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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Do mundo que vai rodando

Hoje decidi que me apetecia cozinhar.

Depois de tantos dias a tentar arrumar coisas que estavam em caixotes e sacos por causa das obras, achei que fazer uma bela compota de alperce e um arroz de peixe era o remédio para o pó, os sacos, os livros e as muitas fotos desorganizadas correspondendo a várias épocas da minha vida.

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Para a compota comprei alperce – uma das frutas da época – limões, laranjas, canela e açúcar amarelo. É fácil de fazer e não dá muito trabalho. Os alperces devem estar sem nódoas (um dos meus filhos, quando era pequeno, achava que as manchas na pele da fruta eram nódoas; nunca mais deixámos de lhes chamar assim), nem demasiado verdes nem demasiado maduros, e é só retirar-lhes os caroços, limpar as nódoas existentes e fatiá-los em fatias fininhas. De 1.800 g de alperce resultaram 1.500 g de fruta aproveitável para a compota. No tacho juntei a casca de 1 limão (só a parte amarela), o sumo de uma laranja, 3 paus de canela e 1.000 g de açúcar amarelo. Misturei tudo muito bem e deixei a marinar durante um bom bocado até que ficasse uma espécie de calda de alperce.

O uso das mãos é libertador e relaxante. Enquanto preparava os alperces para a compota a minha mente vagueava pelos anos que foram passando, a minha primeira casa, os natais, as festas de anos, os casamentos, os baptizados, as vestimentas, os amigos, os meus filhos, de bebés a criancinhas, depois a rapazinhos, adolescentes, jovens e adultos. Perscrutar os seus olhos, os seus sorrisos. Será que fui uma boa mãe? Será que atendi às suas personalidades, aos seus desejos, aos seus medos, às suas necessidades? Será que fui demasiado severa? Muitos dos que me rodeavam assim achavam, tenho a certeza. Será que deixei passar alguma coisa importante, irreversível? Será que foram felizes, que são felizes? Acho que todas as mães carregam consigo culpa, receio e esperança.

E a passagem do tempo nos nossos cabelos, nos nossos corpos, nas nossas roupas, óculos, penteados. As viagens, os locais, os risos, as expressões atentas ou desatentas, instantâneos de disparate ou flagrantes de distracção. Algumas pessoas que desapareceram, outras que vão entrando e ficando. O mundo a rodar e nós, de vez em quando, a darmos conta disso.

Depois de uma a uma hora e meia a marinar, o tacho com os alperces em calda foi para o lume, onde ficou até fazer ponto de estrada. Desliguei o lume, retirei os paus de canela e reduzi tudo a puré com a varinha mágica. Já enfrasquei, já provei e…. está muito bom!

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A seguir coloquei duas boas postas de perca a cozer em água, louro, sal e cominhos, durante 10 minutos (após ferver). Retirei depois as postas para um prato e coei a água da cozedura para usar mais tarde. Piquei uma cebola e dois dentes de alho, cortei dois tomates, um pouco de pimentos verde e vermelho, uns bocadinhos de bacon, coentros, aipo fresco, três cravinhos, dois piripiri e azeite a refogar. Quando começou a secar juntei um pouco de vinho, miolo de camarão e berbigão. Após os pimentos e a cebola amolecidos, juntei duas chávenas de arroz e quatro da água de cozer o peixe. Deixei ferver, baixei o lume e, após cinco minutos de cozedura em lume brando com o tacho tapado, misturei o peixe aos bocadinhos ao qual, entretanto, tinha tirado pele e espinhas. Mais 7 minutos a cozer, e estava pronto.

Também ficou uma perfeição!

Refeição muito agradável encerrando um dia de memórias e interrogações.

 

Tralha

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Avestruz - Bordalo II

 

Tenho andado a despir-me de tralha. De tanto papel, coisas inteiras e em bocados, velhas e novas, esquecidas e poeirentas, daquelas que vamos encafuando em gavetas, prateleiras e nalgum canto da memória que deixou de fazer sentido, ou cujo sentido se virou, mudou ou as transformou em desperdícios.

Coisas e mais coisas. Mas sobretudo pele que nos pesa, que já não nos serve, que alargou e engelhou, ou que esticou e rebentou, deixando um rasto invisível aos olhos mas presente no nosso quotidiano.

Não somos o que já fomos e não precisamos do que já precisámos, ou nunca precisámos mas pensávamos que sim. Tanta coisa indispensável que nunca usámos, que nunca nos fez falta, que nunca se revelou útil.

Apesar de dolorosas, estas épocas de despojamento são absolutamente indispensáveis à manutenção da nossa alma, da máquina que nos governa.

Sinto-me mais leve, mais pequena, movimentos mais amplos e o mundo mais à minha medida.

Tralha e mais tralha. Sem ela percebemos a nossa verdadeira dimensão.

Da irrealidade dos dias que vivemos

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Via Sacra

Portinari

 

Não sei porque tentamos sempre encontrar uma explicação ou um propósito para o que nos acontece, individual ou colectivamente. Olhamos para os factos e pensamos sempre num qualquer propósito, num determinismo natural ou divino que faz com que os transtornos da vida tenham uma qualquer justificação e um qualquer significado moral. Não acho que o homem mereça os castigos divinos, que as doenças sejam uma punição ou que as calamidades naturais sejam a vingança de um qualquer deus.

Não acredito nisso. Não acredito na revolta da natureza transformada em pandemia vírica, na nossa redenção como cidadãos melhores, mais disponíveis e mais solidários no fim deste confinamento forçado. Aliás temo pelo adensar de situações de conflito e de violência, pelo tédio e ansiedade, pela depressão e pela escassez de dinheiro, pela confusão e pelo barulho, pela incapacidade de isolamento ou pela inusitada solidão.

O que podemos e devemos é tentar aproveitar esta situação para repensar algumas prioridades, refazer alguns processos e procedimentos, inventar formas de nos mantermos minimamente sãos. Assim, quando formos libertados, poderemos apreciar a vida mais livres e mais felizes.

Porque tudo isto há-de passar e seremos outra vez responsáveis e irresponsáveis, alegres e tristes, solidários e egoístas, como só os seres humanos sabem ser. E havemos de poder abraçar, apertar as mãos, beijar e mimar, quem nos apetece. E não haverá deus pequeno ou grande que no-lo possa impedir.

Da preparação olímpica confinada

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Pois se pensava que a quarentena iria livrar-me dos treinos dantescos a que sou submetida, a minha PT decidiu que estava mesmo na altura de me preparar para os jogos olímpicos, visto que foram adiados.

E no meio dos escombros de umas obras suspensas pelo estupor do SARS-CoV-2, depois de salvar a passadeira, que tinha estado adormecida por vários anos e coberta de uma espessa camada de pó, afundada no meio de latas de tinta e tijolos, sempre de Skype (não confia em mim se apenas me ouvir dizer que estou a cumprir as repetições, que estou a encolher a barriga e a juntar as omoplatas), serei das poucas pessoas, se não a única, que vai ultrapassar a quarentena surgindo bela e elegante após o confinamento.

Mas a verdade é que os materiais de fitness estão esgotados em toda a parte – não há pesos, nem TRX, nem bombas para encher bolas de Pilates, tudo equipamentos absolutamente indispensáveis para o fitness at home.

Pensava eu! Porque cá em casa e através da janelinha do computador, as instruções incluem levantar garrafões de água de 5 litros, agachamentos com paus de vassoura e abdominais com tijolos. Portanto, não há desculpas para a inacção.

Sempre a treinar, seja ao ar livre seja no meio das obras, nada fará empalidecer o brilho da próxima medalhada olímpica da classe das sexagenárias – eu mesma!

 

Da vida velha ao novo ano - os treinos

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Nada como o fim de um ano e princípio de outro para termos muitos objectivos e decisões, mais ou menos drásticas, mais ou menos realistas, que nos transformarão em pessoas melhores, mais atentas, mais animadas, mais inteligentes, mais previdentes, mais ágeis, mais belas, mais elegantes, mais fantásticas, mas sobretudo mais felizes.

 

Eu sou pouco dada a resoluções de ano novo. Na verdade começo o ano tal como o acabo, a rezingar com o tempo e com as festividades, com a enorme quantidade de comida e o enorme desperdício, mas apesar de tudo esperançada que os tempos que se avizinham sejam melhores que os passados. Até porque as minhas decisões vão sendo tomadas ao longo do ano, ao sabor das necessidades e dos impulsos.

 

Por isso posso recomendar vivamente o que já experimentei e experimento, nomeadamente os treinos, de que já aqui fui falando. Sim assim mesmo no plural: os treinos – 4 por semana. E sim, eu sei que sou um pouco amalucada, mas a verdade é que foi uma boa resolução de verão de 2017.

 

É horroroso. Na verdade é uma faceta de masoquismo que eu tenho, e que me faz assumir sevícias inimagináveis, que me levam a grandes conversas comigo mesma, sempre insultuosas, às 07:00 de quase todos os dias da semana. Mas depois de se assumirem determinados compromissos, torna-se impossível largá-los. E os treinos são impossíveis de largar, mais precisamente a Personal Trainer ou PT.

 

As minhas manhãs começam com um animado bom dia (dito por ela, bem entendido) e com um ainda mais animado aquecimento no remo. Depois continua a tareia com inúmeros e variados exercícios que são funcionais, que fortalecem o core, que nos dão força e energia para além de uma imensa vontade de fugir após o assassinato frio e cruel da maravilhosa PT e de todos os outros PTs que torturam desgraçados e desgraçadas como eu.

 

Quando estamos quase a morrer, somos revificados com uma sugestão do bebericar de água, panaceia para todos os cansaços. Temos que aprender a usar uma escala de esforço, que vai de 0 a 10 e que nunca percebemos aonde está (porque para mim é sempre 8). Temos que estar continuamente a encolher a barriga e a juntar as omoplatas, pois o não cumprimento destas regras básicas da vivência levarão a todas as lesões conhecidas e desconhecidas do universo muscular e ósseo, a levantar e atirar bolas com 6 Kg de peso, a equilibrarmo-nos no bosu, a fazermos diversas modalidades de prancha, variadíssimos abdominais e lombares, TRX, lounges, agachamentos, enfim, o vocabulário completo de termos que apenas significam esforço e transpiração.

 

Tenho, no entanto, que dizer a verdade – estou mais equilibrada, mais condensada, mais energizada, sem dores nas costas e objectivamente melhor da osteoporose. A endocrinologista, que tem uma paciência de Job, está feliz e eu suspeito que há uma maçonaria secreta em que os aventais vestem PTs e endocrinologistas, onde planeiam estes horrores e se divertem a rir das nossas tristes figuras.

 

Tudo isto para dizer que devem experimentar. Não se arrependerão. A sério. Apesar do que disse tenho uma PT fantástica, que não desiste de mim nem de me transformar numa atleta do dia-a-dia, sem costas curvadas nem barriga descaída, sem tortuosidades na coluna e com as hipotéticas hérnias bem disciplinadas, mais animada e bem-disposta. Lá em casa dizem-me que foi remédio santo. Admiro-lhe a paciência e a imaginação, a permanente simpatia e o cuidado com esta quase sexagenária, mesmo que dura e rigorosa, sem perdoar nenhuma desculpa ou menor vontade, vigilante dos pecadilhos da gula, sempre cheia de estratégias difíceis de rebater.

 

A felicidade também se constrói com estas pequenas vitórias, como ser capaz de me equilibrar em cima de um bosu e fazer agachamentos! Nada é fácil na vida. E eu tive muita sorte com a PT que me calhou.

 

Portanto: 2020 aí vou eu, mais fit que nunca, saudável e esbelta, uma perfeita velhota em rejuvenescimento permanente.

Dois ranzinzas

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Graham McKean

 

Num restaurante de bairro fomos mimoseados a toda a hora com "queridos" pela empregada de mesa, muito despachada, assertiva e desastrada, com uma boa disposição artificial e irritante.

Detesto que me tratem por "menina", "querida", "filha", "jovem", etc. Mas quem reagiu foi o meu comparsa que, com um sorriso cheio de dentes e muito arrepiante, lhe disse que não era o "querido" dela.

Dois ranzinzas, concedo.

Mas é que detesto mesmo.

Nove de Novembro

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Em 1938, na Alemanha nazi, a noite de 9 de Novembro foi de violência contra os Judeus, com milhares de ataques a casas, a lojas e a sinagogas, levadas a cabo pelas SA e por cidadãos anónimos - Kristallnacht - Noite de Cristal. Anunciava-se o pesadelo e o horror de que o mundo inteiro se apercebeu após o fim da II Guerra Mundial - o Holocausto.

Em 1989, na noite de 9 de Novembro, caiu o símbolo da Guerra Fria, o muro que separava Berlim Leste de Berlim Oeste, erguido a 13 de Agosto de 1961 numa tentativa tosca de travar a hemorragia de gente que fugia do bloco comunista, numa bravata que podia ter iniciado a III Guerra Mundial.

Custa-nos hoje acreditar como foi possível tudo isto - a loucura nazi que perseguiu, torturou e matou milhões de pessoas, nomeadamente Judeus, arrastando o mundo para uma Guerra 21 anos após uma matança de proporções nunca vistas, a loucura comunista que fechou e dividiu o mundo, perseguiu, torturou e matou milhões de pessoas com base num totalitarismo pseudo científico e violento.

E no entanto as sementes do ódio e da intolerância estão a germinar de novo. A Europa vai-se esquecendo da sua História recente e os movimentos xenófobos, racistas e totalitários começam a ganhar cada vez mais força. Com os EUA perdidos na era Trump, é difícil recuperar a esperança renascida a 9 de Novembro de 1989 em que tudo parecia ser possível, como a reunificação da Alemanha no ano seguinte.

As desigualdades, as várias crises (demográfica, das migrações, climática, do trabalho), a emergência das novas organizações da sociedade e do trabalho com a era digital, a voragem exponencial que nos deixa em desequilíbrio permanente, os bloqueios políticos, os movimentos sociais que tão depressa inundam o quotidiano como se esquecem e descartam por outros, a irrealidade e irrelevância dos factos, a volatilidade da verdade, hordas de outros tempos neste nosso escasso e turbulento tempo.

Nove de Novembro é também a data de nascimento da minha mãe. Facto irrelevante para o resto do mundo, mas fundamental para este meu pequeno e invisível mundinho, onde diariamente me alimento de inquietação e esperança.

Coisas

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Thomas Dambo

 

Nestes dias molhados e peganhentos parece que tudo se encavalita, mistura e confunde. Os lençóis engelham, os sapatos encavalitam, os casacos não se despegam das cruzetas, as janelas emperram, os sacos de compras rouquejam pela rua, as folhas secas agarram-se às rodas do carro.

É nestas circunstâncias que se avolumam os objectos e as coisas que temos, que sempre achamos poucas mas que são muitas, demasiadas. Coisas, coisas e coisas, amontoadas e desarrumadas. Tropeçamos em fios dos computadores e telemóveis, enrolam-se os tapetes, afastamos almofadas, amontoamos frascos de colónia, pasta de dentes, copos, sabonetes, cremes e mais cremes, desodorizantes e amaciadores, esponjas e escovas, brincos, camisolas, meias, calças, candeeiros, livros, cadeiras.

Olhamos à volta e não percebemos o porquê da necessidade da maior parte das coisas que se multiplicam, que se reproduzem pelos cantos das salas e dos quartos e das cozinhas e das casas de banho, casas que se transformam em pletoras totalmente desviadas da nossa vida e do nosso mundo.

É urgente que nos desnudemos das coisas que nos rodeiam, das coisas que não nos preenchem mas apenas nos cobrem e impedem de olhar para o essencial, para o que somos, para o que queremos, para o que amamos.

Na estrada

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Pablo Picasso

 

Há sentimentos que ficam pendentes, emoções embrulhadas em esquecimento, em prioritários matizes de vida a continuar, como se tivessem desaparecido. Mas basta um segundo de desatenção, uma fenda na muralha entretanto erguida e defendida, para que se instalem e avolumem sem perdão.

 

Na lista telefónica do telemóvel, que avançadas tecnologias nos colocam à disposição e à altura dos olhos, aparece o número de quem já não está. De repente a sua voz enche o carro e eu fico sem perceber se o tempo recuou ou se a realidade regressou por um momento, tudo eterno e ritual, como a batalha contra o tempo, que sempre nos vence.