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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Das ofertas recebidas (2)

 

 

Foyle's War, a 7ª série. foi outro dos presentes cinéfilos que recebi este ano.

 

Depois do fim da 2ª Guerra Mundial, Christopher Foyle é recrutado para os serviços secretos britânicos, no início da Guerra Fria, misturando-se as histórias de espionagem e contra-espionagem com os problemas de uma Inglaterra em grande crise, na época dos racionamentos e da reconstrução das cidades e das vidas dos cidadãos. Toda a envolvente de quem regressou da guerra, com feridas mais ou menos visíveis, de quem permaneceu na rectaguarda e sofreu os rigores e os horrores das populações civis, até ao mergulho na vida quotidiana que, apesar de tudo, continuou e continua.

 

Sam casou com um político, candidato a deputado pelo Labour e acaba a trabalhar para Foyle, tal como em Hastings. O mesmo rigor britânico e as mesmas histórias fantasticamente imaginadas por Anthony Horowitz.

 

Das ofertas recebidas (1)

 

 

Ellis Peters é um dos pseudónimos de Edith Pargeter, uma escritora inglesa que criou o Irmão Cadfael, um monge detective, cujas aventuras decorrem em Shrewsbury, entre os anos de 1137 e 1145, tendo como pano de fundo a guerra travada pela sucessão de Henrique I, entre Estêvão e Matilde de Inglaterra - The Cadfael Chronicles. Em Portugal estes livros, penso que a maioria, foi editada pela Europa-América.

 

Os livros desenvolvem-se na base de acontecimentos históricos reais. A figura de Cadfael [ˈkadvaɨl] é muito interessante visto que, antes de entrar para a vida monástica, foi combatente e marinheiro, o que lhe deu uma humanidade que, combinada com o conhecimento de ervas medicinais, lhe dá uma capacidade de entendimento, uma curiosidade e um raciocínio lógico que o leva a resolver os crimes e os mistérios que se lhe deparam.

 

Essa série de livros policiais foi adaptada para televisão, sendo o protagonista Derek Jacobi. É com um episódio por dia que faço durar esta maravilhosa prenda de Natal.

 

Do pecado da gula (2)

 

 

Pois todo o conceito de peru recheado foi desconstruído. Do peru comeram-se as pernas e o recheio foi exterior e não interior, como parece indicar a palavra. Mas todos sabemos, desde a decisão irrevogável de Paulo Portas, que as palavras ganharam outra vida e outros significados.

 

Não foi fácil colocar as pernas de peru, de uma dimensão dinossáurica, dentro do tabuleiro do forno, mas lá ficaram elas, um tantos atafulhadas, pouco elegantes, convenhamos. Escorridas do molho em que estavam há 2 dias, foram barradas e amassadas com uma pasta de 6 dentes de alho (altura ideal para descobrir que o esmagador de alhos estava partido), 2 colheres bem cheias de pimentão doce, alecrim, louro, piri piri e azeite. Espalhei um pouco de sal e reguei com um pouco de azeite, vinho branco (este generosamente) e as rodelas da laranja. Cobri com uma folha de alumínio e foi a assar durante cerca de 3 horas, em lume brando.

 

Quanto ao recheio, foi uma inspiração de momento. Fritei bacon (2 caixinhas), uma grande cebola, castanhas, tâmaras, passas de uva, nozes, azeitonas e cogumelos, tudo cortado aos bocadinhos, e fui temperando com um pouco de sal, piri piri e vinho (usei Porto seco e aguardente). Vai-se mexendo até ficar tudo cozinhado. Se não apreciar muito o sabor adocicado não junte as passas de uva.

 

Acompanhei com arroz branco e esparregado, uma iguaria gentilmente preparada por um dos comensais, e vinho tinto (Quinta do Portal 2007). A seguir foi a panóplia de doces que sobraram de ontem, com o respectivo café e seu licor, pelo que terei que caminhar vários quilómetros nos próximos dias, para digerir e reduzir a enorme quantidade de calorias que ingeri neste dias.

 

A operação Natal 2013 está encerrada. Iniciar-se-á, brevemente, a operação ano novo 2014.

 

Da decadência das rabanadas à revolução do bacalhau

 

 

A calda para os sonhos e as rabanadas está... miam... glup... miam...

 

Para 400g de açúcar adicionam-se 300ml de água, 3 paus de canela e casca de 1 laranja (pequena). Quando ferver junta-se um bom cálice de vinho do Porto... seco, e deixa-se ganhar ponto (cerca de 15 minutos). Já está numa taça funda, onde irão mergulhar os sonhos; o restante está noutra taça, para quem quiser regar as rabanadas.

 

O ano passado discutiu-se a lateralidade política das couves. Sim, cá em casa é tudo muito assumido em termos de debate democrático, e todos os gestos tradicionais são revirados, numa dialéctica comprometida e engajada. Temos que urgentemente decidir se comer bacalhau cozido com batatas e grão é considerado revolucionário e herdeiro de Abril, ou se o Natal em si, com a sua decadência doce e pegajosa, ou não houvesse açúcar que baste a lambuzar os pratos e os dedos, não é a mais pura e reaccionária expressão da direita ultraliberal fashion e caritativa.

 

Neste caso, a singeleza do bacalhau e as horas de escravidão que se passam a preparar o Natal bem podem ser assumidas como solidariedade operária, objecto de gente reivindicativa, como eu. A justa luta não tem tido grande resultado, acabando habitualmente na mais abjecta confraternização entre os representantes do capitalismo, que se levantam tarde e a más horas, e os defensores do trabalho e dos valores da liberdade, que mourejam todo o dia entre panelas. Nesta mesa a consertação acontece por entre os ruídos dos talheres e os perfumes que despertam os mais empedernidos dorminhocos.

 

A todos os companheiros e companheiras, camaradas de consoadas e réveillons, que passem um excelente natal, dignificando a causa em manifestações e comícios nocturnos porque, como sempre, a luta continua!

 

Continuar

 

Baemikkumi

 

Qualquer que fosse o esforço que fizesse

arrasar esta inquietação esta inamovível tristeza

qualquer que fosse a caminhada

a extensão da estrada que me esperasse

qualquer que fosse o longínquo obscuro lugar

que me quisesse talvez lá encontrasse

a força que me falta para continuar.

 

Da diáspora

 

É difícil falar do imensurável tédio e incontido asco que estas pseudo-iniciativas me causam. E da incompreensão relativamente à presença do inefável líder do PS, que não perde uma oportunidade de passear o vácuo do seu pensamento e a irrelevância da sua presença na irrealidade deste tempo de colaboracionistas.

 

E segue a quadra da obrigatoriedade do contentamento hipócrita.

 

Da circularidade do tempo

 

O tempo é circular, pelo que os inícios e fins de ano são marcos totalmente artificiais num continuidade a várias dimensões.

 

E no entanto, quando chego ao Natal, comporto-me como se, de facto, alguma coisa fosse acabar, alguma coisa que nunca mais voltará. Daí a necessidade inconsciente que sinto em resolver assuntos pendentes, em comprar alimentos que cheguem para uma semana, em fornecer-me de aconchego como se aguardasse o fim de uma era, o início de uma guerra, qualquer inevitabilidade terrível que se abatesse ao soar o alarme das zero horas do novo ano.

 

Do pecado da gula (1)

 

Começou hoje a operação Natal 2013, com a confecção das filhós.

 

Desta vez decidi fazê-las, o que não é inédito, mas quase. A diferença é que em vez de ter uma consultadoria telefónica tenho-a presencial. É mais supervisão das quantidades dos ingredientes (a olho), do bater a massa e da consistência da dita, uma ciência oculta conhecida apenas pelos iniciados, neste caso as iniciadas.

 

Juntam-se 750g de farinha a 6 ovos; vai-se amassando e juntando um copo de água cheio com uma mistura de sumo de laranja, aguardente e azeite. As mãos são uma escolha mais avisada do que a máquina, porque a massa fica toda colada às pás da batedeira e temos que a tirar à força. Por outro lado também não é muito prático o uso de luvas culinárias, visto que se podem perder na própria massa, no afã do momento. Vai-se colocando mais um pouco de farinha, até a massa despegar do alguidar e das mãos. Faz-se depois uma bola, cobre-se com um pano limpo e deixa-se a levedar, num ambiente aquecido, outro processo misterioso que resulta no aumento do volume da massa.

 

Segue-se a fritura das filhós em óleo quente, depois de se estenderem com o rolo da massa untado de azeite, numa tábua também untada. Este processo é delicado e necessita de quatro mãos - duas estendem a massa, cortam as formas e colocam-nas no óleo de fritar; as outras duas de garfo empunhado, viram as filhós, mantém a temperatura do óleo e previnem a carbonização inadequada da iguaria, o que nem sempre é fácil.

 

 

Já estão numa taça funda, à espera de serem polvilhadas com açúcar e comidas.

 

No entretanto o grão está a demolhar e as pernas gigantescas de peru (4Kg - devem ser extraterrestres, estes perus) estão a hidratar-se e a amaciar, cobertas de água, com laranjas (2) e limões (2) às rodelas, sal e pimenta. Ficarão no frio até ao dia 25, altura em que irão para o forno. Até lá ainda terei que inventar o recheio que se come à parte.

 

Amanhã continuará a missão, com as rabanadas e a aletria, para além do episódio da compra das couves portuguesas, que demoram séculos a lavar e arranjar. Estou a congeminar a calda à moda do Norte, para regar as rabanadas e os sonhos, numa receita que foi partilhada por um colega lá de cima, e que inclui vinho do Porto. Várias inovações este ano.

 

Doces manhãs

 

 

Confeitaria Nacional, Lisboa

 

Lisboa, em Dezembro, fria e soalheira, apinhada de gente que olha, que distende os ombros e respira.

 

Do Largo Camões à Rua dos Fanqueiros, a minha mão na tua, vagueando por entre o ruído das conversas, dos passos vagarosos e dos eléctricos. As ruas estão enfeitadas, talvez menos que em outros natais mais desafogados, mas há muitos vermelhos e muitos verdes, algumas luzes e flores, estátuas de fadistas, pequenas feiras de livros, de licores, de pequenas lembranças artesanais que poderão aconchegar um pouco o natal de quem vende.

 

Os doces são uma tentação irresistível, como as manhãs na tua companhia.

 

Dos atrasos nos preparativos

 

 

Estou atrasadíssima no que aos preparativos de Natal diz respeito. A compota de abóbora, este ano com a novidade de estar em papa, ainda está por enfrascar e rotular; o licor de café aguarda a divisão pelas garrafinhas; o fudge de chocolate, que decidi enriquecer com lascas de amêndoas, ficou pouco consistente, pelo que será aproveitado para alguma coisa que ainda não me ocorreu; os borrachões ficaram bastante bons, mas falta fazer mais uma ou duas doses.

 

Planear já planeei, mas do plano à execução do mesmo vai uma certa diferença. Aguardam-me dias de infinita falta de paciência nas filas do supermercado, em busca de farinha, ovos, leite, grão, peru, fermento de padeiro, etc. Sim, porque este ano decidi inovar: vou tentar fazer uma pequena porção de filhós, um bolo-rei minúsculo, uma calda com vinho do Porto para as rabanadas, para além da ritualizada aletria e do bacalhau cozido com batatas e grão – isto tudo para a Consoada, claro, com uns sonhos que virão cá ter e umas azevias que hei-de arranjar algures.

 

Quanto ao dia de Natal, vou reinventar o peru assado, reciclar, enfim, o conceito do dito recheado. E o que está proposto é este projecto (hoje em dia é tudo um projecto): peru assado no forno (só as pernas) recheado (mas o recheio vai à parte) de refogado de castanhas, nozes, pinhões, passas de fruta, tâmaras, azeitonas (e o que mais me lembrar até lá) acompanhado de esparregado.