Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Das decisões que se impõem

presidenciais 2016.png

 

Estive a reler tudo o que já escrevi sobre as eleições presidenciais. Lembro-me que foi nas vésperas de umas eleições presidenciais, as de 2006, que iniciei este blogue, em apoio à candidatura de Manuel Alegre. Dez anos já passaram. Eu estou muito diferente e o País também.

 

Tenho-me distanciado deste processo eleitoral porque não me sinto motivada a intervir publicamente. Por motivos que se prendem com a minha vida pessoal e profissional, mas também com o desinteresse e a frustração com o processo e com os candidatos. E também porque já percebi que as minhas reflexões e as minhas opiniões são, na maior parte das vezes, ultrapassadas pela realidade.

 

Surpreendi-me e continuo a surpreender-me com as evoluções políticas desde as últimas eleições legislativas. Considero esta solução governativa inédita com enormes riscos, mas que até agora tem funcionado (bem). Mantenho as minhas reservas e preocupações, nomeadamente em relação à Educação. Não tenho nada contra os exames nem avaliações, muito pelo contrário, há estudos e relatórios internacionais e nacionais que apontam para reforços dos mesmos, e as alterações a meio de anos lectivos não me parecem boas decisões. Noutras áreas, entre as quais a da Saúde, estou expectante e os sinais têm sido (muito) encorajadores e promissores. Ou seja, António Costa e os seus ministros estão a levar a sua avante, de forma diplomática, cumprindo o que prometeram. Mantenho as reservas e as expectativas. Torço para que corra muito bem.

 

Voltando às presidenciais, por muito que tente não consigo alhear-me totalmente. A proliferação de candidatos é sintomática da sensação de irrelevância que esta função atingiu, muito resultado da presidência de Cavaco Silva, mas também do próprio esvaziamento dos poderes presidenciais. Considero um erro porque por muito escasso que sejam os poderes eles podem ser decisivos em alturas decisivas.

 

Ouvi os debates entre Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa com Marcelo Rebelo de Sousa. Com Sampaio da Nóvoa, Marcelo Rebelo de Sousa foi agressivo, deselegante e desagradável; com Maria de Belém foi desagradável, agressivo e deselegante. O palanque do qual perorou durante décadas ao povo, criticando, gozando e dando notas a todos os protagonistas políticos, culturais, desportivos, etc., etc., porque de tudo ele falava, obliterou o facto que Daniel Oliveira realçou – nós não sabemos o que Marcelo Rebelo de Sousa pensa, apenas sabemos a classificação que deu à forma como os outros se comportaram. Neste momento Marcelo Rebelo de Sousa está a ser avaliado, gozado e criticado, estando as suas notas a descer vertiginosamente.

 

Por outro lado, ao tentar expor como handicap a ausência de passado político de Sampaio da Nóvoa esvaziou totalmente a hipótese constitucional de qualquer cidadão sem um pesado currículo político se poder candidatar a alcançar a Presidência da República. Da parte de Marcelo o profissionalismo dos agentes da política é algo que se critica em abstracto mas que se defende em concreto. Já para não falar da incrível defesa da contenção de despesas na campanha eleitoral, o que é a negação da igualdade de oportunidades a todos os cidadãos para poderem ser eleitos, o que é uma atitude antidemocrática. Além disso o descaramento é demasiado, visto que Marcelo Rebelo de Sousa teve uma campanha subsidiada pela comunicação social que durou décadas.

 

A prestação de Maria de Belém foi irrelevante, para não dizer triste. Aquela ideia de explorar as características pantomineiras de Marcelo é de uma menoridade atroz.

 

Resta Sampaio da Nóvoa. A contenção com que enfrentou o despautério de Marcelo foi de uma estoicidade assinalável. Nenhum dos candidatos é o meu candidato. Mas não me absterei de votar e penso que é mesmo muito importante que se vote. A 2ª volta é alcançável. Ter na Presidência uma pessoa como Marcelo Rebelo de Sousa, por muito inteligente, culto e brilhante que seja, é um perigo institucional porque ele é sinónimo de instabilidade. Sampaio da Nóvoa é uma incógnita, não tem carisma, é pouco mobilizador, não disse ainda nada de relevante, tem um discurso intelectualizado e redondo. Mas demitirmo-nos de escolher é ajudar a eleger quem nós não queremos de todo.

 

Sendo assim, na convicção de que é preferível alguém que me diz pouco a alguém que considero um perigo, votarei em Sampaio da Nóvoa.

Do meu próprio inconseguimento (2)

resultados eleitorais.JPG

 

Já por diversas vezes ficou bem provado a minha total ausência de clarividência política. Confesso a minha incapacidade para perceber vários fenómenos na sociedade portuguesa.

 

O primeiro é o fato de uma enorme percentagem dos meus concidadãos pura e simplesmente se absterem de votar. O alheamento e o encolher de ombros, a par do permanente ruído dos queixumes, são uma marca identitária que me custa a aceitar.

 

O segundo é o sentido de voto que resulta destas eleições, após quatro anos de empobrecimento e retrocesso. Escusamos de versejar e tentar relativizar a perda de maioria absoluta da coligação de direita. Para mim é mesmo incompreensível que tenha ganho, por muito ou por pouco.

 

O terceiro é a atitude de António Costa que, desde a primeira hora, teve o meu apoio. Após tão estrondosa derrota – não esqueço que defendi que era ele que poderia levar o PS ao governo, substituindo António José Seguro da sua liderança invertebrada, não tem uma palavra para o combate interno que, fatalmente, se seguirá. Mesmo que não se demitisse, e admito que até seja importante manter a serenidade neste período imediatamente anterior às presidenciais, o que estaria à espera era que, pelo menos, anunciasse a realização de um Congresso extraordinário onde poderia reforçar (ou não) a sua liderança. O PS vai precisar de ter um líder incontestado e, neste momento, ou António Costa assume o risco de pedir que o desafiem e lhe disputem o lugar de Secretário Geral, ou o PS vai continuar em lutas internas enfraquecendo-se e esboroando-se.

 

Mas claro, isto sou eu que não entendo o resultado das eleições. Uma coisa é certa – teremos PAF por mais uns belos tempos. Este modelo foi sufragado e o PS terá que ter força para conseguir negociar algumas das suas bandeiras eleitorais.

 

Quanto às presidenciais – e que tal o PS repensar também a sua estratégia? É que se anuncia mais uma estrondosa derrota, seja ela com Sampaio da Nóvoa ou com Maria de Belém.

Carta aberta a um possível candidato

Guilherme_d'Oliveira_Martins.jpg

 Guilherme d'Oliveira Martins

 

António Sampaio da Nóvoa avançou para Belém. Crédito para ele, que se disponibilizou para esse serviço público e de cidadania. No entanto Sampaio da Nóvoa coloca vários problemas para as eleições presidenciais e legislativas:

 

  1. Sampaio da Nóvoa apresenta-se como um outsider do sistema político, um novo político que vai regenerar o sistema. Na minha opinião é um erro e uma postura perigosa. A Presidência da República é um cargo político que, nos difíceis tempos de descrença que atravessamos, deverá ser ocupado por alguém que privilegia a política e que a exerça de forma nobre. Ser-se político é mesmo aquilo que se deve pedir ao mais alto representante da Nação.
  2. Sampaio da Nóvoa apresenta-se com um discurso esperançoso e bem escrito, de não resignação às desigualdades e à pobreza, de transformação da sociedade – todos sabemos que o Presidente não o fará nem é para isso que o elegemos. O Presidente da República tem que ser alguém em quem a população se possa rever como exemplo de seriedade, honestidade e coragem e que, acima de tudo, respeite. Não precisamos de um amigo na presidência, de um companheiro de luta ou de um idealista inspirador. Não há qualquer problema em ter também estes atributos, mas não é por eles que será eleito – sê-lo-á pela percepção que teremos da sua capacidade de cumprir e fazer cumprir a Constituição, de saber ouvir o sentir do povo e que saiba interpretar os sinais da sociedade para que, com a sua influência e a sua determinação, possa ser o último garante do Estado de Direito, da Liberdade, da Democracia e da credibilidade das Instituições.
  3. Por outro lado, Sampaio da Nóvoa poderá ocupar a esquerda do PS e a área à esquerda ao PS, mas nunca poderá ganhar a área do centro. Isso abre caminho à vitória de qualquer candidato do centro-direita – Marcelo Rebelo de Sousa ou Rui Rio, por exemplo. Continuo a acreditar que Marcelo Rebelo de Sousa não se candidatará, pois por muito popular que seja colou-se à imagem de comentador do regime e dos políticos, uma espécie de Bobo da Corte o que, temo bem, não seja exactamente o que precisamos como último garante das boas relações institucionais e internacionais (mas isso é apenas uma crença minha, em nada partilhada por muitos com quem tenho conversado).
  4. Mas o certo é que se o PS apoiar Sampaio da Nóvoa, como fará, caso não apareça rapidamente outro candidato que possa abarcar a área política do centro-esquerda, ficará com  um espaço reduzido de actuação em relação às eleições legislativas: a) se Sampaio da Nóvoa ganhar, será que vai ser facilitador de eventuais necessárias coligações com o centro, na hipótese, cada vez mais provável, do PS não conseguir maioria absoluta?; b) e como ficará a mobilização e o entusiasmo para as eleições legislativas e a vitória do PS? Não é evidente que a direita ganhará novo alento com a ausência de um candidato ganhador? Mesmo que esqueçamos Marcelo Rebelo de Sousa, podem perfilar-se Rui Rio ou Mota Amaral, que poderão estar em condições de vencer as presidenciais.

 

Por isso lanço este desafio especificamente a Guilherme d’Oliveira Martins, a quem não conheço, numa espécie de carta aberta a um desejável (para mim) candidato a Belém. Quando tanto se fala de um perfil, um indivíduo com a sua craveira intelectual, a sua experiência política, a sua imagem de seriedade e de honestidade nas funções que já cumpriu e cumpre, fariam dele alguém em quem o País pudesse confiar para as difíceis futuras negociações que se avizinham, nos quadros nacional e internacional, alguém rigoroso e atento, alguém que respeite os cidadãos, o Estado, o serviço público, a nossa História, a nossa cultura e a nossa língua.

 

Nota: Vale a pena ouvir Pedro Marques Lopes e Pedro Adão e Silva sobre este mesmo assunto.

Da escolha das batalhas

Ramalho Eanes não tem que provar a ninguém a sua capacidade de se expor e de se bater pelo que acha justo. Se há coisa de que se pode orgulhar, e nós dele, é da sua coragem em defender ideias e causas.

 

Poderemos estar de acordo ou em desacordo com as suas escolhas, mas acusá-lo de se negar a travar batalhas apenas porque não divide palcos nem protagonismos, é lamentável (veja-se o último parágrafo). A menos que o facto de ser citado como referência moral o obrigue a apoios e empréstimos de generalato, como tão elegantemente foi colocado o assunto.

 

Se o apoio de Ramalho Eanes é visto como importante, a ponto de menorizar os de Mário Soares e Jorge Sampaio, isso significa que honrou o cargo e o País. Esperemos que o próximo Presidente, seja ele quem for, tenha a mesma postura e seja capaz de restituir a credibilidade às Instituições, como Ramalho Eanes foi.

Da tolerância democrática

Não deixa de ser surpreendente que alguém se candidate a Presidente da República, uma das Instituições da nossa democracia, e tenha tanto desrespeito e desprezo por outra Instituição da nossa democracia. Aliás se não existisse um regime democrático (e Republicano) essa figura não teria oportunidade de poder candidatar-se sequer.

Das referências

A diferença entre o despojamento, a generosidade e a integridade de Ramalho Eanes e os de outros candidatos, é que o primeiro não precisou de se adjectivar nem de proclamar os seus créditos de honestidade e seriedade, as suas qualidades de servidor público e amante da Pátria - isso foi a imagem com que o País ficou dele pela sua atitude a pela sua forma de fazer política.

 

A ambição em ser Presidente da República é legítima e pode ser a de qualquer um de nós que se sinta capaz e com vontade de exercer o cargo. A menção de Ramalho Eanes, porque é uma referência em Portugal, tem o perigo de ser interpretado como uma manobra de marketing algo desastrada e, parece-me, sem qualquer efeito nos cidadãos. Além disso, Eanes foi Presidente numa altura específica e especial, como esta agora também especial e específica é, não valendo a pena forçarem-se paralelos para empolgar os incréus.

 

A moralidade e a idoneidade fazem (ou não) parte de cada um e é com as suas características que cada candidato deve apresentar-se ao eleitorado, não com aquelas que pensa que serão mais aceitáveis. O carisma tem-se, não se pede emprestado.

 

Independentemente de não me rever nas candidaturas de Henrique Neto e de Sampaio da Nóvoa, ambos merecem o nosso respeito por terem clarificado as suas intenções e por se disponibilizarem para a corrida à Presidência. A democracia faz-se exactamente com alternativas e com coragem política. Aguardemos que outras personalidades sintam também esse apelo de cidadania, seja qual for o seu espaço político. É mais que tempo de se delinerarem as propostas para o novo ciclo político. Quanto mais cedo, melhor.

Do próximo Presidente da República (4)

sampaio da nóvoa.jpg

 António Sampaio da Nóvoa

 

Citando Eduardo Pitta, a Esquerda prepara-se com afinco para perder as Presidenciais de 2016.

 

Não estão em causa as qualidades de Sampaio da Nóvoa mas sim a capacidade de envolver e motivar à participação cívica nas eleições, para empolgar e fazer renascer a esperança dos cidadãos, para conseguir retirar a cada um de nós o melhor que temos para dar, enquanto membros de uma sociedade que está exausta e deslaçada.

 

Se for esta a candidatura do PS, considero-a um erro que terá proporções de arrastamento para uma escassa vitória nas legislativas, como já defendi, e reduzirá, em vez de aumentar, o espaço político necessário a uma maioria absoluta.

 

Não é aos partidos que compete a escolha de um candidato presidencial mas nenhum candidato com ambições de vitória avançará sem a certeza de um apoio partidário. Sampaio da Nóvoa, se aparecer rodeado por Mário Soares, como vem noticiado, reduz muitíssimo a margem para o aparecimento de outro candidato que possa englobar o PS e uma multidão de pessoas que votaram nas primárias e esperam que António Costa apresente a estratégia ganhadora para as legislativas e para as Presidenciais. Infelizmente, quanto mais tempo passa mais longínqua me parece essa possibilidade.

 

O PS precisa de realismo e coragem, não se socorrendo das bandeiras da intelectualidade para se afirmar de esquerda. Nada disso arrebata nos dias de hoje, pois tudo é feito de forma massificada e histriónica, com pouca substância e muita forma repetitiva e massacrante, o que cansa de imediato porque não significa nada.

 

Reafirmar valores e enfrentar o politicamente correcto é essencial para desmontar o totalitarismo emergente dos big brothers fiscais, da mediocridade reinante, das listas de pedófilos e de contribuintes VIPs, das causas fracturantes e dos comentadores econométricos, da notável falta de rigor e honestidade intelectual, da devassa da privacidade e atropelo aos direitos, liberdades e garantias em nome do moralismo abjecto e incapacitante.

 

É urgente que apareçam candidatos que tenham credibilidade, que tenham carisma, à esquerda, à direita, ao centro, em qualquer localização espacial. Estamos todos sedentos de gente séria, de gente da política, de gente que tenha vergonha e que não nos envergonhe.