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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da vida velha ao novo ano - os treinos

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Nada como o fim de um ano e princípio de outro para termos muitos objectivos e decisões, mais ou menos drásticas, mais ou menos realistas, que nos transformarão em pessoas melhores, mais atentas, mais animadas, mais inteligentes, mais previdentes, mais ágeis, mais belas, mais elegantes, mais fantásticas, mas sobretudo mais felizes.

 

Eu sou pouco dada a resoluções de ano novo. Na verdade começo o ano tal como o acabo, a rezingar com o tempo e com as festividades, com a enorme quantidade de comida e o enorme desperdício, mas apesar de tudo esperançada que os tempos que se avizinham sejam melhores que os passados. Até porque as minhas decisões vão sendo tomadas ao longo do ano, ao sabor das necessidades e dos impulsos.

 

Por isso posso recomendar vivamente o que já experimentei e experimento, nomeadamente os treinos, de que já aqui fui falando. Sim assim mesmo no plural: os treinos – 4 por semana. E sim, eu sei que sou um pouco amalucada, mas a verdade é que foi uma boa resolução de verão de 2017.

 

É horroroso. Na verdade é uma faceta de masoquismo que eu tenho, e que me faz assumir sevícias inimagináveis, que me levam a grandes conversas comigo mesma, sempre insultuosas, às 07:00 de quase todos os dias da semana. Mas depois de se assumirem determinados compromissos, torna-se impossível largá-los. E os treinos são impossíveis de largar, mais precisamente a Personal Trainer ou PT.

 

As minhas manhãs começam com um animado bom dia (dito por ela, bem entendido) e com um ainda mais animado aquecimento no remo. Depois continua a tareia com inúmeros e variados exercícios que são funcionais, que fortalecem o core, que nos dão força e energia para além de uma imensa vontade de fugir após o assassinato frio e cruel da maravilhosa PT e de todos os outros PTs que torturam desgraçados e desgraçadas como eu.

 

Quando estamos quase a morrer, somos revificados com uma sugestão do bebericar de água, panaceia para todos os cansaços. Temos que aprender a usar uma escala de esforço, que vai de 0 a 10 e que nunca percebemos aonde está (porque para mim é sempre 8). Temos que estar continuamente a encolher a barriga e a juntar as omoplatas, pois o não cumprimento destas regras básicas da vivência levarão a todas as lesões conhecidas e desconhecidas do universo muscular e ósseo, a levantar e atirar bolas com 6 Kg de peso, a equilibrarmo-nos no bosu, a fazermos diversas modalidades de prancha, variadíssimos abdominais e lombares, TRX, lounges, agachamentos, enfim, o vocabulário completo de termos que apenas significam esforço e transpiração.

 

Tenho, no entanto, que dizer a verdade – estou mais equilibrada, mais condensada, mais energizada, sem dores nas costas e objectivamente melhor da osteoporose. A endocrinologista, que tem uma paciência de Job, está feliz e eu suspeito que há uma maçonaria secreta em que os aventais vestem PTs e endocrinologistas, onde planeiam estes horrores e se divertem a rir das nossas tristes figuras.

 

Tudo isto para dizer que devem experimentar. Não se arrependerão. A sério. Apesar do que disse tenho uma PT fantástica, que não desiste de mim nem de me transformar numa atleta do dia-a-dia, sem costas curvadas nem barriga descaída, sem tortuosidades na coluna e com as hipotéticas hérnias bem disciplinadas, mais animada e bem-disposta. Lá em casa dizem-me que foi remédio santo. Admiro-lhe a paciência e a imaginação, a permanente simpatia e o cuidado com esta quase sexagenária, mesmo que dura e rigorosa, sem perdoar nenhuma desculpa ou menor vontade, vigilante dos pecadilhos da gula, sempre cheia de estratégias difíceis de rebater.

 

A felicidade também se constrói com estas pequenas vitórias, como ser capaz de me equilibrar em cima de um bosu e fazer agachamentos! Nada é fácil na vida. E eu tive muita sorte com a PT que me calhou.

 

Portanto: 2020 aí vou eu, mais fit que nunca, saudável e esbelta, uma perfeita velhota em rejuvenescimento permanente.

Dois ranzinzas

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Graham McKean

 

Num restaurante de bairro fomos mimoseados a toda a hora com "queridos" pela empregada de mesa, muito despachada, assertiva e desastrada, com uma boa disposição artificial e irritante.

Detesto que me tratem por "menina", "querida", "filha", "jovem", etc. Mas quem reagiu foi o meu comparsa que, com um sorriso cheio de dentes e muito arrepiante, lhe disse que não era o "querido" dela.

Dois ranzinzas, concedo.

Mas é que detesto mesmo.

Nove de Novembro

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Em 1938, na Alemanha nazi, a noite de 9 de Novembro foi de violência contra os Judeus, com milhares de ataques a casas, a lojas e a sinagogas, levadas a cabo pelas SA e por cidadãos anónimos - Kristallnacht - Noite de Cristal. Anunciava-se o pesadelo e o horror de que o mundo inteiro se apercebeu após o fim da II Guerra Mundial - o Holocausto.

Em 1989, na noite de 9 de Novembro, caiu o símbolo da Guerra Fria, o muro que separava Berlim Leste de Berlim Oeste, erguido a 13 de Agosto de 1961 numa tentativa tosca de travar a hemorragia de gente que fugia do bloco comunista, numa bravata que podia ter iniciado a III Guerra Mundial.

Custa-nos hoje acreditar como foi possível tudo isto - a loucura nazi que perseguiu, torturou e matou milhões de pessoas, nomeadamente Judeus, arrastando o mundo para uma Guerra 21 anos após uma matança de proporções nunca vistas, a loucura comunista que fechou e dividiu o mundo, perseguiu, torturou e matou milhões de pessoas com base num totalitarismo pseudo científico e violento.

E no entanto as sementes do ódio e da intolerância estão a germinar de novo. A Europa vai-se esquecendo da sua História recente e os movimentos xenófobos, racistas e totalitários começam a ganhar cada vez mais força. Com os EUA perdidos na era Trump, é difícil recuperar a esperança renascida a 9 de Novembro de 1989 em que tudo parecia ser possível, como a reunificação da Alemanha no ano seguinte.

As desigualdades, as várias crises (demográfica, das migrações, climática, do trabalho), a emergência das novas organizações da sociedade e do trabalho com a era digital, a voragem exponencial que nos deixa em desequilíbrio permanente, os bloqueios políticos, os movimentos sociais que tão depressa inundam o quotidiano como se esquecem e descartam por outros, a irrealidade e irrelevância dos factos, a volatilidade da verdade, hordas de outros tempos neste nosso escasso e turbulento tempo.

Nove de Novembro é também a data de nascimento da minha mãe. Facto irrelevante para o resto do mundo, mas fundamental para este meu pequeno e invisível mundinho, onde diariamente me alimento de inquietação e esperança.

Coisas

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Thomas Dambo

 

Nestes dias molhados e peganhentos parece que tudo se encavalita, mistura e confunde. Os lençóis engelham, os sapatos encavalitam, os casacos não se despegam das cruzetas, as janelas emperram, os sacos de compras rouquejam pela rua, as folhas secas agarram-se às rodas do carro.

É nestas circunstâncias que se avolumam os objectos e as coisas que temos, que sempre achamos poucas mas que são muitas, demasiadas. Coisas, coisas e coisas, amontoadas e desarrumadas. Tropeçamos em fios dos computadores e telemóveis, enrolam-se os tapetes, afastamos almofadas, amontoamos frascos de colónia, pasta de dentes, copos, sabonetes, cremes e mais cremes, desodorizantes e amaciadores, esponjas e escovas, brincos, camisolas, meias, calças, candeeiros, livros, cadeiras.

Olhamos à volta e não percebemos o porquê da necessidade da maior parte das coisas que se multiplicam, que se reproduzem pelos cantos das salas e dos quartos e das cozinhas e das casas de banho, casas que se transformam em pletoras totalmente desviadas da nossa vida e do nosso mundo.

É urgente que nos desnudemos das coisas que nos rodeiam, das coisas que não nos preenchem mas apenas nos cobrem e impedem de olhar para o essencial, para o que somos, para o que queremos, para o que amamos.

Na estrada

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Pablo Picasso

 

Há sentimentos que ficam pendentes, emoções embrulhadas em esquecimento, em prioritários matizes de vida a continuar, como se tivessem desaparecido. Mas basta um segundo de desatenção, uma fenda na muralha entretanto erguida e defendida, para que se instalem e avolumem sem perdão.

 

Na lista telefónica do telemóvel, que avançadas tecnologias nos colocam à disposição e à altura dos olhos, aparece o número de quem já não está. De repente a sua voz enche o carro e eu fico sem perceber se o tempo recuou ou se a realidade regressou por um momento, tudo eterno e ritual, como a batalha contra o tempo, que sempre nos vence.

Dia de formação

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Jardim do Príncipe Real

 

  1.  

Pudera nascer de manhã

como as aves que atravessam a paisagem

e seguir viagem

sem barco sem rumo

apenas com a vida na bagagem.

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Disclosure

 

  1.  

Interesse sem conflito

tenho dito

e repito

que no desinteresse do delito

só interessa o retido

se sentido.

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Concert of birds

 

3.

Boca a altifalar

braços a esbracejar

monocordismo em torrente

bocejo inerente.

Gente

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Alan LeQuire

 

 

Não tenho género nem genes

que me distanciem de ti

outro género e outros genes

tão semelhantes a mim.

Tão diferentes entre si

todos pequenos e grandes

todos juntos e separados

nas diversidade e abundância

de génios e gente.

Lado a lado sem segredo

somos género humano

decente

sem medo.