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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da incongruência das avaliações

Não deixa de ser interessante que a mesma ERS que, segundo os inspirados tremendos títulos dos submersos pelo permanente caos no SNS, condenou o HVFX por internar doentes em refeitórios e casas de banho, classifique o mesmo HVFX com a classificação máxima de 3 estrelas em várias componentes, nomeadamente na vertente Adequação e Conforto das Instalações.

sinas hvfx.png

SINAS - ERS

HVFX

É também interessantíssimo que os detractores da ignominiosa existência de PPP na saúde não tenham comentários a fazer sobre os resultados do SINAS na avaliação dos Hospitais.

Alguns factos verdadeiros para afirmações alternativas

A Ordem dos Médicos disponibiliza, online, estatísticas por especialidade - as mais recentes são de 2017.

Dessas estatísticas, realço apenas a especialidade de Ginecologia / Obstetrícia, a propósito das notícias diárias de caos, falta de especialistas, urgências e maternidades a fecharem, etc.

Convém não esquecer que os médicos especialistas podem deixar de fazer urgências nocturnas a partir dos 50 anos - na especialidade de Ginecologia / Obstetrícia há 74% de médicos com mais de 50 anos. Mas a partir dos 55 anos, podem também deixar de fazer urgências diurnas - nesta mesma especialidade 61% dos médicos têm mais de 55 anos e 32% têm mais de 65 anos (a idade da reforma é por volta dos 67 anos).

Ou seja, o problema das urgências em Ginecologia / Obstetrícia tem principalmente a ver com o envelhecimento dos médicos.

gineco obst OM 2017.jpg

 

Por outro lado, e lendo o Relatório Social do Ministério da Saúde e do Serviço Nacional de Saúde (o último disponível é também de 2017):

  • pág. 24 - A carga horária predominante em todos os grupos profissionais é, com exceção do pessoal médico, as 35 horas semanais (53,9%), o que decorre da entrada em vigor da Lei n.º18/2016, de 20 de junho, que alterou o período normal de trabalho (PNT) em 2016. No caso do pessoal médico, mercê do respetivo enquadramento legal, predomina o período normal de trabalho de 40 horas semanais.
  • pág. 30 - A taxa média de retenção global dos médicos recém-especialistas que concluíram o internato médico no ano de 2017, foi até à data, na ordem dos 84%. Evidencia-se as especialidades com o maior número de recém-especialistas ativos nas entidades como a Medicina Geral e Familiar, Medicina Interna, Anestesiologia, Cirurgia Geral e Ginecologia/Obstetrícia, apresentando estas especialidades taxas de retenção global entre os 83% e os 91%.

Ou seja, ao contrário do que muitos comentadores e opinadores comentam em todos os media, o problema da falta de médicos nada tem a ver com a redução das 40 para as 35 horas semanais, pois os médicos mantêm as 40h/ semana.

E em relação ao facto de haver muitos médicos a serem seduzidos pelos Hospitais Privados, isso não é globalmente verdade e, no caso da especialidade de Ginecologia / Obstetrícia, não o é especificamente.

 

Resumindo - há falta de médicos sim, porque eles não existem e não se formam de um dia para o outro.

Das antigas novidades

Nada do que se está a passar no SNS, em termos de escassez de recursos humanos, pelo menos médicos, é novidade e estava prevista e diagnosticada há décadas. Gostaria muito de ouvir alguém, nomeadamente jornalista, a informar sobre o seguinte:

  • Qual a percentagem de médicos com idade superior a 55 anos - é que os médicos com mais de 50 anos deixam de fazer urgências nocturnas, e com mais de 55 anos deixam de fazer urgências diurnas.
  • Quais as especialidades com maior percentagem de população acima dos 50 anos.
  • Porque se continua a repetir que não há falta de médicos quando os concursos para o SNS abrem e muitas vezes fecham sem que as vagas sejam preenchidas.
  • Porque não se pondera a possibilidade de haver um determinado número de anos em que os médicos deverão prestar serviço no SNS, aonde for necessário - o serviço médico à periferia foi uma obrigação das gerações que estão agora perto da idade da reforma.
  • Porque motivo a Ordem dos Médicos demora uma infinidade de tempo a despachar os pedidos de validação de licenciatura e títulos de especialista a muitos emigrantes médicos que gostariam de trabalhar no SNS?
  • Porque razão se mantém a MAC a funcionar, quando há uns anos se chegou à conclusão de que 4 maternidades na zona de Lisboa eram de mais? Tanto quanto sei pelas estatísticas que vão aparecendo, a natalidade mantém-se num nível baixíssimo.
  • Poque não se reorganizam todas as urgências e não se constituem serviços rotativos, não só para a Obstetrícia mas também para as outras urgências dentro da cidade de Lisboa? Há uns anos falou-se da premência dessa medida a propósito da urgência de neurocirurgia.
  • Porque não se altera a forma de entrada nas Universidades de Medicina, porque não se aumentam as vagas? O afunilamento da profissão médica, apadrinhado pela Ordem, é uma das causas, se não a principal, da presente situação (um médico demora entre 10 a 12 anos a formar).
  • Porque não se revêem as carreiras e as remunerações dos médicos no SNS, porque não se implementam incentivos e prémios baseados no desempenho?
  • Porque não se revêem as carreiras dos enfermeiros e dos técnicos de saúde, redefinindo as suas competências e dando-lhes remunerações dignas e que reflictam a sua formação exigente e contínua, de forma a que esses profissionais tenham um papel mais activo, partilhando tarefas para as quais tenham formação?
  • Porque não se investe em equipamentos, nomeadamente informáticos, para libertar os profissionais das horas gastas ao computador?
  • Porque não se organizam centros de meios complementares de diagnóstico junto de centros de saúde para libertar os hospitais de exames que poderiam e deveriam ser feitos fora das unidades hospitalares?
  • Porque não de dotam os centros de saúde com consultas de especialidade, libertando as horas dos médicos para trabalho exclusivamente hospitalar?

Estes problemas não são de agora e chega a ser pornográfico ouvir agentes políticos e jornalistas repetirem aquilo que existe há décadas como se fosse novidade, ouvir repetir mentiras sobre as PPP, como se o SNS se resumisse a 4 hospitais em PPP.

É tudo demasiado triste e muito cansativo.

 

https://www.edulog.pt/artigos/em-analise/em-debate-ha-falta-de-medicos-em-portugal

https://www.spp.pt/UserFiles/file/Publicacoes/Estudo_Evolucao_Prospectiva_Medicos_Relatorio.pdf

A nova Ministra da Saúde

marta temido.JPG

Nuno Ferreira Santos

Público

 

Se tem propostas polémicas é bem vinda. Com algumas delas concordo, já há bastante tempo. Espero que as possa colocar mesmo em prática.

 

É urgente mudar e adaptar o SNS às novas realidades. Já o era há uma década, agora é ainda mais.

 

(17.01.2015)

(...) Continuo à espera que o PS, como partido que procura uma maioria absoluta para governar este desgoverno, proponha uma reforma, reestruturação, ou outra qualquer palavra que tenha um significado semelhante, com as seguintes prioridades:

  1. Investir nos cuidados primários de saúde – descentralizar o sistema deslocando a porta de entrada dos doentes para os seus centros de saúde, afastando-as do sistema hospitalar;
  2. Prover esses centros de saúde com meios de diagnóstico de rotina, próprios ou contratualizados, para que possam tratar e seguir doentes com patologias crónicas;
  3. Prover os centros de saúde de consultas de especialidade por especialistas, que possam acompanhar os doentes na comunidade, em vez de terem que sobrecarregar os hospitais, incluindo pequenas cirurgias, estomatologia, oftalmologia, etc, para que permitisse a saudável e indispensável convivência interdisciplinar com os médicos de medicina geral e familiar;
  4. Rever e providenciar para que as carreiras de enfermagem e de técnicos de diagnóstico e terapêutica possam assumir determinadas funções que, ao contrário de retirarem competências aos médicos os ajudam e os preservam para actos e funções que só eles podem fazer, com a respectiva formação e recertificação de competências;
  5. Rever e reestruturar as redes e os serviços hospitalares, começando por definir as prioridades de atendimento e de serviços oferecidos, com base no conhecimento das patologias e realidade/ dimensão das populações – investir em centros de estudo epidemiológico, estatístico, como o registo oncológico nacional, etc.
  6. Reajustar e renovar os quadros de recursos humanos, em todas as vertentes, mantendo uma estrutura que permita a formação dos mais novos e a optimização e eficiência do funcionamento dos serviços
  7. Alterar as remunerações do pessoal de saúde, com uma avaliação do desempenho real e rigorosa, adaptada a cada área e a cada função, motivando e premiando o mérito
  8. Apoiar e incentivar a formação contínua, a recertificação e a acreditação dos serviços e dos profissionais, numa cultura de verdadeira aposta na qualidade – redução dos riscos. (...)

 

Das reflexões adiadas

antonio costa.jpg

 

Não sei se se trata de salvar o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Somos pródigos em exclamações dramáticas e declamações catastrofistas. Mas a verdade é que a reflexão sobre o SNS há muito tempo que está a ser feita por várias pessoas e que esta afirmação de António Costa peca por pífia, vem a reboque de um livro de António Arnaut e João Semedo, e sabe a muito pouco, ou mesmo a nada.

 

Há anos, mesmo décadas, que sabemos que há reformas profundas a fazer no SNS, sob pena de este se tornar insustentável e obsoleto, onerando e discriminando as camadas da população mais vulneráveis. Sabemos que um SNS universal e gratuito reduz as desigualdades sociais, sustenta a democracia e é menos gastador que as várias misturas entre público e privado que se observam no Canadá, EUA, etc, para além do óbvio contributo para a melhoria da saúde e da qualidade de vida das populações.

 

Já várias vezes abordei este assunto. Infelizmente ainda não vi, da parte deste governo e desta maioria, uma séria vontade de mudar o que tem de ser mudado. Há múltiplas reflexões, estudos e livros brancos sobre o problema do SNS e da forma como a sua reforma é urgente. Mas não há decisões políticas que alterem, de facto, o que se está a passar.

 

Todos os anos, nas férias de Verão e no pico da gripe, se enchem as notícias com as horas de espera nas urgências hospitalares e com a falta de recursos humanos. E todos os anos assistimos ao poder político a aumentar pontualmente os horários de funcionamento dos Centros de Saúde (CS) e a contratar a peso de ouro profissionais sem qualquer ligação aos hospitais e/ou aos doentes, para atenderem urgências hospitalares que não têm indicação para isso.

 

Mais uma vez, e repetindo o que já disse por diversas vezes, a aposta nos cuidados de saúde primários é indispensável, deslocando a entrada no sistema de saúde para os CS, libertando os Hospitais para os casos que não podem ser resolvidos fora do âmbito hospitalar.

 

Porque não contratar especialistas para darem consultas nos CS, inclusivamente ressuscitar a figura da visita médica ao domicílio, de forma a impedir que os doentes se desloquem às urgências hospitalares? Porque não haver atendimentos permanentes nos CS, que deveriam ter recursos humanos e técnicos para diagnosticar e medicar os doentes, libertando-os de horas de espera, incómodos, riscos e gastos evitáveis?

 

Sr. Primeiro-ministro, a reflexão é boa em qualquer altura, mas a acção tarda, tarda, tarda! O SNS está anquilosado, com escassos recursos, quadros envelhecidos e desmotivados, equipamentos obsoletos, horas de trabalho a mais e remuneração a menos. Não é um  problema novo mas é cada vez mais difícil de resolver, porque ninguém tem coragem de o enfrentar.

SNS eficaz e sustentável - concentração das equipas

Simplificando muitíssimo, a taxa anual de rotura de aneurismas cerebrais é de 8 a 10/100.000 habitantes o que, em Portugal, significa 800 a 1.000 casos em todo o País (considerando que somos 10.000.000) ou seja no máximo cerca de 83 por mês ou 20 por semana. Se dividirmos grosseiramente o País em 5 grandes regiões - norte, centro, sul, Açores e Madeira, concluímos que, em cada uma, haverá necessidade de intervenção em 4 casos por semana.

 

É claro que têm que se acautelar as distribuições demográficas e geográficas e os perigos de transferência destes doentes, mas a verdade é que talvez devesse ser ponderada, pelo menos para algumas situações altamente especializadas, como é o caso, a concentração de esforços e a formação de equipas de urgência inter-hospitalares. Se calhar não haveria necessidade de ter 3 ou 4 centros hospitalares na Grande Lisboa (CHLO, CHLN, CHLC e Hospital Garcia de Orta, pelo menos) com equipas de urgência a funcionar em prevenção. Porque não haver uma ou 2 equipas formadas por médicos, enfermeiros e técnicos que pudessem usar um ou os vários centros hospitalares, conforme fosse mais exequível?

 

Estou apenas a dar um exemplo, não faço ideia se seria uma boa solução, mas a verdade é que provavelmente não se justifica ter equipas de cirurgia neurovascular (ou de outras especialidades) em todas as unidades hospitalares. Os meios devem ser usados criteriosamente e sem desperdício de recursos técnicos e humanos. Os custos devem ser adequados, nem a menos nem a mais.

 

Espero que as verdadeiras reformas do SNS comecem. O objectivo de servir o melhor possível e com adequação de meios deve nortear-nos a todos, decisores políticos, gestores, profissionais de saúde e cidadãos.

O direito à saúde

A morte de um jovem por aneurisma cerebral, num dos principais hospitais da capital do País, por não haver equipa de neurocirurgia durante o fim de semana é demasiado grave e chocante. Não é possível aceitar esta situação. Espero que, para além das demissões a que estamos a assistir, sirva pelo menos para que alguma coisa seja feita. Como é possível não haver neurocirurgia vascular de urgência em nenhum dos dois maiores Hospitais de Lisboa? Como é possível que os Directores dos Serviços de Urgência, os Directores dos Serviços de Neurocirugia, os Directores Clínicos, as Administrações Hospitalares, a própria ARS tenham convivido com esta realidade?

Da publicidade enganosa

DN 3 Mai 2015.jpg

 

No dia 3 de Maio o DN brindou os leitores com um artigo com chamada de primeira página titulado Terapia inovadora contra o cancro tem êxito superior a 90 por cento, terapia essa disponibilizada pela Fundação Champalimaud.

 

O artigo conta a história de uma mulher de 46 anos à qual é diagnosticado um tumor do ovário metastizado (galopante, segundo a expressão empregue no texto). A estratégia terapêutica que lhe foi proposta no Hospital Público incluía quimioterapia e radioterapia durante um ano, operações. Como a doente não queria ir por ali, a conselho da sua médica ginecologista consultou um médico da Fundação Champalimaud e começou um tratamento 3 semanas depois - radioterapia de dose única.

 

A história da doente continua mais à frente. Ficamos a saber que sentiu alguns enjoos e tonturas durante o tratamento, nunca deixando de trabalhar nem de perder qualidade de vida, que as metástases intestinais tinham desaparecido embora os ovários ainda não estivessem completamente limpos. Desconhecia no entanto se necessitaria de mais algum tratamento e informava que tinha pago 12.000 euros (por 4 horas de tratamento). O artigo termina explicitando que o SNS tem um protocolo com a Fundação Champlimaud, que permite aos doentes serem aí tratados, embora nunca tenha sido posto em prática.

 

DN Champalimaud1.jpg

 

Quem ler esta peça acaba pois convencido de que os hospitais públicos não têm a terapêutica referida – radioterapia de dose única – que esta é revolucionária e pode ser usada para todos os tipos de cancro e com um sucesso praticamente total, para além de sugerir que o protocolo de colaboração entre o Estado e a Fundação não é accionado, afastando quem não tem dinheiro desta quase certeza de cura.

 

Claro que, quem souber alguma coisa de Medicina, percebe pelo meio do texto excertos de afirmações do Dr. Zvi Fuks, o Director do Centro Champalimaud, explicitando que, nos casos em que é indicada, esta terapêutica é excelente para o controlo de metástases e de algumas neoplasias primárias em fase inicial, sendo a localização dos tumores (esófago, traqueia, estômago, coluna vertebral) muito importante para a possibilidade de a utilizar.

 

Este género de artigos podem tornar-se muito prejudiciais ao público em geral e aos doentes em particular. Em vez de informarem, desinformam e criam falsas expectativas em curas e técnicas que, por muito boas e úteis que possam ser, não são certamete a panaceia para todos os males. Além disso, ao contrário do que se insinua, está disponível no SNS e é utilizada nos casos em que está indicada.

 

Apenas me apercebi de duas reacções, a esta notícia, o que me parece muito pouco, pois considero imprescindível que se esclareçam as pessoas quando expostas a uma publicidade enganosa. A sensação com que se fica é que o objectivo do artigo é fazer propaganda à custa de quem sofre uma doença grave e debilitante, com um peso psicológico tremendo, que faz com que as pessoas que lidam com ela, fragilizadas, recorram a tudo o que lhes possa oferecer esperança. E suspeito que qualquer dos profissionais que trabalha no Centro Clínico não deve ter ficado satisfeito com este género de publicidade.

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 O que mais me espanta é a ligeireza negligente como este artigo aparece escrito. Não terá ocorrido à sua autora questionar um Instituto Português de Oncologia sobre esta matéria? Não terá tido a curiosidade profissional de tentar perceber para que serve a técnica, como surgiu, quais as indicações? Ou de como se trata o tumor que a senhora em causa referia?

 

Cura para o Cancro.jpg

Da alucinante rapidez concursal

Vários jornais noticiaram que apenas 85 vagas de um total de 200 para médicos de Medicina Geral e Familiar tinham sido preenchidas, pelo que iria abrir novo concurso.

 

Portanto, para além de 37 candidaturas excluídas, o que significa que havia menos 78 concorrentes [(200-(85+37)]=que número de lugares, ficamos a saber que o concurso abriu em Abril passado, ou seja, há 9 meses. Pelo que entre o anúncio do novo concurso até à concretização do mesmo e depois até à sua conclusão... talvez lá para 2016 estejam apurados mais alguns médicos a contratar.