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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Quadras de Natal (5)

dali navidad.jpg

Salvador Dali -1960

 

Viro o Natal do avesso

examino-lhe as costuras

corto estrelas em excesso

aconchego nas suturas.

 

Fui ao mato buscar lenha

para acender a lareira

sem amor que me sustenha

arde a alma na fogueira.

 

Abri a porta da casa

ao Menino que nasceu

há um mundo que extravasa

a tristeza que há no meu.

 

Parti o pão que me deste

bebi da água e do vinho

meu Menino que nasceste

rodeado de azevinho.

 

Viro o Natal do direito

e penteio-lhe a nervura

verde lindo e sem defeito

polvilhado de ternura.

 

Cante de Natal

cante alentejano BONECOS.jpg

Oh meu menino de oiro

minha alminha tão nobre

quem te deu como tesoiro

uma vida que é de pobre.

 

Oh meu perfeito menino

que és tão puro e natural

quem te deu como destino

lavar o mundo do mal.

 

Oh meu menino Jesus

que nasces todos os anos

que carregas uma cruz

de tristezas e enganos

 

Oh meu menino querido

não te afastes de nós

neste tempo desabrido

em que nos sentimos sós.

 

Oh meu menino tisnado

que secas o nosso pranto

a dormir tão descansado

no embalo deste canto.

 

Oh meu menino de trigo

seara da minha vida

que possas sentir abrigo

nesta voz enternecida.

 

Oh meu menino moreno

que sofres com meu penar

que possas ser o sereno

da noite que me levar.

Quadras de Natal (4)

 

 

 

 

Procuro a balada lenta

nesta noite abençoada,

no centro de uma tormenta

a bonança aconchegada.

 

Centramos as nossas vidas

na mesa da consoada,

lá fora há mãos estendidas

e sonhos sem alvorada.

 

Não sei se é o destino

que abre as portas à luz,

nem sei se um pobre menino

se chama sempre Jesus.

 

Mas sei que brilha uma chama

que desafia a razão:

é o calor de quem ama

e arde na solidão.

 

Quadras de Natal (3)

 

Stefano di Giovanni

 

Quero dar ao meu amor

um fio do meu cabelo

ternura branca de dor

rugas fundas em novelo.

 

Minha alma estendida

umas mãos cheias de nada

o resto da minha vida

a seu lado ancorada.

 

A doçura da romã

quero dar ao meu amado

o respirar da manhã

rumor do campo acordado.

 

Quando chegar o Natal

com a penúria enfeitada

em poeira de cristal

serei a noite encantada.

 

E enquanto o tempo quiser

serão meus braços seu manto

sempre que o céu mantiver

o tom cinzento de pranto.

 

E enquanto o tempo poisar

no ombro do nosso amor

nos dias que irão faltar

o mundo será melhor.

 

Quadras de Natal (2)

 

 

 

 

Pelo vento deste norte

entra a chuva de permeio

pelo teto da má sorte

já perdemos o sorteio.

 

Nem taluda de Natal

aquece o fim de Janeiro

nem festa de Carnaval

alumia o ano inteiro.

 

Vaticinam Entidades

em voz alta ou burburinho

tormentosas tempestades

a barrar-nos o caminho.

 

Respiramos nevoeiros

lendas velhas com bolor

sem armas nem cavaleiros

que nos respeitem a dor.

 

Faremos do astro rei

terra água fogo e ar

pelo povo e pela grei

havemos nós de clamar.

 

De Jesus não precisamos

parcos de fé e tão poucos

ao Menino nós amamos

mesmo que cegos e loucos.

 

Somos nós filhos de Deus

a pedir felicidade

possa ele fazer seus

nossos sonhos sem idade.

 

Quadras de Natal (1)

 

Cindy Thomas: Family

 

Meu rico menino pobre,
alminha do meu sustento,
o manto que não te cobre
protege a casa do vento.

 

Meu rico filho sem sorte
cordeiro limpo de medo,
o pai destina-te a morte
a mãe esconde um segredo.

 

Foge meu rico santinho
não queiras marca de Abel,
dócil como cordeirinho
o amargo sabor do mel.

 

Foge depressa, oh irmão
do malquerer do destino,
esquece o futuro que não
te deixa viver, oh menino.