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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Aniversário

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Crack the Whip

J. Seward Johnson

 

 

E quando os anos eram longos como longas

as tardes da nossa infância em que cabiam

todos os olhos e mundos que nos aguardavam.

E quando os braços eram pequenos como pequenas

as andanças das memórias a que chegamos

desbotadas fugidias sem que se apaguem ou expliquem

os dias que nos restam e dilatam os momentos

os poucos que ainda nos completam e seguram

como longas são as lembranças que nos deixam.

 

Ausência

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Ouvi dizer que se apagou uma das luzes

de outrora.

Mas na verdade não havia luzes que se apagassem.

Elas permaneciam mudas ou deslumbrantes

como agora

e mesmo que não se mostrem ardem em silêncio

e alumiam os cantos escuros das ausências

eternamente quedas e cintilantes

de transparências.

 

Destino partido

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Yuichi-Ikehata

 

 

Parti o destino em tantas partes

que não o consigo cumprir.

Pés para um lado cabeça para outro

dedos dispersos numa outra direcção

nada se reencontra nem cola.

 

E eu de tanto me desdobrar

acabei por desaparecer e descobrir

que não sei por onde me procurar.

 

Ruídos

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Magdalena Abakanowicz

 

 

O ruído ensurdecedor da vida que baralha

a luz as cores a vibração do mundo.

Para onde foram as arrumações que o destino

organiza fora dos olhos que me habituei a usar?

 

Já não encontro as coordenadas do meu corpo

perdi-me nos labirintos da mansidão

na penumbra que me envolve e sustenta

não mais que uma sombra que se ausenta.

Asfalto

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Retirantes

Portinari

 

 

As palavras decapitadas pingam no asfalto

seguem gritos de pena e balas

morros de terra abatidos navios de prata

que abrem a serenidade do esquecimento.

Sangram as palavras derretidas no asfalto

da morte tatuada nas almas dementes.

 

Indigente

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Ron Mueck

 

Recolho os dedos e o pranto

fecho as janelas e o mundo

atenho-me ao morno descanso

empurro-me para o fundo.

 

A voz que se repetia

nesta roufenha memória

preparava a melodia

de uma demissão sem glória.

 

Só me falta o arvoredo

como sombra permanente

que abrigará o segredo

da minha morte indigente.