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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da pornografia

A discussão da existência ou não de PPP na Saúde é totalmente legítima e os argumentos de parte a parte devem ser esgrimidos. As opiniões são livres e é importante o debate. Mas a manipulação da informação e a tentativa de ganhar o apoio da opinião pública com mentiras encapotadas, mesmo que mascaradas com a verdade, é verdadeiramente abjecta.

 

Mais pornográfica é a demissão dos jornalistas, ou daqueles que se chamam mas não praticam jornalismo, para não generalizar, por negligência, incompetência ou apenas porque se prestam a isso, nem sequer se darem ao trabalho de procurarem minimamente assegurar-se da veracidade e correcção das notícias plantadas nas redacções, para que sirvam de caixa de ressonância de vários interesses.

 

As notícias sobre o Hospital Vila Franca de Xira que fizeram ontem as manchetes da TVI e de vários outros jornais online, são disso um bom exemplo. Em lado nenhum se leu ou ouviu qualquer jornalista a tentar desmontar a notícia, simplesmente lendo os relatórios que estão disponíveis na ERS, nem os facultando nas suas páginas.

 

Declaro já, como já declarei noutras alturas, que trabalho no Hospital Vila Franca de Xira e com muito orgulho, porque sei que é um Hospital que se rege precisamente pelo cuidado que tem na prestação de cuidados de saúde. Mas nem sequer é isso que mais me revolta: é a certeza de que não se pode confiar em nada do que se lê e ouve nos órgãos de informação, é constatar a triste inutilidade de uma profissão que é cada vez mais importante e necessária.

 

É claro que, por coincidência, o BE chama com urgência Marta Temido ao Paramento:

BE e PPP.PNG

É mesmo um timing perfeito!

 

Adenda: vale a pena ler o título, o subtítulo e o texto da notícia do Público que atribui a Vítor Gaspar a paternidade do protocolo que permite usar a GNR em operações fiscais. É que, se lermos tudo, afinal a ideia teria sido do governo de José Sócrates, mas com a PSP. Enfim, era preciso arranjar forma de sacudir uma inacreditável e abusiva medida para alguém anterior a este governo. Mas uma notícia manipulada.

Das laranjas azuis

Anatomical Studies of the Shoulder Leonardo da Vin

Leonardo da Vinci

 

Estive durante 3 dias num evento científico que, apesar do que escrevi anteriormente, foi muito bom, muito útil e muito agradável, embora intensivo, como todos os encontros, workshops, simpósios, conferências e cursos de anatomia patológica. Expuseram-se dúvidas, descobertas, truques para evitar erros e trocaram-se experiências, partilharam-se desconhecimentos e novas linhas de investigação.

 

Além disso, fizeram-me pensar nos paradoxos dos métodos e procedimentos que desenhamos para nunca falharmos nada, para que consigamos comunicar claramente na mesma linguagem, entre médicos de especialidades diferentes, para que a informação seja entendida e partilhada de forma completa e rigorosa. Mas tudo tem uma outra face.

 

Com esta tentativa de uniformização, detalhe e rigor, formatando os relatórios diagnósticos com as guidelines desenvolvidas para o efeito por agrupamentos de cientistas e superespecialistas nas várias áreas do conhecimento médico, mais especificamente anatomopatológico, deixamos de usar o sentido crítico, deixamos de pensar.

 

Os argumentos de autoridade nas várias matérias, construídos ao longo de séculos de uso do método científico, que levam à aceitação daquilo que é a verdade demostrada pelos peritos, como em todos os aspectos da vida, deve ser escrutinado por cada um de nós, sem medo de questionar e criticar, pois só assim as dúvidas suscitadas podem levantar outras e abrir espaço para investigação e saber.

 

A ciência alimenta-se de ciência e o que é hoje o estado da arte amanhã pode ser o contrário. Tudo isto é mais do que sabido. Mas isso é exactamente o resultado do método científico: observar, questionar, controlar, comparar, concluir.

 

Ainda bem que há gente que não se limita a seguir o que os outros dizem. É mais fácil e é mais seguro, mas conduz a grandes desgraças e distorções, não só na ciência. E quanto às chamadas terapêuticas alternativas, estas "são, por definição, coisas que não têm provas científicas sólidas. Qualquer coisa que tenha provas científicas sólidas deixa de ser uma terapia alternativa e passa a chamar-se medicina." E é indispensável discutir publicamente o charlatanismo, a indústria e os interesses económicos por detrás destas alternativas que, na verdade, não o são. A esperança média de vida e a qualidade de vida de hoje devem-se precisamente ao uso da ciência e do método científico. E os problemas que temos, nomeadamente ambientais, serão resolvidos com a ciência e não com crenças.

 

Mas para isso, vamos assumir a responsabilidade de exercitarmos a dúvida, a crítica, a verificação do que lemos, do que vemos, do que é fácil. Em tudo.

Diálogos de surdos

dialogue-des-sourds.jpg

Dialogue des Sourds

Nadim Karam

 

 

As fake news sempre existiram. Chamávamos-lhes outras coisas, como por exemplo, na época do PREC, os boatos. O boato era a arma da reacção.

 

As fake news também são uma arma de arrebanhar incautos e gente de boa fé e, sobretudo, gente pouco preparada para desconfiar, para criticar, para confrontar fontes e fazer aquilo que agora se chama o fact checking.

 

Na verdade a capacidade de divulgação e a rapidez com que as falsas notícias se propagam e a virulência das reacções são, talvez, maiores e piores do que era hábito. São arrepiantes as caixas de comentários no Facebook e nos jornais, em qualquer coisa que esteja aberta a opiniões de leitores. Parece que se soltam todos os demónios escondidos debaixo das nossas peles e mostramos o que na realidade somos.

 

A ausência de conhecimento e maturação de ideias, conhecimentos de História e de filosofia, a ausência e redução vocabular pela inexistência de leitura e de capacidade de abstracção, a ausência de pensamento dedutivo e lógico, a enumeração e priorização de argumentos e a sua explicitação, tudo isso leva à crendice e à falta de sentido crítico. Estamos cada vez menos capazes de pensar e de ouvir o que os outros pensam. Por isso tudo se extrema e se reduz ao insulto, à fé em determinadas pessoas, à defesa incondicional de determinados factos e personagens.

 

Ninguém está imune a esta epidemia, e o autismo a que cada vez mais nos condenamos, a falta de partilha pela ausência do outro, real ou porque o excluímos ou porque se exclui, agudiza e aumenta o problema.

 

Precisamos de tempo para nos desafiarmos, de tempo para nos ouvirmos, de tempo para respirar e pensar, para ler, para saber coisas que, aparentemente, não têm aplicabilidade prática e imediata. Precisamos de ouvir histórias e de as contar, de as resumir e de as esticar, precisamos de distinguir o real do virtual, precisamos de nos confrontar e ser confrontados, de comunicar.

 

A tolerância não se decreta, aprende-se no meio dos outros, com os outros. Os populismos acabam por resultar do entrincheiramento da ignorância, da defesa do indefensável, da exploração do facilitismo e da preguiça. A democracia e a liberdade dão muito trabalho.

E mais não digo

Sou totalmente defensora do SNS, sempre trabalhei e trabalho para o SNS, primeiro no Hospital de Curry Cabral (ainda nos Hospitais Civis de Lisboa), depois no Hospital Garcia de Orta, depois no Hospital Fernando Fonseca, enquanto PPP e EPE, e agora no Hospital Vila Franca de Xira (em PPP), pelo que declaro já que posso não ser isenta na minha apreciação.

 

Li esta entrevista e sinto-me incomodada e revoltada com as palavras de Eduardo Barroso, que diz que pode haver perversões graves na gestão privada de hospitais públicos. É claro que pode, mas não haverá perversões graves na gestão pública de muitos hospitais públicos?

 

Eduardo Barroso não se explica - e mais não diz - deixando a insinuação de que as PPP só se preocupam com o fazer mais barato e só assumem procedimentos e tratamentos pouco onerosos. Convém esclarecer que todos os anos os hospitais celebram contratos com as respectivas ARS e estão obrigadas a cumpri-los, assegurando o atendimento e tratamento da população da sua área de influência e de quem, segundo a lei, a eles forem referenciados, sofrendo penalizações pesadas caso não consigam cumprir o contratualizado. Em relação à preocupação com certificação e acreditação de qualidade, são as PPP as mais dinâmicas e as que mais investem nessa área. Em termos comparativos com outros hospitais dos mesmos grupos, estão bem colocadas em todos os rankings, tanto nos custos como na qualidade dos serviços.

 

Já trabalhei em vários sistemas e regimes e não percebo muito bem aonde Eduardo Barroso quer chegar. Portanto gostaria que dissesse mais e mais claramente. A defesa do SNS não é bem servida por este tipo de entrevistas nem por preconceitos. Lembro-me bem das frequentes manifestações do BE na altura da PPP do Hospital Fernando Fonseca, onde "os Mellos" eram notícia diária pelas várias insuficiências do hospital, que miraculosamente deixou de aparecer nas TVs e nos jornais após a reversão da PPP, embora as insuficiências se tivessem mantido ou mesmo aumentado.

 

É essencial que estas parcerias sejam avaliadas e controladas, mas podem ser uma preciosa arma para melhor tratar os cidadãos, dentro do SNS. Se Eduardo Barroso tem alguma coisa a dizer, pois que o faça claramente.

 

E mais não digo.

Das afrontas e dos esquecimentos

É muito interessante a notícia que saiu hoje no Expresso online, sobre a afronta a ADSE exigir a alguns prestadores privados um montante de 38 milhões de euros que lhes terão sido pagos indevidamente (em causa facturações de 2015 e 2016). A notícia avança mesmo com a ameaça, veiculada pela Associação Portuguesa de Hospitalização Privada, de quebra de prestação de serviços à ADSE.

 

O que o Expresso se esqueceu de referir é que há um parecer da PGR dando razão à ADSE, obrigando os prestadores a pagarem a dívida reclamada - notícia de 13 deste mês.

 

Curioso. Mais curioso a fonte de ambas as notícias ser a mesma agência Lusa.

Dos encerramentos e reaberturas da Maternidade Alfredo da Costa

Em 2012, no governo do PSD/CDS liderado por Pedro Passos Coelho, Paulo Macedo (Ministro da Saúde) decide que a Maternidade Alfredo da Costa (MAC) deve encerrar. Foi uma comoção geral, nomeadamente por parte da oposição (PS, BE e PCP), tendo-se assistido a manifestações, correntes e abraços à volta da MAC, providências cautelares e decisões judiciais com o objectivo conseguido de adiar o encerramento.

 

Apesar de Assunção Cristas se esforçar imenso por apagar a presença do seu partido nesse governo, o CDS apoiou, e quanto a mim muito bem, a decisão de Paulo Macedo. Neste momento surge à porta da MAC perorando contra a escassez de Anestesistas e outros profissionais de saúde na MAC e no restante SNS. A falta de vergonha é mesmo gritante. E não há um único jornalista que lhe lembre estes factos. Na verdade, se a MAC deveria encerrar (mesmo que dentro de alguns anos), não tem muita lógica admitir mais médicos para os seus quadros. Mesmo que a MAC só seja totalmente desactivada apenas quando abrir o novo Hospital de Lisboa Oriental, a transferência de serviços para outras unidades, dentro do CHLC, não parece ter sido revertida.

 

Porquê agora esta barragem noticiosa, acrítica, em relação à falta de Anestesistas na MAC?

A tentação do abismo

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André Carrilho

 

 

Andamos numa vertigem de fabricação e exploração de casos, sem distinguir a sua gravidade e importância e sem cuidar de preservar as Instituições. O caso do desaparecimento/ reaparecimento das armas de Tancos é disso um exemplo. Na corrida para a visibilidade e para o protagonismo, mastigam-se os actores políticos e as Instituições. Responsáveis partidários, comentadores e jornalistas, na ânsia de se fazerem notados, baralham e envolvem ministros, militares, polícias e, como já é pouco, também o Primeiro-.ministro e o Presidente da República.

 

Cada vez é mais difícil tentar perceber o que se passou e o que se está a passar - houve ou não roubo? Se sim quem foram os ladrões, onde estavam e onde estão as armas que faltam? Vendidas, traficadas, destruídas, emprestadas? Se não, qual o objectivo da farsa? Quem a criou e com que fim? A sua restituição foi negociada para encobrir os criminosos ou não? Se sim, porquê? Quem é que se quis encobrir? Se não, porque se falou em encobrimento? A sensação que tenho é que nada disto é real e que tudo é uma manobra de diversão para distrair do foco principal - e qual é o foco principal? Voltamos ao princípio - houve ou não roubo?

 

O que mais destrói a confiança dos cidadãos no regime democrático são estas graves palhaçadas, em que a corrida para alcançar a fama vai destruindo e atropelando tudo o que aparece. As pessoas vêm-se perdidas, sem perceberem o que se passa, e cansam-se da repetição até à náusea das mesmas coisas. O novo mote, lançado por Marques Mendes, é o atrito entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa, que se vai repetindo por todos os media.

 

No dia em que há eleições nos EUA, país que tem como Presidente uma criatura inominável que apela aos nossos piores instintos, deveríamos pensar bem no perigo do descrédito das Instituições que, por acção ou omissão, estamos a incentivar.