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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Linha de Separação

Desde há muito tempo que não seguia séries na televisão. Há muitos anos mesmo. Mas nos últimos tempos, com as excelentes séries que têm passado na RTP2, esse hábito vem-se instalando.

 

 

Primeiro com Nobel, uma série norueguesa que conta uma falhada negociação política entre a Noruega e o Afeganistão, numa tentativa de fazer um acordo de paz que servisse os vários grupos de talibãs, depois com esta Linha de Separação, redescubro a vontade de me sentar em frente ao televisor, ansiosa por ver a continuação da história.

 

Esta série tem como centro uma aldeia que ficou dividida ao meio pela guerra fria, logo após o fim da II Guerra Mundial. Está muitíssimo bem feita, transportando-nos a um tempo que não é assim tão longínquo, mas que quase parece inventado. A transformação dos fanáticos nazistas em fanáticos comunistas, os oportunistas, os que vivem numa nuvem ideológica, apercebendo-se duramente da mistificação, a forma como se doutrinavam as pessoas desde a mais tenra idade, tudo nos devolve a inquietação pelo que pode ser a instalação de uma ditadura duríssima, mesmo após a queda de outra, não menos dura. E tudo em nome do povo.

 

 

E agora voltamos a outra série norueguesa, que promete - Ocupados.

 

O baú de Hamburgo (2)

O baú de Hamburgo começa em 1966 com a entrega de um baú proveniente de Hamburgo, numa espécie de hotel/ dancing/ bar de uma vila no norte de França, dirigido a uma misteriosa Rosa Friederich. Um dos amigos da mulher que explora o dito hotel - Madame Olga - para além de actor amador, é um curioso vigarista (chama-se Louis Clovis). Logo que pode abre o baú, abandonado numa cave visto que ninguém sabe quem é Rosa Friederich, e descobre uma fotografia de um copo-de-água realizado em 1938, em que se vê o noivo - Paul Lassenave, a noiva - Rosa Friederich, o padrinho do noivo - Julien Lassenave, irmão de Paul, e outra pessoa que não conta para a história.

 

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Paul Lassenave (Paul le Person) & Germain Lassenave (Julien Thomast) & Louis Clovis (Raymond Bussières)

 

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 Julien Lassenave (Jacques Monod) 

 

A partir daqui, e enrolando as personagens umas nas outras, a trama desenvolve-se à volta do desaparecimento e possível assassinato de Rosa Friederich, 9 anos antes (1957).

 

Devo confessar que me foi bastante difícil perceber o enredo, pois o meu francês não é particularmente fluente. Além disso, não se pode dizer que o som estivesse nas melhores condições. Felizmente, no início de cada episódio, há um resumo do(s) anterior(es), feito por um narrador com muito boa dicção, o que ajudou imenso.

 

O ritmo desta série é cerca de 1/10 do ritmo das séries actuais. A qualidade da representação vai do razoável/ aceitável ao muito mau. Ao contrário das séries americanas não há música ambiente, os actores aparecem como de facto são, sem preocupações de maquilhar imperfeições ou escolher modelos/ estrelas de beleza e sedução, não sei se pela época em que foi filmada se por causa do estilo europeu, neste caso o francês. Provavelmente pelos dois motivos. Contrasta com a música alegre e saltitante de abertura de cada episódio; pelo contrário, a música com que terminam é lenta, triste e lúgubre. O guarda-roupa também é bastante parco, vendo-se Paul Lassenave usar um casaco crivado de nódoas do princípio ao fim da história. A fealdade das personagens e do local, a rigidez dos costumes e a sobriedade da encenação, contribuem para a sensação de realidade, que nunca se perde.

 

Lúgubre é uma boa palavra para classificar a história e a forma como foi filmada. Mas, apesar de tudo, mantém o interesse até ao fim e o desfecho é inesperado. Não tem um final feliz, combinando bem com o tom de toda a série.

 

Foi, portanto, um êxito! Desvendou-se o mistério de Rosa Friederich e eu passei umas belas horas a (re)ver uma série que me tinha deixado encantada há cerca de 40 anos e que, ainda hoje, mantém o espectador em suspenso. Entretanto, apercebi-me que havia mais quem se lembrasse e procurasse a série, alguns tão obcecados como eu.

 

...la fin.

 

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ADENDA: Deram-me a informação preciosa de que O baú de Hamburgo passou na RTP, aos domigos à tarde, a partir de 13 de Junho de 1976.

 

O baú de Hambourg (1)

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Este foi um projecto ganhador, na tradição das melhores histórias policiais que tenho lido, passe o auto elogio.

 

O baú de HamburgoLa malle de Hambourg – é uma série francesa de 1972, que passou na nossa TV há muitos anos, talvez em 1976 ou 1977, não consigo precisar, da qual eu devo ter visto alguns bocados de alguns episódios. Naquela altura a quantidade de televisão que víamos era muito inferior e os nossos interesses bem mais diversificados, pelo que fiquei sempre sem saber exactamente o fio da história, assim como a sua conclusão.

 

Tudo girava à volta de um baú proveniente de Hamburgo, embrulhando-se depois o enredo em crimes, teatro amador e muito mais de que não me lembrava. Mas a curiosidade ficou e durante todos estes anos tenho tentado descobrir a série para ver se ainda mantinha o interesse que na altura me despertou.

 

O problema é que eu não sabia nada da série – não sabia se era francesa, belga ou outra qualquer nacionalidade onde se falasse o francês. Não me lembrava do nome – sabia que tinha algo ver com um porto e o nome que me vinha à memória era Amsterdão. Aliás, provavelmente condicionada por Jacques Brel, procurava afincadamente o nome Le port d’ Amsterdam. Não conhecia qualquer dos actores, nem tão pouco o realizador. Enfim, descobrir o rasto de uma obscura série televisiva que tinha passado por Portugal há cerca de 40 anos era uma tarefa árdua e quase impossível de concretizar.

 

Já não sei como me surgiu o verdadeiro nome da cidade portuária – Hamburgo! E depois, de imediato, o resto do título – A mala de Hamburgo!

 

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Porto de Hamburgo 

 

A Internet, mais uma vez, demonstrou ser uma prodigiosa ferramenta para detectives modernos e pesquisadores de tesouros enterrados nas brumas do tempo e da memória. Devolveu-me rapidamente La malle de Hambourg. Portanto não era uma mala mas sim um malão, ou um baú.

 

E pronto, reconheci de imediato a cara do actor que aparece no trailer. Sim, era mesmo aquela. O problema era encontra-la à venda – pode comprar-se através do INA, como me confidenciou alguém que encontra séries ainda mais arrevesadas que esta. Outro problema era compreender o francês, pois nem pensar em legendas de qualquer tipo, nem mesmo na língua original, o que ajudaria bastante.

 

Mas a satisfação era tanta e a possibilidade de, finalmente, ver a série de fio a pavio, que arrisquei. Chegaram 10 DVD, pelo correio, pontualmente 10 dias após a encomenda, tal como prometido…

 

…à suivre…

 

Reviver o passado em Brideshead

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O distanciamento temporal em relação aos acontecimentos garante uma certa aproximação ao que de facto aconteceu. O espaço de uma vida é pouco e aquilo que se passou desde que nascemos parece-nos muito mais actual do que na realidade o é.

 

Quando olhamos para as mudanças sociológicas que se observaram durante todo o século XX, parece-nos impossível igualar as revoluções e as notáveis alterações que partiram o século grosseiramente em três partes: antes da I Grande Guerra, entre a I e a II Guerras Mundiais e o pós-guerra, se ignorarmos o fim da guerra fria e a extraordinária descoberta das novas tecnologias de informação, que já entram pelo século XXI.

 

Reviver o passado em Brideshead é uma série televisiva que se baseia no romance homónimo de Evelyn Waugh (Brideshead Revisited, The Sacred & Profane Memories of Captain Charles Ryder), escritor britânico que atravessou grande parte dos tumultos a que me refiro. A história que conta é passada precisamente no período entre as duas Grandes Guerras, uma recordação melancólica do fim de uma determinada época.

 

O estilo de vida das elites inglesas, umas relacionadas com a aristocracia decadente, outras representando o novo poder económico, sem passado mas com futuro, as bolhas aparentemente algodonosas em que existiam os pobres meninos ricos, Oxford, o ócio, a intelectualidade e a boémia da vida estudantil dos poucos afortunados que a ela podiam ascender, os problemas religiosos num mundo em constante mutação, os costumes, o amor nas suas várias facetas – homossexual, heterossexual, sufocante e manipulador, delicado e superprotector, a estratificação social. A própria recordação, como se fosse um encantamento anterior aos duros tempos da Guerra, encarnado pela personagem de Charles Ryder (talvez até um pouco autobiográfico), que já no fim da mesma regressa mentalmente ao conforto e às inquietações da juventude.

 

O livro é excelente e a série cola-se-lhe como uma segunda pele. Não me lembro de a ter visto quando por cá passou, já há vários anos. Ou se, pura e simplesmente, não tinha idade, estofo ou profundidade para gostar dela. Mas para quem tenha oportunidade não perca o livro e, depois, a série. Não me posso pronunciar sobre o filme de 2008 porque não o vi. Mas confesso custar-me a entender como se condensa o livro em duas horas. Uma das razões pelas quais me deleito com as séries inglesas é o seu ritmo, o seu rigor e a sua espantosa veracidade.

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Do diletantismo (pouco) militante

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Hoje lembrei-me desta minha amiga e colega por duas vezes. Primeiro porque ouvi, por acaso, um programa na TSF (Património à mesa) sobre história da alimentação e dos alimentos, hábitos culturais ligados à gastronomia e à mesa, dos ricos e dos pobres. Ana Marques Pereira foi uma das convidadas e ainda bem. Desde há muito tempo que lhe conheço o gosto e a curiosidade por estes e outros temas, que ela não é pessoa para se esgotar num único interesse. Há cerca de 1 ano organizou uma exposição sobre licores, publicou um livro, e até eu participei numa aula sobre a confecção dos mesmos.

 

A segunda foi ao ver um episódio de uma série com a Miss Marple, detective amadora criada por Agatha Christie. E lembro-me de discutirmos as nossas adaptações preferidas dos detectives de Agatha Christie: Poirot e Miss Marple. Na realidade, embora concorde que a série protagonizada por David Suchet é a que melhor representa a personagem de Hercule Poirot, um detective belga muito vaidoso, pequeno e de cabeça ovóide, com um bigode magnificente e umas células cinzentas bem activas, não a acompanho quando considera que a Jane Marple de Joan Hickson é fiel ao retrato que dela faz a sua criadora.

 

Confesso  que não conheço nenhuma série nem nenhum filme que, a meu ver, consiga mostrar-nos uma velhota solteirona frágil, ligeiramente anafada, um pouco atarantada, coberta de malhas fofas, com uns olhos azuis penetrantes e inteligentes e que, sempre em conversa com os outros, deslinda os mais complicados e misteriosos crimes. A que está a passar agora no FOX Crime é muito interessante mas, mais uma vez, longe daquilo que eu imagino que seja a Miss Marple.

 

Não sei se a minha Miss Marple gostaria de cozinhar, mas suspeito que sim e que apreciaria a experimentação e a curiosidade de combinar produtos diferentes. No seguimento dessa minha hipótese já despachei uma das abóboras, fazendo um doce de abóbora com chocolate, cuja receita encontrei neste blogue fantástico, tal como o outro da mesma autora.

 

Juntei abóbora aos bocadinhos (enfim, mais aos bocadões) com açúcar (650 g por cada quilo de abóbora), canela (em pau, 2 por quilo), sumo e raspa de laranja (1 por quilo) numa grande panela que foi ao lume, e esperei mais ou menos pacientemente que começasse a fazer ponto. Nessa altura triturei a abóbora com a varinha mágica (é melhor retirar os paus de canela antes) e deixei que chegasse à tão ambicionada estrada. Depois parti chocolate de culinária (com 70% de cacau, 100 g por quilo) aos quadradinhos e deixei derreter, mexendo sempre. Foi um êxito, mais fora do que dentro de casa porque, como em tudo, Santos da casa não fazem milagres, dá Deus nozes a quem não tem dentes, etc.

 

Resta-me encontrar mais novidades para as outras arrumadas na cozinha, a estorvarem um pouco os passos de quem quer chegar à roupa. Enfim, tudo a seu tempo, que a vida não está para pressas nem inconseguimentos.

Unsere Mütter, unsere Väter (Nossas mães, nossos pais)

 

 

Esta série de 2013 foi mais uma oferta de Natal. É a história de 5 amigos e o que lhes acontece durante a guerra. É uma visão alemã da 2ª Guerra Mundial, o que, pelo menos para mim, é uma novidade. Centra-se predominantemente na frente russa, onde alguns dos protagonistas prestam serviço. Crua, seca, bem filmada, mostra como somos verdadeiramente iguais, independentemente da língua que falamos ou do país em que nascemos. As dores e as alegrias, o horror e o poder, tudo igual em qualquer lado do mundo, com qualquer ser humano.

 

 

The Bletchley Circle

 

 

E para continuar em modo de celebração, nada melhor que um excelente thriller, à boa moda inglesa - The Bletchley Circle. Quatro mulheres que trabalharam na descodificação dos códigos de comunicação alemães, durante a II Guerra Mundial, encontram-se 7 anos depois para descobrirem um serial killer.

 

Britânica, com o rigor, a maravilhosa interpretação e a sobriedade das séries inglesas, foram 3 episódios que souberam a muito pouco. Para além disso, fiquei a saber o que era o Bletchley Park e como trabalharam tantos homens e mulheres a quem o mundo ficou a dever a vitória da liberdade e da democracia.

 

 

Das ofertas recebidas (2)

 

 

Foyle's War, a 7ª série. foi outro dos presentes cinéfilos que recebi este ano.

 

Depois do fim da 2ª Guerra Mundial, Christopher Foyle é recrutado para os serviços secretos britânicos, no início da Guerra Fria, misturando-se as histórias de espionagem e contra-espionagem com os problemas de uma Inglaterra em grande crise, na época dos racionamentos e da reconstrução das cidades e das vidas dos cidadãos. Toda a envolvente de quem regressou da guerra, com feridas mais ou menos visíveis, de quem permaneceu na rectaguarda e sofreu os rigores e os horrores das populações civis, até ao mergulho na vida quotidiana que, apesar de tudo, continuou e continua.

 

Sam casou com um político, candidato a deputado pelo Labour e acaba a trabalhar para Foyle, tal como em Hastings. O mesmo rigor britânico e as mesmas histórias fantasticamente imaginadas por Anthony Horowitz.

 

Das ofertas recebidas (1)

 

 

Ellis Peters é um dos pseudónimos de Edith Pargeter, uma escritora inglesa que criou o Irmão Cadfael, um monge detective, cujas aventuras decorrem em Shrewsbury, entre os anos de 1137 e 1145, tendo como pano de fundo a guerra travada pela sucessão de Henrique I, entre Estêvão e Matilde de Inglaterra - The Cadfael Chronicles. Em Portugal estes livros, penso que a maioria, foi editada pela Europa-América.

 

Os livros desenvolvem-se na base de acontecimentos históricos reais. A figura de Cadfael [ˈkadvaɨl] é muito interessante visto que, antes de entrar para a vida monástica, foi combatente e marinheiro, o que lhe deu uma humanidade que, combinada com o conhecimento de ervas medicinais, lhe dá uma capacidade de entendimento, uma curiosidade e um raciocínio lógico que o leva a resolver os crimes e os mistérios que se lhe deparam.

 

Essa série de livros policiais foi adaptada para televisão, sendo o protagonista Derek Jacobi. É com um episódio por dia que faço durar esta maravilhosa prenda de Natal.