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O Monarca das Sombras

por Sofia Loureiro dos Santos, em 12.09.21

monarca das sombras.jpg

 

Javier Cercas continua a escrever sobre a Guerra Civil Espanhola. Mesmo não querendo.

Porque faz parte dele e parte da família dele. Porque faz parte de cada um dos descendentes de cada um dos mortos e de cada um dos sobreviventes da Guerra Civil.

Porque há o medo de descobrir e de encarar o horror de perceber que há pessoas dos dois lados da Guerra, pessoas com sonhos e com paixão e com idealismo. Porque há a necessidade de expurgar os fantasmas. Porque somos feitos de todos os bocados do que nos une e nos desune, do que nos enobrece e do que nos envergonha.

Porque a busca de um antepassado a que queremos colar uma figura de carne e osso, fazê-la emergir do passado, do esquecimento, da lenda, do mito, se impõe.

É uma viagem por dentro de Ibahernando, da Tierra Alta, da Batalha do Ebro, da sua família, de si próprio, em busca de Manuel Mena, seu tio-avô, que morreu pelos franquistas, integrado nos Tiradores de Ifni.

Javier Cercas é magistral na procura de um passado que teme, mas que o arrasta e engole. De um passado que o ensine a aceitar o presente e as contradições que se entrelaçam na nossa memória colectiva, na nossa condição humana.

Não tentes reconciliar-me com a morte, ó glorioso Ulisses.

Eu preferiria estar na terra, como servo de outro,

Até de homem sem terra e sem grande sustento,

Do que reinar aqui sobre todos os mortos.*

*Odisseia, Homero, Livros Cotovia, 7ª edição, Outubro de 2006, tradução de Frederico Lourenço

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publicado às 21:39

Crónicas de Ronda (1)

por Sofia Loureiro dos Santos, em 07.08.21

Chegámos a Ronda com a ideia de passar por uma livraria, pois tinha acabado de ler o livro que me acompanhava desde o início destas parcas férias – Terra Alta, de Javier Cercas.

terra alta.png

Livro bastante interessante, que marca uma incursão de Javier Cercas na literatura policial, com a assinatura de um novo herói – Melchor Marín. Não foi dos que mais gostei, embora me tenha prendido do princípio ao fim. Personagens bem marcadas e marcantes, enredo bem desenvolvido e credível. O fim foi um pouco forçado. Dá a sensação que Javier Cercas se cansou do livro e resolveu despachar a conclusão.

Como tenho lido pouco, porque chego ao fim do dia como se me tivessem desbastado a superfície com raladores de cenouras e mal me recosto adormeço, mesmo que depois leve a noite às voltas e reviravoltas, nas férias aproveito para recuperar um pouco o enorme prazer da leitura. Por isso quando me vi sem literatura, tremi.

A internet tudo sabe e resolve, portanto procurámos uma livraria em Ronda e caminhámos até lá. Mais precisamente uma Librería-Papelería. Mas de librería não tinha nada, só de papelería de revistería e de periodoquería. Com o sol a pique e um bafo incrível, fomos em direcção ao Parador, procurando sombras ou cafés onde pudéssemos descansar do calor, quando nos deparámos com outra papelería.

E havia livros, verdadeiros, com capa rija e capa mole, de colecções de bolso e outras, predominantemente em castelhano mas também em inglês. Autores que conhecia, poucos, desconhecidos, muitos. Encontrei vários de Javier Cercas, mas já tinha lido, tendo visto um de Arturo Pérez-Reverte que me dispunha a experimentar ler no original.

Mas eu tenho muita sorte e alguém que gosta muito de mim. Descobriu outros mostradores com outros livros, um dos quais também de Javier Cercas – Independencia. Nunca tinha ouvido falar e fui ver as badanas.

independencia.jpg

Nada menos que o último livro dele, saído em Março deste ano, e a continuação de Terra Alta, com o mesmo Melchor Merín y sus compañeros Mossos d?Esquadra!

Ronda estava a começar bem. Mais sorte é difícil (já o devorei, mesmo em castelhano - é muito melhor que o primeiro)!

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publicado às 17:56

Patria

por Sofia Loureiro dos Santos, em 07.12.20

patria.jpg

O livro de Fernando Aramburu é avassalador. Muitíssimo bem escrito, narra a vida de duas famílias, e com elas a vida dos bascos, durante a luta pela independência. De um lado os defensores da luta armada do outro as vítimas dessa luta.

O terrível rasgar das relações de amizade, de convívio, de respeito, a separação entre os que dão a vida pela causa e os que são assassinados pela utopia, a pobreza, as complicadas relações humanas atravessadas pela pobreza, pelas diferenças de classes que são como um rio lamacento que vai inundando as consciências.

Uma mãe que fala com Santo Inácio de Loyola, uma esposa que fala com a túmulo do marido, tudo de pedra, tudo frio, a fé que se desmonta e soçobra, o medo, a superação, a resistência e a perda de todas as ilusões.

Um livro tão bom como duro, que remexe nas feridas para as curar.

É raro que a adaptação cinematográfica faça justiça à literatura. Não é este o caso. A série da HBO é fiel ao relato de Fernando Aramburu e dá tons à rigidez da realidade, à crueza das feições torturadas, dos sentimentos afundados, das lágrimas bem fechadas.

Não percam nem um nem outro. À sua maneira é uma história de Natal.

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publicado às 09:15

Ingmar Bergman — O Caminho Contra o Vento

por Sofia Loureiro dos Santos, em 23.12.19

o caminho contra o vento.png

 

O isolamento, o envelhecimento, a constante procura do porquê de se ser, de se estar, a consciência de existir.

A repetição dos dias, dos pensamentos, das forças, do medir de forças, das memórias, dos desejos, dos momentos de alegria, do conforto da solidão, do vento como companhia, como companheiro, como adversário, como amigo.

O amor e a morte, a morte e o amor, mas não a morte do amor que fica, que sobra, que se instala e se repete.

Tudo se repete, dia a dia, hora a hora, noite a noite, madrugada a madrugada.

O deambular sem organização ou a organização do caos, o pensamento que discorre, que se interroga, que afirma, que se lembra, que sofre, que ama.

A arte das palavras e da imagem, sentir a chuva, a neve, as rochas, as pedras, as flores, a cor, o olhar, a curva dos lábios, a macieza das mãos e dos gestos, a ilha, o longe e a clandestina vida que se vai completando, sempre no caminho contra o vento.

Gotland-Fårö_Raukar-Gamlehamn.jpgFårö

 

Cristina Carvalho escreve um romance biográfico sobre Ingmar Bergman a partir dos últimos anos da sua vida em Fårö. Personificando Bergman, vestindo-o e mergulhando no seu espírito, Cristina Carvalho mostra-nos a faceta do homem e não a imagem do artista, o homem como a essência do ser artista e não a arte como profissão. Ficamos a conhecer Ingmar Bergman por dentro. Um artista visto por dentro, o homem que se não nega a que o sintam como alguém que se angustia, que tem medo, que se irrita, que persiste, que persiste na busca de si mesmo.

É um livro extraordinário.

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publicado às 15:22

O Escritor Prodigioso

por Sofia Loureiro dos Santos, em 15.06.19

jorge de sena.jpg

Jorge de Sena num documentário da RTP 2, de 2005.

Realizadora: Joana Pontes

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publicado às 21:42

O Oráculo de Jamais

por Sofia Loureiro dos Santos, em 16.07.18

oraculo de jamais.jpg

É dos livros mais extraordinários que li até hoje, há já muitos anos. Comovente, lindíssimo. De Altino do Tojal.

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publicado às 21:33

A hard rain's a-gonna fall

por Sofia Loureiro dos Santos, em 10.12.16

Patti Smith

Prémios Nobel 20016

 

 Bob Dylan (1964)

 

 

Oh, where have you been, my blue-eyed son

And where have you been, my darling young one

I've stumbled on the side of twelve misty mountains

I've walked and I've crawled on six crooked highways

I've stepped in the middle of seven sad forests

I've been out in front of a dozen dead oceans

I've been ten thousand miles in the mouth of a graveyard

And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, and it's a hard

It's a hard rain's a-gonna fall

 

Oh, what did you see, my blue-eyed son

And what did you see, my darling young one

I saw a newborn baby with wild wolves all around it

I saw a highway of diamonds with nobody on it

I saw a black branch with blood that kept drippin'

I saw a room full of men with their hammers a-bleedin'

I saw a white ladder all covered with water

I saw ten thousand talkers whose tongues were all broken

I saw guns and sharp swords in the hands of young children

And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, it's a hard

It's a hard rain's a-gonna fall

 

And what did you hear, my blue-eyed son?

And what did you hear, my darling young one?

I heard the sound of a thunder that roared out a warnin'

Heard the roar of a wave that could drown the whole world

Heard one hundred drummers whose hands were a-blazin'

Heard ten thousand whisperin' and nobody listenin'

Heard one person starve, I heard many people laughin'

Heard the song of a poet who died in the gutter

Heard the sound of a clown who cried in the alley

And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, it's a hard

It's a hard rain's a-gonna fall

 

Oh, what did you meet, my blue-eyed son?

Who did you meet, my darling young one?

I met a young child beside a dead pony

I met a white man who walked a black dog

I met a young woman whose body was burning

I met a young girl, she gave me a rainbow

I met one man who was wounded in love

I met another man who was wounded with hatred

And it's a hard, it's a hard, it's a hard, it's a hard

It's a hard rain's a-gonna fall

 

And what'll you do now, my blue-eyed son?

And what'll you do now, my darling young one?

I'm a-goin' back out 'fore the rain starts a-fallin'

I'll walk to the depths of the deepest black forest

Where the people are many and their hands are all empty

Where the pellets of poison are flooding their waters

Where the home in the valley meets the damp dirty prison

And the executioner's face is always well hidden

Where hunger is ugly, where souls are forgotten

Where black is the color, where none is the number

And I'll tell it and think it and speak it and breathe it

And reflect it from the mountain so all souls can see it

Then I'll stand on the ocean until I start sinkin'

But I'll know my song well before I start singin'

And it's a hard, it's a hard, it's a hard, it's a hard

It's a hard rain's a-gonna fall

 

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publicado às 20:36

Manual de Cardiologia

por Sofia Loureiro dos Santos, em 21.11.16

Manual-de-Cardiologia.jpg

 

Uma voz que de fora narra a dor, quase sussurrada, quase sem paixão, uma voz apaixonada por um amor que não chega, que não se chega, que não lhe chega.

 

O sofrimento da antecipação, da espera, do que sabe de antemão que falhará. A transmutação entre o amador e a amada, quando nos damos conta de que o narrador agora é a mulher, aquela por quem se sofre e se desce ao abismo. E a mulher é justificada por si mesma pelas palavras do amador que se funde nela, nas suas razões e nos seus desesperos.

 

Há um caminho de sofrimento e aproximação, de sofrimento e fusão, de sofrimento e distanciamento, sempre num sussurro lento e triste, por vezes mais arrebatado. O título é particularmente feliz ao aludir a uma observação clínica, em que as palavras encadeadas e ritmadas são o pulsar cardíaco, aquele músculo que mesmo depois de todo o sofrimento resiste a recupera, mais lento e com cicatrizes.

 

As palavras repetidas sugerem a cadência e o ritmo: aquela mulher, coração, pedra, palavra, casa, amor, espera. A casa como a materialização do corpo e da esperança que se desespera. É uma poesia com uma melodia própria e dolorosa.

 

Manual de Cardiologia, de Fernando Pinto do Amaral, é um livro absolutamente surpreendente, que nos dói e quase nos redime.

 

GENUFLEXÓRIO

 

Soou o meio-dia    Entra agora

nessa pequena ermida    Dizem ter

talvez quinhentos anos    Lá em baixo

a Torre de Belém

 

Entreabre essa porta

Cinco séculos depois ainda estás

aqui    ainda a vês

entrar contigo aqui    ainda ouves

o mesmo coração a sua mesma

música

e continuas sem saber porquê

 

Ajoelha de novo    Já não crês?

E todavia ficarás

À espera de uma voz    à espera de uma

primeira última luz

 

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publicado às 20:36

The times they are a-changin'

por Sofia Loureiro dos Santos, em 13.10.16

Foi grande a surpresa, mas fiquei bastante contente. É uma rotura com o estabelecido, mas justificada. Ainda bem que os tempos estão a mudar.

 

Bob Dylan

 

Come gather 'round people

Wherever you roam

And admit that the waters

Around you have grown

And accept it that soon

You'll be drenched to the bone.

If your time to you

Is worth savin'

Then you better start swimmin'

Or you'll sink like a stone

For the times they are a-changin'.

 

Come writers and critics

Who prophesize with your pen

And keep your eyes wide

The chance won't come again

And don't speak too soon

For the wheel's still in spin

And there's no tellin' who

That it's namin'.

For the loser now

Will be later to win

For the times they are a-changin'.

 

Come senators, congressmen

Please heed the call

Don't stand in the doorway

Don't block up the hall

For he that gets hurt

Will be he who has stalled

There's a battle outside

And it is ragin'.

It'll soon shake your windows

And rattle your walls

For the times they are a-changin'.

 

Come mothers and fathers

Throughout the land

And don't criticize

What you can't understand

Your sons and your daughters

Are beyond your command

Your old road is

Rapidly agin'.

Please get out of the new one

If you can't lend your hand

For the times they are a-changin'.

 

The line it is drawn

The curse it is cast

The slow one now

Will later be fast

As the present now

Will later be past

The order is

Rapidly fadin'.

And the first one now

Will later be last

For the times they are a-changin'.

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publicado às 21:41

Do teatro, ibérico e outros

por Sofia Loureiro dos Santos, em 23.04.16

the mousetrap.jpg

 

Pequeno passeio rumo ao Centro Comercial Vasco da Gama, mais precisamente à FNAC, lugar onde me esperava The mousetrap and other plays, de Agatha Christie, para me preparar condignamente para a próxima viagem à capital londrina, mais precisamente ao St Martin's Theatre, a casa desta peça desde 1974, em cena desde 1952.

 

Adoro estas pequenas passeatas que transformam um banal almoço numa estimulante conversa. De Londres e do teatro passei a William Shakespeare e às comemorações do 4º centenário da sua morte, com inúmeros colóquios, reedições de obras, estudos histórico-literários, etc., que nos transmitem a importância do autor britânico na literatura e na dramaturgia ocidentais.

 

E no entanto, a literatura e especificamente o teatro, nos séculos XVI e XVII europeus, muito ficaram a dever aos autores espanhóis, nomeadamente a Lope de Vega e Pedro Calderón de La Barca, assim como ao francês Molière, mais ou menos contemporâneos de Shakespeare.

 

Mas anterior a todos estes apareceu Gil Vicente, cuja obra eu gostaria muito de ver alguma companhia teatral a revisitar. O nosso Gil Vicente, com o seu Monólogo do Vaqueiro, quase inaugurou a importância social e política do teatro, como espelho do e sátira ao poder e às classes sociais, da linguagem dos simples, das figuras mitológicas, do bem e do mal, enfim, dos grandes temas que nos preocupam.

 

Monologo_do_Vaqueiro_por_Roque_Gameiro.jpg

Roque Gameiro

 

Não há dúvida que a pressão da língua inglesa explica em parte a notoriedade de Shakespeare e o relativo embaciamento dos autores ibéricos e francês. Mas nos séculos XVI e XVII não seria bem assim, a língua erudita era o latim e as línguas neolatinas muito mais importantes que a inglesa. Nada disto retira o brilhantismo e o génio a Shakespeare. Só é pena não haver o mesmo realce para outros, tão geniais e brilhantes como ele.

 

Nota: Alguém que comigo partilha passeios e conversas, enviou-me uma informação interessante: é que a primeira peça que a RTP apresentou logo após o início das emissões regulares foi precisamente... Monólogo do Vaqueiro.

monologo rtp.jpg

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publicado às 16:53


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