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Cada um cumpre o destino que lhe cumpre. / E deseja o destino que deseja; / Nem cumpre o que deseja, / Nem deseja o que cumpre. [Ricardo Reis]

2026: Desejar não basta. É tempo de fazer
Maria Manuel Mota
(…)
Como cientista, acredito profundamente que a ciência nos oferece mais do que respostas técnicas. Oferece-nos um método para viver em sociedade. A ciência ensina-nos a duvidar sem destruir, a discordar sem deslegitimar, a mudar de opinião sem perder dignidade. Ensina-nos que o conhecimento é cumulativo, que nenhuma descoberta surge isolada e que o progresso raramente é imediato e quase sempre é coletivo.
A ciência fundamental, silenciosa e persistente, é talvez o melhor exemplo disso. Durante anos, décadas até, parece não produzir impacto visível. E depois, aparentemente do nada, transforma-se em vacinas, terapias, tecnologias, soluções que mudam vidas. Exigir resultados imediatos da ciência é como exigir frutos a uma árvore acabada de plantar. É desconhecer a natureza do conhecimento.
(…)
A ciência mostra-nos que cooperação supera competição quando o objetivo é comum. Que diversidade de perspetivas melhora decisões. Que sociedades mais justas, mais informadas e mais inclusivas são também mais resilientes.
Que 2026 seja, então, menos o ano das promessas e mais o ano do compromisso. Menos o ano das queixas e mais o ano da construção. Um ano em que escolhamos a racionalidade em vez do ruído, a união em vez da fragmentação e a ação em vez da resignação. A esperança, afinal, não é passiva. Constrói-se.

Quando os portugueses eram o “Bangladesh” para os franceses
José Pacheco Pereira
(…)
Quando os portugueses eram o “Bangladesh” para os franceses convém lembrarmo-nos das centenas de milhares de portugueses que de mala à cabeça atravessaram ilegalmente duas fronteiras para, no nosso exemplo escolhido, a França, chegar aos bidonvilles dos arredores de Paris e trabalhar no duro, principalmente no “batimento”, na construção civil. A inspiração para este artigo foi abrir uma mala, uma valise de carton, que pertence ao espólio de José Carlos Ferreira de Almeida que se encontra no Arquivo Ephemera, um pioneiro do estudo da emigração. Essa mala contém uma das fontes do seu trabalho, muitas centenas de recortes de jornais portugueses, do Algarve a Trás-os-Montes, sobre os anos mais duros da emigração para França, a primeira década dos anos 60.
(…)a exploração dos emigrantes começava em Portugal com os engajadores e prolongava-se em França com as redes de habitação e emprego organizadas por franceses. Que passavam as fronteiras “vestidos com dois pares de calças e camisas”, a roupa que se levava. Que se podia ter como habitação “uma carrinha que é quarto de dormir de 17 pessoas”, que havia uma máfia luso-francesa na exploração das barracas, que a emigração clandestina é um terreno ideal para o crime. Que a situação era pior para as mulheres
(…)Que a vida na emigração era de “sofrimentos, injustiças e andanças várias”, assentes na exploração do trabalho dos portugueses que ganhavam mais em França do que em Portugal, mas muito abaixo dos franceses para o mesmo trabalho, sem regras, nem horários. Que para obterem um documento esperavam sete horas (hoje é pior), tendo de se deslocar centenas de quilómetros, com a polícia francesa à perna. E que os franceses olhavam para os portugueses como os habituais feios, porcos e maus, que, para espanto dos franceses, assavam uma sardinha em papel de jornal, escreve o Jornal do Comércio. O livro de Nuno Rocha publicado em 1965 tem um título que diz tudo: França, A Emigração Dolorosa.
(…)

(…) Normalmente, o voto da minoria negra vai esmagadoramente para os democratas. Desceu de valores que se aproximaram dos 90% com Joe Biden para menos de 70%. A resposta foi simples: porque a candidata é mulher, mesmo sendo ela própria negra. (…)
(…) O ex-Presidente manifesta um desprezo absoluto pelas mulheres. Para Harris, a mulher negra que se atreveu a desafiá-lo, reserva os piores insultos. Uma mulher inteligente, preparada, ao mesmo tempo forte e elegante, é uma afronta à sua masculinidade. Este sentimento difuso está presente na América que vota. (…)

(…) É a doença dos EUA – sim, porque votar em Trump significa ser cego, surdo e mudo, cruel e violento, e não me venham com o aumento dos custos da mercearia, porque o voto em Trump transporta muitas outras coisas, e quem vota sabe. (…)
(…) A complacência com os crimes de Trump, o medo que ele inspira, os poderosos apoios interesseiros que fecham os olhos a tudo para ganhar dinheiro e poder manietaram a justiça americana e permitiram-lhe uma impunidade que ninguém deveria ter. Trump, que é contra a democracia, beneficiou das fragilidades da democracia, usando três coisas: a manipulação da política-espectáculo, hoje uma das maiores ameaças à democracia; o dinheiro para pagar uma litigância infinita e para corromper testemunhas e processos; e o medo da retaliação e vingança que ele promete como quem respira. (…)

(...) É justo dizer que já somos tudo isso, e ainda mais, há muito tempo. Mas, agora, somos também o país onde um deputado da nação eleito pelo Chega diz, na RTP3: “Se disparasse mais a matar, o país estava mais na ordem.” Isto a propósito de Odair Moniz, morador do Bairro do Zambujal que, na sequência de uma perseguição, foi alvejado mortalmente por um agente da PSP — um caso que ainda está sob investigação.
Temos um jovem assessor parlamentar do mesmo partido que escreveu (e apagou) numa rede social: “Menos um criminoso, menos um eleitor do Bloco.” Como se as palavras não fossem sempre mais do que isso. (...)
(...) "Atingiu-se um limite. Nenhum democrata pode deixar de se indignar com estas declarações. A minha consciência obriga-me a tomar uma atitude em relação a quem se aproveita deste clima para fazer apelos ao ódio e a mais violência. Vou subscrever a queixa, que espero que seja subscrita pelo maior numero possível de pessoas" (...)

(…) Os valores saídos da revolução francesa — liberdade, igualdade e fraternidade —, não podem ser substituídos por ideias antiprogressistas, reacionárias, ultranacionalistas, racistas, xenófobas e misóginas. Seria uma tragédia para a França, para a Europa e para o mundo.
(…) Mas agora já não é segredo. O Partido Democrata, pelo menos se quer honrar a segunda palavra do seu nome, tem de encontrar outro candidato. Seja Kamala Harris, Michelle Obama ou o governador da Califórnia, qualquer um, apesar de vir tarde, ajudará a reequilibrar as probabilidades. Nenhum virá a tempo de ser o favorito, mas terá mais hipóteses do que Biden (e será melhor Presidente). (…)

(…)
No cruzar do século temos os mesmos níveis de analfabetismo que outros países tinham no cruzar do século anterior. Quando se diz que tivemos de, em algumas décadas, recuperar de um atraso de 100 anos, está-se a ser literal. Nem um quinto da população ativa havia terminado o ensino secundário. Nem um quinto. A percentagem da população ativa com ensino secundário na Europa era três vezes maior. Nos países de Leste, como a Chéquia, Estónia, Eslovénia ou Polónia, era quatro vezes maior. É assim tão surpreendente que estes países, uma vez aderindo à União Europeia, crescessem bem mais depressa do que nós?
(…)
A grande revolução deu-se nos números relativos ao ensino superior. Em 2000, nem 9% da população ativa tinha completado um grau superior. Em 2022 esse valor subiu para 31,5%. Mais do que triplicou e põe-nos próximos da média europeia e à frente de nove países. É uma recuperação extraordinária. E, se olharmos especificamente para as faixas etárias entre os 20 e os 34 anos, concluímos que já estamos acima, e bem acima, da média europeia.
(…)
Mas quando olhamos para fatores endógenos, em especial para o mais importante de todos, o capital humano, temos razões para sermos otimistas.
(…)
Não me entendam mal, é evidente que nos desenvolvemos muito. Temos um bom sistema de saúde nacional, uma boa rede de escolas, proteção social eficaz, etc. Mas, insisto, o nosso nível de bem-estar ainda está longe do da Europa. O que os dados sobre a educação mostram é que nunca estivemos tão bem preparados para alcançar o terceiro ‘D’ de Abril. Ser-se realista é ser-se otimista.

(…) todas as probabilidades de acontecerem os eventos que se referem são não só elevadas, como se verificarão em conjunto. O paralelo com 1939 tem muitos aspectos que, como todas as comparações de épocas muito diferentes são enganadoras, podem e devem ser pensados. O dilema que opôs Churchill a Chamberlain assentava numa avaliação dos perigos de Hitler para a paz europeia, a soberania das nações e os regimes não ditatoriais, com Churchill opondo-se a políticas de “apaziguamento” que, como se verificou, não travaram Hitler e levaram à guerra de 1939-1945.
(…) Estamos em eleições legislativas, mas os principais candidatos fazem de conta que nada disto é com eles. (…)
O que devia estar a ser discutido, e muito a sério, é que posições têm os partidos face ao significativo agravamento do orçamento da defesa (…) E discutir que posições se vão tomar a cada passo do caminho perigoso dos nossos dias? (…) E vamos discutir o papel que teve o irresponsável fim do Serviço Militar Obrigatório, (…) e que agora devia ser reconsiderado (…)
José Pacheco Pereira - Público (24/02/2024)
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"(…) Costa estava para durar e mesmo aqueles que sonhavam 24 horas por dia em derrubá-lo reconheciam isso. E, de repente, Costa cai não porque os seus inimigos políticos o tivessem derrubado, nem pela luta política normal, mas por uma política anormal em democracia, uma mistura grande de incompetência e irresponsabilidade e uma ideologia corporativa antidemocrática, o justicialismo.
É por isso que se devia falar, e muito, deste evento, porque ele transcende a prática normal da democracia e é relevante para todos, sejam da situação ou da oposição. Porque o justicialismo não é redutível ao confronto partidário, não é do PSD contra o PS, ou vice-versa, não é da direita versus a esquerda, ou vice-versa. É uma intervenção no terreno da política democrática de uma concepção corporativa que encontra legitimação numa ideia de superioridade do seu poder assente numa bondade, honestidade e integridade atribuídas a uma casta, que precisa de ter inimigos para se justificar como superior. E esses inimigos são os políticos em democracia, o “outro” poder.
(…) O justicialismo é uma forma mais sofisticada de populismo, mas muito próxima da substância do populismo que alimenta o Chega. Como se verifica no caso actual, os resultados da sua acção podem ser instrumentalizados, o que faz a direita radical e o lucrativo jornalismo de escândalos, retaliação e vingança, cuja ideologia também mergulha nas mesmas fontes. Mas o mecanismo do justicialismo actua para além dos seus efeitos no equilibro político, no reforço da imagem da casta e na intangibilidade dos seus poderes, sempre apresentados como sendo em nome de um valor maior que superaria os estragos menores que provocam.
(…) Estou consciente que há muitas vezes uma linha fina entre criticar o MP e querer estar acima da lei e não ver os seus crimes expostos e sujeitos a sanção. Mas aqui não há uma linha fina, há até uma bastante grossa que deveria existir entre a justiça e a política, e o justicialismo apaga-a todos os dias."

Há muitos anos atrás, cheguei cedo a uma sala de Teatro. Estava já um senhor sentado na plateia. Gosto de ser público, muito. Resolvi ir sentar-me ao seu lado. Era este SENHOR. Cumprimentámo-nos e conversámos sobre o Teatro e a vida, de tudo e de nada e voltámos a falar no final da peça do que tínhamos visto e sentido e refletido.
Passado uns meses, volto ao mesmo Teatro e na plateia estava o mesmo senhor, e a situação repetiu-se. Rimo-nos da coincidência e voltámos a falar de tudo e de nada, e do Teatro e da Vida.
Ele foi o meu Presidente da Câmara de Lisboa e o meu Presidente da República que muito amo e respeito e tive o privilégio de ir com ele duas vezes ao Teatro, que é a vida que adoro e escolhi.
Acreditem ou não sempre que vou sozinha ao Teatro, penso neste SENHOR que em dois domingos à tarde, foi o meu amigo das mesmas plateias.

(...) "A ironia é que Donald Trump é apenas o último de uma cadeia de culpados que erigiu uma sociedade que dedicou muito mais atenção à Defesa do que à Solidariedade e Saúde Pública. Até aqui há alguns meses, os Estados Unidos apareciam a falar de cátedra aos seus parceiros, porque estes não dedicavam os recursos que eles achavam suficientes à primeira daquelas prioridades. Agora, que parece que todos iremos penar com a pandemia do covid-19, os Estados Unidos terão perdido essas superioridades morais de que se costumavam arrogar. O secretário (ministro) da Saúde norte-americano, Alex Azar, confessou outro dia à CNN que as autoridades não fazem ideia de quantas pessoas já serão sido testadas ao vírus, porque os testes realizados pelas instituições privadas lhes escapam. As instituições privadas, aliás, parecem ser um dos busílis do Problema, nomeadamente as Seguradoras, que se mostram cada vez mais evasivas a encaixar os prejuízos do que aí vem, o que está a obrigar o vice-presidente Mike Pence - encarregue da crise - a proclamações solenes garantindo a cobertura dos testes ao covid-19, garantias que não se vêem em mais nenhum outro país desenvolvido. E há quem pergunte: o que acontecerá com os 27 milhões de americanos que não possuem qualquer cobertura de saúde?... Numa aparição hoje naquele mesmo canal de televisão (CNN), o mesmo Mike Pence fez uma triste figura de si próprio ao mostrar não saber dar resposta satisfatória ao número escassíssimo de testes apresentados pelas estatísticas oficiais (abaixo). Ou seja: Azar não sabia e Pence continua a não fazer a mínima ideia." (...)
(...) O que me parece que tornará a situação da pandemia muito mais assustadora: trata-se de uma crise que é dirigida por incompetentes em que, ainda por cima, os meios parecem deficientes. E o facto de Donald Trump ser quem é, traz um gosto especial ao convite para que, agora, os americanos accionem todo o seu estado da arte do dispositivo de defesa, os seus onze porta-aviões a energia nuclear, com os novíssimos caças F-35 (a 100 milhões a unidade) para combater o vírus! " (...)
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