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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

HISTÓRIAS DE LX

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“Groselha, na esplanada, bebe a velha,

e um cartaz, da parede, nos convida

a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:

dizem que o sangue é vida; mas que vida?

Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,

na terra onde nasceste e eu nasci?”

 

Alexandre O’Neill, in ‘De Ombro na Ombreira’

 

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Não deixem para os últimos dias.

Estes espectáculos costumam esgotar depressa.

 

Teatro Meridional a rimar com genial

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Feira Dell’Arte

Texto: Mário Botequilha

Encenação: Miguel Seabra

Interpretação: Emanuel Arada e Rosinda Costa

Teatro Meridional

 

 

Para quem perdeu, pode ser que haja uma reposição. Simplesmente genial - tudo. Um texto divertido e corrosivo, actores esplendorosos, luz, cenografia, som, tudo, como sempre, minimalista, engenhoso, simples, a simplicidade da verdadeira arte..

Parabéns.

Dona Rosinha a Solteira ou a linguagem das Flores

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Ontem fui ao Teatro Meridional ver esta peça de Federico García Lorca.

 

Mas entrar na melhor sala de espectáculos do Poço do Bispo é sempre uma experiência única, em que tudo se transforma para acolher os espectadores como se fossem velhos amigos. O café e o chá à nossa espera com uma fatia de bolo, cadeiras, mesas e luzes que convidam a uma intimidade simpática e não intrusiva, peças de mobília que nos colocam dentro de um cenário, fazendo dos presentes actores.

 

Por vezes acontecem revezes e inesperados contratempos, como foi o caso de ontem. Um problema na electricidade, devidamente explicado por Miguel Seabra, atrasou o início da representação, para quem não se importou de esperar, que foi a quase totalidade dos presentes. Entretanto, Natália Luíza distribuiu folhas com poemas de Federico García Lorca, no original e traduzidos por Ruy Belo e Eugénio de Andrade. A pouco e pouco, seguindo-se a ela, várias pessoas declamaram os poemas, criando um ambiente de partilha das palavras e da sua melodia, ecoando por dentro de nós a ressonância de sentimentos, que fizeram do tempo de espera um novo espectáculo.

 

A peça fala da espera, da esperança e do desespero, da resiliência e da fuga à realidade, de mulheres e dos homens que as cercam e enganam, das decisões e dos confinamentos a que nos condenamos, do arrastar da memória e do despojamento final. Fios que se esticam e partem, bordados que se desfiam e morrem, numa linguagem de flores.

 

Três mulheres, três épocas. As luzes, os movimentos, a música, o alternar da leveza e da crua realidade, Dona Rosinha a Solteira, ou a linguagem das flores, é uma peça do início do século XX que continua a ser actual.

 

Nunca é demais ir ao Meridional. Preparem-se já para a próxima, que estreia a 9 de Maio.

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Ainda bem que não pararam

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Não sabia o que me esperava, nunca sei. Mas tenho sempre a absoluta certeza de que valerá a pena, quando vou assistir a um espectáculo do Meridional. E este, que comemora os 25 anos de uma carreira excepcional, prometia reflexão – DEVÍAMOS ter parado.

 

Quando acabou, as mais fortes sensações que me ficaram foram as de deslumbramento por um espectáculo belíssimo, e uma grande interrogação sobre tudo o que vi.

 

Esta não é uma peça de texto escrito ou falado, é uma peça de texto mímico e sensorial, em que o que se passa no palco conta uma história diferente para cada um dos espectadores. Aliás quem faz a história é cada um de nós, sendo os actores, a cenografia, a música, tudo, provocações de uma coisa que parece totalmente desligada e desconexa, mas que é uma forma de nos mantermos em interrogação permanente, de adaptarmos o que vamos vendo aos nossos percursos de vida. As personagens vestem e despem continuamente roupagens, que os fazem diferentes. Umas vezes experimentam, como se medissem as consequências, outras fazem-no rápida, repetida e atabalhoadamente, atropelando-se pelas mesmas roupas, outras normalizam-se e adquirem um tom executivo, assertivo e apressado, agressivo e devorador, outras ainda acabam por preferir a própria pele sem adereços, mergulhando numa posição quase fetal e isolada, à parte, como se se auto marginalizassem.

 

E por vezes encontram-se, como na cena em que duas actrizes têm vestido iguais, se movem da mesma maneira e olham espantadas à sua volta, meio crianças, meio bonecas, de mãos dadas. Por vezes encontram-se, como as que caiem nos braços uma da outra, como se desistissem e se amparassem mutuamente. Por vezes encontram-se, como se descobrissem o amor. Por vezes encontram-se, como se pudessem substituir ou acrescentar pormenores uns aos outros, adaptando-se a circunstâncias extremas.

 

E há algumas revoltas isoladas e inconsequentes, como a vontade de cantar de uma personagem que lembra as bailarinas da Paula Rego, que não sabe “o que querem que faça” e desafia “quem quer” com uma voz poderosa, há alguns desesperos, há um guarda-chuva que faz rir, um espelho que roda vagarosamente numa interpelação directa (somos nós que ali estamos), alguém que se passeia com nariz de palhaço e flores, murmurando palavras como silêncio e pausa.

 

A última cena é indescritível de bela. A música, as vozes, a luz, a melancolia, tudo misturado com a sensação de que não percebemos nada de nada, nada do que passámos, do que vivemos, do que somos, e ao mesmo tempo que, apesar de tudo, aquilo é connosco. Que, apesar de tudo, continuamos a procurar a nossa própria personagem, individual e colectiva.

 

Seria isto o que o Meridional pretendia? Penso que cada um fará uma interpretação diferente.

 

Mais uma vez estão todos de parabéns. Não percam, mesmo.

Meridional - 25 anos de encantamento

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O Teatro Meridional comemorou, no dia 21 de Julho, 25 anos.

 

Em 54 espectáculos, cerca de 2 por ano, o Teatro Meridional foi criando peças inesquecíveis, em que a simplicidade dos cenários e da música, a magia das palavras, ou mesmo a sua quase ausência, associadas e interligadas com o espantosa performance dos actores, fizeram e fazem a sua imagem de marca - qualidade, ternura, inteligência, humor. Esta qualidade tem vindo a ser reconhecida pelas dezenas de prémios com que tem sido distinguido, e pela presença do público incondicional e cada vez mais numeroso.

 

Desde há cerca de 15 anos que têm o seu espaço próprio no Beco da Mitra, a melhor sala de espectáculos do Poço do Bispo, como diz Miguel Seabra que, com Natália Luíza, dirige esta família de gente de excepção. Não faltam o café e o chá, o bolo, as mantas no Inverno e os leques no verão, tantos toques de atenção particular que, também por isso, fazem do Meridional um Teatro único.

 

Sinto-me uma privilegiada por ter podido partilhar estes 25 anos. Sempre que vou assistir a uma das suas peças, saio de lá mais atenta, mais alerta, mais feliz.

 

Muito obrigada.

Um quarto de século

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O Teatro Meridional comemora 25 anos e dá-nos a todos um excelente presente de aniversário.

 

Não percam o que de melhor se faz em Portugal em teatro, música, cenografia e encenação, jogo de luzes e representação. É tudo bom, desde o espaço no Poço do Bispo, à simpatia e generosidade com que se acolhem os espectadores, à incrível criatividade e persistência dos seus Directores Artísticos e de todos os que com eles colaboram, tornando cada espectáculo numa experiência única.

 

Para ver e/ ou rever, aqui fica o calendário das reposições para este ano:

  • AL PANTALONE, de Mário Botequilha - já em cena, até 5/ Fevereiro,
  • A LIÇÃO, de Ionesco - de 22/ Fevereiro a 12/ Março
  • ANTÓNIO E MARIA, a partir da obra de António Lobo Antunes - de 30/ Março a 9/ Abril
  • O SR. IBRAHIM E AS FLORES DO CORÃO, de Éric-Emmanuel Schmidt - de 10 a 28/ Maio
  • CONTOS EM VIAGEM – CABO VERDE - de 12 a 30/ Julho
  • AS CENTENÁRIAS, de Newton Moreno - de 13/ Setembro a 1/ Outubro

 

Parabéns a quem nos sabe fazer rir, sonhar, chorar e pensar.

 

Do teatro como ópio

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Contos em Viagem - Macau

 

 

Encantamento e ópio, vício e magia, perfume e névoa, poente e noite, caminhos interiores que se perdem e acham, habitar o ar e as profundezas, limbo, estranheza, vinho doce e veneno.

 

É muito difícil encontrar as palavras que adjectivem a experiência de assistir a um espectáculo destes. Não se encontra uma razão, uma história. E no entanto elas lá estão, as razões e as histórias, o sentimento e a perdição, o querer ir e o ficar.

 

O espaço cénico minimalista, que se metamorfoseia sempre inebriante, o jogo de luzes, os sons e a música como actores intervenientes, a bailarina que aproxima e afasta o nosso olhar, e as palavras ditas, sussurradas, cantadas por um actor, numa amálgama a que não se consegue resistir.

 

Nunca é demais repetir quão maravilhosos são os criadores do Teatro Meridional. Nunca é demais dizer que é um espectáculo imperdível. E que nos faz tão bem.