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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Construções

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Women's Canteen at Phoenix Works

Flora Lion

 

Se me derem paus farei o tronco da minha casa

se me derem pedras apoiarei a parede com janelas

se me derem água regarei de fontes o meu jardim

se me derem lume acenderei estrelas na minha noite.

 

Se me tirarem os paus as pedras a água o lume

irei de noite a uma fonte e juntarei algas areia mar e sol

para refazer as manhãs com que construo a minha vida.

 

São João

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Oh meu rico São João

Que já estou tão empenada

O corona que se vá

Vou ficar desconfinada

 

Vou ficar desconfinada

À procura do destino

Oh meu rico São João

A ver se não desatino

 

A ver se não desatino

Neste baile sem ter par

Oh meu rico São João

O que quero é cantar

 

O que quero é cantar

Que a vida é pra se viver

Oh meu rico São João

De medo não vou morrer

 

Santo António

santo antonio.jpg

 
Santo António adivinha
O que nós vamos fazer
Assar a bela sardinha
No terraço p'ra comer
 
E tu Santo padroeiro
De Lisboa e manjericos
Serás sempre o feiticeiro
Dos primeiros namoricos
 
Nestes tempos em que as mãos
Têm de estar apartadas
Seremos todos irmãos
A cantar nas esplanadas
 
Santo António meu santinho
Vem connosco à romaria
Come o pão e bebe o vinho
Que esta noite é de folia.
 

No fim de um lugar que desconhecemos

barcos julio pomar.jpg

Barcos - Júlio Pomar

 

No fim de um lugar que desconhecemos

uma porta que se abre devagar

nuvens de pó branco como veneno

glórias desfeitas passados que repisamos

um fluido esquecimento de tudo o que doemos.

 

Roufenha a voz que repete o fado

guitarras de pobreza aves sem destino

numa praia de arvoredos crivados de gaivotas.

Tiros de versos e azedume nas manhãs de brilho e nevoeiro

a porta que se fecha sem que vislumbremos

o futuro a que julgámos pertencer.

 

Outros serão os ventos outros os lugares de encanto

sempre nos gestos esta mansa loucura este canto

de flores e de mar de tempestades de navios e terra.

Esta soma de gente multiplicada por melancolia

este cheiro esta luz e o morno passarinhar da poesia.

 

Um instante

Jun-Inoue.jpgJun-Inoue

 

Suspendamos por um instante o arvoredo

as aves que nos oferecem as manhãs

o azul de uma onda que desmonta

o sal depositado na pele de alguém.

 

Suspendamos por um instante a febre

a premente necessidade de amar

a pedra que segura esta torrente

as palavras que sabemos desenhar.

 

Suspendamos depois as incertezas

o mundo que apertamos na garganta

as mãos que desesperam de desertas

as almas deserdadas de esperança.

 

Negra papoila

BlackPoppies_Composite-scaled.jpgBlack Poppy

Cai Guo-Qiang

 

Adeus oh minha mãe que já me vou
Com perfumes de cravo e hortelã
Entre a luz que do céu se evaporou
O líquido gotejo da manhã

 

Adeus oh minha mãe que já me falta
O mel que nos adoça a tempestade
No ardor da inquietude que me assalta
A força que se faz serenidade

 

Adeus oh minha mãe que hei-de voltar
Com a chuva que inunda a Primavera
No tempo que queremos sossegar
Do Maio que passou e já não espera

 

Adeus oh minha mãe que já não sei
Se a vida que iremos retomar
É o lume do passado que queimei
Na água de um futuro a remendar

 

Flor

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Tenho na mão uma flor

Que se desfolha sem mim

Solta da vida que é dor

Uma alegria sem fim

 

Uma alegria sem fim

Que abraço sem saber

Quando semeias em mim

A vontade de viver

 

A vontade de viver

Nestes dias de castigo

Cantar ou enlouquecer

Desde que seja contigo

 

Granizo

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Inverno

Maria Helena Vieira da Silva

 

Como se a vida ficasse para sempre suspensa

o granizo na janela lembra-nos que lá fora

os elementos persistem e não se cansam

a natureza não se importa com o nosso destino

natural como o vento e a terra desbravada

pela ânsia dos animais sem culpa

sinuosa como a memória dos que se despedem

e acendem luzes por trás das colinas.

 

Sem juros

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Calvin & Hobbes

 

Fui ao banco do carinho

depositar excedentes

de juros nem um cheirinho

a nenhum dos componentes.

 

Ficaram lá bem guardados

para dias de amargura

poderão ser transformados

em misturas de ternura.

 

Um abraço apertado

aquece a alma carente

e devolve em redobrado

amor puro e resistente.

 

O carinho não se explica

sobra cobra ou esmorece

o carinho multiplica

o que de amor estremece.