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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da exaustão como arma política

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Erwin Jules de Vries

 

Há muitas formas de alienação, umas privadas e auto sustentadas, outras públicas e utilizadas como arma política. Muitas vezes ambas se confundem e se alimentam. A religião e o futebol são as mais conhecidas e citadas. Mas uma das mais eficazes é o trabalho insano, os horários desumanos e a exaustão completa dos poucos cidadãos que conseguem trabalho e, por isso, deixam de reivindicar qualquer capacidade de protesto.

 

A falta de tempo e de disposição mental para pensar, para ter outra vida que não a que lhe é exigida pelas empresas, individuais ou colectivas, amesquinha, aplana e apaga a criatividade, a vontade e a auto estima, deixando apenas o instinto de sobrevivência e a intolerância absoluta por qualquer movimento que estimule e contenha dinamismo que, por sua vez, aumenta a exaustão.

 

Não tenhamos dúvidas – a concepção do trabalho e das relações laborais desta maioria que nos governa, em Portugal e na Europa, é aquela que reduz a capacidade crítica e que aumenta a subserviência dos cidadãos. É toda uma ideologia subjacente à retórica da economia e do moralismo bacoco, ultrapassado e obsceno que nos inunda.

Sem dívidas

 

Há ainda um enorme grupo de pessoas que, talvez receosas de que a manipulação da informação que protagonizaram e a desinformação centradas no ódio a José Sócrates, eleito como o maior idiota, incompetente, mal intencionado e parolo do mundo, aquele que deu origem à crise em Portugal e, pelos vistos, em toda a Europa, responsável pelas cheias, pela seca e pela rapina d’Os Mercados, comecem a ser esquecidos perante a imposição da realidade. Por isso continuam a publicar artigos e opiniões sobre o ex Primeiro-ministro, citando em tom jocoso frases retiradas de uma conferência, episódios em reuniões de pais e pagamentos de jantares faustosos.

 

Esses opinadores estão saudosos de um tempo, de um país e de uma sociedade que já não existem, em que a honra se media pela humildade, pobreza, falta de ambição e a cristã resignação perante a incapacidade de se ter um lugar ao sol, neste mundo.

 

Só para esses opinadores é que os países não têm dívidas, só para esses opinadores um país se basta a si próprio esquecendo as inter-relações entre as sociedades, as economias, as culturas. Só para esses opinadores é mais importante não ter dívida pública que investir em conhecimento, ciência, escolas, hospitais, estradas, aeroportos, barragens, parques eólicos, reformas, subsídios de desemprego. Só para esses opinadores o estado deve ser destruído.

 

De facto há um conjunto de ideólogos que não se reviram no estado social que nos orientou durante a última metade do século XX. Esta é a hora deles.