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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Das festas que escolhemos

mousse chocolate.jpg

 

Não tenho feito pão, nem bolos, nem compotas, nem licores, nem nada que se coma, para além do que já fazia antes do confinamento obrigatório – umas saladinhas, uns ovinhos cozidos, enfim, deixo a comida para o expert cá de casa.

Mas ontem resolvi recuperar um pouco da minha veia artística e inventiva e resolvi fazer uma mousse de chocolate, já várias vezes tentada e muitas sem grandes resultados.

Portanto comprei uma tablete de 200 g de chocolate negro com 70% de cacau, parti-o em pedaços para dentro de um tacho, juntei 150 g de açúcar, um bocado de leite do dia gordo (não medi, mas foram cerca de 100 a 150 ml) e, grande acrescento que aprendi por essa internet fora, uma colher de sopa de azeite. Sim, leram bem: uma colher de sopa de um bom azeite. Liguei o fogão baixinho, para o chocolate derreter e não queimar.

Entretanto tinha deixado 6 ovos fora do frigorífico para ficarem à temperatura ambiente – li algures que isso fazia tooooooooda a diferença. Separei as gemas das claras e mexi muito bem as gemas, com uma colher de pau, de forma a que se transformassem num creme amarelado e homogéneo.

Depois do chocolate ficar em papa com o açúcar, o leite e o azeite, tudo muito bem mexido, retirei do lume, deitei lá para dentro um bom golo de licor caseiro de poejo e, devagarinho e mexendo sempre com grande vigor (todas as minhas receitas necessitam e evidenciam enorme vigor), fui juntando o creme das gemas para se irem incorporando na papa de chocolate.

A seguir, sempre com o pensamento estratégico na finalização da dita mousse, que requer mais planeamento que o isolamento viral, bati as claras em castelo bem firme (o castelo, claro) com uma pitada de sal, outro dos grandes segredos mal guardados da culinária ancestral. Mal o castelo se manteve de cabeça para baixo sem sofrer a acção da gravidade, comecei a misturar levemente as claras com o preparado de chocolate, envolvendo-as delicadamente, desta vez sem qualquer vigor, para que a mousse ficasse leve.

Frigorífico com ela e hoje, após deglutir um cabrito que demorou séculos a assar, mas que estava delicioso (do qual não sei a receita porque não meti prego nem estopa na sua confecção), com esparregado e batatinhas novas com casca, foi devidamente apreciada por todos os que partilhamos a almoçarada.

Enfim, mesmo com as ameaças invisíveis que nos rodeiam tratámos de nos banquetear, celebrando a festa de estarmos juntos. E a festa somos sempre nós que a decidimos e escolhemos.

Em modo recosto pós prandial

 

 

Vieiira da Silva

 

 

Do cabrito reza uma história que não sei contar. Talvez lá para as bandas do último dos Romanos se possa descortinar a receita. Sei apenas que ocupou uma prateleira do frigorífico durante vários dias, mergulhado numa molhanga encarniçada. O passeio diário de 180 graus era bastante custoso, pois os 2 garfos compridos, quais forquilhas do demo, eram parcos para tanta costela. Fiquei mesmo com a impressão que a metade tinha um multiplicador, como agora está na moda dizer-se a propósito da austeridade, mas este era de aumentação.

 

Mas que estava uma delícia, isso é um facto, com acompanhamento de castanhas e esparregado, regado com o costumeiro vinho que já se tornou tradição pascal, cá em casa.

 

Para não mencionar um maravilhoso pudim, também da autoria do cozinheiro de serviço, que era uma bomba calórica, mistura entre leite condensado, leite de coco, gelatina e frutos silvestres, mas que se derretia na boca e se deglutia quase sem se perceber.

 

Enfim, se os impostos sobre produtos nocivos já estivessem activos, nós hoje já tínhamos contribuído com uma bela percentagem para a redução do défice. Só faltou mesmo um certo canadiano de empréstimo para que o dia fosse perfeito...

 

Tradição

 

 

Em resposta a uma pergunta de um simpático e atento comentador deste blogue, a tradição foi cumprida a preceito. A metade do cabrito partida aos pedaços, em que se destacava a meia cabeça que é sempre um pouco arrepiante, esteve de marinada em vinho, várias ervas, das quais destaco o tomilho e a bela-luz, sugerida (e colhida) por uma Tia bem ciente de saberes e sabores dos montes, sal e xarope de ácer, desde a véspera. Com um pouco de azeite, foi ao formo no tabuleiro do forno assou durante cerca de 1h30, em lume brando, virando-se de meia em meia hora. Juntaram-se castanhas em vez de batatas, e o acompanhamento leguminoso deste ano foi um esplendoroso esparregado.

 

Para a sobremesa pensei em várias inovações com base no bolo podre, pois tinha feito uma geleia de pera que mais parecia mel (ponto a mais). Mas como a recompuz com a compota de pera (ponto a menos), e como as expressões um pouco torcidas de quem me acompanha nestas aventuras, perante a substituição do mel pela dita geleia, não me incentivaram minimamente a tais experiências, resolvi jogar pelo seguro: foi um delicioso pão-de-ló, batido por muitos minutos por uma alma caridosa, regado com um creme de chocolate, aos quais se associaram bocadinhos de ananás muito doce.

 

O vinho foi, também para manter a tradição, Châteauneuf-du-Pape. Enfim, mais umas amêndoas de chocolate branco e negro, foi um verdadeiro festim. Ao menos isso, que o tempo estava muito pouco alegre. E ressuscitar, só mesmo o pecado da gula.