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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Um beijo de súbito

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El Greco

 

Um beijo de súbito e ao fundo uma régua inteira de rio

Foi o dia em que perdi tudo quase tudo as chaves do carro

até o chão Não teve importância alguma porque

sequer me lembrava onde deixara o carro

Acontece-me muito de manhã esquecer-me do lugar

onde à noite estacionei a realidade

 

O melhor por vezes é sermos mesmo despojados de tudo

quanto menos tivermos menos perdemos

por exemplo o tempo Quanto menos juntarmos

menos desarrumamos por exemplo a vida

sem quinquilharia barata ao fundo da carteira

mais facilmente as coisas nos sobrevêm à mão

por exemplo a solidão

 

Até esse beijo súbito preso na moldura de um rio inútil

se terá perdido no meio das bugigangas todas que juntámos,

os filhos os livros os brincos (tantos brincos se perdem numa vida)

as ferramentas as casas a papelada a mobília as

roupas as tralhas e as palavras as memórias os bibelots

que já eram dos avós: os velhos guardam sempre tanto lixo

tantos fios eléctricos embaraçados tanta meia sem par

tanto amor desirmanado por aí

por onde?

 

Nesta confusão de tudo recolhermos em desalinho

Como encontrar, então, de súbito

o beijo ao precisarmos dele

ou a moldura

ou mesmo o tejo imóvel lá por dentro?

 

Rita Taborda Duarte

Um livro

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Um livro

O meu livro

Este livro...

 

Que será lido

E não lido,

Espezinhado,

Roído,

Desfeito aos pedaços

Por mãos de criança...

 

Será mais um livro...

 

Um livro esquecido

Na estante do Tempo?...

 

Aizul

Sem saber

Vasco da Graça Moura & Carlos Paredes

Mísia

 

Sem saber

Porque te amei assim

Porque chorei por mim

 

Sem saber

Com que punhais tu feres

Magoas mais e queres

 

Sem saber

Onde é que estás, nem como

O que te traz sem rumo

 

Sem saber

Se tanto amor devora

Mais do que a dor que chora

 

Sem saber

Se vais mudar, se então

Podes voltar ou não

 

Sem saber

Se em mim mudou a vida

Se em ti ficou perdida

 

Sem saber

Da solidão depois

No coração dos dois

 

Sem saber

Quanto me dóis na voz

Ou se há heróis em nós

 

Anósia

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Jorge de Sena


Que marinais sob tão pora luva
de esbanforida pel retinada
não dão volpúcia de imajar anteada
a que moltínea se adamenta ocuva?

Bocam dedetos calcurando a fuva
que arfala e dúpia de antegor tutada,
e que tessalta de nigrors nevada.
Vitrai, vitrai, que estamineta cuva!

Labiliperta-se infanal a esvebe,
agluta, acedirasma, sucamina,
e maniter suavira o termidodo.

Que marinais dulcífima contebe,
ejacicasto, ejacifasto, arina!...
Que marinais, tão pora luva, todo..

Camões dirige-se aos seus contemporâneos

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Jorge de Sena

 

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós. sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

O charme discreto do cinema britânico

 

Discreto, sóbrio, profundamente humano e contido, The Children Act é um excelente filme.

 

Down by the Salley Gardens

 

Down by the Salley Gardens

my love and I did meet;

She passed the salley gardens

with little snow-white feet.

She bid me take love easy,

as the leaves grow on the tree;

But I, being young and foolish,

with her would not agree.

 

In a field by the river

my love and I did stand,

And on my leaning shoulder

she laid her snow-white hand.

She bid me take life easy,

as the grass grows on the weirs;

But I was young and foolish,

and now am full of tears.

 

William Butler Yeats

 

A poesia na Grande Guerra

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Gassed

John Singer Sargent

 

All a poet can do today is warn. That is why the true poet must be truthful

Wilfred Owen

 

poesia é um dos grandes testemunhos da I Guerra Mundial. Muitos dos poetas eram jovens que combateram e morreram nas batalhas ou como consequência delas. A poesia foi um meio de expressarem o seu medo, a sua fúria, a sua tristeza, a sua vulnerabilidade. Transformaram-se nas vozes das consciências dos povos, pela sua comovedora sinceridade e honestidade, numa linguagem que se desligou de artificialismos formais e nos aproxima do sofrimento, da amizade e da solidariedade.

 

Muitos foram os que publicara os seus poemas durante a Grande Guerra, havendo inúmeras antologias já do pós-guerra.

 

IN FLANDERS FIELDS

 

In Flanders fields the poppies blow

Between the crosses, row on row,

    That mark our place; and in the sky

    The larks, still bravely singing, fly

Scarce heard amid the guns below.

 

We are the Dead. Short days ago

We lived, felt dawn, saw sunset glow,

    Loved and were loved, and now we lie,

        In Flanders fields.

 

Take up our quarrel with the foe:

To you from failing hands we throw

    The torch; be yours to hold it high.

    If ye break faith with us who die

We shall not sleep, though poppies grow

        In Flanders fields.

 

John Mccrae

 

 

THE DEAD

 

These hearts were woven of human joys and cares,

      Washed marvellously with sorrow, swift to mirth.

The years had given them kindness. Dawn was theirs,

      And sunset, and the colours of the earth.

These had seen movement, and heard music; known

      Slumber and waking; loved; gone proudly friended;

Felt the quick stir of wonder; sat alone;

      Touched flowers and furs and cheeks. All this is ended.

 

There are waters blown by changing winds to laughter

And lit by the rich skies, all day. And after,

      Frost, with a gesture, stays the waves that dance

And wandering loveliness. He leaves a white

      Unbroken glory, a gathered radiance,

A width, a shining peace, under the night.

 

Rupert Brooke

won't you celebrate with me

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won't you celebrate with me

what i have shaped into

a kind of life? i had no model.

born in babylon

both nonwhite and woman

what did i see to be except myself?

i made it up

here on this bridge between

starshine and clay,

my one hand holding tight

my other hand; come celebrate

with me that everyday

something has tried to kill me

and has failed.

 

Lucille Clifton

através de O Som que os Versos Fazem ao Abrir