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Este lugar

por Sofia Loureiro dos Santos, em 25.04.22

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Parlamento

 

Se estes 48 anos fossem um lugar, uma paisagem, um país de terra e mar com gente que vive, sofre, luta, ama e morre, ao lado de um país anterior, de terra e mar com gente que vivia, sofria, lutava, amava e morria, eu abriria as minhas fronteiras para que essa gente do país anterior pudesse viver no país de Abril.

É a mesma gente, a mesma terra, mas é uma outra paisagem, um outro clima, uma outra natureza. Há ventos e maremotos de liberdade, culturas de democracia, prados vermelhos de cravos e poemas.

Estes são os 48 anos do meu país, do meu país de Abril. Temos ainda parcelas de eternidade até ao próximo lugar, que construiremos com esta gente, desta terra, que vive, sofre, luta, ama e morre, colhendo com esforço e leveza alguns momentos de felicidade.

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publicado às 19:17

Proibido por inconveniente

por Sofia Loureiro dos Santos, em 23.04.22

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No antigo edifício do Diário de Notícias, ao cimo da Avenida da Liberdade, junto ao Marquês de Pombal, está a exposição Proibido por inconveniente, organizada a partir do espólio Ephemera de José Pacheco Pereira.

Simples, sóbria e muito eficaz, damo-nos conta de todas as áreas aonde, durante 48 anos - a sociedade, as ideias, os filmes, as notícias, os livros, os filmes, as opiniões, desde as políticas às religiosas, da Guerra Colonial aos direitos das mulheres, da sexualidade à moralidade e costumes - eram passadas a pente fino pelos olhos dos inquisidores, mantendo um povo anónimo, cinzento, sem sobressaltos sentidos e sem alma visível.

Junto o exemplo da avaliação do livro A Criação do Mundo, de Miguel Torga, e Jesus de Nazaré, de José da Felicidade Alves.

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Miguel Torga - A Criação do Mundo

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José da Felicidade Alves - Jesus de Nazaré

A liberdade e a democracia são nossa responsabilidade diária. Convém que nos lembremos do que era antes de 25 de Abril de 1974.

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publicado às 17:35

A crueldade das boas intenções

por Sofia Loureiro dos Santos, em 03.03.22

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São Petersburgo (24/02/2022)

No frenesim de apoiar os ucranianos, que defendem o seu país da invasão da Rússia, um estado ditatorial imposto por Putin, estão a atingir-se proporções assustadoras no que diz respeito à massificação do espectáculo que é a solidariedade e às boas intenções dos povos democráticos.

Mas, como em tudo, não há bons e maus, heróis e vilãos, por muito que seja isso o que a inundação mediática nos faz crer. O mundo livre, nomeadamente os países da União Europeia e os EUA, combate a Rússia, não os russos.

No mundo livre e democrático, ninguém deve ser obrigada a dizer quais as suas opções políticas. Ninguém deve ser perseguido pelas suas opiniões ou pelo silêncio sobre elas.

Considero uma aberração, compreensível, mas não deixando de o ser, as várias manifestações de bulling à comunidade russa portuguesa, tal como aos intelectuais que não se declaram contra a invasão e contra Putin. Num país em que o uso da palavra guerra é considerado traição, parece-me incrível que os corajosos intelectuais ocidentais, sentados confortavelmente nas suas sociedades livres e democráticas, julguem aqueles que pagam com a sua liberdade e a sua vida a manifestação de discordância perante o poder autocrático de um ditador.

Ainda por cima vindo de tantos que, por exemplo em Portugal e durante a ditadura, tiveram que assinar documentos em que negavam ser comunistas ou participar em actividades subversivas para que pudessem manter o emprego.

A liberdade deve ser para todos, de se manifestarem ou de não se manifestarem. Tenho as maiores dúvidas sobre os boicotes culturais e sobre a condenação de quem não expressa o que, subitamente, se tornou na nova verdade inquestionável e soberana. Tenho as maiores reticências à censura de canais de televisão e de agências de informação.

Tenho um enorme cepticismo sobre estas ondas mediáticas intensíssimas e fugazes, que se arriscam a soçobrar perante o peso do ruído omnipresente.

Tenho uma enorme desconfiança a tantos postos de trabalho já disponíveis a quem foge da guerra. Será que já se esqueceram dos médicos, engenheiros, professores, músicos e tantos outros técnicos qualificados que, durante anos, alimentaram a mão de obra barata da construção civil e do serviço doméstico, sem que o país lhes reconhecesse as competências e pudesse oferecer-lhes os empregos correspondentes às suas qualificações?

Há muita crueldade nestas ondas mediáticas de apoios, julgamentos e solidariedades, muitas vezes postiças e fúteis. Espero que esteja enganada, pois esta guerra vai durar e destruir ainda muitas vidas. E nós vamos esquecer depressa as boas intenções e regressar rapidamente às nossas vidas em que o medo do outro e o preconceito são reis.

A não ser que também façamos parte da destruição. E mesmo na dor e no sofrimento, a solidariedade é uma rara ocorrência.

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publicado às 17:43

A censura como arma de guerra

por Sofia Loureiro dos Santos, em 28.02.22

A notícia da suspensão do acesso a canais russos, nomeadamente ao Russia Today, e ao Sputink (agência noticiosa) anúncio feito pela União Europeia, parece-me um precedente perigoso, com o qual não posso estar de acordo.

Os cidadãos têm que poder escolher ver e ouvir o que quiserem, por muitas mentiras que se propagandeiem. Nos países livres e democráticos não há nenhum organismo de censura para dizer o que é ou o que não é propaganda e que notícias são ou não falsas. Há, sim, capacidade de escolha e escrutínio pela sociedade.

A censura pura e simples, com a justificação de defender os cidadãos de propaganda mentirosa, é exactamente o mesmo que se passava em Portugal antes do 25 de Abril - também para a ditadura de Salazar e Caetano, a inexistência de liberdade de acesso à imprensa, aos livros, ao cinema, etc, era uma forma de proteger os cidadãos dos ataques nocivos dos subversivos.

Não podemos usar os métodos dos quais acusamos a Rússia, e com razão. Nas democracias a livre escolha pertence aos cidadãos, não aos governos, por muito bem intencionados que sejam.

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publicado às 18:40

Da mole humana

por Sofia Loureiro dos Santos, em 14.02.21

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Pinturas Negras

Francisco de Goya

 

A mole humana é tudo menos a divisão binária em bons e maus, mesmo que nisso tenhamos necessidade de acreditar.

As pessoas têm matizes e são também as suas circunstâncias. Além disso adaptam-se e habituam-se às condições mais extremas, tomando partido das fraquezas dos outros para sobreviver. Não somos heróis. Somos pessoas, naquilo que há de melhor e de pior.

Neste artigo do Público - Os portugueses foram vítimas ou cúmplices da PIDE? (de Duncan Simpson), o autor demonstra a forma como tanta gente usou a PIDE para resolver questões e vinganças pessoais ou para ter um modo de vida, como aceitou e integrou uma das mais poderosas armas da ditadura no controlo dos cidadãos, fazendo a sua vida quotidiana sem se importar com as dores, os medos e as injustiças a que eram sujeitos alguns dos seus amigos, familiares ou vizinhos. A PIDE estava no meio de tudo, entre casais, namorados, parceiros de negócios ou de jogatana.

Também tenho estado a rever uma série que já passou na RTP-2 – Un village français – que cobre o período entre a ocupação francesa e a sua libertação. O mais interessante da série, pelo menos para mim, é o perfil das vários personagens que, durante os anos do governo de Vichy, se misturaram e viveram com os alemães. Uns aceitando-os e satisfazendo-se com as suas ordens que lhes davam trabalho, o seu antissemitismo larvar, promoviam fortunas e ascensão social. Outros servindo o Estado Francês, mesmo a contragosto, tentando minorar as dores de quem estava sob a sua responsabilidade nem que, para isso, atropelassem os seus valores morais e fossem cúmplices das mais horrorosas atrocidades. Havia aqueles que não questionavam as ordens dos superiores, por mais contrárias que fossem à mais simples humanidade. Outros ainda amaram os invasores, constituindo famílias mais ou menos ortodoxas perante circunstâncias clandestinas ou duvidosas.

Aquando da libertação, é retratada a transformação dos cúmplices em algozes, no julgamento dos colaboracionistas, em que todos os que fizeram a sua vida à sombra e com os ocupantes eram os mais duros justiceiros defensores de judeus e comunistas, apontando os dedos para que ninguém os apontasse a eles.

Nada disto é novo nem surpreendente. É apenas a realidade, triste, suja, escura, a subterrânea gente que tem sentimentos e pulsões, que num dia é herói no outro vilão, que olha apenas o seu quintal, a sua vida, as suas necessidades, adormecendo as consciências e justificando as suas acções que, muitos anos depois dos acontecimentos, nos é fácil rotular e classificar.

Uma das grandes armas das ditaduras é o medo. Com o medo – da polícia, de perder o emprego, de ser repudiado socialmente, de morrer, do inferno, de dores, de passar fome e miséria, etc. – o medo é o que nos leva a revelar as nossas mais hediondas competências, se disso acharmos que depende a nossa sobrevivência.

Esta pandemia tem posto a nu muito desta nossa humanidade frágil, feia e mesquinha. O pensamento único no que diz respeito às estratégias de combate à mesma, a quantidade de Torquemadas e de iluminados que invocam a ciência em vão, negando a própria essência do que é o estudo e o método científico, a dúvida metódica, a investigação do que não se sabe, a certeza de que tudo pode mudar pelo evoluir do conhecimento. É terrível assistir ao inundar dos media com as certezas absolutas sobre vírus novos, sobre infecciologia, modelos matemáticos, previsões e epidemiologia, arrasando pessoas que põe em dúvida aquilo que não é certo mas que difere da doutrina oficial.

Transformou-se a ciência numa doutrina e numa ideologia – quem é a favor de medidas restritivas, confinamentos e fechamento das sociedades é de esquerda e quer salvar vidas, quem questiona estas estratégias é de direita, negacionista e precisa de ser calada e punida exemplarmente. Sofre bullying nas redes sociais, nos media e nas próprias instituições profissionais. Voltou o delito de opinião. Porque muito do que se diz sobre a gestão pandémica é opinião. Legítima, como é óbvio, mas opinião. Estudos científicos há vários e podem apontar para várias direcções. Vale a pena espreitar o Instituto de Saúde Baseada na Evidência e as newsletters sobre COVID-19.

É muito importante que os governos se baseiem em conhecimentos técnicos sobre a doença, a sua evolução, terapêutica, prevenção, factores de risco, etc. Mas também muitas outras vertentes sociais, económicas, de trabalho, de saúde mental, tudo aquilo que esperamos que os nossos responsáveis tenham em conta para tomar decisões.

Toda a minha vida de adulta tenho lidado com a doença, o rigor, o diagnóstico, a responsabilidade de observar as melhores e mais avançadas práticas na minha especialidade. Olho para o que se está a passar, com o mundo mergulhado numa voragem de abismo sem sequer poder ponderar, questionar, duvidar do que ouço, leio, vejo. Ou seja, negar tudo aquilo que me formou como profissional de saúde. Sinto-me perplexa e revoltada.

Mas sou humana e, como tal, nenhuma heroína. O mais fácil e mais confortável é seguir a onda. E se, mais tarde, quando houver tempo e estudos sérios e abrangentes que nos esclareçam tantas das nossas ignorâncias, a onda virar ao contrário, talvez fazer como farão os que agora não têm a mácula da dúvida, que defenderão com a mesma ferocidade o que agora repudiam e condenam.

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publicado às 17:09

.... ou com pezinhos de lã

por Sofia Loureiro dos Santos, em 12.02.21

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Público

O próxio passo poderá ser a ponderação da futilidade de eleições (quaisquer que elas sejam) no meio da pandemia.

Lá isso é

Sérgio Godinho

 

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publicado às 09:41

Dos recorrentes apelos aos governos de salvação nacional

por Sofia Loureiro dos Santos, em 06.02.21

A Nação precisa de ser salva ciclicamente. Daí, principalmente quando a direita não se constrói como alternativa, vem o Corifeu do costume apelar para um governo de iniciativa presidencial ou de salvação nacional - quem mais se não o Presidente promover a salvação da Nação?

Desde 18 de Março de 2020 que estamos, quase sem intervalos, em estado de emergência. Como é hábito, todos estes estados excepcionais resultam da necessidade de proteger os cidadãos de ameaças muito graves. Por isso aceitam-se limitações às liberdades e garantias, pois a segurança é um bem que desejamos acima de qualquer outro.

Com o país mergulhado em medo, crise pandémica e económica, com o desemprego, as desigualdades e a sensação de injustiça e de revolta a aumentarem, insufladas por uma comunicação abutre, incompetente e suicidária, nada melhor para as ambições de qualquer ditador de pacotilha a criação de casos e crises que apenas se resolvem com mão dura e abrangente, na procura de unanimidades e soluções contrárias ao espírito democrático.

Tudo serve para instalar a insegurança e o caos - a exploração ad nauseum dos números da pandemia, a insistência na balbúrdia do plano de vacinação, as horas frenéticas a decretar a os preconceitos ideológicos do governo, assim como a implícita ou explícita culpabilização dos responsáveis políticos pelas misérias morais de quem atropela os mais elementares valores de solidariedade e da decência.

Perante tudo isto, nada melhor que, fazendo tábua rasa de todo o nosso sistema político, apelar-se ao Presidente para desfazer (ou não) o Parlamento e decretar um Governo de Salvação Nacional.

Realmente precisamos de nos salvar de tais salvadores. Se houver crise de governo e demissão do mesmo, que tal ir a eleições? Não é assim que, em democracia, se resolvem as crises políticas? Salazar esteve tanto tempo no poder porque há muita gente que, mal assomam as nuvens no horizonte, vem clamar por um salvador, em forma de Presidente ou governo de bloco central, a amálgama dos interesses e do centrão que desfaz o confronto de ideias e de soluções.

Tenho Marcelo Rebelo de Sousa na conta de um democrata. Não acredito mesmo que lhe passe pela cabeça uma aventura destas. Felizmente. Foi eleito para cumprir e fazer cumprir a Constituição e pugnar pelo regular funcionamento das Instituições Democráticas, não para as subverter.

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publicado às 15:51

A raridade de um ser pensante e sensato

a quem ninguém tem interesse em ouvir

por Sofia Loureiro dos Santos, em 22.01.21

Para quem tiver interesse em saber quem é o Professor Jorge Torgal.

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publicado às 17:25

Dos regimes que escolhemos

por Sofia Loureiro dos Santos, em 10.01.21

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Os debates das presidenciais foram dominados por André Ventura. Não que André Ventura se tenha mostrado merecedor disso, mas porque os media o elevaram ao centro de todas as atenções. Não só lhe deram protagonismo naqueles em que era um dos oponentes, na maioria dos casos pela demissão dos moderadores em cumprirem o seu papel, como nos outros em que a sua presença, mais uma vez assegurada pelas perguntas dos moderadores, era imposta.

Mais uma vez o papel dos media nas democracias é crucial, tanto pela indispensável necessidade da sua existência, pela pluralidade de opiniões e pelo escrutínio dos vários poderes, como pela capacidade de manipulação e modelação da opinião pública.

A forma como as prestações são avaliadas, nomeadamente a unanimidade das loas a Vitorino Silva, pela autenticidade, pela criatividade e pelo fantástico uso das metáforas, é espantoso. Chego mesmo a pensar que devo ter uns óculos diferentes dos restantes, pois tudo o que vi foi uma lamentável tristeza de inanidades ditas e reditas por alguém que se está a candidatar, é preciso que não nos esqueçamos, ao cargo de Presidente da República.

Debates de 30 minutos são tudo menos esclarecedores, mesmo que tivessem corrido brilhantemente. Na maioria dos casos as perguntas versaram tudo menos o que de facto importa na Presidência da República. Com raras excepções, como a postura dos candidatos aos acordos e maiorias de governo, por exemplo.

Para conhecer os candidatos, as suas posições políticas e éticas, a sua forma e opções de vida, era preferível entrevistá-los com calma. Assisti a duas entrevistas feitas por Rui Unas a Ana Gomes e a Tiago Mayan que foram muito mais informativas e interessantes que qualquer dos debates.

Penso que o mais importante objectivo destas eleições é reduzir ao máximo a abstenção e tentar mobilizar, no meio da pandemia, os cidadãos a votar. Temos de nos convencer que quanto mais longe estivermos das nossas obrigações cívicas, quanto mais nos demitirmos de intervir e de escolher, participando nos actos eleitorais, mais frágil será o nosso regime democrático.

E todas as eleições são importantes. Esta também é. De um momento para o outro o Presidente pode ser a peça fundamental da nossa vida colectiva. Para isso temos que escolher aquele que pensamos ser a melhor e mais apta pessoa para o desempenho dessas funções.

Os adeptos dos extremismos nunca se abstêm. Os moderados é que negligenciam esse seu dever. Basta assistir ao que se está a passar nos EUA. A omissão e o oportunismo de muitos dos que estavam perto de Trump, que permitiram que aquela criatura se candidatasse a Presidente e que, após a eleição, se mantivesse no cargo à custa de mentiras e de atitudes indignas e que envergonham os mais distraídos, são exemplos a que devemos estar atentos para que não se repitam aqui.

Não, André Ventura não tem graça, não é um fenómeno ridículo e residual. A verbalização dos mais negros instintos do ser humano passou a ser a norma, os insultos e a gritaria, o abandalhar da moral e da ética passou a ser vista como o novo normal, para usar um dos jargões da época.

Ouvi há dias alguém defender que a redução e quase desaparecimento dos hábitos de leitura têm como consequência um enorme encolhimento do vocabulário e da capacidade de elaborar pensamentos mais complexos, o que deixa os cidadãos acríticos e crentes nas mais diversas idiotices, presos dos aldrabões e vigaristas que proliferam. Se olharmos para os nossos aprendizes de Trump não podemos deixar de concordar.

Em tempo de pandemia há formas alternativas de exercer o direito de voto. Basta ir a este link para nos informarmos.

E pensemos, interroguemos as nossas consciências. Julgar os outros é muito mais fácil do que tentar perceber as dificuldades pelas quais passa tanta gente, pelos mais diversos motivos. O racismo, a xenofobia, o desrespeito pelas mais elementares direitos humanos nunca resolveu problemas, só causou caos, miséria e sofrimento atroz. As ditaduras nunca foram a resposta a pandemias, desigualdades, corrupção ou pobreza.

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publicado às 09:27

Do inqualificável

por Sofia Loureiro dos Santos, em 22.12.20

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André Carrilho

 

É difícil acabar este ano sem nos virem à boca todas as palavras azedas e desesperançadas que conhecemos, para expurgar pensamentos e vinagres interiores.

Para não falar do SRAS-CoV-2 e da pandemia, de confinamentos e emergências, de manipulações, histeria e ratos, a minha tristeza e perplexidade olham para o que se tem passado no SEF perante a nossa indiferença e alheamento.

Depois de nos termos apercebido de que um cidadão ucraniano tinha sido morto à pancada em Portugal, na porta de entrada para o que ele esperava ser uma hipótese de vida futura, às mãos do Estado português, perante a cumplicidade e inactividade de todos, com raras e honrosas excepções para muito poucos jornalistas que mantinham a denúncia, vemo-nos confrontados com a incúria e a inépcia política da gestão deste gravíssimo caso, que põe em causa tudo o que propagandeámos de país amigo, tolerante e acolhedor.

O Ministro não actuou de imediato, demitindo a Presidente do SEF, visto que ela própria não o fez. Não só não actuou de imediato como meses depois assumiu a sua inquestionável gestão do caso, divulgando a sua conclusão de que aquele assassinato era caso único e que não manchava o SEF. De tal forma que só depois de mais denúncias, o crédulo Ministro decidiu alargar o âmbito da investigação, como se nada fizesse crer que tudo o que ali se passa deve ser digno de um filme negro de máfias e conluio entre gente inqualificável, que devia estar atrás das grades.

Não só o Ministro mas também o Presidente dos afectos não tiveram a decência de publicamente e em nome do País se desculparem perante tal horror, fazendo o que pudessem para tentar minimizar a dor da família e a nossa vergonha colectiva.

É muito, muito mau. António Costa já devia ter demitido o Ministro, visto que ele não o faz. Mas, mais uma vez, não consegue gerir estas situações, deixando-as apodrecer arrastando todo o governo e a si próprio em marinada lenta de descrédito e estupefacção.

É muito triste, muito mau, muito grave. Só de imaginar o que aquele homem e muitos outros, homens e mulheres, sofreu, sofrem e sofrerão naquele pedaço de Portugal, devia obrigar-nos a todos a olhar para as nossas prioridades.

No fim deste ano de 2020, que parece nem ter existido mas que varreu o mundo destruindo muitos dos alicerces da vida em sociedade, esta é uma péssima amostra do que se passa nalguns cantos que teimamos em não ver.

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publicado às 09:43


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