Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

O charme discreto do cinema britânico

 

Discreto, sóbrio, profundamente humano e contido, The Children Act é um excelente filme.

 

Down by the Salley Gardens

 

Down by the Salley Gardens

my love and I did meet;

She passed the salley gardens

with little snow-white feet.

She bid me take love easy,

as the leaves grow on the tree;

But I, being young and foolish,

with her would not agree.

 

In a field by the river

my love and I did stand,

And on my leaning shoulder

she laid her snow-white hand.

She bid me take life easy,

as the grass grows on the weirs;

But I was young and foolish,

and now am full of tears.

 

William Butler Yeats

 

A Morte de Estaline

 

 

O mais impressionante, neste filme, é que é quase hiper realista. Muitos dos episódios, se não todos, mesmo que compactados e em épocas distintas, são verdadeiros. É uma comédia negra que, a partir de situações cruéis, vividas por seres humanos capazes de todos os horrores e sujeitos a tudo o que de grotesco acontece a todos, as mostra nas suas facetas ridículas e absurdas.

 

A maldade, a perfídia, a estupidez, a ambição, o medo, a cobardia, tudo está lá, enrolado numa comédia negra e aterradora. Excelente e muito didáctico, sobre Estaline e sobre a condição humana.

Dunkirk

 

 

Belíssimo, sóbrio, depurado, muito bom filme, diferente do habitual deste géneros de filmes. Não há heróis nem demónios, apenas a luta pela sobrevivência, individual e de uma Nação.

Paula Rego: Secrets and Stories

paula rego.jpg

 

 

Há dias assisti, na RTP play, ao filme Paula Rego: Secrets and Stories, de Nick Willing, seu filho. Vale a pena conhecer um pouco desta pintora, verdadeira artista cujo único objectivo na vida era pintar, que para ela era a própria vida. Na verdade só na pintura era capaz de reconhecer e expulsar os seus demónios, os seus medos, as suas esperanças e alegrias.

 

Através da pintura falava de si, consigo e com os outros, interpretando o seu sentimento para com os mais diversos assuntos, desde a violência da ditadura à violência do aborto. Com a pintura vivia as relações e as depressões, os problemas e as frustrações, reservada, tímida, introvertida, e um rio de personagens e cor nas telas. O seu estúdio é um manancial de figuras que faz e depois explora na pintura.

 

O relacionamento com o marido, o pintor Victor Willing, seu companheiro, orientador, inspirador e crítico da sua arte, modelou também tudo o que fez depois da sua morte. É comovente a sua carta de despedida que lhe endereçou e que ela conserva sempre consigo.

 

É também muito interessante perceber o relacionamento com aqueles que divulgaram a sua obra, uma vezes enganando-a, quando ela diz que todos lhe falavam dos preços elevadíssimos das suas obras de que ela não se apercebia, pois o que lhe davam era muito pouco, outras vezes dando-lhe a possibilidade de sobreviver, como a bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

Extraordinária e sentida homenagem que lhe faz o filho. E que luxo podermos partilhar as suas histórias.

Da relativização dos tempos

 

secret figures.png

Dorothy Vaughan & Kathryn Johnson & Mary Winston Jackson

 

Temos grande tendência a considerar as gerações mais novas ignorantes e irresponsáveis, sem interesse naquilo que achamos ser o essencial de conhecimentos, sentimentos, educação e cultura.

 

Outro dia, depois de assistir ao filme Elementos Secretos (Secret Figures), bastante agradável e leve, pus-me a pensar na estranheza com que nos apercebemos de que apenas há cerca de 50 anos havia segregação racial nos EUA, e o que isso significava no dia a dia das pessoas segregadas, para além da discriminação de género. O filme passa-se à volta do ano em que nasci. Como é possível para nós, hoje em dia, acreditarmos que havia uma sociedade compartimentada pela cor da pele? Talvez daqui a 50 anos a reacção dos nossos netos ou bisnetos seja a mesma quando virem as histórias contadas à volta de outros grupos e outras minorias, desencadeando incredulidades idênticas às que me assaltaram durante o filme.

 

Num salto de raciocínio apercebi-me de que, na altura em que assisti pela primeira vez ao documentário The World at War, nos anos setenta do século passado, tinham passado apenas 30 anos do fim da II Guerra Mundial. Que sabia eu do assunto? O que tinha aprendido no liceu? Eram matérias versadas nos currículos? Hitler, Mussolini, Estaline, o Holocausto, o anti-semitismo, a Guerra Civil Espanhola?

 

Por isso mesmo, quando nos espantamos com o desconhecimento dos jovens sobre o 25 de Abril de 1974, que aconteceu já há mais de 40 anos, é melhor percebermos que eles são tão ignorantes como nós éramos e o seu interesse ou desinteresse é semelhante ao que era o nosso.

 

As memórias têm que ser também construídas, activadas e reactivadas, para que os novos entendam o que se passou antes da sua geração, antes daquilo que lhes parece óbvio, permanente, eterno, e que é apenas uma fracção de segundo num tempo circular, que pode desaparecer, retroceder ou perecer.

 

Florence Foster Jenkins

É difícil de acreditar, mas é mesmo verdade. Florence Foster Jenkins foi uma herdeira rica que, provavelmente, poderia ter sido uma excelente pianista se não sofresse uma lesão no braço. Incapaz de aceitar a impossibilidade de continuar uma carreira como artista, Florence Foster Jenkins volta-se para o bel canto.

 

 

É um desastre inimaginável. Canta horrivelmente mal, desafina, não tem a menor noção do ritmo. Mas a sua paixão pela música, o dinheiro que tinha e que distribuía prodigamente pela elite local, que se aproveitava da sua generosidade, impediam-na de perceber a anedota em que os seus recitais se transformavam.

 

O seu amante - St. Clair Bayfield - tudo fazia para que as suas performances se mantivessem mais ou menos privadas, comprando jornalistas, críticos e amigos para que a fossem aplaudir e para que escrevessem boas críticas.

 

Florence Foster Jenkins é um filme que se vê com ternura. Apesar de ser de amor, não deixa de nos dar um olhar cruel sobre os artistas e sobre quem se acotovela e se acoita à sua volta, fazendo-nos reflectir nos salamaleques e nas trocas de favores que existem neste, como noutros meios.

 

 

Meryl Streep, que fez questão de ser ela própria a cantar, faz (mais) um excelente papel, tal como Hugh Grant e Simon Helberg, o pianista. A não perder.

Manoel de Oliveira

manoel de oliveira.jpg

 Manoel de Oliveira

 

Correndo o risco de ser proscrita pelos amantes do cinema, nunca fui apreciadora da obra de Manoel de Oliveira. Com excepção do iniciático Aniki Bóbó, os poucos que tentei ver, posteriormente, foram desilusões tremendas e afastaram-me dos seus filmes. Lembro-me de, num documentário sobre Agustina Bessa Luís ter percebido que ela discutia sempre com Manoel de Oliveira a propósito das adaptações que fazia dos seus livros, o que me fez solidarizar-me de imediato com ela.

 

Mas Manoel de Oliveira é reconhecido mundialmente pelos seus pares, tem uma obra centenária, que atravessa os séculos XX e XXI e a própria hstória do cinema, viveu muito e produziu muito, foi admirado por realizadores e actores com quem trabalhou, levou o nome de Portugal pelos vários festivais de cinema por esse mundo fora. São-lhe por isso devidas as homenagens que se devem às grandes figuras da cultura (portuguesa).

Les parapluies de Cherbourg

 

 

Les Parapluies de Cherbourg é um filme de 1964, realizado por Jacques Demy, com música de Michel Legrand e interpretação de Catherine Deneuve, entre outros.

 

A música é muito célebre o o filme recebeu vários prémios, entre os quais a Palma de Ouro - Cannes 1964. Visto hoje continua a ser um filme belíssimo e comovente. A guerra da Argélia que separa os amantes, a promessa que ambos fazem de nunca se esquecerem e a realidade a impor-se, a realidade e o pragmatismo da pequena burguesia, a sobrevivência emocional, a melancolia do que se perde e do que se ganha e a naturalidade com que se encaravam determinados percursos e escolhas.

 

Foi com grande surpresa que vi o filme, que não conhecia, e que sobreviveu a todos estes anos como um hino à despedida da inocência.