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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Não pense

 

 

Não pense. Levante-se e ande. Comer pouco, muito pouco. Café faz-se em casa, no aconchego do lar. Aquece-se o corpo com cobertores ou com outro corpo. Melhor a segunda hipótese. Tomar banho aos domingos e feriados, ou só aos domingos, porque vão acabar os feriados. Talvez não acabem com os dias do Senhor ou da Nossa Senhora, nesses também se pode tomar banho. Nos outros dias usam-se os lavatórios e os bidés, aqueles equipamentos que estavam a cair em desuso mas que, no Portugal do século XXI, são do mais avançado que há.

 

Não pense. Levante-se e ande. A roupa ainda serve. A nova moda é a recuperação do velho. Reciclar é o mote das novas temporadas, que se prolongarão não se sabe bem por quanto tempo. Andar a pé e muito, faz bem e ajuda a manter o peso. Mas as horas gastas nos transportes serão sempre bem aproveitadas a ler um livro ou a ler o livro do vizinho, ele que gaste o dinheiro, a falar das férias que há muitos anos se faziam, ou da desgraça da vizinha.

 

Não pense. Levante-se e ande. Almoços vegetarianos ou frugais, nas marmitas de transporte que se compram no continente, aquecidas nos micro-ondas do trabalho. Café? Demasiado pode fazer subir a tensão. Não pense. Levante-se e ande. O serão bem ocupado com a roupa, a louça, o pó, o aspirador. Puro exercício, melhora as articulações. De vez em quando vê-se a TV, RTP, TVI e SIC, que não há dinheiro para pagar o resto. Nem internet, nem jornais, nem cinemas, nem concertos, nem museus. As noites de sono são mais profundas.

 

Não pense. Levante-se. Ande.

 

Revista-Me 04

 

Das crónicas de Verão

 

Obrigatoriamente teremos que falar das praias, do calor, da falta de água, do pó, dos cremes, das irritações de pele, das sestas, dos filmes pirosos, das crianças embirrentas, do enorme luar, das gaivotas, das ondas que faltam, do sal, do mar, das pontes, dos barcos, do peixe grelhado, das saladas, das dietas, das unhas dos pés às cores, das sandálias, dos saldos, do suor, dos gelados, dos aperitivos, da enorme quantidade de falta de assunto.

 

Obrigatoriamente teremos que ter listas de livros para ler, listas de filmes para ver, listas de exposições para apreciar, listas de museus para visitar, listas de poemas para citar, listas de coisas imateriais que sempre adorámos mas não praticamos.

 

Obrigatoriamente teremos que nos lembrar como dantes era melhor, mais fácil, mais autêntico, mais natural, mais barato, o peixe mais vivo, o sol mais calmante, a sombra mais fresca, os homens mais galantes, as mulheres mais ativas, os filhos mais obedientes, as trouxas mais variadas, o vinho mais abundante, os estrangeiros mais gastadores, o mar mais apetitoso, a alface mais verde, os dias maiores, do tempo que lembramos distante e diferente do real.

 

Obrigatoriamente teremos que nos queixar do trânsito, do trabalho, do Inverno, do trabalho, dos colegas, do trabalho, do chefe, do trabalho, dos hipermercados apinhados, do trabalho, do preço da gasolina, do trabalho, da falta de transportes públicos, do trabalho, das mentiras dos políticos, do trabalho, da família, do trabalho, da violência, do trabalho, da solidão, do trabalho, da fome, do trabalho, do mundo virado do avesso, do trabalho.

 

Obrigatoriamente teremos que suspirar pelas futuras férias, pelo futuro lazer, pela futura cultura, pelo futuro descanso, sem que nos lembremos do gozo de podermos falar, queixar, sofrer, sonhar, crescer, trabalhar, incumprir, adiar, comer, dormir, usar o corpo e a alma e viver, sem horas ou estações definidas e marcadas, mas todos os dias.

 

Revista-Me 03

 

Vozes de uma Estrela Distante

 

 

Ana Sofia Pereira, um nome para uma mulher, estudou argumento na Universidade Católica, do Porto. Em conjunto com outros 4 jovens, tem uma empresa Produtora de Audiovisuais – Cimbalino Filmes – que já fez 4 anos, muitos trabalhos, outros tantos projectos e alguns prémios. Trabalhadora, metódica, pacata, silenciosa, divertida, dotada de um sarcasmo muito saudável, é uma filha do Porto, dos seus 28 anos, da sua geração.

 

Pulgarzinha, de Pulga, de Polegar, de inha, um nome para uma escritora ([…] Não mais do que uma pulga/ ou talvez menos ainda.), escondida, clara, dolorosa, sem rede para tanta emoção, para tanta letra. Os seus poemas, em verso ou em prosa, são reflexo de uma profunda solidão ([..]Sou o parasita da solidão/ que a suga até ao tutano.// […]), dessa solidão rígida em que os poetas se prendem, sem conseguirem romper alas a não ser pela voz do poema ([…]Experimento os dedos das minhas mãos,/ testo os dedos dos meus pés,/ dobro os braços e as pernas./ Corto tudo o que já não serve./[…]). O mundo que não se abre, o tropel que entope a garganta, o mundo virado do avesso (inspirar bem fundo,/ engolir todo o mundo/ e deixá-lo ficar/ até um dia/ ser capaz de expirar.), mas devagar, composta, firme, presente, com os olhos e o silêncio que a partem ([..]E eu aqui, pequenina, de pés fincados no chão a gritar até que alguém me ouça, a esbracejar até que alguém me veja...// E daqui não saio. Daqui ninguém me tira.).

 

Ana Sofia Pereira olha o mundo do lado de fora dele, do lado de dentro dela. A imagética remete-nos para a esfera de uma meninice que teima em perdurar, dentro de um crescimento doloroso a que se recusa, lembrando a personagem Oskar Matzerath, do filme O Tambor (1979, realização de Volker Schlöndorff, argumento de Günter Grass), que decide parar de crescer. Os poemas centram-se no corpo para se projectarem no espaço, na luz, nas estrelas, sempre uma realidade exterior em oposição à realidade interior. Versos curtos, melodiosos, absolutamente precisos e depurados, em que as palavras são a geometria do silêncio. A procura e a incerteza do que se quer dizer, do que se quer mostrar, a crua observação da incessante busca de se transcender, faz dos poemas questões e gestos que se encontram ([…]no epicentro da mais caótica sinfonia do mundo.).

 

Ana Sofia Pereira, Pulgarzinha, de Pulga, de Polegar, de inha.

(Vozes de uma Estrela Distante - http://uma-estrela-distante.blogspot.com/)

 

Gostava de ter um caderno que lesse as palavras que giram na minha cabeça e as escrevesse no papel. Porque a minha mão tem vontade própria, a caneta escreve só o que quer, e aquilo que imagino, o que vive na minha cabeça, não fica escrito no papel. O que aqui fica, é uma colaboração entre a minha cabeça, a minha mão e a tinta da caneta. Eu não escrevi isto assim, e nunca ninguém vai ler o que eu escrevi dentro de mim.

 

E de um momento para o outro, mudam-me. Sem pedir licença, pegam em mim e informam-me que já não sou assim, que já não posso ser assim, que já não devo ser assim. Já não és a última da linha, a sensível, a criativa, a sonhadora... agora sou mudança, original, inovadora, independente, excêntrica, imprevisível... Agora sou aquário... sem peixes.

 

E por muito que os meus olhos estejam fechados,
estão abertos
à espera do próximo golpe.
Este já não me apanhará de surpresa,
de certeza...

e isso não fará a mais pequena diferença.

 

Sinto-me tão frágil aqui no meio de tanto ar, tanta terra, tanto mar, tanta gente, tanto respirar, tanto suor, tanto lutar, tantas lágrimas, tantos risos, tanto ir e voltar. E eu aqui, pequenina, de pés fincados no chão a gritar até que alguém me ouça, a esbracejar até que alguém me veja...

 

E daqui não saio. Daqui ninguém me tira.

 

Não mais do que o tamanho de uma pulga.
Não mais do que a coragem de uma pulga.
Não mais do que a força de uma pulga.
Não mais do que a vontade de uma pulga.

Sou o parasita da solidão
que a suga até ao tutano.

Não mais do que uma pulga
ou talvez menos ainda.

 

Há tanto para ver aqui que as palavras atrasam-se a chegar e, quando chegam, já eu cá não estou. Fica apenas este espaço em branco, nem eu que já não estou, nem as minhas palavras que não chegaram a ser. E descubro, não sem surpresa, que onde finalmente me encontro é onde nunca estive, onde as minhas palavras não chegaram, na descoberta de mim no epicentro da mais caótica sinfonia do mundo.

 

Que sorriso foi esse
que estranhaste nos meus lábios?
Todos os dias ponho um diferente
e ensaio um novo olhar.
Experimento os dedos das minhas mãos,
testo os dedos dos meus pés,
dobro os braços e as pernas.
Corto tudo o que já não serve.
Reinvento-me,
reencontro-me
e já não sou eu...
Mas aquele sorriso,
o tal que tu estranhaste,
esse,
esse, já é o meu!

 

Intervalo do Meu Mundo

inspirar bem fundo,
engolir todo o mundo
e deixá-lo ficar
até um dia
ser capaz de expirar.

 

em Revista-Me nº 2

 

A Poesia Rima com quê? Com Economia?

 

 

Economia, ou actividade económica - Produção, distribuição e consumo de bens e serviços, e repartição de rendimentos

do gr. Oikonomía - direcção de uma casa

Poesia, ou género lírico, ou lírica - Uma das sete artes tradicionais, pela qual a linguagem humana é utilizada com fins estéticos; carácter daquilo que, por ser considerado belo ou ideal, desperta uma emoção ou sentimento estético

do gr. Poíesis - acção de fazer alguma coisa

 

Produzimos palavras cobertas de silêncio, dedilhadas mecanicamente pelas teclas, com a mais alta tecnologia da solidão. Não deduzimos medo nem paixão, consumimos a própria alma, devagar ou subitamente, ressuscitando e regurgitando o poema, repetido e inacabado eternamente. Servimos letras em dedais de espuma, sempre e teimosamente esticados com os arames que seguram a dignidade. E sonhamos com a distribuição do sonho, em catadupas ou milimetricamente, na medida do que nem sequer sabemos que existe.

 

De bens, ou de bem, essa verdade ou necessidade ou actividade ou representação do real. Do bem que não sabemos definir, a economia complicada das redes multiplicadas pelos sorrisos. Economicamente achamos bem ou somos o mal, com ou sem a qualidade do demo, desprezados sem utilidades nem uso conhecido, deixamos os números das certezas para quem serve, para quem se quer curto e certo.

 

Precisamos da língua, como órgão do som e da palavra nesta Babel mundial em torre cada vez mais alta, que a globalização não destrói. Órgão muscular que dança e se contorce na produção fonética das emoções com lágrimas, com rugas, com pedras. Precisamos da mordedura sensual da palavra, das cores inimagináveis que as palavras pintam entre a gente amassada, amarfanhada, lisa, estática, enorme, das telas brancas que riscam sem pedir razões, das máscaras que cobrem na forma, na rima, nas folhas, paredes, palcos personagens duplas e triplas desdobradas em pétalas ou cimento.

 

Não uma das sete mas todas as sete, nove ou treze artes, não sei se cabalísticas ou precisas, a poesia não rima, não cede, não se troca, mas diz-se, sente-se, ouve-se, sem género nem lírica, bem de consumo lento, ao serviço dos bens maiores, distribuindo arrepios, assim se consome, uma economia totalmente privada mesmo que pública, mista e mística, filosofia em estado puro.

 

em Revista-Me nº 02

 

Milonga de Abril

 

Tenho a dizer-te que tudo me incomoda. A roupa demasiado justa por sobre o corpo molhado, sempre a enrolar-se de um calor súbito e preciso, distribuído pela ansiedade de quem personifica a revolta contra o tempo. O peso que já não se reparte pelas várias zonas que ocupa, mas que se fixa inexoravelmente no apoio que falta. O cansaço mole dos movimentos presos, das noites em claro, dos pensamentos em círculos contínuos e fechados.

 

Tenho a dizer-te que a Primavera não está apenas nos perfumes que se misturam, nas ervas que crescem, no azul e verde que desponta a cada manhã. Não está ainda no caminho que faço junto ao mar, nas mãos que vou apertando e sentindo frias, nas portas teimosamente entreabertas. Sempre um biombo invisível.

 

Tenho a dizer-te que tardam os sinais da mudança, que desmaia o vermelho das flores, que se calam os filhos, que desistem os velhos, que se entulham as vontades, que se somam os silêncios, que arrefecem as bandeiras.

 

Tenho a dizer-te que Abril está mas não chegou, que Abril ainda não chega, que Abril congela nos abraços adiados, que Abril semeou mas não colheu, fartura de esperança sem Maio à vista.

 

em Revista-Me nº 01