Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Das tristezas que não pagam dívidas

E como é tempo de começar, comecemos bem, comendo, bebendo e brincando (ai, ai), que é o que se leva desta vida.

 

Este Natal, mesmo não relatados, os repastos foram muitos e fartos, em quantidade e qualidade certificadas: rabanadas, filhós, azevias, aletria, sonhos, bacalhau com batatas, couves e grão, vinho tinto Cartuxa EA, licores dos mais finos da adega caseira, marca Dona Sofia & Companhia (marca reputada e habitual à mesa cá de casa). Não falo da calda maravilhosa que tentei repetir (para os sonhos), que desta vez ficou maravilho...samente espessa, impossibilitada de fluir e ensopar os ditos (esses sim, maravilhosos). O arroz de pato da Chefe Mais Sábia foi uma festa para os palatos mais exigentes. E esta Consoada teve um gosto muito especial, pois a família reuniu-se com os andarilhos pelo mundo de regresso a casa (ainda que momentaneamente para alguns), além de novos comensais, de paragens mais longínquas.

 

Mas isto é o preâmbulo para a descrição dos mimos que estão a ser preparados para degustar pela noite dentro e pela madrugada fora, em animação madura e contida mas não menos real. O Chefe prepara os Camarões à Tio Fausto (um must nestes réveillons), para além dos patés e dos queijos com as respectivas tostas e bolachas de água e sal, da salada de frutas especial (que chega, pelo menos, para 300 pessoas), da sempre eterna e omnipresente aletria, do vinho Chardonnay Borgonha Côtes D'Auxerre e do champanhe Veuve Émille, que nos acompanharão e ampliarão a alegria.

 

Com conversa, convívio e amizade, faremos figas e rogaremos uma praga à má sorte. António Costa será Primeiro-Ministro, António Guterres será Presidente da República, a Justiça será uma realidade e nós teremos confiança nela, os jovens começarão a ver uma luz ao fundo do túnel e a Europa regressará a si própria.

 

Que haja trabalho, música, poesia e romance e, mais importante que tudo isso, bom humor e disposição para esquecer os maus dias e aproveitar os bons. E como Carlos do Carmo foi agraciado com o Grammy latino, aqui deixo o Fado da Saudade cantado por ele, com letra de Fernando Pinto do Amaral e música de (envolto em polémica...), também agraciado com um Goya.

 

Fado da Saudade

Fernando Pinto do Amaral & Carlos do Carmo

 

Nasce o dia na cidade, que me encanta

Na minha velha Lisboa, de outra vida

E com um nó de saudade, na garganta

Escuto um fado que se entoa, à despedida

E com um nó de saudade, na garganta

Escuto um fado que se entoa, à despedida

 

Foi nas tabernas de Alfama, em hora triste

Que nasceu esta canção, o seu lamento

Na memória dos que vão, tal como o vento

O olhar de quem se ama e não desiste

Na memória dos que vão, tal como o vento

O olhar de quem se ama e não desiste

 

Quando brilha a antiga chama, ou sentimento

Oiço este mar que ressoa, enquanto canta

E da Bica à Madragoa, num momento

Volta sempre esta ansiedade, da partida

Nasce o dia na cidade, que me encanta

Na minha velha Lisboa, de outra vida

 

Quem vive só do passado, sem motivo

Fica preso a um destino, que o invade

Mas na alma deste fado, sempre vivo

Cresce um canto cristalino, sem idade

Mas na alma deste fado, sempre vivo

Cresce um canto cristalino, sem idade

 

É por isso que imagino, em liberdade

Uma gaivota que voa, renascida

E já nada me magoa, ou desencanta

Nas ruas desta cidade, amanhecida

Mas com um nó de saudade, na garganta

Escuto um fado que se entoa, à despedida

 

Bom Ano para todos!

Dos votos anuais

hope 1.jpg

And Light Fell On Her Face Through Heavy Darkness

Gavin Worth

 

2015.jpg

Montagem de NUMBERS ONE through ZERO

Robert Indiana

 

Hoje esteve um dia lindo, frio e luminoso, como que a pedir desculpa ao Universo pelos restantes dias do ano que acaba. De uma forma ou de outra, lá vamos cumprindo os rituais das despedidas e das alvoradas dos velhos e novos ciclos de tempo.

 

Espero sempre muito do futuro, do próximo ou do mais longínquo. E por isso me desiludo muito, com o próximo e com o longínquo. É difícil alegrar-me com as vitórias, quando à minha volta conheço tantas derrotas.

 

Felizmente há a música, sempre a música. Vou começar o ano com ela e na companhia de quem comigo partilha ventos e marés, viagens aos abismos e às estrelas. Talvez no abraço que nos damos esteja a vontade renovada de continuar.

 

Que todos possam brindar à esperança. Aguardam-nos mais 365 dias de luta por uma vida melhor, mais digna e mais justa.

Da (des)animação futura

Pouco me apetece celebrar o próximo 2015. Afigura-se um ano de mais pobreza, mais desesperança, mais tristeza. Enfeitamos o Natal mas ele mostra-se cada vez mais no esplendor da hipocrisia e da falsidade.

 

Eleições, legislativas e presidenciais. O ano político marcará tudo o resto. O PS de António Costa ainda muito morno, não sei se a preparar-se para os embates se porque não sabe o que fazer. Em relação à escolha de um Presidente nem a esquerda nem a direita têm figuras que se perfilem com a qualidade que associamos à mais alta autoridade do Estado. E bem precisamos, depois de 2 mandatos de um Presidente que desconfigurou essa função. Se António Guterres não avançar para a Presidência, o PS ficará com um problema acrescido. Sampaio da Nóvoa não me parece uma boa hipótese e a fabricação de candidatos lembra-me sempre o que se passou com Fernando Nobre. Em relação à direita, continuo a pensar que Marcelo Rebelo de Sousa se não apresentará e as outras hipóteses não são animadoras.

 

A Europa esfrangalha-se perante a incapacidade política dos países membros, principalmente daqueles que são mais iguais que os outros. O bem-estar social evapora-se, com os problemas das desigualdades, das populações migrantes, do desemprego galopante, da falta de perspectiva das novas gerações, com o envelhecimento populacional.

 

De facto nada está animador. Enconchamos cada um na sua realidade, o egoísmo e o autismo medram.

 

Não podemos, no entanto, desistir de um futuro. E por isso alguma esperança ainda persiste. Pode ser que 2015 nos traga alguma boa surpresa.