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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Populismos

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O discurso de João Miguel Tavares, mesmo antes de ter sido proferido, já tinha vários detractores, apenas porque era dele, João Miguel Tavares, comentador encartado do Governo Sombra e opinante do Público, que cresceu e se diferenciou à custa de gritar contra José Sócrates.

 

Não tenho qualquer simpatia pela figura e discordo de quase tudo o que ele diz. Por outro lado, não tenho Marcelo Rebelo de Sousa na conta de tonto, pelo que a escolha de João Miguel Tavares para organizar as cerimónias comemorativas do Dia de Portugal me mereceu, pelo menos, o benefício da dúvida. E li com atenção o discurso que ontem fez.

 

João Miguel Tavares aponta ao país aquilo que a geração dele pensa do mesmo. O desencanto, a desilusão, a falta de perspectivas de futuro, pelo menos a sua incerteza, a crescente desigualdade de oportunidades, o fosso entre o interior pobre e o litoral rico, a perpetuação das chamadas elites, o divórcio com a política.

 

Todos os problemas existem e são importantes. O problema de João Miguel Tavares, como de muitos outros, é a repetição do mantra nós e eles, significando nós - o povo, por inerência bom, honesto e ingénuo, eles - os políticos, por inerência pérfidos, incompetentes, desonestos e ladrões.

 

A responsabilidade do estado do país é nossa, de todos. Os políticos são pessoas iguais a nós, uns melhores outros piores, que nós próprios escolhemos, por acção e, cada vez mais frequentemente, por omissão. O que gostaria de ter ouvido a João Miguel Tavares não era pedir aos políticos que nos dessem alguma coisa em que acreditar, mas o repto à sua e às gerações mais jovens para participarem na vida pública, que é um dever, para votarem, para se manifestarem, para contribuírem e fazerem política, que é responsabilidade de todos. Critico, por isso, e nesse sentido, o seu discurso, populista no apelo do nós contra eles.

 

Mas as reacções que fui lendo ao longo do dia por pessoas que se concebem de esquerda, que não se cansam de apregoar valores de igualdade, tolerância, respeito pelas diferenças e pela liberdade de expressão de pensamento, acabam por adubar e fazer crescer os populismos, arrasando qualquer opinião que, mesmo que remotamente, ponha em causa os seus dogmas. É precisamente esse arregimentar de tropas, esse encurralar de facções, que muito contribui para o aumento do cansaço e da exaustão perante o exagero e o tremendismo, e que afasta as pessoas da intervenção pública e do activismo político. Não há qualquer interesse em ouvir e tentar entender, mas sim arrasar um lado, independentemente do gradiente do outro. Ao reduzir todos à mesma substância, emparceira-se João Miguel Tavares com André Ventura. A sanha é a mesma.

 

João Miguel Tavares foi populista mas não só, e o seu carisma aumenta na proporção inversa do desprezo a que é votado pelas patrulhas de esquerda que, de tão limpas e puras no seu esquerdismo, chegam a ser tão demagógicas quanto ele.

Da pornografia

A discussão da existência ou não de PPP na Saúde é totalmente legítima e os argumentos de parte a parte devem ser esgrimidos. As opiniões são livres e é importante o debate. Mas a manipulação da informação e a tentativa de ganhar o apoio da opinião pública com mentiras encapotadas, mesmo que mascaradas com a verdade, é verdadeiramente abjecta.

 

Mais pornográfica é a demissão dos jornalistas, ou daqueles que se chamam mas não praticam jornalismo, para não generalizar, por negligência, incompetência ou apenas porque se prestam a isso, nem sequer se darem ao trabalho de procurarem minimamente assegurar-se da veracidade e correcção das notícias plantadas nas redacções, para que sirvam de caixa de ressonância de vários interesses.

 

As notícias sobre o Hospital Vila Franca de Xira que fizeram ontem as manchetes da TVI e de vários outros jornais online, são disso um bom exemplo. Em lado nenhum se leu ou ouviu qualquer jornalista a tentar desmontar a notícia, simplesmente lendo os relatórios que estão disponíveis na ERS, nem os facultando nas suas páginas.

 

Declaro já, como já declarei noutras alturas, que trabalho no Hospital Vila Franca de Xira e com muito orgulho, porque sei que é um Hospital que se rege precisamente pelo cuidado que tem na prestação de cuidados de saúde. Mas nem sequer é isso que mais me revolta: é a certeza de que não se pode confiar em nada do que se lê e ouve nos órgãos de informação, é constatar a triste inutilidade de uma profissão que é cada vez mais importante e necessária.

 

É claro que, por coincidência, o BE chama com urgência Marta Temido ao Paramento:

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É mesmo um timing perfeito!

 

Adenda: vale a pena ler o título, o subtítulo e o texto da notícia do Público que atribui a Vítor Gaspar a paternidade do protocolo que permite usar a GNR em operações fiscais. É que, se lermos tudo, afinal a ideia teria sido do governo de José Sócrates, mas com a PSP. Enfim, era preciso arranjar forma de sacudir uma inacreditável e abusiva medida para alguém anterior a este governo. Mas uma notícia manipulada.

Da abjecção - não pode valer tudo

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candidato Rangel

 

Acabo de ouvir o candidato Paulo Rangel a associar este governo e a sua negligência em relação ao SNS ao aumento da taxa de mulheres na gravidez e/ ou parto.

 

É absolutamente irresponsável fazer, neste momento, qualquer tipo de acusações, pois não se sabe, sequer, se este é um aumento pontual ou uma tendência que se irá manter; quando a escassez de dados e as opiniões de quem sabe desta matéria (tal como aconteceu com o aumento das mortes neo-natais) aconselham cautela e indicam como provável causa o aumento da idade das mulheres que engravidam.

 

Este é um assunto demasiado importante e grave para se usar desta forma obscena. Não pode valer tudo. Mesmo para um candidato como Paulo Rangel, isto é surpreendentemente mau.

Contorcionismos

Os partidos da coligação negativa ensaiam vários contorcionismos, da direita à esquerda, para que se desfaça a ameaça de eleições antecipadas.

 

Catarina Martins apela: "O apelo que eu faço ao Partido Socialista é tão simples quanto sensato: mantenhamos o acordo, não temos de votar com a direita, mantenhamos o acordo, mantenhamos a forma de respeitar todos os trabalhadores de uma forma gradual, como já tínhamos decidido, como já tínhamos votado em conjunto".

 

Jerónimo de Sousa psicanalisa: "fixado numa eventual maioria absoluta".

 

Assunção Cristas faz uma pirueta: "Para nós a decisão é muito simples: ou o Parlamento aceita as nossas condições ou não aprovaremos qualquer pagamento."

 

Rui Rio... estará a ensaiar um flick flack à rectaguarda?

Demissão do governo

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Expresso

 

 

E fez muito bem. Os partidos de esquerda e de direita terão agora que explicar como e onde vão encontrar orçamento para pagarem a todas as carreiras da função pública que, legitimamente, também querem a recuperação total da contagem do tempo de serviço congelado.

 

E também explicar quando e como vão pagar, porque a ónus está, para já, no governo do próximo ano.

 

Isto é tudo uma tristeza. Fez bem António Costa.

Na Saúde

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Jogam-se as cartas na Saúde - o BE, numa corrida de antecipação, tentando ganhar os louros da decisão, ou seja, votos, apressa-se a rejubilar por ter fechado um acordo com o Governo (ou o PS?) em relação ao fim da continuidade das PPP* para além dos contratos em curso. O PCP não só desmente o BE como deixa entender que ainda está tudo em discussão e que também é protagonista. O governo (ou o PS?) terá sido apanhado de surpresa pela pressa do BE e não gostou, deixando no ar a ideia de que o documento é apenas de trabalho - mas está lá essa hipótese ou não?

 

Entra em jogo o Presidente, ou alguém por ele, ou o centro político por ele, ou as empresas privadas de saúde por ele (ou por nós?), escapando para a opinião pública um prometido veto, caso esse acordo seja para avançar.

 

Por outro lado Marta Temido está sob fogo por causa das listas de espera para cirurgia enquanto Presidente da ACSS - foram as listas expurgadas de quem já deveria não estar lá? Ou foram mesmo cirurgicamente geridas para melhorar estatísticas? Convinha esclarecer este assunto, porque é muito importante. Infelizmente, não tenho capacidade para ajuizar da verdade de cada um, pois aprendi a desconfiar de tudo e de todos. Na realidade há imensos doentes que estão inscritos em listas de espera e que, entretanto, ou já foram operados noutros locais, ou faleceram, ou desistiram de ser operados. A falta de softwares apropriados, sendo os que existem diferentes em cada Instituição, dificulta ou impossibilita o cruzamento de dados e a sua actualização automática. Há muitas disfunções no sistema (como noutros) e, ciclicamente, as listas devem ser revistas e actualizadas. Mas a investigação dos doentes que morreram enquanto em lista de espera é essencial, como pede o Bastonário da OM que, entretanto, poderia ter mais cuidado com as declarações que faz sobre a degradação do SNS, porque sabe, ou deveria saber, que este governo, nesta área como noutras, não pode recuperar em 4 anos o que se degradou em muito mais.

 

E que é feito da dívida dos grupos privados de saúde à ADSE? Já todos se esqueceram disso, agora que, de novo, já há acordos com a ADSE, depois da estrondosa rotura a que assistimos, lançando o pânico entre os beneficiários deste subsistema de saúde?

 

*Declaração de interesses: trabalho numa PPP, defendo afincada e furiosamente o SNS, e sou contra o fim das PPP na Saúde.

Da jovem esperança

Parece que estamos todos adormecidos, atarantados, gaseados pelos horrores que vão acontecendo por esse mundo. O ataque terrorista na Nova Zelândia, anteriormente o de Pittsbrugh, o vandalismo destruidor dos coletes amarelos em França, nomeadamente em Paris, Trump, Bolsonaro e semelhantes, a crise da Venezuela, o Brexit, enfim, todo um corolário quotidiano de precipitação para abismos que nos gelam e que não sabemos como parar.

 

Por isso é uma frescura de alma e uma esperança dar conta de algumas pérolas, inesperadas e surpreendentes, como este movimento:

 

Algo está muito errado

Quando um Estado que se diz democrático se propõe prender por 25 anos elementos que defenderam e defendem a independência de uma região, por meios não violentos.

 

Em Espanha, por muito que eu pense que os separatistas catalães conduziram muito mal todo este processo, não consigo entender e revolta-me o meu sentimento de justiça e liberdade, quando se aceita que haja pessoas presas há mais de um ano, preventivamente, por defenderem os interesses do povo que as elegeu legitimamente, e que se coloque sequer a hipótese de as condenar como se fossem assassinas.

 

Algo está mesmo muito mal no reino aqui ao lado.

Of mice and men*

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A extrema-direita alastra, perde vergonha e ganha força - em Espanha, mesmo aqui ao lado, Franco revive - ¡Una, Grande y Libre! - ¡Arriba España!

 

A democracia espanhola tem presos os políticos catalães que querem referendar a sua independência. Presos por delito de opinião são presos políticos. Apelidar de traidor a Sanchez porque tenta resolver politicamente o imbróglio catalão, aumentado e extremado pelo PP, é espantoso.

 

A extrema-direita alastra na Europa e em Portugal, basta ver as declarações do Presidente do Sindicato da PSP, reagindo à visita do Presidente da República ao bairro Jamaica, após os distúrbios que por lá aconteceram.

 

O racismo, a xenofobia, o anti-semitismo, o machismo, a violência e o desprezo pelas minorias étnicas, o regresso aos (pseudo)valores ultramontanos e ultraconservadores da família e da pátria, do papel do homem e da mulher na sociedade, é tudo triste e assustador.

 

Em Espanha, mesmo aqui ao lado, Franco revive e rejubila.

 

*título de um livro de John Steinbeck

E mais não digo

Sou totalmente defensora do SNS, sempre trabalhei e trabalho para o SNS, primeiro no Hospital de Curry Cabral (ainda nos Hospitais Civis de Lisboa), depois no Hospital Garcia de Orta, depois no Hospital Fernando Fonseca, enquanto PPP e EPE, e agora no Hospital Vila Franca de Xira (em PPP), pelo que declaro já que posso não ser isenta na minha apreciação.

 

Li esta entrevista e sinto-me incomodada e revoltada com as palavras de Eduardo Barroso, que diz que pode haver perversões graves na gestão privada de hospitais públicos. É claro que pode, mas não haverá perversões graves na gestão pública de muitos hospitais públicos?

 

Eduardo Barroso não se explica - e mais não diz - deixando a insinuação de que as PPP só se preocupam com o fazer mais barato e só assumem procedimentos e tratamentos pouco onerosos. Convém esclarecer que todos os anos os hospitais celebram contratos com as respectivas ARS e estão obrigadas a cumpri-los, assegurando o atendimento e tratamento da população da sua área de influência e de quem, segundo a lei, a eles forem referenciados, sofrendo penalizações pesadas caso não consigam cumprir o contratualizado. Em relação à preocupação com certificação e acreditação de qualidade, são as PPP as mais dinâmicas e as que mais investem nessa área. Em termos comparativos com outros hospitais dos mesmos grupos, estão bem colocadas em todos os rankings, tanto nos custos como na qualidade dos serviços.

 

Já trabalhei em vários sistemas e regimes e não percebo muito bem aonde Eduardo Barroso quer chegar. Portanto gostaria que dissesse mais e mais claramente. A defesa do SNS não é bem servida por este tipo de entrevistas nem por preconceitos. Lembro-me bem das frequentes manifestações do BE na altura da PPP do Hospital Fernando Fonseca, onde "os Mellos" eram notícia diária pelas várias insuficiências do hospital, que miraculosamente deixou de aparecer nas TVs e nos jornais após a reversão da PPP, embora as insuficiências se tivessem mantido ou mesmo aumentado.

 

É essencial que estas parcerias sejam avaliadas e controladas, mas podem ser uma preciosa arma para melhor tratar os cidadãos, dentro do SNS. Se Eduardo Barroso tem alguma coisa a dizer, pois que o faça claramente.

 

E mais não digo.