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Geometrias

por Sofia Loureiro dos Santos, em 05.03.21

Marisol_Escobar_The_Party_Bagtazo_Periodical.jfif

Marisol Escobar

 

Nunca aceitei geometrias de comportamentos simétricos

adequados a género e idade pés em bico empoleirados

pernas pesadas a espreitar pelas saias

casacos assertoados decotes a condizer

cabelos disciplinados lábios de rosas

anéis pulseiras colares arrebiques de senhora

que se acomoda nas vestes do seu destino.

Mas sobretudo nunca entendi o calar dos sentidos

dos desejos dos impulsos da vontade de abraços beijos

de gostar de quem se gosta muito ou tudo

sem cuidar dos outros das conveniências das inusitadas

e estranhas regras da sociedade.

Talvez porque o estado de adulto ainda não fez caminho

que chegue lá onde estão as memórias

e a imperiosa necessidade de amar e ser amada.

 

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publicado às 18:50

Nada de novo

por Sofia Loureiro dos Santos, em 20.02.21

Eleanor_Rigby.jpg

Tommy Steele

 

Tal como alguém me disse não há nada de novo

para além do que temos nada de belo nem obscuro

para além dos dedos que desenham a vida

concreta quotidiana lisa cinzenta.

O que me entristece é que trancaram até as rosas

que nunca semeei que espalharam pelo campo

o rumor da desistência que transformaram em nuvens

o grito estridente da solidão.

 

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publicado às 17:58

Resistir

por Sofia Loureiro dos Santos, em 30.01.21

Nestes tempos sem abraços

Colhemos os passos

No som da memória

Nestes tempos sem história

Sorvemos instantes

Nos olhos distantes

 

Insistimos

Resistimos

Não desistimos

 

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publicado às 21:20

Corridinho pandémico

por Sofia Loureiro dos Santos, em 12.01.21

Corridinho_Baile_Mandado_Algarve.jpg

Mário Costa

 

Vá de roda vai de roda

Vai de roda sem fartar

Já se foi e vem de volta

Vamos lá a confinar

Uma volta pra um lado

Fecha a porta por favor

A saltar pro outro lado

À janela sem andor

 

É preciso arejar

Com Inverno que frescor

Canta e dança mas sem par

Ser viral é um horror

Ora volta prá direita

Vamos lá todos votar

Ora torce bem à esquerda

Nesta estrada circular

 

Ora volta para cima

No carrocel da desgraça

Ora roda lá pra baixo

Abana bem a carcaça

Vá de roda vai de roda

Leva o vírus ao tapete

Vai na volta desta roda

Que a vida não se repete

 

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publicado às 17:41

Rosas

por Sofia Loureiro dos Santos, em 27.12.20

roses paul cezanne.PNG

Paul Cézanne

 

Amo as rosas que nunca tive

os vasos quebrados as esquinas das portas

os tapetes que desbotam no sobrado.

 

Amo as vidraças enevoadas

as pequenas gotas de tristeza

que se acumulam nos dedos frios

as cortinas dependuradas a usura das folhas

os olhos cansados de tanto desejarem.

 

Amo as rosas que nunca tive

todos aqueles abraços que não guardei

e que esperam no fundo dos casacos

a oportunidade de secarem.

 

Talvez assim me seja revelada a vida

que queria e me neguei

por tantos objectos adorados

que se quebraram mal lhes toquei

frágeis cansados desistentes

numa poeira fina que anuncia

uma efémera e ilusória eternidade.

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publicado às 15:25

Sobrado

por Sofia Loureiro dos Santos, em 11.12.20

OWL - Simon Hempsell.jpg

Owl

Simon Hempsell

 

Arrumei o meu sapato

Procurei-lhe pelo par

Escondeu-se o ingrato

E eu saio a coxear

 

Tenho uma meia já posta

A outra por descobrir

Bem chamo mas a resposta

É que não se faz ouvir

 

Tivesse a roupa cem dedos

E o caminho cem luas

Inventava mil enredos

Com saias grandes e nuas

 

Tanta palavra que sobra

No sobrado da cabeça

Mesmo com tanta manobra

Não há verso que apeteça

 

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publicado às 14:30

De palavras me alimento

por Sofia Loureiro dos Santos, em 06.12.20

misterious books sculptures.jpg

Scottish book sculptures

 

De palavras me alimento

Secas pobres resignadas

Ato-as nas bordas do vento

Sopro-lhes gumes de espadas

 

Orações de pão e vinho

Solitária companhia

Atapetam-me o caminho

De tristeza e alegria

 

Escolho pedras são sinais

Das esquinas que encontramos

Pelos mundos desiguais

Pelos sonhos que encerramos

 

Com palavras me renovo

Em silêncios incontidos

É no amor que me devolvo

É nos gestos dissolvidos

 

Conto os dias que me faltam

Escrevo versos ressequidos

Que as palavras já não voltam

Aos meus dedos esquecidos

 

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publicado às 22:27

Se o meu amor me deixar

por Sofia Loureiro dos Santos, em 05.12.20

o abraco gustav klimt.jpg

O abraço

Gustav Klimt

 

Se o meu amor me deixar

Perdida na imensidão

Serei mais terra que mar

Fogueira de solidão

 

Se o meu amor regressar

Mãos vazias de ternura

Já não me vai encontrar

Em suave e lenta fervura

 

Se o meu amor viajar

Pelas terras do além

E a um canto semear

Pozinhos de fazer bem

 

Hei-de limpar-lhe de medo

A cama onde se deitar

Faço uma trança em segredo

Dos sonhos que ele guardar

 

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publicado às 14:40

Filhos

por Sofia Loureiro dos Santos, em 14.11.20

tree.jpg

Tommy Craggs

 

Crio filhos como quem cria árvores.
Deixo-as varridas pelas intempéries
descobrindo pássaros e revivendo almas
dos que às suas sombras se recolhem.
De vez em quando arrastam braços
e arrancam raízes numa ânsia de movimento.
Nesses dias aparo troncos com sangue e lágrimas
cavo mais fundo a terra para que
do meu corpo se equilibrem de novo.
Aí para sempre me deitarei um dia dormindo
entre o lodo e a eterna revolução de viver.

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publicado às 16:09

Novembro

por Sofia Loureiro dos Santos, em 10.11.20

Jannick-Deslauriers-Fracture.jpg

Fracture

Jannick-Deslauriers

 

Em frente a mim sem espelho nem nuvens

apreendo o espaço que me rodeia

respiro as últimas gotas de passado

encerro o pó e a juventude.

Não sei das janelas do futuro

nem dos ninhos de águas revoltas

que me arrastavam pela vida.

Mas ainda me esperam as papoilas de Novembro

e o doce sabor da aventura.

 

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publicado às 09:55


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