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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Na estrada

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Pablo Picasso

 

Há sentimentos que ficam pendentes, emoções embrulhadas em esquecimento, em prioritários matizes de vida a continuar, como se tivessem desaparecido. Mas basta um segundo de desatenção, uma fenda na muralha entretanto erguida e defendida, para que se instalem e avolumem sem perdão.

 

Na lista telefónica do telemóvel, que avançadas tecnologias nos colocam à disposição e à altura dos olhos, aparece o número de quem já não está. De repente a sua voz enche o carro e eu fico sem perceber se o tempo recuou ou se a realidade regressou por um momento, tudo eterno e ritual, como a batalha contra o tempo, que sempre nos vence.

Dia de formação

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Jardim do Príncipe Real

 

  1.  

Pudera nascer de manhã

como as aves que atravessam a paisagem

e seguir viagem

sem barco sem rumo

apenas com a vida na bagagem.

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Disclosure

 

  1.  

Interesse sem conflito

tenho dito

e repito

que no desinteresse do delito

só interessa o retido

se sentido.

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Concert of birds

 

3.

Boca a altifalar

braços a esbracejar

monocordismo em torrente

bocejo inerente.

Gente

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Alan LeQuire

 

 

Não tenho género nem genes

que me distanciem de ti

outro género e outros genes

tão semelhantes a mim.

Tão diferentes entre si

todos pequenos e grandes

todos juntos e separados

nas diversidade e abundância

de génios e gente.

Lado a lado sem segredo

somos género humano

decente

sem medo.

Ensaios

Tenho ensaiado alguns textos sobre diversos assuntos que considero importantes, mas quando chego a meio, desisto. Ou porque já passaram alguns dias sobre o assunto e já não é actual, havendo mais uns milhares para falar, ou porque já se disse tudo e o seu contrário, pelo que nada acrescentaria.

 

E assim vou deixando passar as oportunidades de me exprimir, desistindo da veemência, adiando as opiniões, duvidando das certezas entretanto experimentadas. Tudo acaba por se relativizar e desvanecer.

 

E, no fim do dia, qual era mesmo a notícia?

Cenas da vida quotidiana

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(Cena matinal, no quarto, a um domingo)

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Acumulam-se os comprimidos, as dores nas cruzes, os quilos a mais e as teimosias. O novo esfigmomanómetro, devidamente certificado, é disputado por uma matrona estremunhada, já que o seu anafado marido teve que se render à necessidade imperiosa de monitorizar a tensão arterial, na tentativa de levar uma vida mais saudável e activa, submetendo-se às caminhadas na passadeira lá de casa, que estacionava pacífica e silenciosa, substituindo estantes e cabides.

 

Ao manusear o dito aparelho, colocando a manga por cima do casaco do pijama, deu-se conta de que os tubos e o mostrador estavam pegajosos. Comentando, espantada, tal facto, ouve a resposta pronta e cândida, com a espontaneidade que só da verdade desponta:

 

- Ah, é que caiu em cima do bolo.

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A contabilização do riso

Não basta termos regras e horários para levantar, para deitar, para comer, para dormir, para trabalhar, para amar, para educar filhos, para ser empático, para ser civilizado, para beber, para  ser limpo, para ser saudável, para ser lindo, para ser magro, para andar, para correr, para falar, para cantar, agora também devemos ter aulas que nos ensinem a rir e temos que contabilizar a quantidade diária do mesmo.

Das eruditas refeições

Não sei porquê, mas já há algum tempo que tinha vontade de comida indiana. Suspeito que pela quantidade de saladas, frangos, galinhas e perus, peixinhos grelhados ou cozidos, 2 a 3 esquálidas peças de fruta por dia, iogurtes magríssimos e sem pinga de açúcar, sementes de linhaça, girassol e mais que agora me escapam, para além dos treinos dignos de uma recruta, a necessidade de desbundar é avassaladora.

 

Independentemente do motivo, decidi que era altura de avançar sem medo nem culpa para o Kerala, que a pesquisa na internet me devolveu como um dos melhores restaurantes de comida indiana em Lisboa, mais precisamente em Campo de Ourique, na Rua de Infantaria 16, nº 37A.

 

Convém dizer que Campo de Ourique é um bairro de que gosto particularmente, manifestando sempre esse gosto em voz alta, de cada vez que lá vou. Convém também dizer que sou muito ignorante em imensas coisas, sendo uma delas a geografia.

 

Lá fomos muito contentes, eu e o meu companheiro de aventuras culinárias (e outras), rezando para encontrar lugar de estacionamento, o que até nem foi difícil. Esperava-nos uma sala espaçosa, rectangular, com as mesas dispostas dos lados maiores, ao fundo a zona técnica, sobriamente decorada, com as cores habituais e alguns quadros nas paredes, também do tipo habitual. Comemos muito bem.

 

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Embora estas incursões na culinária possam estar associadas a acontecimentos insólitos que já não me deviam espantar, a verdade é que continuam a fazê-lo. Bem me lembro de um restaurante brasileiro em que o meu companheiro resolveu discutir com o empregado não só a sua naturalidade nesse imenso Brasil, como o conhecimento do hino brasileiro. Conversa puxa conversa e a certa altura estava o pobre empregado a cantarolar o hino para provar que o conhecia. De outra vez, a mesma excêntrica companhia levou para o almoço, num restaurante chinês a que íamos frequentemente, um livro que andava a ler para perguntar, indicando o nome numa página, como se pronunciava em chinês Chiang Kai-shek. A dona do restaurante, que falava muito mal o português, ficou embasbacada e muito divertida, apontando os seus 2 indicadores simetricamente para a sua testa, não sei bem se a louvar a curiosidade de quem perguntava se a chamar-lhe louco, ou se apenas a rir da pronúncia dele.

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Enfim, e para encurtar a história, no meio do caril de peixe, depois de uma famosa chamuça de vegetais, fiquei a saber que Kerala é um dos 28 estados da Índia, por sinal o mais alfabetizado, com melhores níveis de saúde e de cultura, que a língua lá falada é o malaiala, e que as religiões se distribuem entre 55% Hinduísmo, 26% Islamismo e 18% Cristianismo. Fiquei ainda a saber que os donos, de estatura baixa, eram de Kerala e que estavam cá há poucos meses, tendo aberto o restaurante em Março.

 

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Pode ser pela minha falta de conhecimentos em tanta coisa, mas fico sempre espantada com alguém que parece passar os dias a ler enciclopédias. Por isso quando, à noite, ao vermos um excelente documentário na Netflix sobre 5 realizadores de cinema importantíssimos durante a II Guerra Mundial – “Five Came Back” (John Ford, John Huston, George Stevens, Frank Capra e William Wyler), e se contava como John Huston tinha sido enviado às ilhas mais longínquas dos EUA, ao ouvir à minha direita “Pois, as ilhas Aleutas”, fartei-me de rir, causando o embaraço envergonhado do dito erudito.

 

A verdade é que ainda fiquei a saber que a capital de Kerala é uma cidade de nome impronunciável (Thiruvananthapuram), e que os naturais de Kerala comem arroz a todas, mas todas, as refeições.

 

De facto, adoro!

De uma essência

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O protocolo permitia apenas um escasso número de pessoas a acompanhar cada agraciado. Atentamente e com os murmurinhos das antecipações cerimoniais, fez-se silêncio à entrada do Presidente da República.

 

Marcelo Rebelo de Sousa foi conciso, agradecendo em nome de Portugal (da Pátria, palavra em desuso e mal amada, mas razão de ser de qualquer militar) aos nove agraciados que deram de si o melhor pelo País.

 

O nome foi chamado alta e claramente, pronunciado de forma a percebermos todas as sílabas. O meu pai deu dois passos em frente e recebeu, das mãos do Presidente, a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, colocada com cuidado, respeito e carinho. As fotografias da praxe. E ele, com um aprumo que faz parte da sua essência, da sua mais funda memória de militar, perfilou-se.

 

Tão pouco que somos. E tanto que alguns de nós são. Aquela figura frágil, quase etérea, perfilada e orgulhosa, segura pelo núcleo da sua vida, de frente para o destino.

 

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