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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

E mais não digo

Sou totalmente defensora do SNS, sempre trabalhei e trabalho para o SNS, primeiro no Hospital de Curry Cabral (ainda nos Hospitais Civis de Lisboa), depois no Hospital Garcia de Orta, depois no Hospital Fernando Fonseca, enquanto PPP e EPE, e agora no Hospital Vila Franca de Xira (em PPP), pelo que declaro já que posso não ser isenta na minha apreciação.

 

Li esta entrevista e sinto-me incomodada e revoltada com as palavras de Eduardo Barroso, que diz que pode haver perversões graves na gestão privada de hospitais públicos. É claro que pode, mas não haverá perversões graves na gestão pública de muitos hospitais públicos?

 

Eduardo Barroso não se explica - e mais não diz - deixando a insinuação de que as PPP só se preocupam com o fazer mais barato e só assumem procedimentos e tratamentos pouco onerosos. Convém esclarecer que todos os anos os hospitais celebram contratos com as respectivas ARS e estão obrigadas a cumpri-los, assegurando o atendimento e tratamento da população da sua área de influência e de quem, segundo a lei, a eles forem referenciados, sofrendo penalizações pesadas caso não consigam cumprir o contratualizado. Em relação à preocupação com certificação e acreditação de qualidade, são as PPP as mais dinâmicas e as que mais investem nessa área. Em termos comparativos com outros hospitais dos mesmos grupos, estão bem colocadas em todos os rankings, tanto nos custos como na qualidade dos serviços.

 

Já trabalhei em vários sistemas e regimes e não percebo muito bem aonde Eduardo Barroso quer chegar. Portanto gostaria que dissesse mais e mais claramente. A defesa do SNS não é bem servida por este tipo de entrevistas nem por preconceitos. Lembro-me bem das frequentes manifestações do BE na altura da PPP do Hospital Fernando Fonseca, onde "os Mellos" eram notícia diária pelas várias insuficiências do hospital, que miraculosamente deixou de aparecer nas TVs e nos jornais após a reversão da PPP, embora as insuficiências se tivessem mantido ou mesmo aumentado.

 

É essencial que estas parcerias sejam avaliadas e controladas, mas podem ser uma preciosa arma para melhor tratar os cidadãos, dentro do SNS. Se Eduardo Barroso tem alguma coisa a dizer, pois que o faça claramente.

 

E mais não digo.

Das afrontas e dos esquecimentos

É muito interessante a notícia que saiu hoje no Expresso online, sobre a afronta a ADSE exigir a alguns prestadores privados um montante de 38 milhões de euros que lhes terão sido pagos indevidamente (em causa facturações de 2015 e 2016). A notícia avança mesmo com a ameaça, veiculada pela Associação Portuguesa de Hospitalização Privada, de quebra de prestação de serviços à ADSE.

 

O que o Expresso se esqueceu de referir é que há um parecer da PGR dando razão à ADSE, obrigando os prestadores a pagarem a dívida reclamada - notícia de 13 deste mês.

 

Curioso. Mais curioso a fonte de ambas as notícias ser a mesma agência Lusa.

Dos encerramentos e reaberturas da Maternidade Alfredo da Costa

Em 2012, no governo do PSD/CDS liderado por Pedro Passos Coelho, Paulo Macedo (Ministro da Saúde) decide que a Maternidade Alfredo da Costa (MAC) deve encerrar. Foi uma comoção geral, nomeadamente por parte da oposição (PS, BE e PCP), tendo-se assistido a manifestações, correntes e abraços à volta da MAC, providências cautelares e decisões judiciais com o objectivo conseguido de adiar o encerramento.

 

Apesar de Assunção Cristas se esforçar imenso por apagar a presença do seu partido nesse governo, o CDS apoiou, e quanto a mim muito bem, a decisão de Paulo Macedo. Neste momento surge à porta da MAC perorando contra a escassez de Anestesistas e outros profissionais de saúde na MAC e no restante SNS. A falta de vergonha é mesmo gritante. E não há um único jornalista que lhe lembre estes factos. Na verdade, se a MAC deveria encerrar (mesmo que dentro de alguns anos), não tem muita lógica admitir mais médicos para os seus quadros. Mesmo que a MAC só seja totalmente desactivada apenas quando abrir o novo Hospital de Lisboa Oriental, a transferência de serviços para outras unidades, dentro do CHLC, não parece ter sido revertida.

 

Porquê agora esta barragem noticiosa, acrítica, em relação à falta de Anestesistas na MAC?

A tentação do abismo

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André Carrilho

 

 

Andamos numa vertigem de fabricação e exploração de casos, sem distinguir a sua gravidade e importância e sem cuidar de preservar as Instituições. O caso do desaparecimento/ reaparecimento das armas de Tancos é disso um exemplo. Na corrida para a visibilidade e para o protagonismo, mastigam-se os actores políticos e as Instituições. Responsáveis partidários, comentadores e jornalistas, na ânsia de se fazerem notados, baralham e envolvem ministros, militares, polícias e, como já é pouco, também o Primeiro-.ministro e o Presidente da República.

 

Cada vez é mais difícil tentar perceber o que se passou e o que se está a passar - houve ou não roubo? Se sim quem foram os ladrões, onde estavam e onde estão as armas que faltam? Vendidas, traficadas, destruídas, emprestadas? Se não, qual o objectivo da farsa? Quem a criou e com que fim? A sua restituição foi negociada para encobrir os criminosos ou não? Se sim, porquê? Quem é que se quis encobrir? Se não, porque se falou em encobrimento? A sensação que tenho é que nada disto é real e que tudo é uma manobra de diversão para distrair do foco principal - e qual é o foco principal? Voltamos ao princípio - houve ou não roubo?

 

O que mais destrói a confiança dos cidadãos no regime democrático são estas graves palhaçadas, em que a corrida para alcançar a fama vai destruindo e atropelando tudo o que aparece. As pessoas vêm-se perdidas, sem perceberem o que se passa, e cansam-se da repetição até à náusea das mesmas coisas. O novo mote, lançado por Marques Mendes, é o atrito entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa, que se vai repetindo por todos os media.

 

No dia em que há eleições nos EUA, país que tem como Presidente uma criatura inominável que apela aos nossos piores instintos, deveríamos pensar bem no perigo do descrédito das Instituições que, por acção ou omissão, estamos a incentivar.

A (falta de) Justiça

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Alfredo Ceschiatti

 

 

Temos uma remodelação institucional, de valores e de práticas. A presunção de inocência e a Justiça são conceitos que, neste momento, não têm qualquer significado.

 

Cristiano Ronaldo foi e é acusado de violação. As reacções nas redes sociais e nos restantes media ditarão o seu futuro e o da acusadora. Não serão os tribunais, o apuramento dos factos ou as eventuais confissões de qualquer das partes. Cristiano Ronaldo, culpado ou inocente, vai ser mastigado pela opinião pública porque é muito mais importante à Juventus, à Nike e à EA desportos, que têm com ele relações profissionais, projectarem uma imagem de moralidade do que esperarem os mais vagarosos trâmites da justiça.

 

Em relação a Kathryn Mayorga também não interessa se foi ou não violada. Em Portugal os amantes de futebol e de Cristiano Ronaldo já decidiram que ela é uma devoradora de dinheiro e que, mesmo que tenha sido violada, já sabia ao que ia ao aceitar subir ao quarto de Cristiano Ronaldo. A tese dos homens predadores e da culpa das mulheres provocadoras, velha como o mundo, é um dos sustentáculos da sociedade machista que continuamos a ser.

 

Estamos a criar uma sociedade cruel e sem regras. As discussões sobre qualquer assunto ganham de imediato contornos de guerras assassinas, sem que as Instituições tenham capacidade para seguir o percurso das investigações e do apuramento de responsabilidades. As barragens são de tal ordem que se esquecem os núcleos para se ficar com as pontas, lançando-se véus sobre tudo e misturando tudo na mesma impunidade.

 

No caso de Tancos, o Expresso, conhecido por criar factos políticos, lançou já o mote para a culpabilização do Ministro da Defesa, com a suspeita de envolvimento do mesmo pelos responsáveis na encenação da descoberta das armas roubadas. Claro que a palavra destes oficiais já foi elevada à dos homens de honra, enquanto os desmentidos do Ministro são olhadas como desculpas de um malfeitor. Entretanto o facto em si – o roubo das armas e o seu encobrimento – deixa de ser importante. É claro que o Ministro da Defesa tem sido um desastre, mas daí até ser conivente com uma farsa deste tipo, é um grande salto. Em relação aos responsáveis hierárquicos na cadeia de comando das Forças Armadas, ninguém assume responsabilidades.

 

O mais grave de tudo isto é que não sabemos em quem confiar nem em quem acreditar – se no Ministro, se nos militares encobridores, se nos eventuais violadores, se nas eventuais violadas. Não há limites nem fronteiras, tudo se mistura perigosamente.

 

Nota: vale a pena ler Ferreira Fernandes

Descrédito a expensas próprias

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Mais uma vez os jornalistas e os jornais prestaram um péssimo serviço à sua própria credibilidade. No fim de semana passado o Expresso e o Observador, em grandes manchetes, asseguravam a iminência da recondução de Joana Marques Vidal. E fazendo as vezes de papagaios acéfalos, vários outros jornaistelevisões o repetiram.

 

Depois do duche gelado que foi a publicação da nota da Presidência da República sobre a escolha de Lucília Gago para o cargo, nem o Expresso nem o Observador, nem qualquer dos outros que fez eco das fake news, teve a decência de admitir o engano e explicar porquê. Honra seja feita ao DN que não se deixou levar na enxurrada. Grande editorial, o de Ferreira Fernandes.

 

Passos Coelho rompeu o silêncio para destilar azedume e insinuações sobre o Primeiro-ministro e o Presidente da República. A palavra decência que tanto usa no texto, não fez ressonância no seu próprio carácter. Rui Ramos adoptou a linguagem revolucionária da direita mais radical, lamentando-se da noite das facas longas do regime. Não é que me surpreendam, mas custa ver tanta falta de nexo e de sentido democrático.

 

Aguardemos os novos factos políticos que estarão a ser fabricados. Veículos informativos e jornalistas instrumentalizáveis, disponíveis para os plantar e promover, infelizmente não faltam, para além de alguns ventríloquos que se mantém na esfera pública.

"Os jornalistas não são o inimigo"

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Os ataques de Trump à imprensa e, de um modo geral, a todos os meios de comunicação livres, mostram que, até na (quase) indestrutível democracia americana, o autoritarismo e as tendências ditatoriais fazem o seu caminho. A era Trump colocou a nu aquilo de que já se falava e que já se sabia há algum tempo: que as pessoas eram cada vez mais manipuladas pelo que se lê nas redes sociais, que há fábricas de invenção de notícias e que a ignorância e a má-fé imperam.

 

É claro que, para quem joga um jogo viciado, como Trump, ter uma imprensa livre é uma péssima notícia. Daí o ataque constante e violento a todos os que o confrontam, tal como aos seus apoiantes, com as mentiras e as inenarráveis declarações diárias a que nos habituou.

 

O grito da imprensa norte americana de hoje, com cerca de 300 jornais a assinarem editoriais em que escreve que Os jornalistas não são o inimigo deveria ser repetido e ecoado por todo o lado, nomeadamente em Portugal. A democracia é um hábito que morre rapidamente, se todos os dias não a experimentamos.

 

Mas é importante que os jornalistas, da imprensa escrita e das restantes formas de comunicação, olhem para si próprios e percebam que também são vítimas de si próprios. Desde o momento em que se constituem actores políticos e entram no jogo da manipulação dos factos, realçando o que pode comprometer uma certa orientação política, esquecendo ou deturpando o que a favorece, quando usam acriticamente as redes sociais, fazendo de caixa de ressonância aos mais aberrantes (pseudo) factos, sem qualquer investigação das fontes e da veracidade dos mesmos, estão a hipotecar a sua isenção e credibilidade informativas. Quando pescam comentários e causas estapafúrdias, com a miragem das audiências e da visibilidade que desejam, quando publicam artigos mal traduzidos e mal escritos, sem qualquer enquadramento histórico e/ ou científico, acabam por se comparar com o lixo pseudo informativo que pulula pela internet.

 

E é importante que nós próprios, cidadãos, olhemos para a nossa incapacidade de perceber que a imprensa livre não sobrevive sem dinheiro, que a independência económica é uma das mais importantes chaves para o rigor e a exigência, e um dos mais eficazes antídotos contra a corrupção. Se os jornais em papel se pagam também se devem pagar os jornais digitais. Por outro lado a formação, a honestidade e a competência dos jornalistas é semelhante às das outras profissões, não sendo eles super heróis nem párias sociais.

 

O verdadeiro inimigo é, de facto, a ignorância. É o ingrediente mais fértil para a intolerância, a estupidez, o desprezo pelos outros, o fanatismo. Combater a ignorância é um dever de toda a sociedade, sendo a informação livre um dos seus mais importantes instrumentos.

Exame prévio

As mulheres são diferentes dos homens. São biologicamente diferentes pelo que é natural e espectável que tenham comportamentos diferentes.

 

A igualdade de género é um assunto muito sério, que precisa de políticas activas e urgentes, para que as mulheres tenham as mesmas oportunidades que os homens, que possam ter as mesmas ambições, pessoais e profissionais, que possam escolher, livremente e em igualdade de circunstâncias, o que querem fazer da sua vida, que vejam reconhecidas as suas funções e os seus méritos da mesma forma e com as mesmas remunerações que os homens.

 

Vem isto a propósito da polémica em relação ao filme da campanha anti tabágica que usa o sentimento de culpa de uma mãe que está a morrer com cancro do pulmão, em relação à sua filha, e à mensagem que quer passar – será sempre a sua princesa e as princesas não fumam.

 

O tabagismo tem tido uma redução percentual na população masculina enquanto aumenta na feminina, predominantemente entre as mulheres jovens. Uma das maiores preocupações das mulheres jovens com cancro, qualquer que ele seja, é os filhos, de como vão reagir, o medo de os deixar sem a sua protecção, de não os ver crescer.

 

As campanhas anti tabágicas são sempre baseadas no medo e na culpa, aliás tal como qualquer campanha que queira criticar comportamentos – anti-açúcar, anti-gorduras, etc. No caso do tabaco não só é explorada a culpa própria mas também a culpa por causar doença nos fumadores passivos.

 

As crianças imitam os adultos e têm os pais como referência. Na generalidade dos casos as filhas olham para as mães e imitam-nas, tal como os filhos olham para os pais, imitando-os. A campanha usa precisamente o papel de modelo da mãe - o mau exemplo - e a culpa da mãe - não estarei cá por minha culpa e se tu fumares a culpa também é minha. Quanto à princesa - uma banalidade nas expressões usadas entre mães e filhas - pode ser utilizada como símbolo de um comportamento exemplar.

 

Podemos achar a campanha pirosa e excessiva – eu até acho, tal como a campanha que usa imagens chocantes nos maços de cigarro. Mas transformá-la numa bandeira para a luta contra a desigualdade de género parece-me totalmente disparatado. É até assustadora a existência de uma polícia de palavras, de imagens, de conteúdos, de intenções. Não tarda temos uma comissão para o Exame Prévio!

 

A banalização deste tipo de críticas acaba por desvalorizar a real necessidade de denúncia contra todas as situações que perpetuam a desigualdade de género. Isso é que é intolerável.

Republicação

A propósito do artigo que Fenanda Câncio escreveu no DN, só posso republicar o que escrevi há 2 anos:

 

À Fernanda Câncio, e a todos os que prezam a sua privacidade e o respeito pela sua dignidade, a minha total solidariedade.

 

Respeito a coragem por publicar este artigo de opinião, sabendo a matilha de raiva que se atiçaria, mais uma vez, contra si. É muito triste e até assustador, assistir a explosões de tanto ódio.

 

Calculo que, como eu, muitos se sentem enganados e envergonhados por tudo o que, até agora, o próprio Sócrates já disse e desdisse sobre si próprio, e no que isso demonstra do seu carácter. Mas nada justifica nem desculpa os constantes atropelos à justiça, as fugas de informações cirúrgicas, as manchetes, o arrastar na lama do próprio e de todos os que com ele se relacionaram, tal como dos que criticam o justicialismo a que temos assistido. Também não devemos confundir o seu governo e as suas políticas com o facto, caso se prove, de ser um criminoso, ele ou outros.

 

Não sei a razão pela qual, repentinamente, o PS resolveu defrontar-se com o problema Sócrates. Mas era inevitável que acontecesse, e em qualquer momento iria ser duro e muito doloroso.