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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Esclarecimentos

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Estive a ouvir a entrevista a Azeredo Lopes, o nosso Ministro da Defesa, na RTP play.

 

Gostei muito e fiquei esclarecida de algumas coisas. Só tenho pena que estes esclarecimentos tenha vindo, quanto a mim, um pouco tarde.

 

Portanto, se bem percebi:

  • para além de material obsoleto foram roubados armamentos importantes e perigosos;
  • não têm razão os que dizem que a divulgação da lista foi feita, em primeiro lugar, pela imprensa espanhola;
  • estão a decorrer as averiguações para apuramento de responsabilidades do crime (porque é de um crime que se trata);
  • a inoperância da vigilância electrónica era já bastante antiga (2009)
  • o governo estava avisado deste problema e actuou rapidamente (segundo o ministro em 32 dias)
  • todos concordam - governo e chefias militares - que a responsabilidade da segurança dos paióis é estritamente militar

 

Posso ter sido demasiado célere em pedir a demissão do Ministro da Defesa. Mas sinceramente, não entendo porque ele próprio não esclareceu todos estes pontos mais cedo e à medida que surgiam os problemas e a barragem informativa, mais ou menos inventada, na comunicação social. Por isso mesmo continuo a pensar que estas situações são penosas e que trarão desgaste ao governo, mesmo que isso só seja sentido ao retardador. Acredito que a saída de Constança Urbano de Sousa e de Azeredo Lopes acabarão por acontecer, mais da primeira do que do segundo.

 

É difícil pensar com os dados viciados. O jornalismo também se demitiu da sua função de informar e aderiu ao tremendismo mediático das redes sociais. E isso está a matá-lo. E à discussão de ideias também.

Perplexidades (1)

perplexidades.png

Confesso a minha total perplexidade pela renomeação dos Comandantes exonerados aquando do conhecimento público do roubo de material militar em Tancos.

 

Afinal já se sabe o que se passou? O Exército já concluiu quem roubou, quando, porquê, etc.? E se sabe, não será altura de também nós sabermos? É que o facto dos cinco Comandantes reassumirem as suas funções parece significar que estão isentos de qualquer tipo de responsabilidades.

 

Não percebo.

A sorte não os protegeu

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A morte de dois militares, o internamento de outros dois (ainda) e a necessidade de assistência médica a mais alguns, na sequência de um exercício incluido no Curso de Comandos, é algo que nos deve causar a maior consternação e preocupação.

 

Não sabemos o que se passou. As notícias que têm vindo a público - "golpes de calor", rabdomiólise, insuficiência hepática aguda - devem ser olhadas com grande cautela. Seja como for, algo de terrivelmente errado aconteceu. É preciso que tudo seja apurado, com rigor, calma e celeridade, para que as decisões subsequentes não resultem de pressões mediáticas mas de responsabilidades apuradas.

 

Não faço ideia se o Regimento de Comandos tem ou não cabimento no tipo de Forças Armadas do nosso País, nem me parece que este seja o melhor momento de o apurar. Mas este terrível acontecimento faz aumentar na opinião pública o sentimento de rejeição a toda a Instituição Militar. Por outro lado convinha que, de uma vez por todas, se questionem a viabilidade e a necessidade de um Hospital das Forças Armadas (HFAR). Pelo que pudemos ver, o HFAR não tem capacidade nem meios para socorrer um grupo de 10 militares. E se houvesse um acidente com muitos mais? É preciso que haja coragem política para o desmantelar, de uma vez por todas, assumindo que não há razão para o manter, ou, pelo contrário, para investir no seu reequipamento, em material e recursos humanos, rapidamente.

 

As responsabilidades são dos decisores políticos e militares. O status quo não serve a ninguém, e muito em particular às próprias Forças Armadas.

Opereta antidemocrática

 

Tal como Pacheco Pereira e António Costa, preocupados com o rumo antidemocrático da União Europeia, que se reflecte na subversão da democracia em cada país europeu, também estranho e acho totalmente inaceitável as afirmações de Otelo Saraiva de Carvalho, em relação ao quase incitamento dos militares à realização de um golpe militar.

 

A democracia é frágil e as Forças Armadas são o garante da defesa desse mesmo regime democrático.

 

Veteranos

 

Não acompanho as críticas feitas a António Barreto pelo discurso que proferiu nas cerimónias de ontem. Pelo contrário, penso que foi um discurso corajoso e justo e que há muito já deveria ter sido feito.

 

As Forças Armadas e os seus militares estão subordinados ao poder político. É a este que se devem pedir responsabilidades pelo envolvimento das Forças Armadas nos vários teatros de guerra. Os regimes e as motivações são diferentes mas o dever dos militares é sempre o mesmo. A eles o povo deve respeito e reconhecimento pela sua função, pela sua dedicação, pelo sacrifício da própria vida.

 

Os comportamentos desviantes e os crimes de guerra deverão ser como tal olhados e resolvidos. Não se podem julgar os militares pelos crimes que alguns cometeram. Mas não é disso que trata a homenagem que todos nós, como colectivo, devemos aos veteranos. É mais uma ferida que deve ser curada, distinguindo o patriotismo de ideologia, a determinação de fanatismo, o cumprimento de um dever de obediência acéfala.

 

Sou familiar de militar e talvez por isso este assunto me toque mais profundamente. Mas a memória mais antiga que tenho do 10 de Junho é a cerimónia de entrega de medalhas e condecorações aos militares, muitos a título póstumo. Não me esquecerei nunca dos pais, das mulheres, dos filhos, das lágrimas deles e das que via em casa, da sensação de que, amanhã, a dor poderia estar mais perto. Estes militares serviram o país, não um qualquer regime político. Assim como o fazem agora na Bósnia, em Timor ou noutro qualquer local para o qual sejam chamados. Foram também os militares que, mais uma vez arriscando tudo, devolveram ao povo a soberania.

 

Nota 1: Ler Os ex-combatentes, por Daniel Oliveira, no Arrastão.

Nota 2: Ler 10 de Junho; Portugal e os Militares, por Alexander Ellis, via Mainstreet.