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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Dos bolos saudáveis e nutritivos

bolo laranja.png

 

Outro dia deram-me várias laranjas, tangerinas e abacates, com os seguintes avisos: tudo biológico, natural e sem químicos; as tangerinas muito boas, as laranjas um pouco ácidas e os abacates à espera de amadurecerem.

 

Depois de ter provado as tangerinas, de facto deliciosas, olhei para as laranjas e decidi fazer um bolo, iguaria apreciada cá por casa. Procurei receitas na internet e aí vou eu, de mangas arregaçadas e espírito de exímia pasteleira, acompanhada do ralador e do espremedor de citrinos, confeccionar a iguaria. No entanto, depois de aturadas e apuradas buscas na dispensa, concluí que faltavam alguns ingredientes essenciais: farinha, fermento e açúcar branco.

 

Mas os 5 ovos já estavam numa taça com a raspa e o sumo de 2 laranjas, para além de 1 chávena de chá de óleo. Nada de pânico, disse o grilinho da minha cabeça. Reuni tudo o que podia substituir a farinha, no caso farinha de linhaça dourada, farelo de centeio e coco ralado, os ingredientes que a minha PT acha adequados à minha parca alimentação, e consegui encher as 2 chávenas de chá que se impunham; o açúcar amarelo fez as vezes do branco (também 2 chávenas de chá) e o bicarbonato de sódio (1 colher de café) tomou o lugar do fermento.

 

Podem crer que está muito bom, húmido e peganhento, um monumento à gula, totalmente biológico, nutritivo e saudável!

 

Nota: a azul estão os ingredientes da receita original.

 

Em modo preparatório (repasto pascal)

 

 

 

 

O pão-de-ló é um bolo de grande tradição na cozinha portuguesa e nesta particular época festiva. Sim, porque todas as celebrações religiosas acabam sempre em grandes banquetes e, por muito devotos que sejamos (e eu não sou rigorosamente nada), ninguém dispensa as iguarias que se preparam afanosamente, com mais ou menos imaginação.

 

Pois um dos segredos do bom pão-de-ló é o tempo durante o qual se deve bater o açúcar com os ovos, para que fique bem fofo. Esse é um segredo que todos conhecem. Um outro, mais bem guardado, é a forma de conseguir um pão-de-ló líquido no centro. Para além da enorme quantidade de gemas necessária, não percebo como se faz.

 

Sendo assim, atrevida mas ainda não o suficiente, deixo essa experiência para outra altura.

 

Hoje resolvi preparar o pão-de-ló como é hábito (50g de açúcar por cada ovo/ metade do peso do açúcar em farinha) - bater muito bem os ovos com o açúcar, até ficar um creme quase branco, juntar-lhe a farinha e misturar, cozer em forno médio (foram cerca de 15 minutos para 6 ovos) numa forma untada com margarina e polvilhada de farinha. Mas...

 

... não é em vão que se consomem várias horas de MasterChef (Austrália). Pão-de-ló, só assim, tão e é pouco para a minha mesa de Páscoa. E que tal uma calda, para molhar o dito? Raspei (com o inexcedível Microplane) 2 laranjas e espremi essas 2 e mais uma para dentro de um tacho, juntei 6 colheres de sopa de açúcar e um pouco de licor de café (a olho, confesso, umas boas goladas). Depois de fervilhar durante um bocado, até ficar com um pouco de ponto, dei a calda por terminada. Mas...

 

... faltava ainda a parte crocante. Toca de moer grosseiramente uns amendoins e de os torrar na frigideira antiaderente (foi um instante, ficaram ligeiramente torrados de mais). Mas...

 

... para a felicidade e a sofisticação serem supremas, a cereja no topo do bolo, ou seja, ainda precisava de ter natas batidas com açúcar, cremosas e sedosas, o que daria ao pão de ló a companhia ideal para ser mais que pão. O problema é que as natas que encontrei - mimosa - me mimosearam com a tristeza de nem serem de seda nem se transformarem em creme, apenas num líquido pastoso e desanimado.

 

Está no frigorífico. Pode ser que amanhã ressuscite, para condizer com o dia.

 

Azáfama pré-natalícia

 

Recuperação do tempo perdido - grande azáfama da Irmandade do Avental - foi a vez do doce de abóbora. Este ano não ficou a macerar de um dia para o outro. Só hoje houve tempo e paciência para atacar a abóbora, que rendeu 3 quilos para o doce e mais um saco dela para congelar. Juntei canela em pau (2/Kg), sumo de lima (não havia limões - 2/Kg) e cravinhos (2/Kg), para além do açúcar, claro. No fim - nozes partidas aos bocadinhos. Está maravilhosa.

 

Ainda produzimos 2 tortas (foi tudo aos pares) com recheio de geleia de marmelo e iogurtes magros de café e canela. A torta fez-se batendo 3 ovos com 150g de açúcar até duplicar o volume da massa; juntámos 75g de farinha e foi a cozer num tabuleiro previamente untado com margarina e polvilhado com farinha, durante 10 minutos, em forno médio.

 

Os iogurtes de café resultaram de uma ideia que me deram outro dia. Segui os passos destas receitas:

  • 1l leite magro (do dia)
  • 2 colheres sopa leite em pó, magro
  • 200g de iogurte natural, magro, sem açúcar (o do Continente é o melhor)
  • 2 saquetas de café instantâneo
  • 1 pau de canela

Fervi 1/2 l do leite com o café e o pau de canela; misturei depois o leite frio e juntei aos iogurtes e ao leite em pó. Deitei tudo nos copinhos da iogurteira que liguei durante 12 horas - vou consumir amanhã, depois de gelarem no frigorífico.

 

Para o próximo fim-de-semana estão programados os licores. Depois do engarrafamento, impressão e colagem de rótulos, tudo estará pronto para as festividades da época.

 

 

Pão-de-ló com re-cheio-o e co-ber-tu-ra de cho-co-la-te

 

 

Este é um bolo adequado à nova geração dos nossos governantes. Soletram-se os ingredientes, demora-se no mexer da colher de pau, deleita-se o paladar no vagaroso saborear.

 

Imaginemos o nosso ministro olheirento com um avental e uma colher de pau, rodeado de uma organizadíssima mesa de cozinha, a tarde por conta dele (provavelmente a mulher aproveitou para arejar, de forma a não assistir à dolente epopeia culinária). Rigoroso, lê os ingredientes e coloca-os a todos à sua volta, perfilados e obedientes:

 

Para o recheio:

Uma tablete de chocolate para culinária com, pelo menos, 50% de cacau

Dois decilitros de leite gordo

Seis colheres de sopa de açúcar

Duas gemas de ovo

Um pouco de canela em pó

Duas colheres de chá de licor (qualquer um, se caseiro melhor)

 

Para a massa:

Seis ovos

Trezentas gramas de açúcar

Cento e cinquenta gramas de farinha

 

Para a forma:

Margarina e farinha para barrar

 

Começa por ligar o forno, aproveitando para derreter a margarina dentro da forma – grande com buraco a meio, ou sem buraco. Com um pincel barra bem o interior da forma e depois peneira-a de farinha.

 

A seguir parte os seis ovos para dentro de uma tigela, mistura o açúcar e bate tudo por muito tempo, até a massa duplicar e ficar quase branca. A seguir junta a farinha, bate mais um pouco. Leva a massa ao forno, em lume médio, por 30 a 40 minutos (tem de certeza palitos de vários tamanhos para espetar no bolo, apreciando a cozedura).

 

Enquanto coze o bolo parte a tablete aos bocadinhos para dentro de uma panela pequena, junta o açúcar e o leite quase todo e um bocadinho de canela, deixa ao lume brando até derreter o chocolate, mexendo. Bate as gemas com uma colher de pau e mistura o resto do leite, deitando depois no chocolate derretido para engrossar, mexendo sempre. Quando está quase ferver, junta o licor e desliga o lume.

 

Logo que o bolo se apresentar cozido deixa-o arrefecer um pouco, desenforma e parte-o ao meio, para poder rechear com a papa de chocolate. Junta as duas metades e cobre-o com a papa sobrante. Nesta altura já a excelentíssima esposa deve ter regressado, preparadíssima para deglutir o bolo que amorosamente o queridíssimo fez.

 

Quem sabe as qualidades escondidas que terá o nosso ministro olheirento?

 

Almoço pascal

 

 

Tenho uma queda acentuada para o disparate, mesmo quando pretendo seguir à risca as pisadas dos rituais domésticos, familiares, de enraizamento social e místico-urbano-cético-religioso. Cabrito assado não é coisa para principiantes. Matrona cinquentona não se amedronta por tão pouco. Meio cabrito (cerca de 3 Kg) esquartejado, um rim, a cabeça pela metade (o que bastante me atormenta, com miolos à mostra), de marinada em vinho branco e tinto, um pouco de vinagre, muito alho, tomilho, alecrim, pimenta moída, pasta de pimentão (marca pingo-doce), sal e azeite, de um dia (ontem à tarde) para o outro (hoje até às 11.30h).

 

Mas a minha ambição culinária, que só cresceu desmesuradamente após horas de MasterChef Austrália, não se ficou pelo prato principal. Na calha estava torta com recheio de ovos, pedido especial cá de casa (penso que acharam que era melhor jogar pelo seguro).

 

O despacho é a chave da boa cozinheira. Forno a aquecer a meio-gás; calda de açúcar (200g de açúcar para 100ml de água) a adquirir ponto ao lume, com um pau de canela; 6 gemas e 2 claras misturadas com uma colher de pau – tudo a andar e bem controlado. Subitamente apercebo-me que o ponto pérola se transformou em pedregulho espesso e borbulhante. Retiro o tacho do lume e, muito cuidadosamente, começo a verter a pasta de ovos. De imediato cozeram, não em fios mas em meadas. Suspendo a função e resolvo que é necessário juntar água. Mal coloquei um bocadinho…. deu-se a solidificação repentina e irreversível do preparado, que se transformou num cimento esbranquiçado.

 

Na natureza nada se perde, tudo se transforma – ao lume outra vez, com mais um bocadinho de água. Lá ferveu em ponto de pérola. Retirei do lume e deixei arrefecer, enquanto pincelava a forma da torta com manteiga e polvilhava de farinha. Só que havia um ligeiríssimo contratempo: a farinha era pouca para a torta. Nada que me fizesse desistir desta empreitada. Escorripichei os bocados de farinha de trigo, de milho e maisena, conseguindo angariar os 75g para os 150g de açúcar e os 3 ovos que bati até tudo ficar cremoso.

 

Massa para a forma, no forno durante 10 minutos. O tempo à justa para tentar, de novo, misturar os ovos com a calda já mais no ponto que lhe competia. Desta vez correu bem. Mas tive que passar tudo por um passador, depois de ter engrossado ao lume. Depois da massa cozida, deitei-a para um pano com açúcar, pintei-a com o recheio de ovos e enrolei-a. Mas a massa não cooperou e partiu-se por 2 vezes. O aspeto, portanto, não era dos melhores.

 

O cabrito foi assar no tabuleiro do forno, com a marinada, 4 bocados de banha e regado com xarope de ácer, onde permaneceu por 1:30h,voltado sobre si mesmo por 2 vezes (de 30 em 30 minutos). As batatinhas com casca, meio cozidas já antes de se lhe juntarem, assaram por 15 minutos. Acompanhei ainda com brócolos, porque não encontrei couves de Bruxelas. Do dia anterior tinha sobrado meia travessa de tigelada (6 ovos batidos com 250g de açúcar e 2 colheres chá de canela em pó, aos quais se junta 500ml de leite aquecido com casca de 1 limão e 1 pau de canela, a cozer no forno alto – máximo - durante 45 min numa tigela grande, de barro vidrado, de preferência, já aquecida e sem retirar do forno).

 

Custou mas valeu a pena – iguarias dignas das mais seletas e sofisticadas casas de família, com décadas, para não dizer séculos, de tradição, regadas a vinho - do tinto (Châteauneuf-du-Pape) - a preceito. Enfim, um almoço bem burguês, nada a ver com a síntese revolucionária de uma mente revoltada e em crise, a fazer jus à época das trevas que atravessamos.

 

Bolo de chocolate com laranja

 

 

Esta época do ano, cá em casa, é ocupada por inúmeras festas. Desde o Natal, passando por aniversários e pelo fim de ano, é um continuum de ocasiões para celebrar, com fim no dia de Reis.

 

A experiência, hoje, ficou-se por um bolo de chocolate com laranja.

  1. Parti 1 tablete de chocolate (200g) preto, de culinária (mínimo de 50% de cacau), para dentro de um copo de alumínio, juntamente com 1 copo de leite (usei um copo de água) e 150g de margarina, e deitei-lhe fogo, bem baixinho, para nada se queimar.
  2. Logo a seguir raspei a casca de 2 laranjas, grandes, e espremi-lhes o sumo.
  3. Bati, numa grande tigela, 6 gemas com 250g de açúcar, bem batidas. Fui depois incorporando, alternadamente, a mistela derretida de chocolate com 300g de farinha e 1 colher de chá de fermento em pó.
  4. A seguir foi a vez do sumo e da raspa das laranjas.
  5. Depois de tudo bem batido e misturado, transformei as claras em castelo bem firme e, com uma colher, envolvi-as no preparado do bolo.
  6. Untei a forma com margarina, polvilhei com farinha e deitei a massa do bolo lá para dentro.
  7. Deixei cozer em lume médio durante 45 minutos, no forno que, logo de início, tinha acendido para aquecer.

É claro que ficou ex-tra-or-di-ná-rio-o. A ideia de o besuntar com chantilly era maravilhosa, mas devia ter esperado que o bolo arrefecesse totalmente. Assim ficou tristemente derretido e não lhe fazia falta nenhuma.

 

Experiência coroada de êxito. A repetir (sem o chantilly).