Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Ir ao Teatro

mascara-mortuaria-de-beethoven.jpg

Máscara mortuária de Beethoven

 

Sempre acabo a dizer o mesmo. Não percam a peça Kiki Van Beethoven, não deixem para os últimos dias. Façam um favor a vós mesmos e vão ouvir o monólogo de Kiki, brilhantemente interpretado por Teresa Faria, à melhor sala de espectáculos do Poço do Bispo.

 

O autor da peça é Eric-Emmanuel Schmitt, a encenação de Natália Luísa. Sóbrio, simples, na luz, nos objectos em palco, no ambiente, na música que se ouve. Do riso às lágrimas, o encontro connosco, que nos perdemos.

 

E Beethoven.

 

HISTÓRIAS DE LX

HLX.jpg

“Groselha, na esplanada, bebe a velha,

e um cartaz, da parede, nos convida

a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:

dizem que o sangue é vida; mas que vida?

Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,

na terra onde nasceste e eu nasci?”

 

Alexandre O’Neill, in ‘De Ombro na Ombreira’

 

HLX 3.JPG

HLX 2.JPG

Não deixem para os últimos dias.

Estes espectáculos costumam esgotar depressa.

 

Teatro Meridional a rimar com genial

FEIRA-DELL-ARTE.png

Feira Dell’Arte

Texto: Mário Botequilha

Encenação: Miguel Seabra

Interpretação: Emanuel Arada e Rosinda Costa

Teatro Meridional

 

 

Para quem perdeu, pode ser que haja uma reposição. Simplesmente genial - tudo. Um texto divertido e corrosivo, actores esplendorosos, luz, cenografia, som, tudo, como sempre, minimalista, engenhoso, simples, a simplicidade da verdadeira arte..

Parabéns.

Dona Rosinha a Solteira ou a linguagem das Flores

TeatroMeridional_BannerSite_720x480_Rosinha01.png

 

Ontem fui ao Teatro Meridional ver esta peça de Federico García Lorca.

 

Mas entrar na melhor sala de espectáculos do Poço do Bispo é sempre uma experiência única, em que tudo se transforma para acolher os espectadores como se fossem velhos amigos. O café e o chá à nossa espera com uma fatia de bolo, cadeiras, mesas e luzes que convidam a uma intimidade simpática e não intrusiva, peças de mobília que nos colocam dentro de um cenário, fazendo dos presentes actores.

 

Por vezes acontecem revezes e inesperados contratempos, como foi o caso de ontem. Um problema na electricidade, devidamente explicado por Miguel Seabra, atrasou o início da representação, para quem não se importou de esperar, que foi a quase totalidade dos presentes. Entretanto, Natália Luíza distribuiu folhas com poemas de Federico García Lorca, no original e traduzidos por Ruy Belo e Eugénio de Andrade. A pouco e pouco, seguindo-se a ela, várias pessoas declamaram os poemas, criando um ambiente de partilha das palavras e da sua melodia, ecoando por dentro de nós a ressonância de sentimentos, que fizeram do tempo de espera um novo espectáculo.

 

A peça fala da espera, da esperança e do desespero, da resiliência e da fuga à realidade, de mulheres e dos homens que as cercam e enganam, das decisões e dos confinamentos a que nos condenamos, do arrastar da memória e do despojamento final. Fios que se esticam e partem, bordados que se desfiam e morrem, numa linguagem de flores.

 

Três mulheres, três épocas. As luzes, os movimentos, a música, o alternar da leveza e da crua realidade, Dona Rosinha a Solteira, ou a linguagem das flores, é uma peça do início do século XX que continua a ser actual.

 

Nunca é demais ir ao Meridional. Preparem-se já para a próxima, que estreia a 9 de Maio.

FEIRA-DELL-ARTE.png

Ainda bem que não pararam

deviamosbanner (1).png

 

 

Não sabia o que me esperava, nunca sei. Mas tenho sempre a absoluta certeza de que valerá a pena, quando vou assistir a um espectáculo do Meridional. E este, que comemora os 25 anos de uma carreira excepcional, prometia reflexão – DEVÍAMOS ter parado.

 

Quando acabou, as mais fortes sensações que me ficaram foram as de deslumbramento por um espectáculo belíssimo, e uma grande interrogação sobre tudo o que vi.

 

Esta não é uma peça de texto escrito ou falado, é uma peça de texto mímico e sensorial, em que o que se passa no palco conta uma história diferente para cada um dos espectadores. Aliás quem faz a história é cada um de nós, sendo os actores, a cenografia, a música, tudo, provocações de uma coisa que parece totalmente desligada e desconexa, mas que é uma forma de nos mantermos em interrogação permanente, de adaptarmos o que vamos vendo aos nossos percursos de vida. As personagens vestem e despem continuamente roupagens, que os fazem diferentes. Umas vezes experimentam, como se medissem as consequências, outras fazem-no rápida, repetida e atabalhoadamente, atropelando-se pelas mesmas roupas, outras normalizam-se e adquirem um tom executivo, assertivo e apressado, agressivo e devorador, outras ainda acabam por preferir a própria pele sem adereços, mergulhando numa posição quase fetal e isolada, à parte, como se se auto marginalizassem.

 

E por vezes encontram-se, como na cena em que duas actrizes têm vestido iguais, se movem da mesma maneira e olham espantadas à sua volta, meio crianças, meio bonecas, de mãos dadas. Por vezes encontram-se, como as que caiem nos braços uma da outra, como se desistissem e se amparassem mutuamente. Por vezes encontram-se, como se descobrissem o amor. Por vezes encontram-se, como se pudessem substituir ou acrescentar pormenores uns aos outros, adaptando-se a circunstâncias extremas.

 

E há algumas revoltas isoladas e inconsequentes, como a vontade de cantar de uma personagem que lembra as bailarinas da Paula Rego, que não sabe “o que querem que faça” e desafia “quem quer” com uma voz poderosa, há alguns desesperos, há um guarda-chuva que faz rir, um espelho que roda vagarosamente numa interpelação directa (somos nós que ali estamos), alguém que se passeia com nariz de palhaço e flores, murmurando palavras como silêncio e pausa.

 

A última cena é indescritível de bela. A música, as vozes, a luz, a melancolia, tudo misturado com a sensação de que não percebemos nada de nada, nada do que passámos, do que vivemos, do que somos, e ao mesmo tempo que, apesar de tudo, aquilo é connosco. Que, apesar de tudo, continuamos a procurar a nossa própria personagem, individual e colectiva.

 

Seria isto o que o Meridional pretendia? Penso que cada um fará uma interpretação diferente.

 

Mais uma vez estão todos de parabéns. Não percam, mesmo.

Meridional - 25 anos de encantamento

meridional 25 anos.jpg

 

 

O Teatro Meridional comemorou, no dia 21 de Julho, 25 anos.

 

Em 54 espectáculos, cerca de 2 por ano, o Teatro Meridional foi criando peças inesquecíveis, em que a simplicidade dos cenários e da música, a magia das palavras, ou mesmo a sua quase ausência, associadas e interligadas com o espantosa performance dos actores, fizeram e fazem a sua imagem de marca - qualidade, ternura, inteligência, humor. Esta qualidade tem vindo a ser reconhecida pelas dezenas de prémios com que tem sido distinguido, e pela presença do público incondicional e cada vez mais numeroso.

 

Desde há cerca de 15 anos que têm o seu espaço próprio no Beco da Mitra, a melhor sala de espectáculos do Poço do Bispo, como diz Miguel Seabra que, com Natália Luíza, dirige esta família de gente de excepção. Não faltam o café e o chá, o bolo, as mantas no Inverno e os leques no verão, tantos toques de atenção particular que, também por isso, fazem do Meridional um Teatro único.

 

Sinto-me uma privilegiada por ter podido partilhar estes 25 anos. Sempre que vou assistir a uma das suas peças, saio de lá mais atenta, mais alerta, mais feliz.

 

Muito obrigada.