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Dos modernos e tecnológicos contos do Vigário

por Sofia Loureiro dos Santos, em 15.11.20

conto vigario.jpg

 

Ontem coloquei umas coisas a vender no OLX. Mal tinha acabado de publicar os anúncios recebo um telefonema de alguém com voz e sotaque bastante rústicos, para me dizer que estava interessado em comprar as peças. Muito surpreendida com a rapidez da decisão de compra, confirmei a minha disposição de venda não tendo sido questionado o preço, o eventual estado mais ou menos depauperado. Prometeu-me o levantamento das ditas peças em minha casa, no dia seguinte. Mais disse que queria pagar de imediato por MB WAY.

Apesar da rapidez e da aparente facilidade de tão inédita transacção, perguntei porque não pagava depois de ter as peças. A resposta veio despachada, dizendo-me que só precisava dos números para completar o pagamento.

Depois de perguntar várias vezes a que números se referia lá acabou por dizer que era o PIN.

Transacção de imediato cancelada com interrupção abrupta da ligação, da minha parte, depois de perguntar se estava a brincar comigo.

Imediatamente a seguir telefona outro rústico, dizendo que se tinha enganado no número do telemóvel para o pagamento, e que precisava dos números do PIN. Aí já não achei tanta piada.

Depois de desligar o telemóvel vi que tinha um sms do serviço MB WAY, avisando-me que tinha havido 2 tentativas de uso do PIN que estava errado e que me restava uma tentativa.

Ou seja, os rústicos tinham usado o meu número de telemóvel para tentar pagamentos com MB WAY e usaram um qualquer PIN, tentando engodar-me para lho dar.

Depois de uma pesquisa pela internet com as palavras burlas e MB WAY, lá estava bem visível o esquema. Para quem não esteja familiarizado com o MB WAY, a rapidez e o despacho dos burlões podem baralhar os incautos e induzi-los a colaborar. Mesmo assim o pedido do PIN deve acender todas as campainhas e despertar todos os alarmes.

Mais um conto do Vigário. Esta nunca me tinha acontecido.

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publicado às 09:35

Do atraso das bruxas

por Sofia Loureiro dos Santos, em 02.11.20

bruxa.jpg

Afinal até as vassouras estão com problemas, provavelmente devido à pandemia. E hoje chegaram as bruxas e os bruxedos a minha casa.

Começou logo de manhã, mesmo de manhãzinha. Como tenho treinos a toda a hora e momento, que se alteram consoante as possibilidades e as disponibilidades do serviço, é perigoso tomar por certo que os horários não precisam de ser confirmados diariamente.

Sendo assim, lá fui confiada e pontualmente às 07:30 para o ginásio, não sem antes andar de trás para a frente à procura de uma máscara que, pelos vistos, desapareceu durante a noite. É claro que a PT, que NUNCA se atrasa nem NUNCA falta não estava. Algo me disse que deveria confirmar o treino no calendário do telemóvel (agora até para entrar no ginásio é preciso a app no telemóvel) e, de facto, confirmei que NÃO havia treino.

Regressei a casa sem sequer fazer 10 minutos de passadeira. Há que aproveitar para descansar as perninhas.

Mas a manifestação das forças ocultas foi forte e avassaladora no momento em que quis calçar uns sapatos, dos poucos que se tinham salvo após a razia das mudanças. Ao andar deixavam uma estranha pegada negra. Decidi que estavam sujos e, depois de esfregar as solas com bastante entusiasmo, tentei de novo. Andar andei, mas os sapatos foram-se despedindo da vida aos pedaços, desfazendo-se à medida que dava passos decididos pela casa. Alguém foi lesto a comparar-me a um dos monstros do Exterminador Implacável, que se ia destroçando à medida que se deslocava, deixando pedaços de pés e pernas para trás. De facto os sapatos eram velhos. Na realidade não me lembro mesmo quantos anos já teriam, mas podiam ter escolhido uma forma mais discreta e menos abrupta de me avisarem da sua senescência.

Enfim, vamos ver o que ainda me aguarda. Mas que o dia está azarado, está.

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publicado às 11:09

Lampiões

por Sofia Loureiro dos Santos, em 13.09.20

lampiao e banco.jpg

 

Não sei o que se passa com os candeeiros. Não alumiam. Não percebo porquê. São os mesmos há trinta e tal anos e deve ser por isso. Foram perdendo vigor.

O que é um enorme aborrecimento porque ler está a transformar-se num exercício de grande exigência. Inclino-me para o candeeiro para iluminar a página, afasto o livro e levanto o queixo, tentado usar a progressividade dos óculos. O livro fica de novo na sombra. Tiro os óculos e tento usar a miopia não corrigida.

Viro e reviro o candeeiro mas ele de mortiço não passa.

Acho que vou ter que comprar uns lampiões para colar ao lado da cama, que se transformará num óptimo banco de jardim.

Ou então ler ao microscópio.

 

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publicado às 21:02

Cigarras

por Sofia Loureiro dos Santos, em 26.07.20

cigarra.jpg

Cigarra

 

O ar completamente parado, sufocante, de uma luz amarelada e bafienta. As tardes de Verão na província, a obrigatória sesta nos quartos insuportavelmente quentes, com as portadas de madeira que abriam riscas de pó dançante, até que o sono vencia as mais resistentes pálpebras. Ao longe o canto das cigarras era a única coisa que se ouvia.

Outro dia surpreendi-me a ouvir cigarras no Jamor, enquanto me preparava para o treino. Repentinamente senti-me outra vez com 10 anos, naquelas imensas tardes suspensas, como se a vida sustivesse a respiração.

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publicado às 19:32

O misterioso caso dos beeps televisivos

3. Entram em cena as caixas de música

por Sofia Loureiro dos Santos, em 24.07.20

caixa de musica 2.jpg

(A Coruña)

 

E assim continuámos, entre as finalizações de pequenos pormenores de arranjos, como o descortinar um carpinteiro para compor e restaurar as portas, que ao longo dos anos tinham perdido o aprumo da juventude e se tinham despedido de alguns bocados de puxadores, embaçadas e retorcidas por humidades e sem exercerem a sua mais nobre função: fecharem-se.

Estas finalizações são daquelas que nunca mais finalizam e a tolerância deixa de funcionar. Já se gastaram todos os restos de compreensão para com os atrasos tradicionais neste tipo de trabalhos e para com os pequenos ajustes daquilo que já devia estar prontíssimo. Ainda por cima com a pandemia pelo meio, as obras esticaram-se até não se poder mais.

Ontem trocávamos impressões sobre esta e outras irritações minhas, olhando displicentemente para o que estava a dar na TV, com olhos pouco observadores e, repentinamente, voltaram os beeps. Comigo estava o representante mais novo da novíssima geração internáutica, perita em Zoom e notificações de gadgets passados e futuros, pelo que exclamei: Estás a ver? São estes os ruídos que, de vez em quando e sem ninguém perceber porquê, a TV grita excitadamente!

Senti sobre mim um olhar apiedado e ligeiramente impaciente: Mas isto não é a TV, é a caixa de música! Depois de emudecer uma resposta torta que assomou aos meus lábios, olhei melhor para a colectânea de coisas que se empilhavam na prateleira imediatamente inferior à da TV, onde estava uma caixa de música com muitos, muitos anos.

Tinha-a comprado em A Coruña, penso que em 1994, quando demos uma volta pelo norte da península passando por Vigo, Santiago de Compostela, A Coruña e Ferrol. Lembro-me que o tempo estava chuvoso e que, ao deambular pelas ruas junto ao mar, encontramos uma loja de brinquedos.

Os meus filhos eram pequenitos e eu fiquei bastante tempo a olhar para vários bonecos, carrinhos e caixas de música. Acabei por comprar uma que mimetizava um baú com brinquedos, linda, linda, mais apreciada por mim do que por eles, diga-se em abono da verdade. Dois anos antes, em Roma, tinha comprado outra, dessa vez uns palhaços bem garridos.

caixa de musica 1.jpg

(Roma)

 

Pois era essa caixa de música, ninguém me pergunte como nem porquê, que estava a fazer aqueles ruídos. A corda está perra e, por vezes, não sei com que estímulo, dá um pouco de si e lá sai um beep. Animados de espírito científico demos corda à caixa e comprovamos que eram mesmo os ruídos da música repartida em sons isolados o que se ouvia.

Este nosso Sherlock riu-se perante o nosso espanto e a minha evidente frustração por não ter decifrado o mistério, devolvendo a caixa de música ao seu lugar ante-obras, na varanda-escritório, onde os beeps se produziam mas não eram ouvidos. Ficou patente a minha incapacidade de encarnar detectives amadores geniais. Estou mais perto dos polícias que só atrapalham as investigações.

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publicado às 18:40

O misterioso caso dos beeps televisivos

2. Aparecem (e desaparecem) os beeps

por Sofia Loureiro dos Santos, em 24.07.20

misterioso caso.jpg

Qual não é o nosso espanto quando, uns dias depois deste rearrumar de equipamentos audiovisuais e após assistirmos a um filme através do computador, ligado à TV através do cabo HDMI, fomos incomodados pela noite dentro por uns beeps estranhíssimos, sem ritmo nem ciclo reconhecíveis que me pareceram notificações de telemóveis, depois alguma coisa vinda do computador, depois da televisão. Estremunhados pesquisámos as possíveis causas de tão estranhas e audíveis notificações de coisa nenhuma, desligámos tudo o que tínhamos ligado, inclusivamente o rádio despertador, numa tentativa de regressar ao sono.

No dia seguinte os beeps continuaram, mais espaçados. A sua proveniência parecia ser a televisão. Fui procurar na internet se havia descritos problemas nas TVs Samsung, nomeadamente beeps inusitados, e encontrei! Na internet encontra-se de tudo, nomeadamente explicações para os mais inacreditáveis problemas. Pelos vistos há televisões que, sem mais nem para quê, fazem ruídos, que desaparecem tão subitamente como aparecem e que não têm explicação científica comprovada. Calor, cabos, interferências, hipóteses mais ou menos mágicas mas nada que se entenda ou reproduza. Bem, pelo menos já havia alguém que tinha sofrido dos mesmos beeps.

E de facto, tão misteriosamente como apareceram, os beeps deixaram de nos acordar por algum tempo, até que regressaram. Habituámo-nos, como nos habituamos a tudo, partilhando este mistério com o pessoal mais novo e mais habilitado a lidar com as espantosas tecnologias digitais, nada tendo sido adiantado nem resolvido.

A miscelânea de detectives privados que há em mim, mais ou menos formais, de várias localizações geográficas, de Miss Marple a Eneias Trindade, passando por Jaime Ramos, Hercule Poirot, Commissaire Maigret, Perry Mason e Mma Ramotswe (para além de todos os outros de que me não recordo mas que enformam a minha curiosidade e necessidade de compreender o incompreensível), não estava nada satisfeita por este falhanço incomensurável em descobrir a causa destes aflitivos e irritantes beeps.

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publicado às 15:16

O misterioso caso dos beeps televisivos

1. A radicalização decorativa

por Sofia Loureiro dos Santos, em 24.07.20

construcao 1.png

Obras em casa são um pesadelo. Pó, porcaria, confusão, gente a toda a hora a devassar-nos a intimidade, chão sujo, móveis cobertos de lençóis, plásticos e baldes de tinta com as mais diversas maquinarias para estragar paredes, sacos amontoados em todo o lado, com roupa, com livros, com papéis. No fim, para além das limpezas, é preciso arrumar tudo de novo com a imprescindível paciência para implementação das mais fantásticas lides domésticas. Claro que as revoluções se começam em casa e a reorganização da mesma, com mudanças mais ou menos radicais, é indispensável e indissociável das obras.

Por isso mesmo a televisão que morava na sala mudou-se com satisfação para o quarto onde ocupou o espaço da anterior, bastante mais pequena, induzindo aos decrépitos ocupantes uma cada vez maior dificuldade de visualização. Por outro lado, a ausência deste ponto de encontro na sala de estar abre todo um novo mundo de possibilidades de gestão do espaço e das conversas entre os habitantes, permanentes ou temporários.

Também a decoração da pequena estante da televisão no quarto se alterou, tal como a da estante de livros no escritório improvisado da varanda fechada, menos quente no Verão, agora que está forrada a vidros duplos com exterior fosco, para melhorar a eficiência energética. Decoração essa mais seguidora de um cansaço de distribuir as coisas que todos temos a mais pelos espaços delas do que decidida por orientações estéticas. Mas enfim, as obras e a falta de skills nas arquitecturas paisagísticas de interiores ditam a sobrevivência. Tanto assim que a mistura de leitor de DVDs, os próprios DVDs, estatuetas estrambólicas e caixas de música se misturam agora num conceito de continuidade pré e pós moderno de tudo ao molho e falta de fé seja no que for, o que eu quero é acabar rapidamente com tudo isto que já não aguento mais.

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publicado às 14:29

Do mundo que vai rodando

por Sofia Loureiro dos Santos, em 14.06.20

Hoje decidi que me apetecia cozinhar.

Depois de tantos dias a tentar arrumar coisas que estavam em caixotes e sacos por causa das obras, achei que fazer uma bela compota de alperce e um arroz de peixe era o remédio para o pó, os sacos, os livros e as muitas fotos desorganizadas correspondendo a várias épocas da minha vida.

compota alperce.jpg

Para a compota comprei alperce – uma das frutas da época – limões, laranjas, canela e açúcar amarelo. É fácil de fazer e não dá muito trabalho. Os alperces devem estar sem nódoas (um dos meus filhos, quando era pequeno, achava que as manchas na pele da fruta eram nódoas; nunca mais deixámos de lhes chamar assim), nem demasiado verdes nem demasiado maduros, e é só retirar-lhes os caroços, limpar as nódoas existentes e fatiá-los em fatias fininhas. De 1.800 g de alperce resultaram 1.500 g de fruta aproveitável para a compota. No tacho juntei a casca de 1 limão (só a parte amarela), o sumo de uma laranja, 3 paus de canela e 1.000 g de açúcar amarelo. Misturei tudo muito bem e deixei a marinar durante um bom bocado até que ficasse uma espécie de calda de alperce.

O uso das mãos é libertador e relaxante. Enquanto preparava os alperces para a compota a minha mente vagueava pelos anos que foram passando, a minha primeira casa, os natais, as festas de anos, os casamentos, os baptizados, as vestimentas, os amigos, os meus filhos, de bebés a criancinhas, depois a rapazinhos, adolescentes, jovens e adultos. Perscrutar os seus olhos, os seus sorrisos. Será que fui uma boa mãe? Será que atendi às suas personalidades, aos seus desejos, aos seus medos, às suas necessidades? Será que fui demasiado severa? Muitos dos que me rodeavam assim achavam, tenho a certeza. Será que deixei passar alguma coisa importante, irreversível? Será que foram felizes, que são felizes? Acho que todas as mães carregam consigo culpa, receio e esperança.

E a passagem do tempo nos nossos cabelos, nos nossos corpos, nas nossas roupas, óculos, penteados. As viagens, os locais, os risos, as expressões atentas ou desatentas, instantâneos de disparate ou flagrantes de distracção. Algumas pessoas que desapareceram, outras que vão entrando e ficando. O mundo a rodar e nós, de vez em quando, a darmos conta disso.

Depois de uma a uma hora e meia a marinar, o tacho com os alperces em calda foi para o lume, onde ficou até fazer ponto de estrada. Desliguei o lume, retirei os paus de canela e reduzi tudo a puré com a varinha mágica. Já enfrasquei, já provei e…. está muito bom!

arroz peixe.jpg

A seguir coloquei duas boas postas de perca a cozer em água, louro, sal e cominhos, durante 10 minutos (após ferver). Retirei depois as postas para um prato e coei a água da cozedura para usar mais tarde. Piquei uma cebola e dois dentes de alho, cortei dois tomates, um pouco de pimentos verde e vermelho, uns bocadinhos de bacon, coentros, aipo fresco, três cravinhos, dois piripiri e azeite a refogar. Quando começou a secar juntei um pouco de vinho, miolo de camarão e berbigão. Após os pimentos e a cebola amolecidos, juntei duas chávenas de arroz e quatro da água de cozer o peixe. Deixei ferver, baixei o lume e, após cinco minutos de cozedura em lume brando com o tacho tapado, misturei o peixe aos bocadinhos ao qual, entretanto, tinha tirado pele e espinhas. Mais 7 minutos a cozer, e estava pronto.

Também ficou uma perfeição!

Refeição muito agradável encerrando um dia de memórias e interrogações.

 

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publicado às 22:29

Tralha

por Sofia Loureiro dos Santos, em 24.05.20

avestruz bordalo II.jpeg

Avestruz - Bordalo II

 

Tenho andado a despir-me de tralha. De tanto papel, coisas inteiras e em bocados, velhas e novas, esquecidas e poeirentas, daquelas que vamos encafuando em gavetas, prateleiras e nalgum canto da memória que deixou de fazer sentido, ou cujo sentido se virou, mudou ou as transformou em desperdícios.

Coisas e mais coisas. Mas sobretudo pele que nos pesa, que já não nos serve, que alargou e engelhou, ou que esticou e rebentou, deixando um rasto invisível aos olhos mas presente no nosso quotidiano.

Não somos o que já fomos e não precisamos do que já precisámos, ou nunca precisámos mas pensávamos que sim. Tanta coisa indispensável que nunca usámos, que nunca nos fez falta, que nunca se revelou útil.

Apesar de dolorosas, estas épocas de despojamento são absolutamente indispensáveis à manutenção da nossa alma, da máquina que nos governa.

Sinto-me mais leve, mais pequena, movimentos mais amplos e o mundo mais à minha medida.

Tralha e mais tralha. Sem ela percebemos a nossa verdadeira dimensão.

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publicado às 21:18

Da irrealidade dos dias que vivemos

por Sofia Loureiro dos Santos, em 11.04.20

via saca portinari.jpeg

Via Sacra

Portinari

 

Não sei porque tentamos sempre encontrar uma explicação ou um propósito para o que nos acontece, individual ou colectivamente. Olhamos para os factos e pensamos sempre num qualquer propósito, num determinismo natural ou divino que faz com que os transtornos da vida tenham uma qualquer justificação e um qualquer significado moral. Não acho que o homem mereça os castigos divinos, que as doenças sejam uma punição ou que as calamidades naturais sejam a vingança de um qualquer deus.

Não acredito nisso. Não acredito na revolta da natureza transformada em pandemia vírica, na nossa redenção como cidadãos melhores, mais disponíveis e mais solidários no fim deste confinamento forçado. Aliás temo pelo adensar de situações de conflito e de violência, pelo tédio e ansiedade, pela depressão e pela escassez de dinheiro, pela confusão e pelo barulho, pela incapacidade de isolamento ou pela inusitada solidão.

O que podemos e devemos é tentar aproveitar esta situação para repensar algumas prioridades, refazer alguns processos e procedimentos, inventar formas de nos mantermos minimamente sãos. Assim, quando formos libertados, poderemos apreciar a vida mais livres e mais felizes.

Porque tudo isto há-de passar e seremos outra vez responsáveis e irresponsáveis, alegres e tristes, solidários e egoístas, como só os seres humanos sabem ser. E havemos de poder abraçar, apertar as mãos, beijar e mimar, quem nos apetece. E não haverá deus pequeno ou grande que no-lo possa impedir.

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publicado às 21:58


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