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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Destino partido

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Yuichi-Ikehata

 

 

Parti o destino em tantas partes

que não o consigo cumprir.

Pés para um lado cabeça para outro

dedos dispersos numa outra direcção

nada se reencontra nem cola.

 

E eu de tanto me desdobrar

acabei por desaparecer e descobrir

que não sei por onde me procurar.

 

Ruídos

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Magdalena Abakanowicz

 

 

O ruído ensurdecedor da vida que baralha

a luz as cores a vibração do mundo.

Para onde foram as arrumações que o destino

organiza fora dos olhos que me habituei a usar?

 

Já não encontro as coordenadas do meu corpo

perdi-me nos labirintos da mansidão

na penumbra que me envolve e sustenta

não mais que uma sombra que se ausenta.

Asfalto

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Retirantes

Portinari

 

 

As palavras decapitadas pingam no asfalto

seguem gritos de pena e balas

morros de terra abatidos navios de prata

que abrem a serenidade do esquecimento.

Sangram as palavras derretidas no asfalto

da morte tatuada nas almas dementes.

 

Indigente

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Ron Mueck

 

Recolho os dedos e o pranto

fecho as janelas e o mundo

atenho-me ao morno descanso

empurro-me para o fundo.

 

A voz que se repetia

nesta roufenha memória

preparava a melodia

de uma demissão sem glória.

 

Só me falta o arvoredo

como sombra permanente

que abrigará o segredo

da minha morte indigente.

 

Na toca

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Parque do Piauí

 

1.

Basta um toque

a morna quietude do abandono

para que a primeira realidade

seja a felicidade

do teu amor.

 

2.

A vida regular e normalizada

café da manhã espreitar os jornais

deliciar-me com um dia pacato

pacatez de um oceano

mediania da existência

sem ondas nem plano.

 

3.

Ainda faltam

as costumeiras andanças de domingo.

Ainda não é meio-dia.

Ainda posso sonhar com vastos mundos

de cabeça vazia.

 

Manhãs

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Trevor Leat

 

 

 

1.

Será a manhã inteira nos meus passos

tão suaves e decididos como carícias

será o dia morno de arvoredo

sussurrante e melodioso como pássaros

será feito de novo o meu dia

transformando medo em poesia.

 

2.

Tanto que juntamos as mãos

como se a pertença nos chegasse

tanto que olhamos o céu

como se a imensidão nos acalmasse

tanto que usamos o corpo

como se a juventude nos sobrasse

tanto que apertamos a vida

como se a eternidade nos faltasse.

 

3.

Gasto a vida sem que saber como se usam

as inesperadas manhãs em que se misturam

sonhos e actos numa consumada

ligação incestuosa.

 

Coisas simples

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Thomas Dambo

 

A água que escorre pelos dedos

um corpo abandonado sobre os lençóis

o cheiro da manhã

uma voz que acorda e reclama.

 

Como o suspiro de uma asa

o olhar aguçado do futuro

pousado ao de leve

em todas as esquinas de uma casa.

Ecos

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Crescent

Thomas Joynes

 

 

Os teus olhos as tuas mãos

as vozes no rumor do começo.

Onde estou agora? Por onde

passaram os dias que me espreitam

de longe? Ecos de uma vida

que já não reconheço.

Redoma

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Papoilas de cerâmica

Lincoln Castle

 

Da janela enfrento as nuvens dentro da redoma do esquecimento.

Espero o vagar do sono os gestos do descanso a que me obrigo

aplicadamente para suster a respiração. As bandeiras

deixaram a cor empalidecer e os hinos estão calados. Amanhã

acordarei a alma por eles.