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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Ainda a propósito...

... do post anterior, se considerarmos o número de cirurgias programadas efectuadas em 2017, segundo os dados da ACSS terão sido 575.834, e o número de cirurgias já suspensas desde o início da greve dos enfermeiros - 5.000, é o adiantado pela imprensa, concluímos que, tal como a Ministra da Saúde disse, é uma percentagem residual - mais precisamente 0,8%.

 

Isto não diminui a gravidade do assunto, mas também convém ter uma perspectiva de peso e das percentagens, pois ajuda a compreender que a adesão é, de facto, residual. O mais extraordinário é a forma como a Bastonária da Ordem dos Enfermeiros está a comandar esta greve.

Um golpe muito português

A Very British Coup é uma série de TV já com 30 anos, que conta a história de uma vitória eleitoral de um político de esquerda, do tipo do Jeremy Corbyn, que assume o lugar de Primeiro-ministro do Reino Unido. Como tal elimina o monopólio dos jornais, promove a retirada das bases militares americanas do seu território e a saída da NATO, para além do desarmamento nuclear unilateral, o que desencadeia uma união das forças políticas da oposição aliadas às empresas e aos lóbis mediáticos para desacreditar o próprio Pimeiro-ministro e promoveram um alarme social para levar à demissão do governo.

 

Ao assistir a esta onda de greves, principalmente à dos enfermeiros, que já levou ao adiamento de milhares de cirurgias, cujo reagendamento é muito difícil e levará, muito provavelmente, ao recurso às instituições privadas para tentar recuperar e tratar os doentes, penso sempre nesta série.

 

Será que não estará a haver instrumentalização dos enfermeiros para dar uma forte machadada no SNS? É que se o objectivo fosse boicotar só por boicotar, a forma não poderia ser mais bem escolhida.

Da descrença

 

 

Acho sintomático ler várias pessoas referirem-se aos que não fizeram greve com aqueles que tiveram necessidade de justificar esse facto. Realmente está de tal forma impregnado, na ala esquerda, que quem não é grevista está vendido, é amarelo, defende o patrão, é cobarde e outros epítetos, tal como para a ala direita se passa exactamente o contrário, que muitos se sentem compelidos a explicarem-se. No fundo, é o que estou a fazer.

 

Realmente respeito muito quem faz greve, se a faz porque está convencido que essa forma de luta terá consequências, é uma tomada de posição de dignidade e clamor. Tal como respeito quem a não faz, se pensa que não se revê nesse tipo de manifestação de desagrado. Mas há patrulhas ideológicas dos dois lados, que gostam de insultar quem não faz a escolha certa, dependendo da lateralidade em que se está.

 

A verdade é que acredito cada vez menos nas greves como meio de pressão. Parecem-me anacrónicas, um ritual que se repete sem consequências. Penso que a pressão sobre o poder político, pois esta é uma greve com fins políticos e não laborais, a cumplicidade e o ganho da opinião pública se conseguem através da capacidade de chegar aos media e influenciar a opinião pública. É só estarmos atentos ao bombardeamento a que, desde que sequestrou os subsídios no sector privado - o governo tem sido submetido, com comentadores de todos os tipos, jornalistas, politólogos, economistas e filósofos, a desdizerem o que ansiavam como terapêutica salvífica nos últimos tempos do governo anterior. Também foi assim que se criou a onda de crucificação do governo de Sócrates.

 

E temos também o fenómeno das redes sociais, que podem levar à desvalorização da representatividade dos eleitos, pois confunde-se a vontade do povo com o que se lê nas redes e com a organização das ditas manifestações inorgânicas. Fenómeno esse ainda não compreendido nem aproveitado pelo regime.

 

Os bloqueios da circulação das pessoas, como os tentados na ponte 25 de Abril, ou da saída de trabalhadores que não aderiram à greve, cpomo o que aconteceu na Carris, são ilegítimas e a polícia tem por função impedi-las. A democracia assenta no respeito pelas escolhas de todos, por muito que não sejam as nossas.

 

Das patrulhas dos camaradas

 

 

Se o meu objectivo fosse ter muitos comentários aos posts que vou escrevendo, bastava fazer uma qualquer referência semanal que beliscasse a FENPROF, para que que as patrulhas dos camaradas me mimoseassem com os seus insultos. Assim tenho esse privilégio só de vez em quando.

 

Para que fique bem claro e explícito:

  1. Este governo é o governo pior que alguma vez me lembro de ter havido, após o 25 de Abril.
  2. A maioria que nos governa, para além de tentar implementar a sua ideologia que nem sei bem classificar, fá-lo de uma forma totalmente incompetente.
  3. Como já muitas pessoas vão reconhecendo publicamente, houve um assalto ao poder em 2010/2011, com uma total manipulação da população protagonizada, entre outros, pelos partidos da oposição da altura, nomeadamente do PSD, do CDS, do PCP e do BE, que se aliaram para derrubar o governo minoritário do PS, cavalgando as ondas de descontentamento dos cidadãos, mentindo antes e durante a campanha eleitoral, como se prova pelo que têm feito desde então.
  4. A maioria dos sindicatos afectos à CGTP-in, entre os quais a FENPROF (federação de sindicatos), e que é uma correia de transmissão do PCP servindo a sua estratégia política, contribuíram decisivamente para a tomada do poder pela direita conservadora.
  5. Durante os dois governos anteriores, os representantes dos professores em geral e a FENPROF em particular, opuseram-se a tudo o que mudava a cultura de mediocridade, de facilitismo, recusando alguma meritocracia que se tentava implementar. Da fusão de escolas sem condições para os alunos, às aulas de substituição, passando pela avaliação de desempenho, nada escapou aos gritos de destruição da escola pública e de ataque aos indefesos professores.
  6. As alterações aos horários da função pública (que constam do orçamento rectificativo), de 35 para 40h semanais, correspondem a uma redução salarial de 12,5%, o que é totalmente inaceitável – não o aumento do horário de trabalho, mas a redução da remuneração decidida unilateralmente pelo governo, aliás como as reduções anteriores.
  7. O regime de mobilidade é, obviamente, uma forma de despedir funcionários públicos e o chamar-lhe requalificação é uma desvergonha inqualificável
  8. A razão para aumentar o horário de trabalho não é melhorar a eficiência e o atendimento aos cidadãos, é despedir pessoas – uma das gorduras do estado.
  9. Estas medidas não são específicas para os professores.
  10. Em 2005 foi convocada uma greve aos exames, tendo o governo da altura requerido que se decretassem serviços mínimos, em defesa dos alunos e das suas famílias, o que foi legalmente aceite.
  11. Desta vez, e mais uma vez, a FENPROF convoca uma greve aos exames nacionais, num braço de ferro com o governo, que este não pode aceitar, sob pena de continuar refém de uma das mais poderosas corporações existentes.
  12. Mário Nogueira, como líder da FENPROF, foi e é o protagonista destas posições, pelo que é nessa qualidade que o critico.
  13. Penso que este tipo de ações, de que a grave aos exames é um exemplo, descredibiliza a actuação e o papel dos sindicatos, contribuindo para a irrelevância dos protestos dos trabalhadores, sejam eles professores ou outros.
  14. Quando tanto se fala no divórcio entre os cidadãos e os políticos, convinha que os dirigentes dos sindicatos ponderassem o papel que tiveram e têm na descrença que alastra na sociedade, e na desesperança e alheamento em que nos refugiamos.
  15. O facto de a greve ser legítima não me faz concordar com ela. O facto da Colégio Arbitral ter decidido que não havia serviços mínimos não me obriga a concordar com ela. O facto de o Tribunal Central Administrativo do Sul ter considerado ser este um assunto não urgente é, para mim, incompreensível.
  16. Muito me penaliza não ouvir o PS a condenar esta greve e a ler opiniões de muitos quantos defenderam, e bem, Maria de Lurdes Rodrigues, numa situação idêntica à de agora. Os fins não justificam os meios.

 

Dos ciclos grevistas aos exames

 

Os professores pedem a demissão de todos os ministros e já não é a primeira vez que ameaçam fazer greve aos exames. Com Maria de Lurdes Rodrigues passou-se o mesmo. Se Nuno Crato muda as datas, por causa do pré-aviso de greve, ficará refém dos sindicatos.

 

Por muito que discorde deste governo, neste caso concordo com Nuno Crato e com Passos Coelho.

 

Da contínua invernia

 

Kimberly Conrad

 

É, de facto, uma situação muito difícil, como Maria de Lurdes Rodrigues afirma.

 

Portugal é um assunto mesmo dificílimo. Professores e outros funcionários públicos, os cidadãos em geral, têm muitíssimas razões para fazerem greve, geral total e absoluta. Aliás a greve global à capacidade de tentar perceber a realidade já está em acção há muito tempo. Desde há 2 anos que o governo e esta maioria decretaram greve à democracia e ao estado de direito. São grevistas que já perderam a noção de que o mundo está a mudar, mas não eles.

 

O problema é que quem decreta greve geral já decretou tantas vezes greves, manifestações e revoluções sem razão ou razões discerníveis, tanto se queixaram de todos os ministros, de todas as políticas, de todos os governos, de todos os reaccionários, fascistas e esmagadores das classes trabalhadora e do povo, que já ninguém perde tempo a concordar ou não com a greve. É só mais uma.

 

E assim estamos todos, com um enfado tal a toda esta situação, que já nem conseguimos indignar-nos. O clima continua adverso aos investimentos na inteligência dos nossos governantes e dos líderes das nossas oposições. É tempo de nos cobrirmos de casacos e guarda-chuvas. A invernia ainda não acabou.

 

O crescimento larvar da violência

 

 

Estive muito indecisa quanto a fazer ou não greve. Há inúmeros e grandes motivos para aderir à greve, talvez, que me lembre, nunca tenha havido mais nem tão bons como agora. Nem que seja para se afirmar um protesto.

 

Mas a apropriação deste tipo de manifestações pelos costumeiros profissionais das greves, a banalização do fenómeno, que deveria ser excepcional, e a sensação de dar motivos para que os extremistas e a violência façam caminho e escalem, refreou-me o ímpeto. Não aderi à greve, portanto.

 

Em frente à televisão - na SIC-N - observo alguns manifestantes em frente ao Parlamento, a casa da Democracia, de cara tapada e máscaras, atirarem pedras e petardos aos Polícias.

 

Não tenho palavras para exprimir o quanto repudio este tipo de comportamentos. Não vejo os outros manifestantes fazerem qualquer gesto para impedirem ou se demarcarem dos arruaceiros. Parece que acham que estes ataques são compreensíveis, pelo muito que o povo sofre.

 

Há alguns representantes políticos, particularmente dos partidos a que se convencionou chamar de protesto, que quase têm pena que ainda não tenhamos chegado à beira da paralisação social em que a Grécia se encontra. Ouço muitas vezes lamentos por não sermos tão aguerridos (eufemismo de violentos) como os nossos vizinhos de Espanha. Pois eu não tenho qualquer desejo de semelhanças desse tipo e espero bem que as manifestações e as greves possam decorrer com civismo, porque a liberdade tem que ser de todos e a democracia implica regras de convivência em que nada disto é admissível.

 

Nota: Convém esclarecer que não confundo a maioria dos pacíficos grevistas e manifestantes com os arruaceiros criminosos que a única coisa que pretendem é provocar o caos. Mas gostaria de ver quem exerce o seu direito demarcar-se, nem que fosse pelo facto de desmobilizar de imediato ajudando os Polícias, deixando os criminosos sozinhos.

 

Em defesa do SNS

 

A greve dos médicos é a demonstração inegável de que os médicos defendem o SNS. Não estou de acordo com tudo o que o Bastonário diz sobre algumas das medidas deste governo, tal como a concentração de meios e o fecho de algumas instituições, nomeadamente a Maternidade Alfredo da Costa. Entendo que são medidas necessárias e que são explicadas como garantia de qualidade assistencial, assim como gestão criteriosa de recursos humanos e outros.

 

Mas as medidas que reduzem e condicionam a igualdade de acesso à saúde, por todos os cidadãos, as que reduzem a qualidade da formação médica, da formação de serviços escalonados em experiência e saber, as que destroem a carreira profissional, trave mestra dessa mesma diferenciação e qualidade, são objectivamente contrárias à própria essência do SNS. Não se percebe, pelo menos eu não percebo, porque é que o ministério não desbloqueia a discussão das grelhas salariais para os horários de 40h/semana. Aliás nunca percebi porque é que não se dá prioridade a estes horários, em vez dos de 35h, tal como não entendo que se mantenha a mistura entre público e privado.

 

As opiniões que dão conta da ganância dos médicos, ditadas por má fé ou ignorância, não têm afectado a enorme calma com que a população aceita esta greve. Sacrifícios todos fazem e todos estão disponíveis para fazer, desde que entendam que o que é prioritário se mantém. O SNS é uma prioridade da nossa sociedade democrática.

 

A democracia está no Parlamento, enquanto casa dos nossos representantes. Não aceito que Francisco Louçã instrumentalize a greve dos médicos. Não me revejo nas suas palavras. A rua é muito importante numa democracia, mas não são as manifestações que fazem a democracia. Francisco Louçã, aliás, foi um dos grandes obreiros da subida ao poder deste governo, pela sua actuação na anterior legislatura. É até irónico que tenham sido os partidos profetas da destruição do SNS - PCP e o BE - que contribuíram indirectamente para a efectivação dessa política.

 

Penso que o Ministro deve entender que os médicos tudo farão para manter o SNS. Estamos a tempo de fazer acordos e de trabalhar para que o SNS seja remodelado, alterado, melhorado, mas não deturpado e destruído. O SNS é a única garantia que todos têm direito à saúde que, mais que constitucional, é um direito humano.

Médicos e SNS

 

 

O Ministério da Saúde e o Ministro Paulo Macedo desdobram-se em apelos, discursos e declarações de grande disponibilidade para o diálogo, para a abertura de concursos, até para as revisões salariais, depois de terem estado meses sem honrar os compromissos que tinham assumido na altura da desconvocação da greve às horas extraordinárias, mantendo, no entanto, propostas ambíguas e pouco consentâneas com as propaladas nos media. Repentinamente há reuniões marcadas ao domingo, numa tentativa de evitar uma greve que, depois da desastrada alusão à requisição civil, fez extremar a posição dos sindicatos.

 

Apesar das tentativas do PCP para instrumentalizar a paralisação, que Paulo Macedo e Passos Coelho não se iludam - esta é uma greve que surge em defesa de condições de trabalho e salariais, é claro, mas também da dignidade profissional, da qualidade assistencial e da equidade e igualdade de acesso ao SNS. É uma greve política, sim, porque defende princípios consagrados na Constituição, aquela que o governo não se importa de suspender para ir além da troika.