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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Heróis de todos os dias

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Flachsscheuer in Laren

Max Liebermann

 

Sou médica. A minha especialidade tem-me mantido longe do furacão da COVID-19 mas, como todos os cidadãos, tenho tentado colaborar ao máximo para manter o país a funcionar ao mesmo tempo que se limitam contágios e se aguardam avanços terapêuticos e, principalmente, uma vacina.

Ninguém fica indiferente ao enorme empenho dos profissionais de saúde nesta época tão difícil, em que o seu trabalho, profissionalismo, generosidade e entrega são evidentes. Numa crise tão grave de saúde pública, eles são os mais visíveis obreiros da resistência. Aqueles que hoje, como todos os dias, em maior ou menor grau, cumprem o seu objectivo de vida que é cuidar e tratar doentes, com COVID-19, tuberculose, cancro, depressão, traumatismos, etc. E também solidão, tristeza, isolamento, empobrecimento. Porque todos os dias os profissionais de saúde são confrontados com essas realidades, para as quais se prepararam e para a quais continuam teimosamente a preparar-se dia a dia, ano a ano, durante toda a sua vida profissional.

E quando falo de profissionais de saúde estou a incluir todos os profissionais – médicos, de todas as especialidades, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, assistentes operacionais e técnicos, farmacêuticos, gestores, todos os que, diariamente, dão o seu melhor para manter a funcionar bem os serviços de saúde, nomeadamente o SNS que, agora, parece ter recebido o apoio unânime mesmo daqueles que sempre o acharam dispensável, que sempre têm propagado a sua agonia e a sua morte.

Mas a sociedade não se resume nem se esgota nos serviços de saúde e nos seus profissionais. Se eles nos merecem respeito, não menos respeito nos merecem todos os que, nos bastidores e com profissões e trabalhos menos visíveis e, sobretudo, menos glamorosos, permitem manter as cadeias alimentares e de serviços a funcionar, todos os que continuam a escoar produtos, a manter as portas dos supermercados e outras lojas abertas, pessoal de segurança, das Forças Armadas, das Câmaras Municipais, das empresas de recolha e tratamento de lixo, de limpeza das ruas, estabelecimentos hospitalares e outros, das casas mortuárias, dos cemitérios, da Assembleia da República, do Governo, os professores, os PTs, os músicos, os poetas, os actores, todos os artistas que nos entretêm e nos ajudam a não enlouquecer. De todos os invisíveis heróis que não são homenageados nem ovacionados pela sua competência, profissionalismo, generosidade e entrega.

Embora eu própria não faça parte do pelotão da frente no combate a esta pandemia, sinto-me orgulhosa pelo excelente trabalho que tem sido feito e que, neste país que nos habituámos a denegrir e a minimizar, tem mantido a situação controlada e dentro dos limites que possibilitam a adaptação possível ao desconhecido. Isto tudo apesar das inúmeras intervenções alarmistas, arrogantes, descontextualizadas e reivindicativas de estatutos especiais de muitos dos que deveriam ser os mais responsáveis e discretos interventores de todos. Não é assim que defendem os profissionais nem é assim que se dá confiança à população, sedenta de segurança e indicações precisas, quando há tanto que não se sabe e que se muda de dia para dia. Ninguém é especial, todos somos indispensáveis uns aos outros. É e sempre foi uma evidência, mas com esta pandemia tornou-se ainda mais evidente.

Do esboroar do projecto Europeu

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A sensação difusa de que a União Europeia se está a esboroar está cada vez mais intensa e real. Quando António Vitorino, ex-comissário e europeísta convicto, na rentrée política do PS afirma que a divisão entre os grupos dos ganhadores e perdedores é uma ameaça ao projecto europeu, podemos estar certos de que, no PS, começa o afastamento ao europeísmo militante.

 

Já não é possível ignorar os sinais que se foram acumulando ao longo de tantos anos e que se agudizam diariamente. A desigualdade, a falta de solidariedade e de coesão entre os países da Europa Central e do Norte e a Europa do Sul, o desemprego galopante, o esfarelamento da democracia nos países da periferia sob o jugo das dívidas e da recessão económica e a crise dos refugiados, confluem para a tempestade perfeita.

 

O populismo e a xenofobia aumentam e estão predominantemente (mas não apenas) do lado dos euro-cépticos. O afastamento entre as populações e os representantes europeus é cada vez maior e está a ser arregimentada pelos extremismos. A crise dos refugiados ameaça ser a gota de água pela incapacidade demonstrada na sua resolução, com a proliferação de muros entre fronteiras e o alargamento das sensações de insegurança e de medo por entre as populações.

 

Angela Merkel está a perder o seu eleitorado sendo uma das poucas vozes que se mantém fiel ao seu compromisso com a integração e o acolhimento dos refugiados. Mas as opiniões públicas revoltam-se contra o que pensam ser a razão da sua própria pobreza e insegurança. Os líderes extremistas têm sido muito bem sucedidos em integrar o pensamento de que o que é diferente é perigoso.

 

Infelizmente estou convencida que as forças centrífugas são cada vez mais fortes e que não há arte, engenho nem vontade para dar a volta à situação, de forma a que os europeus se possam reconciliar uns com os outros, vencendo a desconfiança de que falava António Costa, recuperando os valores que estiveram na fundação desta União.

Dos distanciamentos impossíveis

A honestidade intelectual obriga-me a reconhecer como verdadeiros alguns dos reparos que me fizeram: o não me ter manifestado aquando de outros processos em que os arguidos, tal como aconteceu com Sócrates, foram exibidos e julgados na praça pública.

 

É verdade que, mesmo que o tenha pensado, não o disse com a veemência que mereceriam ou, pior, não o terei mesmo equacionado. E isto diz-me muito sobre a minha própria forma de encarar e de abraçar as causas que considero nobres - tenho pouco distanciamento e muitas vezes actuo orientada por preconceitos.

 

Seria bom que, numa próxima vez em que me colocasse à prova, pudesse ser mais justa e mais imparcial. Mas a liberdade total em que o comprometimento com os outros não existe é, para mim, impossível. Em muitas circunstâncias, os afectos guiam a minha razão.

Maria de Lurdes Rodrigues

 

Da justiça temos uma ideia romântica de igualdade, imparcialidade e infalibilidade. De um sistema de justiça queremos que seja rápido, certeiro e rigoroso.

 

Não conheço Maria de Lurdes Rodrigues. Pertenço a uma área profissional totalmente distinta, nunca me cruzei com ela nem profissional nem socialmente. Tenho dela, no entanto, a maior das admirações e um enorme respeito pelo que tem lutado pelo serviço público de Educação, nomeadamente no governo de Sócrates.

 

Não seria intelectualmente honesto da minha parte se, agora, viesse a desacreditar todo o processo em que está envolvida. Ainda tenho esperança que o objectivo da justiça seja ser certeira e rigorosa, já que não é igual para todos os cidadãos, muito menos rápida.  Espero portanto, tal como todos o devemos fazer para todos os processos, o desenrolar dos acontecimento e a conclusão de que, ao contrário de ter prevaricado no exercício de um cargo público, o honrou e dignificou, como eu penso que o fez.

 

No entretanto presto-lhe a minha homenagem.

Da lentidão dos dedos

 

É verdade que tenho feito todos os esforços para me manter afastada de notícias. Desligo o Crespo, mudo de canal mal vislumbro a Ana Lourenço, retiro o volume à Judite de Sousa e a todos os (poucos e sempre os mesmos) convidados das várias actualidades televisivas. Ainda vou ouvindo a TSF mas a RFM tem ganho audiência no meu gabinete.

 

Mas as (más) notícias impõem-se como o céu de chuva deste inverno. Os massacres nas escolas do EUA são daquelas coisas que ultrapassam a minha capacidade de entendimento. Não consigo perceber que patologia individual e colectiva é esta que multiplica os tiroteios, ceifando crianças e jovens, em nome de quê ou para quê. Já vi filmes e documentários que abordam este assunto, mas permaneço obtusa.

 

Por cá continuamos com a depressão generalizada causada por um governo de alienados, por um Presidente que se demitiu (e ainda não se/nos deu conta disso) e uma oposição irrelevante.

 

Portugal entristece, envelhece e lentifica. A média etária da população está acima dos 50 anos, pelo menos nas filas das caixas dos supermercados, onde o tempo de ensacar, procurar o dinheiro e contá-lo se multiplicou pela dezena, com os entorpecidos dedos catando moedas, os entorpecidos olhos perscrutando-lhes o valor, a enervada mente fazendo contas. Nas lojas deambulam olhos mais ou menos gulosos em dieta acelerada. Muito antes do downsizing da gente mediática, já o país encolheu e continua a encolher. Abundam os novos e os antigos pobres. Ontem mesmo ouvi uma história de uma miúda que anda 12 Km a pé (6 à ida e 6 à vinda) para ir à escola, não traz almoço e ninguém lho dá. As reunites que atacam tantos docentes poderiam servir para a resolução deste problema. Mas a moda da sociedade civil é só para peditórios e declamações piedosas, não é para o dia a dia da solidariedade.

 

Pois, esqueci-me que a caridade é mais amorosa.

 

Os Pobrezinhos

 

A concepção da vida em sociedade, da mobilidade entre classes sociais, de direitos e deveres das pessoas, mntém-se ainda em muita gente, que ocupa lugares de responsabilidade precisamente em organizações que se pretendem de solidariedade, que deveriam colmatar as gritantes desigualdades num país com as dificuldades crescentes que existem, ao nível das caridosas e pias senhoras que esmolavam e usavam os seus pobres.

 

O consumismo, a inversão de valores e prioridades, tudo isso é criticável e não sustentável. Mas neste momento, a moral vigente castiga a gente que se atreveu a ter as mesmas aspirações de uma escassa minoria que tinham e têm direitos e privilégios, adquiridos por nascença.

 

Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

 

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:

 

- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.

 

O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

 

- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

 

Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto

 

(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)

 

de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

 

- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

 

o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

 

- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu

 

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros

 

- O que é que o menino quer, esta gente é assim

 

e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

 

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

 

- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar

 

e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

 

Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

 

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis.

 

António Lobo Antunes

 

Através da Rita Taborda Duarte

 

 

Igualdade

 

 

Há umas horas fui abordada por um vendedor da revista Cais. Lourinho, bonitinho, oriundo de algum dos países da Europa de Leste, pediu-me um pacote de fraldas para a sua criança de ano e 3 meses. Satisfiz-lhe o pedido.

 

Mas será que se fosse mulato, negro ou cigano, se fosse gordo e sem dentes, a minha disponibilidade era tão imediata? Gostaria de pensar que sim, estou tentada a ter a certeza de que responderia prontamente da mesma forma, mas não o afirmo assim, sem pestanejar.

 

O racismo e a xenofobia são-nos mais intrínsecos do que gostaria de admitir. Na verdade somos conduzidos por estereótipos e por imagens feitas, por muito que reciclemos aquilo a que chamamos valores de igualdade, fraternidade, solidariedade. E eu, que sei que todos somos exactamente iguais, filhos do mesmo número de cromossomas, com engenharias celulares semelhantes, que respiramos a mesma mistura de gases, que necessitamos dos mesmos alimentos, será que me despojei dos condicionalismos que, mesmo inconscientemente, subsistem arreigados no mais fundo de nós mesmos?

 

Em cerca de 2 meses

 

Este governo, eleito para cumprir uma rigorosa mudança de atitude governativa, com enormes e exuberantes cortes nas despesas do estado, anunciadas, escolhidas e conhecidas pelos estudiosos especialistas, pensadores, opinadores e comentadores da área actualmente no poder, tem anunciado em conferências de imprensa, mais impostos e nenhuma medida para reduzir as despesas (estou a esquecer-me, obviamente, da reduzida dimensão do governo).

 

Desde 5 de Junho, em pouco mais de 2 meses, aqueles que não aprovaram o PEC IV, já introduziram um imposto extraordinário (subsídio de Natal), aumentaram os transportes públicos (em cerca de 12% - média) e aumentaram o IVA para 23% no gás e electricidade.

 

O Estado propõe-se ajudar as IPSS para que elas apoiem os cidadãos com maiores dificuldades (Plano de Emergência Social), mas parece que terá que as salvar primeiro da falência. Para isso nada melhor do que aligeirar as regras de funcionamento, tal como se podem aligeirar as regras de segurança e higiene dos produtos alimentares, tal como se podem aligeirar as regras de segurança para o consumo de medicamentos, para os cidadãos com maiores dificuldades. No entanto o Estado não parece preocupado em salvar os hospitais do SNS pagando-lhes os enormes montantes que lhes deve, colocando em causa o normal funcionamento dos mesmos e o atendimento adequado aos doentes, mas sugere que apertem os cordões à bolsa e que tenham contenção. Temos a vantagem de assistir à criação de um organismo... que já está criado.

 

Confesso que me escapa esta escala de prioridades.