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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Em modo recosto pós prandial

 

 

Vieiira da Silva

 

 

Do cabrito reza uma história que não sei contar. Talvez lá para as bandas do último dos Romanos se possa descortinar a receita. Sei apenas que ocupou uma prateleira do frigorífico durante vários dias, mergulhado numa molhanga encarniçada. O passeio diário de 180 graus era bastante custoso, pois os 2 garfos compridos, quais forquilhas do demo, eram parcos para tanta costela. Fiquei mesmo com a impressão que a metade tinha um multiplicador, como agora está na moda dizer-se a propósito da austeridade, mas este era de aumentação.

 

Mas que estava uma delícia, isso é um facto, com acompanhamento de castanhas e esparregado, regado com o costumeiro vinho que já se tornou tradição pascal, cá em casa.

 

Para não mencionar um maravilhoso pudim, também da autoria do cozinheiro de serviço, que era uma bomba calórica, mistura entre leite condensado, leite de coco, gelatina e frutos silvestres, mas que se derretia na boca e se deglutia quase sem se perceber.

 

Enfim, se os impostos sobre produtos nocivos já estivessem activos, nós hoje já tínhamos contribuído com uma bela percentagem para a redução do défice. Só faltou mesmo um certo canadiano de empréstimo para que o dia fosse perfeito...

 

Tradição

 

 

Em resposta a uma pergunta de um simpático e atento comentador deste blogue, a tradição foi cumprida a preceito. A metade do cabrito partida aos pedaços, em que se destacava a meia cabeça que é sempre um pouco arrepiante, esteve de marinada em vinho, várias ervas, das quais destaco o tomilho e a bela-luz, sugerida (e colhida) por uma Tia bem ciente de saberes e sabores dos montes, sal e xarope de ácer, desde a véspera. Com um pouco de azeite, foi ao formo no tabuleiro do forno assou durante cerca de 1h30, em lume brando, virando-se de meia em meia hora. Juntaram-se castanhas em vez de batatas, e o acompanhamento leguminoso deste ano foi um esplendoroso esparregado.

 

Para a sobremesa pensei em várias inovações com base no bolo podre, pois tinha feito uma geleia de pera que mais parecia mel (ponto a mais). Mas como a recompuz com a compota de pera (ponto a menos), e como as expressões um pouco torcidas de quem me acompanha nestas aventuras, perante a substituição do mel pela dita geleia, não me incentivaram minimamente a tais experiências, resolvi jogar pelo seguro: foi um delicioso pão-de-ló, batido por muitos minutos por uma alma caridosa, regado com um creme de chocolate, aos quais se associaram bocadinhos de ananás muito doce.

 

O vinho foi, também para manter a tradição, Châteauneuf-du-Pape. Enfim, mais umas amêndoas de chocolate branco e negro, foi um verdadeiro festim. Ao menos isso, que o tempo estava muito pouco alegre. E ressuscitar, só mesmo o pecado da gula.