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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Nada sabemos

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Fredrik Raddum

 

 

Nada sabemos dos outros de nós

das cinzas das almas da lama dos nós

de tudo do tanto que todos queremos

nada sabemos e nada podemos.

 

Nada seremos se nada sonharmos

de luz no tempo do amor que calarmos

de tudo do tanto que nunca quisermos

nada seremos se nada fizermos.

De Abril

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25 Abril de 1974 - Largo do Carmo

Eduardo Gageiro

 

 

De Abril o brilho dos olhos nos cravos

armas flores e meninos espantados

liberdade perfumada para escravos

despertados pelos sonhos renovados.

 

Tantos anos que passaram num só dia

tanto tempo concentrado de ternura

desde sempre com a voz da poesia

para sempre com um cravo à cintura.

 

De Abril sinto o sal da alegria

um instante de contínuas ilusões

num País que do mundo sobraria

com a alma inundada de canções.

 

É de Abril a cor da mão que te ofereço

o carinho com que planto tanta espada

ao País que tanto sofro e desmereço

na certeza da perpétua madrugada.

Aos bocados

Regardt van der Meulen.jpg

weathered

Regardt van der Meulen

 

 

Se morresse aos bocados

não sei que pedaço poderia deixar

um pouco mais de tempo para que perecesse

mais tarde estendendo a sua agonia

enquanto não se lembrasse da finitude

e do arrasto que vamos sendo

decaindo primeiro o ombro depois a mão

fechando primeiro um olho reabrindo as pálpebras

sem que percebesse a falta de luz e a transparência.

 

Se morresse aos bocados

que palavra poderia ainda murmurar

enquanto a pele não esfriasse de todo

e a minha mão fizesse ainda sentido

e se enredasse na tua antes que por fim

me despedisse e te pedisse todo o esquecimento.

 

No limite

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Músico sem cabeça

Hans Stellingwerf 

 

 

1.

Queremos-te plana sem rugosidades centrais

ou periféricas. Silenciosa no trabalho

da sobrevivência. Transparência total e etérea

na competência da inexistência. Queremos-te invisível

na omnipresença do amaciar da nossa vida.

Aprende.

 

 

2.

No limite do dia escolho a chuva

os passos na calçada que se esvai.

Ao procurar as luzes que se apagam

acendo os olhos solto os cacos

da renovada ilha onde me escondo.

Nada quero e nada sou

neste espaço limitado que escolhi.

 

Apagamento

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The Guardians of Time

Manfred Kielnhofer

 

 

Se me encontrares a vaguear

braços e pernas disciplinadas

na estrada do esquecimento

pegadas de areia nas névoas

do olhar

 

se me chamares pelo nome

que se despegou do corpo

e se gastou como a pele

que me cobre o embaraço

do olhar

 

se me pegares docemente

e me guiares até ao abismo

alisando a água e o tempo

finalmente poderei apagar

o olhar.

 

Intervalo

super lua 1.png

 

 

Agora que o dia se despe

numa cama com sonhos à medida

agora que a noite de veste

numa lua de sombra descabida

guardo nas horas que dispo e visto

as roupas de um mundo que espera

o intervalo de uma vida.