Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Uma Pequenina Luz

por Sofia Loureiro dos Santos, em 12.09.21

jorge sampaio

Cerimónias fúnebres de Jorge Sampaio (09:46)

 

Uma pequenina luz bruxuleante

não na distância brilhando no extremo da estrada

aqui no meio de nós e a multidão em volta

une toute petite lumière

just a little light

una picolla… em todas as línguas do mundo

uma pequena luz bruxuleante

brilhando incerta mas brilhando

aqui no meio de nós

entre o bafo quente da multidão

a ventania dos cerros e a brisa dos mares

e o sopro azedo dos que a não vêem

só a adivinham e raivosamente assopram.

Uma pequena luz

que vacila exacta

que bruxuleia firme

que não ilumina apenas brilha.

Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.

Muda como a exactidão como a firmeza

como a justiça.

Brilhando indefectível.

Silenciosa não crepita

não consome não custa dinheiro.

Não é ela que custa dinheiro.

Não aquece também os que de frio se juntam.

Não ilumina também os rostos que se curvam.

Apenas brilha bruxuleia ondeia

indefectível próxima dourada.

Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.

Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.

Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.

Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.

Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:

brilha.

Uma pequenina luz bruxuleante e muda

como a exactidão como a firmeza

como a justiça.

Apenas como elas.

Mas brilha.

Não na distância. Aqui

no meio de nós.

Brilha

 

Jorge de Sena

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:37

Pedro Tamen

Revisitação de post

por Sofia Loureiro dos Santos, em 29.07.21

pedro tamen.jpg

Gostava de ter conhecido Pedro Tamen. Gostava de ter conhecido o seu silencioso estar, fora das televisões, dos blogues, dos facebooks, fora da incrível tentação de dizer coisas, muitas e importantes coisas, tão interessantes, literárias, mundanas e triviais, aquelas coisas que todos estamos sempre com tanta vontade de dizer.

Gostava de ter conhecido Pedro Tamen. Ou se calhar não. Gosto só da ideia, da imagem que tenho dele, por não ter nenhuma, a não ser da poesia que escreve e de que eu gosto tanto.

 

17.

No clandestino recanto

com que sentado labuto

os pespontos do meu canto,

 

neste perdido reduto

em que as mãos amadurecem

a peça que fugirá

das mãos dos que não merecem

para andar ao deus-dará

num universo de espanto

 

em que o amor vai curtido,

calado, surdo, tingido

de uma cor que é o sentido

da salvação que acalanto

 

- aqui me caio e levanto.

 

O Livro do Sapateiro

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:31

O poema pouco original do medo

por Sofia Loureiro dos Santos, em 20.12.20

SARS-CoV-2.jpg

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
      (assim assim)
escriturários
      (muitos)
intelectuais
      (o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

              *

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

Alexandre O´Neill

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:28

Com que voz

por Sofia Loureiro dos Santos, em 23.07.20

Amália Rodrigues & Alain Oulman

Luís Vaz de Camões

Camané & Mário Laginha

 

Makaya

 

Com que voz chorarei meu triste fado,

que em tão dura paixão me sepultou,

que mor não seja a dor que me deixou

o tempo, de meu bem desenganado?

 

Mas chorar não se estima neste estado,

onde suspirar nunca aproveitou;

triste quero viver, pois se mudou

em tristeza a alegria do passado.

 

De tanto mal a causa é amor puro,

devido a quem de mi tenho ausente

por quem a vida, e bens dela, aventuro.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:31

Ao desconcerto do Mundo

por Sofia Loureiro dos Santos, em 10.06.20

Camoes_por_Fernao_Gomes.jpg

Camões por Fernão Gomes

 

Os bons vi sempre passar

No Mundo graves tormentos;

E pera mais me espantar,

Os maus vi sempre nadar

Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim

O bem tão mal ordenado,

Fui mau, mas fui castigado.

Assim que, só pera mim,

Anda o Mundo concertado.

 

Luís de Camões

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:29

Flor de la Mar

por Sofia Loureiro dos Santos, em 10.06.20

manuel alegre.JPG

 

Trago dentro de mim a nau simbólica

Flor de la Mar: navegação do espírito

Nau Nação. Aquela que se fez para fora

e se perdeu para dentro. Sou essa Nau

Memória. Talvez perdida. Talvez esquecida.

Sou essa viagem de circum-navegação

à volta do Mundo e de mim mesmo.

Nau Ideia. Sem ela nós não somos nada

não mais que um bairro perdido a Ocidente

com ela se navega mesmo se parada

só com ela se pode chegar ainda

ao que dentro de nós é sempre ausente.

Nação que foi Europa antes de Europa o ser

Flor de la Mar: quatro sílabas com que se diz

o nome do poema

e do país.

 

Manuel Alegre

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:34

Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos.

por Sofia Loureiro dos Santos, em 10.06.20

fernando pessoa.jpg

 

Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos.

a) adaptabilidade, que no mental dá a instabilidade, e portanto a diversificação do indivíduo dentro de si mesmo. O bom português é várias pessoas.

b) a predominância da emoção sobre a paixão. Somos ternos e pouco intensos, ao contrário dos espanhóis — nossos absolutos contrários — que são apaixonados e frios.

Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim — Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, e quantos mais haja havidos ou por haver.

s.d.

Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966.  - 94.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:09

Sem palavras

por Sofia Loureiro dos Santos, em 15.04.20

despedida maria sousa.jpg

 

Carta de amor numa pandemia vírica

Gaitas-de-fole tocadas na Escócia

Tenores cantam das varandas em Itália

Os mortos não os ouvirão

E os vivos querem chorar os seus mortos em silêncio

Quem pretendem animar?

As crianças?

Mas as crianças também estão a morrer

 

Na minha circunstância

Posso morrer

Perguntando-me se vos irei ver de novo

Mas antes de morrer

Quero que saibam

O quanto gosto de vós

O quanto me preocupo convosco

O quanto recordo os momentos partilhados e

queridos

Momentos então

Eternidades agora

Poesia

Riso

O sol-pôr

no mar

A pena que a gaivota levou à nossa mesa

Pequeno-almoço

Botões de punho de oiro

A magnólia

O hospital

Meias pijamas e outras coisas acauteladas

Tudo momentos então

Eternidades agora

Porque posso morrer e vós tereis de viver

Na vossa vida a esperança da minha duração

 

Mensagem de despedida da Professora Maria de Sousa (através de João Luís Barreto Guimarães, que traduziu).

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:33

Os Velhos

por Sofia Loureiro dos Santos, em 27.03.20

tree scupture.jpg

Ai Weiwei

 

Diz-se que há-de vir

uma era justa e boa

em que o valor da pessoa

se mantém quando envelhece.

Está no trabalho que fez.

Para conseguir uma coisa como esta

dava o sangue que me resta.

E era como se tivesse

nascido mais uma vez.

 

Deram-nos este banco de avenida

onde a sombra nos dói e a tarde gela

e daqui vemos nós passar a vida

Sem que a vida nos sinta perto dela.

 

Assim nos atiraram para fora

das coisas que ajudámos a fazer.

Ai, como o sol aquece pouco agora.

Ai, muito custa à noite adormecer.

 

Fomos pedreiros, varredores, ardinas

fizemos casas, cultivámos terras,

criámos gado, entrámos pelas minas,

demos os filhos para as vossas guerras.

 

Demos as filhas para vos servir,

cortámos lenha para a vossa fogueira.

E o tempo a ir-se, e a gente a pressentir

que vos demos sem querer a vida inteira.

 

E ainda é sangue o que nas veias corre.

Ainda é raiva o que nos dobra a mão.

Ainda ecoa um sonho que não morre

no nosso velho e atento coração.

 

Hélia Correia

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:31

Pandemos

por Sofia Loureiro dos Santos, em 02.11.19

jorge de sena.jpg

Jorge de Sena

 

Dentífona apriuna a veste iguana

de que se escalca auroma e tentavela.

Como superta e buritânea amela

se palquitonará transcêndia inana!

 

Que vúlcios defuratos, que inumana

sussúrica donstália penicela

às trícotas relesta demiquela,

fissivirão boíneos, ó primana!

 

Dentívolos palpículos, baissai!

Lingâmicos dolins, refucarai!

Por manivornas contumai a veste!

 

E, quando prolifarem as sangrárias,

lambidonai tutílicos anárias,

tão placitantos como o pedipeste.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:49


Mais sobre mim

foto do autor



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D

Maria Sofia Magalhães

prosas biblicas 1.jpg

À venda na livraria Ler Devagar



caminho dos ossos.jpg

 

ciclo da pedra.jpg

 À venda na Edita-me e na Wook

 

da sombra que somos.jpg

À venda na Derva Editores e na Wook

 

a luz que se esconde.jpg