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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Venham mais cinco

Manuel de Oliveira

 

Venham mais cinco
Duma assentada
Que eu pago já
Do branco ou tinto
Se o velho estica
Eu fico por cá

 

Se tem má pinta
Dá-lhe um apito
E põe-no a andar
De espada à cinta
Já crê que é rei
Dàquém e Dàlém Mar

 

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar

 

A gente ajuda
Havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira
Deitar abaixo
O que eu levantei

 

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustem
Só nesta rusga
Não há lugar
Pr'ós filhos da mãe

 

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar

 

Bem me diziam
Bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra
Quem trepa
No coqueiro
É o rei

 

José Afonso

Diálogos de surdos

dialogue-des-sourds.jpg

Dialogue des Sourds

Nadim Karam

 

 

As fake news sempre existiram. Chamávamos-lhes outras coisas, como por exemplo, na época do PREC, os boatos. O boato era a arma da reacção.

 

As fake news também são uma arma de arrebanhar incautos e gente de boa fé e, sobretudo, gente pouco preparada para desconfiar, para criticar, para confrontar fontes e fazer aquilo que agora se chama o fact checking.

 

Na verdade a capacidade de divulgação e a rapidez com que as falsas notícias se propagam e a virulência das reacções são, talvez, maiores e piores do que era hábito. São arrepiantes as caixas de comentários no Facebook e nos jornais, em qualquer coisa que esteja aberta a opiniões de leitores. Parece que se soltam todos os demónios escondidos debaixo das nossas peles e mostramos o que na realidade somos.

 

A ausência de conhecimento e maturação de ideias, conhecimentos de História e de filosofia, a ausência e redução vocabular pela inexistência de leitura e de capacidade de abstracção, a ausência de pensamento dedutivo e lógico, a enumeração e priorização de argumentos e a sua explicitação, tudo isso leva à crendice e à falta de sentido crítico. Estamos cada vez menos capazes de pensar e de ouvir o que os outros pensam. Por isso tudo se extrema e se reduz ao insulto, à fé em determinadas pessoas, à defesa incondicional de determinados factos e personagens.

 

Ninguém está imune a esta epidemia, e o autismo a que cada vez mais nos condenamos, a falta de partilha pela ausência do outro, real ou porque o excluímos ou porque se exclui, agudiza e aumenta o problema.

 

Precisamos de tempo para nos desafiarmos, de tempo para nos ouvirmos, de tempo para respirar e pensar, para ler, para saber coisas que, aparentemente, não têm aplicabilidade prática e imediata. Precisamos de ouvir histórias e de as contar, de as resumir e de as esticar, precisamos de distinguir o real do virtual, precisamos de nos confrontar e ser confrontados, de comunicar.

 

A tolerância não se decreta, aprende-se no meio dos outros, com os outros. Os populismos acabam por resultar do entrincheiramento da ignorância, da defesa do indefensável, da exploração do facilitismo e da preguiça. A democracia e a liberdade dão muito trabalho.

Algo está muito errado

Quando um Estado que se diz democrático se propõe prender por 25 anos elementos que defenderam e defendem a independência de uma região, por meios não violentos.

 

Em Espanha, por muito que eu pense que os separatistas catalães conduziram muito mal todo este processo, não consigo entender e revolta-me o meu sentimento de justiça e liberdade, quando se aceita que haja pessoas presas há mais de um ano, preventivamente, por defenderem os interesses do povo que as elegeu legitimamente, e que se coloque sequer a hipótese de as condenar como se fossem assassinas.

 

Algo está mesmo muito mal no reino aqui ao lado.

Do rápido e acelerado desgaste das regras democráticas

macron_le_pen.jpg

Marine Le Pen ganharia hoje a primeira volta das eleições presidenciais francesas

 

 

O que mais me impressiona quando ouço e leio os argumentos dos chamados coletes amarelos a exigir a demissão de Macron e a realização de novas eleições, é a repetição de eu não votei nele e de ele não nos representa.

 

A democracia representativa, ou seja, o governo pela maioria eleita livremente, por um intervalo temporal que se rege pela lei, deixou de ter significado. Como não se vota em uma determinada pessoa ou opção política, não tem que se acatar a decisão e a escolha da maioria.

 

Portugal não é excepção, ao contrário do que se tem dito e repetido em vários meios de comunicação. As novas formas e ritmos das greves que estão a aparecer, tal como as notícias que se põem a circular sobre os actores políticos, muitas delas inventadas mas muitas outras, infelizmente, bem reais, são o perfeito caldo para o aparecimento daqueles que acabarão com todos os tipos de greves e todos os tipos de reivindicações - os ditadores e as ditaduras.

Obejctivo - destruir

Acredito na boa fé de muitos dos que se juntaram às primeiras manifestações dos coletes amarelos, em Paris.

 

Agora ninguém tem qualquer dúvida sobre o objectivo que move a continuação da destruição e do vandalismo das novas manifestações. É vandalismo e terrorismo, com o objectivo imediato de roubar e lucrar e outro mais subterrâneo, aproveitado e incentivado pela extrema direita e pela extrema esquerda de destruir a confiança no regime democrático.

 

Por cá tenta-se copiar. A extensa e permanente cobertura pelos media dão motivos para aumentar a violência, pela divulgação do medo a nível nacional e internacional. É muito difícil tentar perceber qual o equilíbrio entre a informação e a propaganda gratuita. 

 

Macron foi eleito há pouco mais de um ano. A extrema-direita está exultante perante as últimas vitórias, nomeadamente em Espanha. E nós todos, por acção ou omissão, vamos deixando que o abismo se aproxime.

O inenarrável

O próximo Presidente brasileiro será uma criatura inenarrável, que defende a tortura, a violação das mulheres, o esterilização dos pobres, o assassinato de "corruptos", incluindo o antigo Presidente Fernando Henrique Cardoso, que é homofóbico, etc., etc., etc.

 

E isso acontecerá porque a maioria dos brasileiros que votam, em liberdade, vão escolher essa criatura inenarrável. Chegamos à conclusão de que a maioria dos brasileiros, que votam em liberdade, ou são inenarráveis ou querem ter um Presidente inenarrável. Também nos EUA e noutros países da Europa tem havido escolhas semelhantes.

 

É assustador, mas é a realidade.

 

Caricaturas

serena williams.jpgMark Knight

 

A triste cena de que Serena Williams foi protagonista, no Grand Slam, em que perdeu para Naomi Osaka, já foi objecto de acesas discussões de sexismo e racismo. E aquilo que deveria ter sido a grande notícia, precisamente uma tenista de 23 anos ter derrotado a grande Serena Williams, foi abafado por tanto disparate.

 

Até o autor da caricatura foi criticado e acusado de racismo, pela acentuação dos traços fisionómicos de Serena Williams. E eu que pensava que as caricaturas faziam precisamente isso!