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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Outra explicação da Pedra

 

 

E ao terceiro livro fez-se "pedra". O ciclo de pedra não é o da oculta filosofia: Água, Terra, Fogo e Ar. Nem tão pouco dos humores da medicina aiurvédica: vento, fogo e terra.

 

Da luz e da sombra, para utilizar expressões dos dois primeiros livros de poesia de Maria Sofia Magalhães somos transportados para a "pedra".

 

E permitam-me uma interpretação: a pedra é o suporte onde as nossas vidas deixam um sulco gravado. Voluntário umas vezes, involuntário outras. Tal como a natureza ao longo de milhões de anos, pela água, pelo ferro, pelo magnésio, deixa registados nas pedras, riscos, cores e formas - as "scenic stones" - também a vida deixa registos, sulcos, cores e formas. O "ciclo da pedra" é o mapa sem destino que o escritor diariamente percorre (Mapa).

 

Ao terceiro livro a pedra é um Mapa. Um mapa em permanente elaboração. Mas ao terceiro livro estão lá dentro os dois anteriores. Essa luz que está dentro de nós e se esconde na procura (É quase noite) e causa a sombra que passa (Da sombra que passa) é, no fundo, a mesma que nos faz renascer todos os dias (Entardecer).

 

Porque se dia a dia nascemos, dia a dia esmorecemos, sem perceber que o último acto para morrer é viver. E quem desenha o mapa da nossa vida? O curso do acaso (Desluzido). A estrada que não acaba (Só agora). As tardes de chumbo e as noites entretidas de nada (Inevitável). As auroras de espuma que nos guiam para além dos deuses (Ondas). O voo rasante do pardal que sacode o medo (Sigo). O inevitável amanhã (Insónia). A asa do pássaro que inicia a viagem (Abstracção).

 

Ao terceiro livro a pedra é a História. Porque não há História Universal. Há apenas a História que as correntes individuais somam e reproduzem (Ciclos Perpétuos).

 

Ao terceiro livro a pedra é o Silêncio. Quando as palavras faltam fica o impalpável silêncio (Impalpável). O silêncio que se respira, imenso, sem fim (Silêncio). O silêncio que pesa pela ausência (Solidão). O silêncio que arranha (Vozes). O silêncio que está nas palavras mais saborosas (Dizemos).

 

Ao terceiro livro a pedra é o Amor. O amor que nos redime. Pelo infinito abraço (Dúvida). O que sabe atar as mãos e mantê-las apertadas (Enquanto). O que se descobre entre longos abraços de saudade (Na casa crua). O que ajuda a descobrir o muito que nos falta procurar (Juntos). O que se traduz em palavras plenas de mansidão (Mansidão). O que sobraria do espaço onde poisasse o resto da alma que resistisse (Nunca me faltaria). Pelo amor renascemos (Entardecer). Porque deveríamos olhar mais para a lua que o chão (Olhar).

 

E ao terceiro livro a pedra é a Liberdade. A liberdade que ordena mais que o calendário (Começo pelo trabalho). A liberdade que arrasta a poeira que todos os dias tolda, que sacode os ombros que todos os dias pesam, que respira o ar que todos os dias falta. A liberdade, enfim, que marca encontro para o próximo dia (Poeira).

 

Ricardo Leite Pinto

 

Explicação da Pedra

 

 

Esticamos os ramos

abraçamos os dias

esquecemo-nos que o tempo não existe

apenas o ar a terra o fogo a água

apenas a metamorfose da terra

dos rios da luz dos pássaros

apenas a transformação da dor num tecido firme

branco imóvel

na pedra.

 

Rompemos as redes as linhas

traçamos limites arestas esquinas

arquitectos da solidão num mundo de cor e gritos

na confusão dos sentidos hiper-estimulados.

Abrimos os poros

somamos enzimas

degradamos a vida

depuramos a morte.

 

Nos jardins dos silêncios que julgamos eternos

erguem-se as fontes da rigidez suprema

o vazio

o abandono.

Olhamos em volta e percebemos granitos soberbos.

Quem são?

 

Nem sempre sabemos dos ácidos reciclados

dos cristais de pureza guardados lá dentro.

Nem sempre descobrimos

a fenda fatal que corta e expõe a alma o fundo.

Nem sempre queremos a ferida o sangue

estilete que aguarda a pele desnuda.

 

No fim

se ele existe

segue a erosão permanente

nas costas nas mãos nas dobras da vida

na concha na pérola.

Areias mais grossas areias finíssimas

povoam as praias povoam os ventos.

Somos nós que descremos na posse na carne

sementes e pedras acasos em ciclos perpétuos

que unem aquilo que sempre e teimosamente desprezamos.

Raios invertidos

Miss Britt

 

Nunca saímos da fotografia, congelados pelas lentes de raios invertidos, bocas abertas, cabelos em ginástica de vento, parados os dedos no acariciar das mãos. Nunca saímos da fotografia pois olhamos o tempo que não conseguimos recordar, mais pálidos e esvaídos agora do que esbatidos no preto e branco do que passou.

 

Nem as árvores de lá dão frutos, nem os frutos de cá sementes. Tudo parado por uma teia sem fim que ninguém teceu.

 

Inexistência

Ramos quebrados raízes fundas tudo

arranquei e juntei e cavei buracos

individuais indefesos numa cerca levantada

em muro.

 

Rodeiam-me as sombras geladas das raízes sem vida

com que fui ganhando a minha própria

inexistência.

Desfeitas

À volta do silêncio

regresso sem querer às palavras

como agudas pedras de gelo.

 

À volta das palavras

regresso sem querer ao silêncio

como espuma desfeita entre dedos.

 

De volta ao silêncio

regresso à espuma das palavras

entre os dedos pedras desfeitas.