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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Flor de la Mar

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Trago dentro de mim a nau simbólica

Flor de la Mar: navegação do espírito

Nau Nação. Aquela que se fez para fora

e se perdeu para dentro. Sou essa Nau

Memória. Talvez perdida. Talvez esquecida.

Sou essa viagem de circum-navegação

à volta do Mundo e de mim mesmo.

Nau Ideia. Sem ela nós não somos nada

não mais que um bairro perdido a Ocidente

com ela se navega mesmo se parada

só com ela se pode chegar ainda

ao que dentro de nós é sempre ausente.

Nação que foi Europa antes de Europa o ser

Flor de la Mar: quatro sílabas com que se diz

o nome do poema

e do país.

 

Manuel Alegre

Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos.

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Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos.

a) adaptabilidade, que no mental dá a instabilidade, e portanto a diversificação do indivíduo dentro de si mesmo. O bom português é várias pessoas.

b) a predominância da emoção sobre a paixão. Somos ternos e pouco intensos, ao contrário dos espanhóis — nossos absolutos contrários — que são apaixonados e frios.

Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim — Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, e quantos mais haja havidos ou por haver.

s.d.

Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966.  - 94.

Sem palavras

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Carta de amor numa pandemia vírica

Gaitas-de-fole tocadas na Escócia

Tenores cantam das varandas em Itália

Os mortos não os ouvirão

E os vivos querem chorar os seus mortos em silêncio

Quem pretendem animar?

As crianças?

Mas as crianças também estão a morrer

 

Na minha circunstância

Posso morrer

Perguntando-me se vos irei ver de novo

Mas antes de morrer

Quero que saibam

O quanto gosto de vós

O quanto me preocupo convosco

O quanto recordo os momentos partilhados e

queridos

Momentos então

Eternidades agora

Poesia

Riso

O sol-pôr

no mar

A pena que a gaivota levou à nossa mesa

Pequeno-almoço

Botões de punho de oiro

A magnólia

O hospital

Meias pijamas e outras coisas acauteladas

Tudo momentos então

Eternidades agora

Porque posso morrer e vós tereis de viver

Na vossa vida a esperança da minha duração

 

Mensagem de despedida da Professora Maria de Sousa (através de João Luís Barreto Guimarães, que traduziu).

 

Os Velhos

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Ai Weiwei

 

Diz-se que há-de vir

uma era justa e boa

em que o valor da pessoa

se mantém quando envelhece.

Está no trabalho que fez.

Para conseguir uma coisa como esta

dava o sangue que me resta.

E era como se tivesse

nascido mais uma vez.

 

Deram-nos este banco de avenida

onde a sombra nos dói e a tarde gela

e daqui vemos nós passar a vida

Sem que a vida nos sinta perto dela.

 

Assim nos atiraram para fora

das coisas que ajudámos a fazer.

Ai, como o sol aquece pouco agora.

Ai, muito custa à noite adormecer.

 

Fomos pedreiros, varredores, ardinas

fizemos casas, cultivámos terras,

criámos gado, entrámos pelas minas,

demos os filhos para as vossas guerras.

 

Demos as filhas para vos servir,

cortámos lenha para a vossa fogueira.

E o tempo a ir-se, e a gente a pressentir

que vos demos sem querer a vida inteira.

 

E ainda é sangue o que nas veias corre.

Ainda é raiva o que nos dobra a mão.

Ainda ecoa um sonho que não morre

no nosso velho e atento coração.

 

Hélia Correia

Pandemos

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Jorge de Sena

 

Dentífona apriuna a veste iguana

de que se escalca auroma e tentavela.

Como superta e buritânea amela

se palquitonará transcêndia inana!

 

Que vúlcios defuratos, que inumana

sussúrica donstália penicela

às trícotas relesta demiquela,

fissivirão boíneos, ó primana!

 

Dentívolos palpículos, baissai!

Lingâmicos dolins, refucarai!

Por manivornas contumai a veste!

 

E, quando prolifarem as sangrárias,

lambidonai tutílicos anárias,

tão placitantos como o pedipeste.

 

Um beijo de súbito

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El Greco

 

Um beijo de súbito e ao fundo uma régua inteira de rio

Foi o dia em que perdi tudo quase tudo as chaves do carro

até o chão Não teve importância alguma porque

sequer me lembrava onde deixara o carro

Acontece-me muito de manhã esquecer-me do lugar

onde à noite estacionei a realidade

 

O melhor por vezes é sermos mesmo despojados de tudo

quanto menos tivermos menos perdemos

por exemplo o tempo Quanto menos juntarmos

menos desarrumamos por exemplo a vida

sem quinquilharia barata ao fundo da carteira

mais facilmente as coisas nos sobrevêm à mão

por exemplo a solidão

 

Até esse beijo súbito preso na moldura de um rio inútil

se terá perdido no meio das bugigangas todas que juntámos,

os filhos os livros os brincos (tantos brincos se perdem numa vida)

as ferramentas as casas a papelada a mobília as

roupas as tralhas e as palavras as memórias os bibelots

que já eram dos avós: os velhos guardam sempre tanto lixo

tantos fios eléctricos embaraçados tanta meia sem par

tanto amor desirmanado por aí

por onde?

 

Nesta confusão de tudo recolhermos em desalinho

Como encontrar, então, de súbito

o beijo ao precisarmos dele

ou a moldura

ou mesmo o tejo imóvel lá por dentro?

 

Rita Taborda Duarte

Um livro

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Um livro

O meu livro

Este livro...

 

Que será lido

E não lido,

Espezinhado,

Roído,

Desfeito aos pedaços

Por mãos de criança...

 

Será mais um livro...

 

Um livro esquecido

Na estante do Tempo?...

 

Aizul

Sem saber

Vasco da Graça Moura & Carlos Paredes

Mísia

 

Sem saber

Porque te amei assim

Porque chorei por mim

 

Sem saber

Com que punhais tu feres

Magoas mais e queres

 

Sem saber

Onde é que estás, nem como

O que te traz sem rumo

 

Sem saber

Se tanto amor devora

Mais do que a dor que chora

 

Sem saber

Se vais mudar, se então

Podes voltar ou não

 

Sem saber

Se em mim mudou a vida

Se em ti ficou perdida

 

Sem saber

Da solidão depois

No coração dos dois

 

Sem saber

Quanto me dóis na voz

Ou se há heróis em nós

 

Anósia

jorge de sena.jpg

Jorge de Sena


Que marinais sob tão pora luva
de esbanforida pel retinada
não dão volpúcia de imajar anteada
a que moltínea se adamenta ocuva?

Bocam dedetos calcurando a fuva
que arfala e dúpia de antegor tutada,
e que tessalta de nigrors nevada.
Vitrai, vitrai, que estamineta cuva!

Labiliperta-se infanal a esvebe,
agluta, acedirasma, sucamina,
e maniter suavira o termidodo.

Que marinais dulcífima contebe,
ejacicasto, ejacifasto, arina!...
Que marinais, tão pora luva, todo..