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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da problemática dos exames

 

 

Tem havido uma enorme campanha contra a existência de exames nacionais no 4º ano do Ensino Básico, baseado nas crenças modernas do que traumatiza as crianças. Os conhecimentos que tenho de pedagogia e de psicologia infantil são apenas aqueles que os cidadãos têm e que, pelo facto de terem sido pais, foram e são obrigados a rever em alturas de conflitos, de crises ou, simplesmente, quando confrontados com as surpresas do crescimento.

 

Quanto ao folclore montado à volta dos nervos, do regresso ao passado, do salazarismo dos exames, das ansiedades, dos pedidos de declarações de honra a crianças tão novas, da enorme deslocação para outra escola, do medo por não estar em ambiente conhecido, é a melhor forma de transformar algo banal e habitual no percurso de um estudante num momento aterrador e impossível de ultrapassar.

 

Muito pouca confiança temos nos nossos filhos, que nem são assim tão indefesas ou presas de quaisquer alterações mentais sem fora da confortável e acolchoada rotina dos dias, nem são raposas à espreita da primeira oportunidade para fazerem trapaça. Faz parte da vida assumir responsabilidades, ser-se posto à prova, ultrapassar obstáculos, são importantes os rituais de passagem. Os exames devem ser encarados como provas naturais para quem estuda. O facto de serem prestadas numa instituição diferente e por professores desconhecidos apenas asseguram que as crianças todas tenham as mesmas oportunidades. Todos sabemos, e a responsabilidade aqui é dos adultos que são professores, que muitos dos resultados das provas de aferição não eram fidedignos pois havia sempre alguns professores que ajudavam na resolução dos testes, o que era extremamente injusto e enviesava as possíveis avaliações posteriores à validade das mesmas. Quanto aos telemóveis, também me parece um exagero pedir uma declaração de honra em como não os usariam. Mas não me iludo com a ideia angelical de que nunca se lembrariam de tal, nem com a certeza de que naquela idade não sabem o que é honra. Isso é uma menorização que eles próprios não aceitam.

 

Outro assunto muito diferente é se na verdade haverá alguma vantagem para os alunos e para o sistema de ensino com a realização de exames nacionais neste nível. O que mais me preocupa não são os exames, são a resposta que o sistema deveria poder dar a quem não passa nos exames - esse é que me parece o problema mais importante para resolver. Onde estão as políticas de reforço e acompanhamento de quem tem mais dificuldades? O que está pensado ao longo do ano, como diagnóstico destas situações? Quais os professores que investem nos alunos que não passaram? Quais os motivos do insucesso, como evitá-los e ultrapassá-los?

 

Não me recordo de nada nas diversas declarações e notícias, nos circos montados à volta das escolas esperando que alguma criança estivesse em prantos antes ou a seguir às provas. Não me lembro de ter visto questionar os responsáveis do que pretendiam fazer com as crianças que não tiverem atingido os conhecimentos que se pretendia. Isso é o que realmente interessa.