Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Venham mais cinco

Manuel de Oliveira

 

Venham mais cinco
Duma assentada
Que eu pago já
Do branco ou tinto
Se o velho estica
Eu fico por cá

 

Se tem má pinta
Dá-lhe um apito
E põe-no a andar
De espada à cinta
Já crê que é rei
Dàquém e Dàlém Mar

 

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar

 

A gente ajuda
Havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira
Deitar abaixo
O que eu levantei

 

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustem
Só nesta rusga
Não há lugar
Pr'ós filhos da mãe

 

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar

 

Bem me diziam
Bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra
Quem trepa
No coqueiro
É o rei

 

José Afonso

De Abril

25abril.jpg

25 Abril de 1974 - Largo do Carmo

Eduardo Gageiro

 

 

De Abril o brilho dos olhos nos cravos

armas flores e meninos espantados

liberdade perfumada para escravos

despertados pelos sonhos renovados.

 

Tantos anos que passaram num só dia

tanto tempo concentrado de ternura

desde sempre com a voz da poesia

para sempre com um cravo à cintura.

 

De Abril sinto o sal da alegria

um instante de contínuas ilusões

num País que do mundo sobraria

com a alma inundada de canções.

 

É de Abril a cor da mão que te ofereço

o carinho com que planto tanta espada

ao País que tanto sofro e desmereço

na certeza da perpétua madrugada.

Revoluções

cravos.jpg

 

 

Estamos perto de comemorar o 44º aniversário da revolução do 25 de Abril. Para além dos discursos oficiais, da repetição das imagens e dos sons emocionantes daquela madrugada e daquele dia, era muito importante que quiséssemos e soubéssemos fazer novas revoluções.

 

Uma revolução nas leis laborais, de forma a reduzir a idade da reforma, os horários de trabalho, a torná-los flexíveis e adaptáveis às funções e aos objectivos, incentivando o teletrabalho sempre que fosse possível. De uma assentada, reduzíamaos o desemprego e renovávamos os envelhecidos quadros, dando possibilidade aos jovens de ter uma vida própria e digna, capacitando os mais velhos para outra fase mais livre e descansada.

 

Uma revolução social, capacitando as comunidades de transportes locais, que pudessem recolher e conduzir os seus habitantes entre os supermercados, os jardins, os centros de saúde, etc., formando um grupo de apoio domiciliário para pequenas obras nas casas, para entrega de compras, para ajuda nas tarefas domésticas ou outras de que a população mais idosa cada vez precisa mais.

 

Uma revolução na saúde, deslocando a entrada no sistema para os centros de saúde e para o atendimento ao domicílio, fornecendo os centros de saúde de várias especialidades e vários especialistas, de médicos, técnicos, enfermeiros, assistentes administrativos e operacionais, retirando a pressão dos hospitais que deveriam ser apenas para os casos agudos e de curta duração.

 

Uma revolução na habitação, incentivando a recuperação das casas e proporcionando rendas acessíveis para todos, nomeadamente para quem quer iniciar a sua vida.

 

As pessoas precisam de tempo para praticarem exercício, para prepararem refeições, para acompanharem os filhos e os pais. As pessoas precisam de espaço próprio para construirem famílias, para serem autónomas, para se realizarem como cidadãos. As pessoas precisam de emprego minimamente estável para produzirem, para evoluírem, para poderem aspirar a uma vida condigna, terem filhos, viajarem, usufruirem, consumirem.

 

No próximo 25 de Abril, que tal vir a Geringonça (ou outras engenhocas) com estas ideias ou outras que inovem, que sejam realistas e que nos despertem para a esperança e para a felicidade?

Dos que morreram pelos cravos

Guerra colonial: 1961 - 1974 (13 anos)

  • cerca de 10% da população portuguesa e mais de 90% dos mancebos foi envolvida na guerra;
  • terão morrido 8.831 militares portugueses, 4.027 em combate
  • embora de difícil contabilização, mais de 140 mil portugueses terão sido afectados psicologicamente

 

Mãe, a guerra

O capitão que quase enganou a tristeza

 

Manuel Alegre & Adriano Correia de Oliveira

 

 

Já lá vai Pedro Soldado

Num barco da nossa armada

E leva um nome bordado

Num saco cheio de nada

Triste vai Pedro Soldado

 

Branda rola não faz ninho

Nas agulhas do pinheiro

Não é Pedro Marinheiro

Nem no mar é seu caminho

 

Nem anda a branca gaivota

Pescando peixes em terra

Nem é de Pedro essa rota

Dos barcos que vão à guerra

 

Onde não anda ceifando

Já o campo se faz verde

E em cada hora se perde

Cada hora que demora

Pedro no mar navegando

 

Não é Pedro pescador

Nem no mar vindimador

Nem soldado vindimando

Verde vinha vindimada

Triste vai Pedro Soldado

 

Já lá vai Pedro Soldado

Num barco da nossa armada

Deixa um nome bordado

E era Pedro Soldado

 

Branda rola não faz ninho

Nas agulhas do pinheiro

Não é Pedro Marinheiro

Nem no mar é seu caminho

 

Deixa um nome bordado

E era Pedro Soldado

E era Pedro Soldado

A música dos cravos

Manuel Alegre & António Portugal & António Correia de Oliveira

 

 

Quem poderá domar os cavalos do vento

quem poderá domar este tropel

do pensamento

à flor da pele?

 

Quem poderá calar a voz do sino triste

que diz por dentro do que não se diz

a fúria em riste

do meu país?

 

Quem poderá proibir estas letras de chuva

que gota a gota escrevem nas vidraças

pátria viúva

a dor que passa?

 

Quem poderá prender os dedos farpas

que dentro da canção fazem das brisas

as armas harpas

que são precisas?

 

 

 

Sérgio Godinho

 

 

Viemos com o peso do passado e da semente

Esperar tantos anos torna tudo mais urgente

e a sede de uma espera só se estanca na torrente

e a sede de uma espera só se estanca na torrente

Vivemos tantos anos a falar pela calada

Só se pode querer tudo quando não se teve nada

Só quer a vida cheia quem teve a vida parada

Só quer a vida cheia quem teve a vida parada

Só há liberdade a sério quando houver

A paz, o pão

habitação

saúde, educação

Só há liberdade a sério quando houver

Liberdade de mudar e decidir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

 

 

 

Zeca Afonso

 

Vejam bem

Que não há

Só gaivotas

Em terra

Quando um homem

Se põe

A pensar

 

Quem lá vem

Dorme à noite

Ao relento

Na areia

Dorme à noite

Ao relento

Do mar

 

E se houver

Uma praça

De gente

Madura

E uma estátua

De febre

A arder

Anda alguém

Pela noite

À procura

E não há

Quem lhe queira

Valer

 

 

Vejam bem

Daquele homem

A fraca

Figura

Desbravando

Os caminhos

Do pão

 

E se houver

Uma praça

De gente

Madura

Ninguém vai

Levantá-lo

Do chão

 

Vejam bem

Que não há

Só gaivotas

Em terra

Quando um homem

Se põe

A pensar

 

Quem lá vem

Dorme à noite

Ao relento de areia

Dorme à noite

ao relento do mar

Da revolução dos cravos

salvador dali.jpg

Salvador Dali

 

Aquilo que move e embala o colectivo (nós - o povo), aquilo que nos faz sentir unidos e em marcha, é a partilha de um objectivo comum que nasce de um valor universal, algo que nos seja exterior e interior, que se ancore naquilo que podemos fazer pelos outros, pela comunidade, logo por nós próprios.

 

Somos capazes dos maiores sacrifícios se os entendermos necessários a um bem maior. Por isso prescindimos até da vida - seja por amor à liberdade ou aos filhos. Essas emoções são muito bem aproveitadas por todos os totalitarismos e também, mais raramente, pelos regimes democráticos, em épocas especiais e que se revelam revolucionárias, pelas consequências nas organizações e prioridades das sociedades em que nos inserimos.

 

Estamos a precisar de algumas ideias libertadoras, que nos unam e nos inspirem como comunidade, tal como aconteceu a 25 de Abril de 1974. Nessa altura a esperança e a mobilização pelos ideais de liberdade, democracia e desenvolvimento foram o cimento que nos uniu, com muitas dores mas com muita paixão e alegria.

 

Estou convencida de que precisamos de um novo contrato social, de uma nova organização laboral, de uma nova relação com a natureza, de uma nova realização na maternidade e na paternidades, de uma nova relação entre o individual e o colectivo. Precisamos de nos renovar e de nos inovar, reaprender a essência e redistribuir os excedentes. Precisamos de políticas que subordinem a economia ao bem público e aos cidadãos, que repense o território, que invista na criatividade e na cultura, que incentive o auto conhecimento e a solidariedade, que mobilize a generosidade, que semeie a igualdade de oportunidades, que saiba gerir as capacidades e que seja inclusivo.

 

Parecem palavras vagas e ocas. Mas convinha que lhes déssemos o seu verdadeiro significado e lhes retribuíssemos o seu verdadeiro valor. Às vezes são as coisas mais simples as que geram maior felicidade. Não vejo melhor forma de reafirmar a revolução dos cravos.

 

Da emoção dos cravos

Salgueiro Maia.jpg

 

 

Todos os anos, por muito que já as conheça de cor, as imagens do dia 25 de Abril de 1974, as ruas apinhadas de gente e esperança, os soldados, as espingardas, o megafone de Salgueiro Maia, as senhas musicais na madrugada,  Posto de Comando do MFA, a alegria dos locutores, o frenesim de quem queria explicar o que se passava, a calma dos protagonistas, todos os anos me emociono.

 

Não há cerimónias dispensáveis para a celebração de um tempo novo que diariamente se reinventa. O esquecimento e a banalização da liberdade são, simultaneamente, a celebração da mesma e o maior perigo para a sua preservação.

Da vermelhidão dos cravos

carnation-revolution.jpg

Adres

 

 

Consternada dei-me conta de que não tenho nenhuma peça de roupa, lenço de pescoço ou sapatos de cor vermelha.

 

Não faz mal. O meu amor pela liberdade e pela democracia fazem-me a alma tão vermelha quanto a mais vermelha paixão, o mais vermelho sangue, os mais vermelhos cravos.