ser, e se for uma selfie, não ficava mal, para pôr na mesa de cabeceira...) Por isso juram a pés juntos que não gostam deles. MAS GOSTAM DO QUE ELES ESTÃO A FAZER. Vai em maiúsculas por que é isso mesmo. (…)

 

(…) E não se iludam com as aparentes reticências e com as explicações rebuscadas, que não “reticenciam” nada, nem “explicam” nada, porque lhes falta o sentimento de nojo. E o nojo é o sentimento exacto. Eu vi a conferência de imprensa de Trump, em que ele disse que se os democratas investigarem os seus impostos, ele vinga-se investigando os democratas, coisa que ele diz que faz muito melhor. Senti nojo. Ponto.

 

Pacheco Pereira

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publicado às 15:32

Um dia como os outros (187)

por Sofia Loureiro dos Santos, em 15.10.18

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(…) Porque já tivemos muitas versões - até do que foi roubado. Em julho do ano passado, menos de 15 dias após o "roubo", o então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general do Exército Pina Monteiro, afirmou que parte do material furtado estava "para ser abatido", e outra parte não tinha condições para ser usada de forma eficaz. Ou seja, os ladrões, que claramente sabiam tudo sobre o funcionamento da base e do material que lá estava e onde, tinham roubado coisas, na maioria, imprestáveis? Quê, por piada? Mais de um ano depois, tendo o material sido alegadamente recuperado (com uma caixa de petardos "a mais", disseram-nos, e 1450 munições a menos), tal confirmou-se? Não sabemos.

Não sabemos nada. Não sabemos porque é que foram feitos dois buracos na rede da base de Tancos - um não chegava? Não sabemos como foi possível 300 quilos de material serem levados, supostamente a pé, num trajeto de 420 metros, até a um desses buracos, ainda por cima - se as imagens da "recuperação" do material postas a circular pelo exército são verdadeiras -, em paletes de madeira, coisa maneirinha, boa de levar às costas. Não sabemos como é possível que numa base onde a chefia sabia que tinha videovigilância, sensores e eletrificação da cerca inoperantes não existiam sentinelas nem rondas eficazes e não tenha havido disso consequências (à exceção de três processos disciplinares a baixas patentes).

Não percebemos como pode haver uma operação fantoche para "recuperar" as armas com acusações cruzadas entre três militares do Exército, um dos quais, Luís Vieira, ex-diretor da Polícia Judiciária Militar (preso preventivamente) e outro Martins Pereira, o ex chefe de gabinete do ministro e atual adjunto do chefe do Estado-Maior do Exército - e este último, Rovisco Duarte, que todos nomeou e superintende, ficar mudo e quedo como se não fosse nada com ele.

Não percebemos como pode o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, almirante Silva Ribeiro, calar-se ante toda esta fantochada.

Não percebemos como pôde o ministro agora demitido dizer, em setembro de 2017, em entrevista ao DN/TSF um mês antes da "recuperação", esta frase sibilina - "No limite, pode não ter havido furto nenhum. (...) Podemos admitir que o material já não existisse e tivesse sido anunciado... e isto não pode acontecer" -, uma frase em que põe a hipótese de todo o caso ser uma fabricação, uma sabotagem, e portanto um ato de traição perpetrado no seio do Exército, e isso não ter consequências. (…)

(…) Por exemplo o ex-porta-voz da PJM, Vasco Brazão, atualmente em prisão domiciliária, garante que esteve, no fim de 2017, numa reunião com o ex-diretor da PJM e o então chefe de gabinete do ministro, na qual foi entregue um memorando com toda a história da inventona ao chefe de gabinete (com o objetivo, alega, de o ministro retirar a PJ do rasto - mas, ainda que mal pergunte, ao CEME, seu chefe direto, nada teriam dito?). Contraditado quer pelo ex-diretor da PJM quer pelo ex-chefe de gabinete, Brazão diz, segundo o Expresso de ontem, que tem o memorando em causa e que vai dá-lo ao MP para ser analisado em busca de impressões digitais. Portanto o memorando entregue afinal ficou com ele? Já o atual adjunto do CEME certifica ter dado a "documentação verdadeira" ao MP. Ou seja, levou-a consigo quando saiu do ministério? Isto agora é assim, levam-se papéis do governo para casa quando se sai do governo e ainda se tem a lata de confessar?

"Um dia havemos de saber o que cada um sabia sobre esta história de Tancos", disse, um dia antes da demissão de Azeredo, e tão sibilino como o seu ex-ministro, o PM no debate quinzenal. Talvez venhamos a saber, talvez não. Mas já sabemos isto: da desonra o Exército não se livra. E da suspeita de que, como todos antes de si, não sabe como pôr as Forças Armadas e as forças ocultas que nela medram na ordem, o governo não se safa.

 

Fernanda Câncio

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publicado às 21:25

Um dia como os outros (186)

por Sofia Loureiro dos Santos, em 10.09.18

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(...) Daí que sejam socializados para existir por direito próprio, para viver o corpo como seu, para olharem em vez de serem olhados, para desejar em vez de serem desejados, para agir em vez de serem "agidos". Ao contrário, as mulheres são-no para depender da apreciação e valorização de outrem, sentindo sempre sobre si, em perpétua vigilância, um olhar que julga. Um olhar enxertado no seu: desde crianças, aprendem a existir como corpo sitiado, expropriado por regras e vontades alheias - que ocupam mas lhes não pertence. (...)

 

Fernanda Câncio

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publicado às 21:21

Um dia como os outros (185)

por Sofia Loureiro dos Santos, em 19.08.18

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(...) Já agora, seria oportuno que o sr. Cosgrave esclarecesse quais são esses critérios que definem as fronteiras das escolhas para o palco da Web Summit, uma iniciativa dirigida ao chamado novo empreendedorismo tecnológico e a sociedade digital onde, convenhamos, os propósitos de Le Pen estão manifestamente deslocados. Não se trata de censurar ou não censurar escolhas, mas de considerar o sentido que fazem ou não num determinado contexto. É isso e só isso o que está em causa e não o legítimo direito de Le Pen e outros líderes populistas se exprimirem em todos os fóruns políticos e mediáticos apropriados. (...)

 

Vicente Jorge Silva

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publicado às 20:51

Um dia como os outros (184)

por Sofia Loureiro dos Santos, em 15.08.18

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(…) Estas notícias têm mais proximidade aos interesses económicos, históricos e sociológicos dos portugueses do que qualquer tweet inconsequente de Donald Trump.

Estas notícias dizem mais ao coração de centenas de milhares (milhões?) de imigrantes desses países que residem em Portugal, potenciais leitores de órgãos de comunicação social portugueses, do que qualquer manifestação contra imigrantes num país do centro da Europa.

Estas notícias cumprem todas a regras editoriais que o jornalismo determina, porém, inexplicavelmente, nós, jornalistas, ignoramos ou reduzimos a sua importância à expressão mínima. Preferimos debater, com paixão anacrónica, o nome de um museu sobre a formação do império colonial português.

Durante anos colaborei, alegremente, neste virar de costas do jornalismo português ao mundo da lusofonia. Agora sou obrigado a ver como fui tão burro e como é, desculpem, tão burro o jornalismo português.

Pedro Tadeu

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publicado às 16:08

Um dia como os outros (183)

por Sofia Loureiro dos Santos, em 15.08.18

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(…) Le Pen não vem a Lisboa no quadro de uma delegação da Assembleia Nacional francesa ou do seu grupo de extrema-direita no Parlamento Europeu, como seria seu direito legal. Vem para a Websummit. Ora, não façamos de conta que a Websummit não é um evento político pago e apoiado por todos nós para promover uma determinada imagem de Portugal. Foi-o quando Fernando Medina mandou pôr cartazes, no dia a seguir à vitória de Trump, dizendo (e bem) que Lisboa era “uma cidade de pontes e não de muros”. Foi-o quando António Costa lá foi falar como primeiro-ministro ou quando Marcelo, como presidente, elogiou o evento. E se-lo-á, de uma maneira ou de outra, tanto se Marine Le Pen lá for falar (no mesmo palco que usou Costa) como se vier entretanto a ser desconvidada. Cabe-nos a nós a escolha de lhe dar palco ou de deixar bem claro que lhe recusamos palco. Não há nenhuma escolha não-política. (…)

(…) Ou então o país que sabe que valores são os seus, e que está pronto para dizer: Le Pen representa o contrário daquilo que Portugal é, o contrário da nossa posição na Europa e no mundo, e não a consideramos bem-vinda num evento apoiado pelo nosso governo para promover o pais que somos e queremos ser.

É simples. Não se trata de limitar a liberdade de alguém a quem não faltam canais (nem rublos) para se exprimir. Trata-se de dar uma mensagem política perante um assunto político. É para isto que os estados têm a prerrogativa de declarar alguém persona non grata(informação útil: mantém-se consagrada no direito europeu relativo à liberdade de circulação). Use-se. Sim, Marine Le Pen fará uma birra. Respondam-lhe que é a soberania nacional.

Rui Tavares

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publicado às 15:58

Um dia como os outros (182)

por Sofia Loureiro dos Santos, em 18.06.18

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(...) E assim não nos darmos conta de esta ser também uma tragédia nossa. A de termos media que desde 2003 se especializaram nas acusações sem provas, coadjuvados por um cada vez maior grupo de comentadores para quem o Estado de Direito é uma maçada, uma desnecessidade até. A de termos um ministério público que continua a ostentar em alguns casos interpretações romanceadas, canalhas, voyeuristas e preconceituosas de "provas" e chegou agora ao ponto de permitir -- se nada faz para impedir nem punir, permite -- a exibição televisiva de vídeos de interrogatórios. A de termos uma justiça na qual algo como o que fizeram a Paulo Pedroso sucede e que não é capaz de o reparar, de tornar claro que é inadmissível, que tem de haver consequências e que, sobretudo, não pode mais acontecer. O que, claro, quer dizer que não temos justiça. Mas, está visto, não nos faz falta: temos a nossa opinião. Como aquela pessoa que em 2003 me disse: "Já viste que ele não tem barba? Tem mesmo cara de pedófilo."

 

Fernanda Câncio

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publicado às 15:13


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