Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Assim o amor

por Sofia Loureiro dos Santos, em 06.11.22

sofia_melo_breyner.jpg

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Assim o amor

Espantando meu olhar com teus cabelos

Espantando meu olhar com teus cavalos

E grandes praias fluidas avenidas

Tardes que oscilavam demoradas

E um confuso rumor de obscuras vidas

E o tempo sentado no limiar dos campos

Com seu fuso sua faca e seus novelos

 

Em vão busquei eterna luz precisa

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

in Geografia, 1967

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:07

Verbo Feminino

por Sofia Loureiro dos Santos, em 24.09.22

Verbo feminino.jpg

É difícil falar do recital de Natália Luísa e Rui Rebelo, no Teatro Meridional.

É difícil encontrar palavras para esta celebração da palavra das poetas dos vários espaços da Lusofonia.

É difícil explicar o sentimento de pertença, a sensação do maravilhoso, o escutar da voz da Natália tão bem acompanhada pela discreta e simples música de Rui Rebelo, da luz, do cenário, da elegância, da sensibilidade, da qualidade e variedade dos poemas ditos, interpretados, vividos.

Mas é muito fácil saber o porquê desta magia, do encantamento em que nos envolve a Natália. Do trabalho de pesquisa, da beleza de tudo o que faz.

E é fácil encontrar o espírito de luta, irmandade e solidariedade, mesmo na solidão e na revolta.

Que grande espectáculo, simbolicamente dedicado às mulheres iranianas.

Parabéns ao Meridional, ao Rui Rebelo e, sobretudo, à Natália.

Que privilégio poder assistir a este Recital!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:32

O Som que os Versos fazem ao Abrir

por Sofia Loureiro dos Santos, em 06.08.22

ana luisa amaral.jpg

Poemas de amor

Ana Luísa Amaral e Luís Caetano

29 de Junho de 2022

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:54

Sífiso

por Sofia Loureiro dos Santos, em 04.07.22

Sífiso.jpg

Sisyphus

Ticiano

 

Recomeça....

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

 

[Miguel Torga]

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:19

Uma Pequenina Luz

por Sofia Loureiro dos Santos, em 12.09.21

jorge sampaio

Cerimónias fúnebres de Jorge Sampaio (09:46)

 

Uma pequenina luz bruxuleante

não na distância brilhando no extremo da estrada

aqui no meio de nós e a multidão em volta

une toute petite lumière

just a little light

una picolla… em todas as línguas do mundo

uma pequena luz bruxuleante

brilhando incerta mas brilhando

aqui no meio de nós

entre o bafo quente da multidão

a ventania dos cerros e a brisa dos mares

e o sopro azedo dos que a não vêem

só a adivinham e raivosamente assopram.

Uma pequena luz

que vacila exacta

que bruxuleia firme

que não ilumina apenas brilha.

Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.

Muda como a exactidão como a firmeza

como a justiça.

Brilhando indefectível.

Silenciosa não crepita

não consome não custa dinheiro.

Não é ela que custa dinheiro.

Não aquece também os que de frio se juntam.

Não ilumina também os rostos que se curvam.

Apenas brilha bruxuleia ondeia

indefectível próxima dourada.

Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.

Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.

Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.

Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.

Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:

brilha.

Uma pequenina luz bruxuleante e muda

como a exactidão como a firmeza

como a justiça.

Apenas como elas.

Mas brilha.

Não na distância. Aqui

no meio de nós.

Brilha

 

Jorge de Sena

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:37

Pedro Tamen

Revisitação de post

por Sofia Loureiro dos Santos, em 29.07.21

pedro tamen.jpg

Gostava de ter conhecido Pedro Tamen. Gostava de ter conhecido o seu silencioso estar, fora das televisões, dos blogues, dos facebooks, fora da incrível tentação de dizer coisas, muitas e importantes coisas, tão interessantes, literárias, mundanas e triviais, aquelas coisas que todos estamos sempre com tanta vontade de dizer.

Gostava de ter conhecido Pedro Tamen. Ou se calhar não. Gosto só da ideia, da imagem que tenho dele, por não ter nenhuma, a não ser da poesia que escreve e de que eu gosto tanto.

 

17.

No clandestino recanto

com que sentado labuto

os pespontos do meu canto,

 

neste perdido reduto

em que as mãos amadurecem

a peça que fugirá

das mãos dos que não merecem

para andar ao deus-dará

num universo de espanto

 

em que o amor vai curtido,

calado, surdo, tingido

de uma cor que é o sentido

da salvação que acalanto

 

- aqui me caio e levanto.

 

O Livro do Sapateiro

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:31

O poema pouco original do medo

por Sofia Loureiro dos Santos, em 20.12.20

SARS-CoV-2.jpg

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
      (assim assim)
escriturários
      (muitos)
intelectuais
      (o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

              *

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

Alexandre O´Neill

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:28

Com que voz

por Sofia Loureiro dos Santos, em 23.07.20

Amália Rodrigues & Alain Oulman

Luís Vaz de Camões

Camané & Mário Laginha

 

Makaya

 

Com que voz chorarei meu triste fado,

que em tão dura paixão me sepultou,

que mor não seja a dor que me deixou

o tempo, de meu bem desenganado?

 

Mas chorar não se estima neste estado,

onde suspirar nunca aproveitou;

triste quero viver, pois se mudou

em tristeza a alegria do passado.

 

De tanto mal a causa é amor puro,

devido a quem de mi tenho ausente

por quem a vida, e bens dela, aventuro.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:31

Ao desconcerto do Mundo

por Sofia Loureiro dos Santos, em 10.06.20

Camoes_por_Fernao_Gomes.jpg

Camões por Fernão Gomes

 

Os bons vi sempre passar

No Mundo graves tormentos;

E pera mais me espantar,

Os maus vi sempre nadar

Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim

O bem tão mal ordenado,

Fui mau, mas fui castigado.

Assim que, só pera mim,

Anda o Mundo concertado.

 

Luís de Camões

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:29

Flor de la Mar

por Sofia Loureiro dos Santos, em 10.06.20

manuel alegre.JPG

 

Trago dentro de mim a nau simbólica

Flor de la Mar: navegação do espírito

Nau Nação. Aquela que se fez para fora

e se perdeu para dentro. Sou essa Nau

Memória. Talvez perdida. Talvez esquecida.

Sou essa viagem de circum-navegação

à volta do Mundo e de mim mesmo.

Nau Ideia. Sem ela nós não somos nada

não mais que um bairro perdido a Ocidente

com ela se navega mesmo se parada

só com ela se pode chegar ainda

ao que dentro de nós é sempre ausente.

Nação que foi Europa antes de Europa o ser

Flor de la Mar: quatro sílabas com que se diz

o nome do poema

e do país.

 

Manuel Alegre

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:34


Mais sobre mim

foto do autor



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2007
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2006
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2005
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D

Maria Sofia Magalhães

prosas biblicas 1.jpg

À venda na livraria Ler Devagar



caminho dos ossos.jpg

 

ciclo da pedra.jpg

 À venda na Edita-me e na Wook

 

da sombra que somos.jpg

À venda na Derva Editores e na Wook

 

a luz que se esconde.jpg