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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Jornalismo a sério...

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André Ventura: "Contradição entre a minha tese e o meu discurso? Não tem nada a ver"

 

...é isto - O populista André e o "politicamente correto" Ventura - um fantástico artigo de Fernanda Câncio, que resulta da leitura da tese de doutoramento do líder do CHEGA, André Ventura: Towards a new model of criminal justice system in the era of globalised criminality: the biggest challenges for criminal process legislation (Para um novo modelo de sistema de justiça criminal na era da criminalidade globalizada: os grandes desafios para a lei de processo penal).

Vale a pena perceber como se pode ser líder de um partido populista e de ultra-direita dizendo o exacto contrário do que se defendeu numa tese de doutoramento, sobre políticas securitárias, subversão dos direitos humanos, exploração do medo, xenofobia, racismo, etc.

Espero que este indivíduo seja confrontado em todo o lado, por maioria de razão no Parlamento, com as suas enormes contradições, para que seja desmascarado como um verdadeiro oportunista sedento de poder.

Populismos

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O discurso de João Miguel Tavares, mesmo antes de ter sido proferido, já tinha vários detractores, apenas porque era dele, João Miguel Tavares, comentador encartado do Governo Sombra e opinante do Público, que cresceu e se diferenciou à custa de gritar contra José Sócrates.

 

Não tenho qualquer simpatia pela figura e discordo de quase tudo o que ele diz. Por outro lado, não tenho Marcelo Rebelo de Sousa na conta de tonto, pelo que a escolha de João Miguel Tavares para organizar as cerimónias comemorativas do Dia de Portugal me mereceu, pelo menos, o benefício da dúvida. E li com atenção o discurso que ontem fez.

 

João Miguel Tavares aponta ao país aquilo que a geração dele pensa do mesmo. O desencanto, a desilusão, a falta de perspectivas de futuro, pelo menos a sua incerteza, a crescente desigualdade de oportunidades, o fosso entre o interior pobre e o litoral rico, a perpetuação das chamadas elites, o divórcio com a política.

 

Todos os problemas existem e são importantes. O problema de João Miguel Tavares, como de muitos outros, é a repetição do mantra nós e eles, significando nós - o povo, por inerência bom, honesto e ingénuo, eles - os políticos, por inerência pérfidos, incompetentes, desonestos e ladrões.

 

A responsabilidade do estado do país é nossa, de todos. Os políticos são pessoas iguais a nós, uns melhores outros piores, que nós próprios escolhemos, por acção e, cada vez mais frequentemente, por omissão. O que gostaria de ter ouvido a João Miguel Tavares não era pedir aos políticos que nos dessem alguma coisa em que acreditar, mas o repto à sua e às gerações mais jovens para participarem na vida pública, que é um dever, para votarem, para se manifestarem, para contribuírem e fazerem política, que é responsabilidade de todos. Critico, por isso, e nesse sentido, o seu discurso, populista no apelo do nós contra eles.

 

Mas as reacções que fui lendo ao longo do dia por pessoas que se concebem de esquerda, que não se cansam de apregoar valores de igualdade, tolerância, respeito pelas diferenças e pela liberdade de expressão de pensamento, acabam por adubar e fazer crescer os populismos, arrasando qualquer opinião que, mesmo que remotamente, ponha em causa os seus dogmas. É precisamente esse arregimentar de tropas, esse encurralar de facções, que muito contribui para o aumento do cansaço e da exaustão perante o exagero e o tremendismo, e que afasta as pessoas da intervenção pública e do activismo político. Não há qualquer interesse em ouvir e tentar entender, mas sim arrasar um lado, independentemente do gradiente do outro. Ao reduzir todos à mesma substância, emparceira-se João Miguel Tavares com André Ventura. A sanha é a mesma.

 

João Miguel Tavares foi populista mas não só, e o seu carisma aumenta na proporção inversa do desprezo a que é votado pelas patrulhas de esquerda que, de tão limpas e puras no seu esquerdismo, chegam a ser tão demagógicas quanto ele.

Da hiperactividade presidencial

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Quem vai seguindo este blogue sabe que eu comecei por não acreditar que Marcelo Rebelo de Sousa se candidatasse à Presidência, depois não votei nele, depois fui elogiando várias facetas do seu mandato, que muito me têm surpreendido e agradado. E também já tenho comentado a hiperactividade e a filosofia da política dos afectos, que me tem parecido excessiva e que, mais tarde ou mais cedo, se vai virar contra o próprio (bem sei que nunca acerto nas minhas previsões, mas continuo a tentar).

 

Vem este intróito a propósito de vários comentários críticos sobre a minha apreciação ao discurso do Presidente após os incêndios de 15 de Outubro. Mantenho tudo o que disse e ainda o que penso sobre a reacção de algumas figuras do PS (segundo o próprio Jorge Coelho, na Quadratura do Círculo, sem verdadeira expressão no partido). Foi António Costa que não soube interpretar a situação e deixou a iniciativa política para Marcelo.

 

Mas isso não é sinónimo de aplaudir tudo o que o Presidente diz e faz e sim, também me parece que está a raiar o populismo e a demagogia, neste caso porque a oposição não existe e deixa espaço a Marcelo para o ocupar. Não é obviamente possível resolver o problema dos incêndios nos 2 anos que faltam de legislatura. Além disso Marcelo inaugurou um estilo que, mais tarde ou mais cedo, vais banalizar as suas atitudes, se não começar a escolher mais as suas intervenções, sejam elas de afecto político ou de política sem afecto.

 

Mas não se enganem nem o Governo nem os partidos que o suportam. Marcelo Rebelo de Sousa não deixou de ser Marcelo Rebelo de Sousa após a eleição presidencial. E António Costa sabe com certeza que é com os actos e com a governação que convence e ganha a confiança do País.

Dos guardiães da moral pública

As polémicas à volta do novo cargo de Lacerda Machado na TAP por ser amigo do Primeiro-ministro, e do contrato de Inês César para a Câmara de Lisboa, por ser sobrinha de Carlos César, fazem-me sempre pensar nalgumas questões.

 

Será que os amigos e familiares dos agentes políticos não podem exercer actividades profissionais na Administração Pública, ou em qualquer actividade a ela ligada? O problema não deveria estar nos laços de amizade, nos conhecimentos ou nas genealogias das pessoas, mas nas capacidades e competências que têm para as funções que exercem e na correcção dos processos de recrutamento.

 

Por outro lado, seria muito interessante procurar os amigos, conhecidos e familiares daqueles que, de imediato, declamam a sua indignação partindo do pressuposto de que houve corrupção e favorecimento de amigos/ familiares na base destas contratações. Seria certamente curioso saber a forma como essas honestas e rectas criaturas teriam chegado às funções de opinantes, aos seus empregos escrutinadores da moral pública. Será que o foram apenas e só pelos seus méritos, sejam eles quais forem?

Acordemos

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Hillary Clinton

 

Depois do enorme duche de água gelada após a inimaginável vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA, vale a pena acalmar e pensar em várias questões:

  1. Não podemos assumir que as únicas razões para a votação em Donald Trump são a estupidez, a ignorância, a xenofobia e o sexismo, embora essas razões também devem ter estados presentes.
  2. Temos que tentar perceber que a insatisfação, a desigualdade, o desemprego e a crise económica desenvolveram uma crise social que afasta as pessoas dos políticos e da política, levando-as a acreditar em alguém que as convence estar fora do sistema.
  3. Os políticos, nomeadamente os de esquerda, menorizam e inferiorizam os eleitores, tratando-os com desdém e com sobranceria, em vez de tentarem compreender os seus anseios e procurarem soluções para os seus problemas.
  4. A constante afronta aos políticos e à política, falando-se continuamente de corrupção, com suspeitas constantes, acusações, faltas de respeito e desvalorização das funções públicas, são contraproducentes e só alimentam a desconfiança das populações em relação aos seus representantes.
  5. É urgente perceber o que causou os erros das projecções e das sondagens - as pessoas mentiram? Os autores das sondagens não valorizaram ou não contabilizaram com rigor as intenções de voto em Trump? Foram deliberadamente alteradas?
  6. É urgente perceber a crescente irrelevância dos media na cobertura das campanhas e na forma como, deliberadamente ou não, condicionam os leitores, provavelmente levando-os a fazer o contrário daquilo que advogam.

Este é um sinal, mais um depois do BREXIT, que deve acender todas as lanternas vermelhas em todos os cantos da Europa. As ondas populistas continuam e crescem e, enquanto as instituições nacionais e internacionais, como por exemplo a União Europeia, mantiverem o estado de negação e não olharem para os seus povos, para as suas angústias e temores, sem paternalismos nem juízos morais, para tentarem resolver os reais problemas das pessoas, a lenha continuará a ser lançada para estas fogueiras.

 

Não vale a pena lamentarmo-nos. A democracia funcionou e funciona. Mas se esta é a vontade da maioria, por algum motivo essa maioria tem esta vontade. O combate tem que ser frontal, diário e com actos, não apenas com intenções e discursos retumbantes.

 

Esperemos que o Trump Presidente não cumpra as promessas do Trump candidato. De resto, o futuro afigura-se-me bastante incerto e com cores bastantes escuras.

 

Do esboroar do projecto Europeu

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A sensação difusa de que a União Europeia se está a esboroar está cada vez mais intensa e real. Quando António Vitorino, ex-comissário e europeísta convicto, na rentrée política do PS afirma que a divisão entre os grupos dos ganhadores e perdedores é uma ameaça ao projecto europeu, podemos estar certos de que, no PS, começa o afastamento ao europeísmo militante.

 

Já não é possível ignorar os sinais que se foram acumulando ao longo de tantos anos e que se agudizam diariamente. A desigualdade, a falta de solidariedade e de coesão entre os países da Europa Central e do Norte e a Europa do Sul, o desemprego galopante, o esfarelamento da democracia nos países da periferia sob o jugo das dívidas e da recessão económica e a crise dos refugiados, confluem para a tempestade perfeita.

 

O populismo e a xenofobia aumentam e estão predominantemente (mas não apenas) do lado dos euro-cépticos. O afastamento entre as populações e os representantes europeus é cada vez maior e está a ser arregimentada pelos extremismos. A crise dos refugiados ameaça ser a gota de água pela incapacidade demonstrada na sua resolução, com a proliferação de muros entre fronteiras e o alargamento das sensações de insegurança e de medo por entre as populações.

 

Angela Merkel está a perder o seu eleitorado sendo uma das poucas vozes que se mantém fiel ao seu compromisso com a integração e o acolhimento dos refugiados. Mas as opiniões públicas revoltam-se contra o que pensam ser a razão da sua própria pobreza e insegurança. Os líderes extremistas têm sido muito bem sucedidos em integrar o pensamento de que o que é diferente é perigoso.

 

Infelizmente estou convencida que as forças centrífugas são cada vez mais fortes e que não há arte, engenho nem vontade para dar a volta à situação, de forma a que os europeus se possam reconciliar uns com os outros, vencendo a desconfiança de que falava António Costa, recuperando os valores que estiveram na fundação desta União.

Da tolerância democrática

Não deixa de ser surpreendente que alguém se candidate a Presidente da República, uma das Instituições da nossa democracia, e tenha tanto desrespeito e desprezo por outra Instituição da nossa democracia. Aliás se não existisse um regime democrático (e Republicano) essa figura não teria oportunidade de poder candidatar-se sequer.

Do ferro com que se mata e com que se morre

O resvalar da política para o populismo, baseando hipocritamente as opções políticas em moralismos e caracteres impolutos, acaba sempre por cair em cima dos mais fundamentalistas. A transformação do espaço público numa telenovela em que se fazem ataques de carácter e se pedem desculpas aos cidadãos, no mais descarado exercício de demagogia e vazio de qualquer significado, desqualifica o exercício do poder e quem o exerce.

 

É exactamente isso que está a acontecer a Passos Coelho, como antes aconteceu a José Sócrates - denúncias anónimas sugerindo ilegalidades e crimes que depois não se provam, com o único intuito de colar aos personagens em questão o opróbrio de serem e fazerem o contrário do que apregoam e do que exigem que os outros sejam e façam.

 

Enquanto não houver provas factuais de que Passos Coelho foi pago por algum trabalho que tenha realizado, tem que ser considerado inocente. Quem acusa é que tem que provar o crime, não é o contrário. Felizmente ainda não foi aceite a inversão do ónus da prova.

 

Os governantes devem ser julgados nas eleições quanto ao exercício da governação, e nos tribunais quando cometem crimes. Tal como todos os outros cidadãos, têm direito ao bom nome e à presunção de inocência. A forma como Passos Coelho reagiu não terá sido de molde a acalmar as suspeitas. E o envolvimento da Assembleia da República e da Procuradoria-Geral da República são inaceitáveis e demonstram uma falta de respeito pelas Instituições a que, infelizmente, já nos habituou. No entanto penso que fosse qual fosse a sua reacção as suspeitas continuariam. Foi, é e será sempre assim.

 

Qualquer político que caia nesta tentação, tal como António José Seguro ao pedir ao Primeiro-ministro que autorizasse a devassa das suas contas bancárias, o que lhe foi negado e, quanto a mim, muito bem, está na mira dos detectives da podridão e da calúnia - mais cedo ou mais tarde será a sua vez.

 

Nota: lembrado por A. Teixeira, um precedente dos pedidos de desculpa.