Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Desilusões

teatro.png

 

 

O grande problema é que nos iludimos. Acreditámos que, desta vez, ia ser diferente.

 

Mas não. Apenas há a promessa da diferença, bem aconchegada no preconceito que temos de que a esquerda ama as artes, a cultura, o povo, e de que a direita é ignorante, imprópria para consumo, descartável.

 

Afinal são ambas - a esquerda e a direita - e o nosso preconceito estende-se à fantasia de que este país um dia perceberá que é na cultura que está o nosso motor de desenvolvimento.

A ortografia é a questão

 

 

Não concordo com o acordo ortográfico. Não percebo a necessidade, nem os pressupostos, nem o resultado deste acordo. Nesse aspecto comungo da opinião de Vasco da Graça Moura. Mas também suponho que tenha havido sempre ferozes e ilustres opositores aos vários acordos ortográficos que foram sendo absorvidos pela língua portuguesa e pelas várias gerações de portugueses. Este será só mais um.

 

Mas só nesse aspecto. Desde que haja legislação que nos obrigue, desde o início deste ano, a usar o dito acordo, mesmo que nos meus posts o não use, em tudo o que for oficial devo cumprir a lei. Eu e qualquer outra pessoa, nomeadamente Vasco da Graça Moura. Além de um inútil disparate, esta atitude é bem demonstrativa de uma certa cultura instalada – mal sai uma lei a primeira coisa a fazer é encontrar uma ou várias maneiras de a boicotar e não a cumprir. Será que Vasco da Graça Moura mediu bem a sua (e da Administração unânime) decisão? E se alguém resolver cumprir a lei, dentro do CCB? O que lhe vai acontecer? Se Vasco da Graça Moura quiser lutar denodadamente para alterar essa determinação, não me parece a melhor forma de o fazer. Para além disso, será que informou quem o nomeou dessa sua intenção?

 

Não partilho do coro de protestos pelo saneamento político de António Mega Ferreira. Cumpriu até ao fim o seu mandato e foi substituído. Foi uma nomeação política? Pois foi como terá sido a de Mega Ferreira. É da competência do poder político fazer essas nomeações. Mas o que me causa pena é ver que o PS, pela educadíssima e pausada voz do seu líder, em vez de fazer oposição política à concretização de uma ideologia retrógrada, conservadora, de desmantelamento das funções dos estado, mais precisamente as da saúde, educação e segurança social, de alienação de sectores chave para a soberania, de não acautelamento da liberdade e da independência da informação, do autoritarismo fiscal, etc., tenha escolhido esta bravata de Graça Moura para fingir que é oposição.

 

Nota: Aqui fica o esclarecimento. Pelso vistos, só a partir de 2014 o uso do acordo é obrigatório para todos.

 

Viver mediterrânico

 

Temos tendência a admirar outros países mais ordenados, mais organizados, mais trabalhadores, com muito mais poder económico, aquilo a que chamamos a Europa civilizada, em oposto ao nosso país e à nossa sociedade, que reputamos de subdesenvolvida, gastadora, consumista e preguiçosa.

 

É notícia o aumento do desemprego entre as empregadas domésticas por causa da crise económica que atravessamos. É compreensível que assim seja, pois a classe média que mantinha uma empregada doméstica deixa de ter capacidade económica para a sustentar. Começa por lhes reduzir as horas mensais, deixa de lhes pagar subsídios e acaba por prescindir dos seus serviços. Ouvi já muitas vezes citar os exemplos de países como a Bélgica, a Holanda, a Noruega, a Dinamarca, em que praticamente não existe esta profissão. O que talvez também não exista nesses países é a quantidade de pessoas com baixas qualificações que, ao perderem este emprego, não encontram outro. É claro que se deve investir na educação e na formação de todos os cidadãos, mas a existência deste tipo de empregos, numa sociedade como a portuguesa, contribui para o equilíbrio social.

 

Tal como o hábito de comer fora, desde o pequeno-almoço ao jantar. Os pequenos cafés de bairro são locais de convívio e de aconchego para muitas pessoas, nomeadamente para os idosos. Para além dos postos de trabalho que criam, mantém uma rede de acompanhamento de proximidade, de cumplicidade de vizinhos, que permite a assistência rápida a quem dela precisa, refeições a baixo preço e o mitigar da solidão de tanta gente.

 

A substancial redução de rendimentos a que estamos forçados vem romper estas redes sociais e de trabalho, alterar uma forma de vida que não se substituiu rapidamente nem sem enormes custos. E talvez como a dieta mediterrânica, que muitos cientistas acabam por indicar como muito boa e equilibrada, o modus vivendi mediterrânico seja melhor do que, nesta altura, nos querem fazer crer.

 

A derrota da crise (1)

 

O património cultural imaterial, transmitido de geração em geração, é permanentemente recriado pelas comunidades e grupos em função do seu meio, da sua interacção com a natureza e a sua história, proporcionando-lhes um sentimento de identidade e de continuidade, contribuindo assim para promover o respeito pela diversidade cultural e a criatividade humana.

Convenção para a Salvaguarda do Património Imaterial da Humanidade, UNESCO, 2003 (Artº 2, alínea 1)

 

De acordo com Pedro Correia

 

Gaivota

Alexandre O'Neill & Alain Oulman

canta Amália Rodrigues

 

Da desconsideração do teatro

 

 

Diogo Infante, Director Artístico do Teatro Nacional D. Maria II desde 2008, divulgou um comunicado em que justificava a suspensão da programação para 2012 por causa dos cortes orçamentais a que a Instituição tinha sido sujeita. Na sua opinião a qualidade da programação seria impossível de manter naquelas circunstâncias.

 

Perante este comunicado, o Secretário de Estado da Cultura decidiu de imediato a cessação de funções de Diogo Infante.

 

Penso que tanto Diogo Infante como Francisco José Viegas fizeram o que se espera de pessoas responsáveis. Tenho todas as razões para considerar o mandato de Diogo Infante e da sua equipa como excelente e acho o desinvestimento na cultura como um todo e, no caso presente, no teatro, uma das muitas marcas negativas deste governo. É uma pena que esta equipa não possa continuar a desenvolver os seus projectos com a dignidade que considera ser obrigatória a um Teatro Nacional. Mais uma vez, as prioridades da coligação de direita não envolvem a criação artística. A cultura é olhada como um luxo desnecessário ou mesmo provocatório num país que se deve canalizar para o empobrecimento mental. Mas parece-me óbvio que o Secretário de Estado só podia ter tomado esta atitude. Tal como no caso de Dalila Rodrigues.

 

João Mota aceitou o desafio. Desejo-lhe muita sorte, que bem precisará dela. Espero que o Teatro Nacional D. Maria II seja respeitado, tal como os seus potenciais espectadores.

 

 

Martinho da Arcada

 

Fernando Pessoa com Costa Brochado no Martinho da Arcada

 

Depois de um fim de tarde chuvosa a correr de um lado para o outro, rumámos ao Chiado, esperando pacientemente na fila de carros que enchia a A5, o viaduto Duarte Pacheco, o Rato, as imediações da Praça Camões. Estacionamentos completos, fomos andando até à Praça do Comércio. Em frente a uma loja de chapéus, carteiras e sapatos, finalmente arrumámos a viatura às 21:30.

 

O Martinho da Arcada foi lembrado e saudado como uma excelente ideia, até pela coincidência da efeméride – aniversário da morte de Fernando Pessoa. Mal entrámos no lindíssimo restaurante, com duas ou três mesas ocupadas, fomos avisadas assertivamente que a cozinha fechava às 22:00 e o restaurante às 23:00. Teimosamente ficámos, escolhemos morcela assada, salada rica, farinheira com ovos mexidos, creme de marisco e cataplana de peixes mistos.

 

Comemos a toque de caixa, apressadas por constante recordações das horas de encerramento da cozinha e do restaurante. A última de nós chegou já depois da cozinha fechada. Comeu os restos já frios das iguarias entretanto pedidas, antes da saída do cozinheiro.

 

Também apreciámos, para além das fotografias nas paredes, das cadeiras de madeira e dos tampos de mármore, das toalhas, dos guardanapos de pano e do fardamento dos empregados, o ruidoso desmontar das mesas e da arrumação de pratos e talheres. Saímos sem sobremesa nem café, para passear por Lisboa iluminada e para a gulodice de um gelado com café.

 

Lisboa à noite, fria, luminosa, com gente pela Rua do Carmo, Praça Camões, Chiado. Gelados com café e conversa solta, até tarde.

 

O Martinho da Arcada, uma referência literária e cultural da nossa capital, maltratado pela incapacidade de chamar e acarinhar clientes. As tertúlias que se iniciaram o ano passado, para salvar da falência o café, não alteraram os hábitos de quem afugenta os possíveis comensais que, em noite de Pessoa, não se podem dar ao luxo de ali estar.

 

Histórias

 

Museu Casa das Histórias

 

Dalila Rodrigues é uma pessoa polémica e pouco consensual, o que não é necessariamente uma boa ou uma má característica.

 

Mas o que a mim me espanta é a falta de pedidos de esclarecimento, de indignação e de manifestações de apoio pela anunciada não recondução de Dalila Rodrigues como directora do museu Casa das Histórias.

 

Será que o facto de ter sido a Câmara de Cascais, cuja presidência é do PSD, a colocar reticências à sua recondução, ao contrário do que aconteceu com o Museu de Arte Antiga, em 2007, que foi protagonizado pela Ministra da Cultura, do PS, é apenas uma simples e peculiar coincidência?

 

Adenda: estou sempre a ser ultrapassada pelos acontecimentos.

 

(Também aqui)