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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Dos erros (ex) Presidenciais

Se Ramalho Eanes apoiar a candidatura de Sampaio da Nóvoa para as próximas eleições presidenciais, o PS perde a possibilidade de apresentar, de forma explícita ou não, qualquer outro candidato da área do centro-esquerda que possa ampliar a base de apoio e protagonizar uma verdadeira mudança de ciclo político no País.

 

Como está cada vez mais à vista, o PS foi ultrapassado pelos acontecimentos e não consegue arrancar com alma e coragem, deixando a iniciativa nas mãos das forças políticas mais ou menos marginais à esquerda e nas mãos da direita, com Marcelo Rebelo de Sousa em grande actividade dando gás a esta candidatura.

 

Considero-a (mais) um erro estratégico da esquerda, que se perde nos entrincheiramentos monolíticos e reage a tudo como actos provocatórios, sem que lhe ocorra, àquela histórica esquerda revolucionária, criativa e desestabilizadora, ter alternativas e imaginação. Em vez do descabelamento e das juras de amor eterno ao Texto Constitucional, recusando (por blasfema) a hipótese de discutir a possibilidade de se escrever uma nova Constituição, deveria preocupar-se em avançar com propostas que renovassem a democracia e obrigassem a direita ao desconforto.

 

Infelizmente estamos a assistir ao contrário. Por isso parece-me um erro também de Ramalho Eanes adiantar-se neste apoio, arrumando por mais 10 anos a questão presidencial.

A República precisa de um Presidente

 

 

É bom que comecemos todos a pensar em quem deve substituir Cavaco Silva, de forma a devolver a dignidade a um cargo que tem sido amesquinhado e menorizado por este Presidente da República.

 

Cavaco Silva não sabe responder ao tempo que vivemos, não é capaz de ser uma referência de equilíbrio e apartidarismo, não representa o País nem garante a Constituição que jurou defender.

 

Após 39 anos da fundação do regime democrático, há que fazer uma profunda reflexão, iniciando pelo papel e importância das Instituições, a começar pela Presidência da República. E um indispensável passo para essa inevitabilidade é que seja eleito um Presidente em quem possamos confiar e de quem nos possamos orgulhar.

 

Política (1)

 

Leonor Beleza, Maria de Lurdes Rodrigues, Assunção Esteves, Eduardo Ferro Rodrigues, são algumas pessoas sobre as quais as cúpulas partidárias poderiam pensar como possíveis candidatos à Presidência da República, pela necessidade e esperança de que a próxima disputa eleitoral nos faça eleger um futuro Presidente melhor que o actual. Não são nada consensuais. Mas isso seria bom sinal para um verdadeiro debate de ideias.

 

No entanto todos sabemos que o que menos interessa, principalmente às cúpulas partidárias, são debates ideológicos. A política, hoje em dia, é feita por gabinetes onde pululam jornalistas acéfalos, na esfera de gente pouco escrupulosa. É muito mais importante espalhar mentiras e vasculhar a vida privada de quem teve ou tem visibilidade, do que discutir a evolução da sociedade e do regime democrático, o papel do Estado em sociedades envelhecidas, a evolução científica e tecnológica no bem-estar das populações, enfim, o uso do poder para servir os cidadãos.

 

Afirma-se e desmente-se

 

Como disse há alguns dias, era necessário saber ao certo o que se tinha passado no dia das eleições, para que se apurassem responsabilidades e se percebesse se teria havido possíveis implicações nos resultados eleitorais.

 

Após a prestação do Ministro Rui Pereira na Assembleia da República e do desmentido do ex-Director-Geral da Administração Interna, a confusão é ainda maior. No relatório encomendado pelo Ministro fica a saber-se que 770.000 eleitores deveriam ter recebido uma notificação sobre a mudança do número de eleitor e do local de votação. Ou seja, setecentos e setenta mil eleitores podem ter ficado sem votar.

 

É claro que considero que os eleitores também são responsáveis por não se terem informado. A verdade é que todos achamos que os outros são sempre responsáveis por aquilo que nos diz respeito a nós. Mas isso não pode apagar as responsabilidades do Ministério como um todo e do próprio Ministro em particular. E este novelo em que se está a transformar o relatório, as explicações e os desmentidos, é degradante. O Ministro deveria pedir a demissão.

 

Como disse ontem Correia de Campos, se Rui Pereira se tivesse demitido no próprio dia das eleições, era um herói, assim coloca-se, a ele e ao governo, numa situação cada vez mais desconfortável.

 

Do apuramento de responsabilidades

 

Passou uma semana desde o dia das eleições presidenciais. A demissão de Rui Pereira tem sido pedida todos os dias, com aumento de tom e de intensidade.

 

Como disse no próprio dia das eleições, considero lamentável que tenha havido pessoas, muitas ou poucas, que tenham tido dificuldade em votar por incúria dos respectivos departamentos estatais, seja por problemas técnicos, seja por não terem previsto e acautelado a situação, seja por não terem efectuado o que se lhes tinha determinado. Como é óbvio, é urgente que se apurem responsabilidades para que se possa actuar em conformidade.

 

Quando se fala de responsáveis tem que falar-se no Ministro da Administração Interna, responsável por tudo o que acontece sob a alçada do seu ministério, de bom e de mau. Mas acho estranho que, para além do CDS que pediu de imediato a sua demissão, o PSD tenha vindo, primeiro sugerindo depois exigindo a mesma demissão.

 

Em primeiro lugar seria importante saber se houve pessoas verdadeiramente impedidas de votar, e quantas, ou se houve dificuldade em votar, sentindo-se as pessoas dissuadidas por não quererem o desconforto da espera, etc. Não só porque é diferente, mesmo em termos de legalidade do acto eleitoral, como pelo possível significado em termos de resultados eleitorais. Já ouvi falar Paulo Rangel de dezenas de milhar de eleitores impedidos de votar. Se assim foi ainda mais me espanta que os partidos políticos não peçam a repetição do acto eleitoral. Porque se houve pessoas impedidas de votar, para além de tornar a eleição inválida é um problema gravíssimo que, aí sim, exigiria a demissão imediata do Ministro.

 

No entanto, se o caso foi o desconforto da espera e da confusão, levando as pessoas a desistirem de votar, embora o pudessem ter feito, apesar de grave e lamentável, não me parece que seja obrigatória a demissão do Ministro. É obrigatória a urgente conclusão do inquérito (e todos desconfiamos das urgências dos inquéritos) para que, posteriormente, o Ministro Rui Pereira analise a melhor forma de assumir a sua responsabilidade política.

 

Manuel Alegre

 

 

 

Manuel Alegre assumiu com clareza a derrota da noite. Sem ambiguidades nem desculpas, Manuel Alegre mostrou também o seu carácter. É nestes momentos que sabemos quem são as pessoas de bem. Podemos discordar violentamente delas, mas não deixamos de as aplaudir. E é também nessas horas amargas que a solidão deve doer mais. A sala do Altis estava muito vazia e a noite acabou demasiado cedo.

 

Não estive com Manuel Alegre nesta campanha, mas estive com ele na emoção de ontem, e presto-lhe a minha homenagem pela coragem e pelo serviço que prestou ao país.

 

Adenda: Que fique claro que considero um serviço ao país o facto de haver pessoas a candidatarem-se a cargos públicos. Tal como Fernando Nobre, Francisco Lopes, José Manuel Coelho e Defensor de Moura.

 

Presidente Cavaco Silva

 

 

 

Cavaco Silva é, de novo, Presidente da República. Foi eleito democraticamente, pelo que democraticamente aceitamos a vontade expressa livremente nas urnas.

 

Embora não seja surpresa é, para mim, uma desilusão. Manuel Alegre, como se esperava, não entusiasmou o eleitorado do centro-esquerda. A sua postura e prestação durante os últimos anos ditaram este resultado. O PS fez mal em ter apoiado a sua candidatura.

 

Temos, portanto, a vitória de uma visão de Portugal e dos portugueses, quanto a mim minimalista, conservadora e ultrapassada. Venceu o imobilismo e o Portugal bolorento. Esperemos que, daqui a 5 anos, haja uma verdadeira disputa eleitoral. Espera-nos um ano de instabilidade, com o PSD e o CDS a fazerem os cálculos para uma próxima legislatura. Veremos se o PCP e o BE estão dispostos a viabilizar os anseios do PSD.

 

Abstenção

 

É lamentável que a mudança para o Cartão do Cidadão não tenha acautelado o conhecimento imediato e fácil do número de eleitor. Mas mais lamentável ainda é tentar usar-se essa ineficiência, porque de ineficiência se trata, como argumento e desculpa para o aumento da abstenção.

 

Só não vota quem não quer votar e é bom que cada um de nós assuma a sua decisão. Mas para quem vê filas enormes para entregar o totoloto, para comprar bilhetes para concertos ou jogos de futebol, é ridículo invocar as filas para conhecer o número de eleitor como dissuasoras do voto.

 

É sempre mais fácil acusar o governo, o Estado, Deus ou "eles" do que alguém assumir que não tem opinião ou que não a quer ter.

 

Votar

 

Não há frio, vento, chuva, sol abrasador ou nevoeiro pesado que me impeça de votar. Votar é uma festa, um orgulho, um acto de cidadania. Votar é ter uma palavra a dizer sobre o nosso destino colectivo.

 

A democracia tem como base o poder das pessoas, do povo, do todo e de cada um de nós. As eleições são um dos momentos chave do regime democrático. Cada voto conta.

 

ADENDA: Não se enerve se não souber o seu número de eleitor. Basta:

  • ir ao site: http://www.recenseamento.mai.gov.pt
  • enviar um SMS para o nº 3838 com a seguinte mensagem: RE nº do Bilhete de Identidade/Cartão do Cidadão data de nascimento=AAAAMMDD
  • telefonar para 808 206 206
  • ir à Junta de Freguesia.