Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Populismos

10 junho 2019.png

 

O discurso de João Miguel Tavares, mesmo antes de ter sido proferido, já tinha vários detractores, apenas porque era dele, João Miguel Tavares, comentador encartado do Governo Sombra e opinante do Público, que cresceu e se diferenciou à custa de gritar contra José Sócrates.

 

Não tenho qualquer simpatia pela figura e discordo de quase tudo o que ele diz. Por outro lado, não tenho Marcelo Rebelo de Sousa na conta de tonto, pelo que a escolha de João Miguel Tavares para organizar as cerimónias comemorativas do Dia de Portugal me mereceu, pelo menos, o benefício da dúvida. E li com atenção o discurso que ontem fez.

 

João Miguel Tavares aponta ao país aquilo que a geração dele pensa do mesmo. O desencanto, a desilusão, a falta de perspectivas de futuro, pelo menos a sua incerteza, a crescente desigualdade de oportunidades, o fosso entre o interior pobre e o litoral rico, a perpetuação das chamadas elites, o divórcio com a política.

 

Todos os problemas existem e são importantes. O problema de João Miguel Tavares, como de muitos outros, é a repetição do mantra nós e eles, significando nós - o povo, por inerência bom, honesto e ingénuo, eles - os políticos, por inerência pérfidos, incompetentes, desonestos e ladrões.

 

A responsabilidade do estado do país é nossa, de todos. Os políticos são pessoas iguais a nós, uns melhores outros piores, que nós próprios escolhemos, por acção e, cada vez mais frequentemente, por omissão. O que gostaria de ter ouvido a João Miguel Tavares não era pedir aos políticos que nos dessem alguma coisa em que acreditar, mas o repto à sua e às gerações mais jovens para participarem na vida pública, que é um dever, para votarem, para se manifestarem, para contribuírem e fazerem política, que é responsabilidade de todos. Critico, por isso, e nesse sentido, o seu discurso, populista no apelo do nós contra eles.

 

Mas as reacções que fui lendo ao longo do dia por pessoas que se concebem de esquerda, que não se cansam de apregoar valores de igualdade, tolerância, respeito pelas diferenças e pela liberdade de expressão de pensamento, acabam por adubar e fazer crescer os populismos, arrasando qualquer opinião que, mesmo que remotamente, ponha em causa os seus dogmas. É precisamente esse arregimentar de tropas, esse encurralar de facções, que muito contribui para o aumento do cansaço e da exaustão perante o exagero e o tremendismo, e que afasta as pessoas da intervenção pública e do activismo político. Não há qualquer interesse em ouvir e tentar entender, mas sim arrasar um lado, independentemente do gradiente do outro. Ao reduzir todos à mesma substância, emparceira-se João Miguel Tavares com André Ventura. A sanha é a mesma.

 

João Miguel Tavares foi populista mas não só, e o seu carisma aumenta na proporção inversa do desprezo a que é votado pelas patrulhas de esquerda que, de tão limpas e puras no seu esquerdismo, chegam a ser tão demagógicas quanto ele.

A nossa maior riqueza

divesidade.jpg

 

 

 

(...) O que nos caracteriza geneticamente é que temos uma mistura notável de genes com as mais variadas origens. E se pudesse identificar uma característica quase única entre nós era essa mistura genética (...)

 

(...) Temos de ser exemplares, de cima para baixo, na organização social e na selecção das lideranças, o privilégio tem de ser acompanhado de responsabilidade (...)

 

Manuel Sobrinho Simões

10 de Junho de 2017

Do dia de Portugal

10 junho 2015.png

 10 de Junho de 2015

 

Vemos desfilar as figuras

numa pompa de bonecos articulados

as marcas no chão

desenhos de um encenador empalhado

passadeiras e banda de música

enfáticos soldados de chumbo

neste País apalhaçado

no entretém de vizinhas à janela.

E a voz de pároco do burgo

redonda e ciciada como convém

a soar pelos ares de entulho

numa bênção colada a ninguém

meu País triste e alheado

da irrelevância das almas sem orgulho.

Do respeito sem inho

Público

 

A deriva populista e demagógica varre toda a sociedade portuguesa. A onda de ódio antipolítica e antipolíticos é um sintoma de falta de cultura democrática tão evidente como a preocupação em censurar imagens ou em calar manifestantes.

 

Já tenho aqui dito mais de uma vez que me incomoda que haja grupos de agitação permanente à espera dos representantes políticos para os apuparem, insultarem, acusarem. Aqueles que agora compreendem o povo que se manifesta contra Cavaco Silva, ministros, deputados, autarcas, não terão a mesma tolerância quando essas manifestações forem contra eles. Passou-se com Sócrates, com Maria de Lurdes Rodrigues, com Crato, com Relvas, com Correia de Campos, com Paulo Macedo e passar-se-á com qualquer um que ocupe funções no Estado.

 

Confunde-se liberdade de expressão com insultos e gritaria, com enxovalho e humilhação. É como os comentários aos posts e as graçolas nas redes sociais. Uma tristeza, de facto.

 

Cavaco Silva deve ser combatido politicamente, e respeitado como Presidente eleito, tal como todos os outros representantes políticos, pois todos são a emanação do voto popular e têm mandato para exercerem o poder. Entendo mas não aprovo a guerrilha de tipo sindical associado ao PCP, ou de esquerda ampla associado ao BE, que irrompe por salas de reunião, conferências e comemorações oficiais, confundido gritaria com opinião maioritária, esquecendo-se que as manifestações não têm legitimidade eleitoral, por muito importantes que o sejam.

 

Talvez eu tenha uma raíz muito deferente ou muito retrógrada, ou ambas. Mas custa-me muito que, em nome da liberdade de expressão e da democracia, se achincalhe uma figura que nos representa a todos.

 

Quanto ao tipo de comemorações do dia 10 de Junho - ouço e vejo muita gente a insurgir-se contra o tédio e o piroso destas comemorações. No entanto, as populações estão presentes e gostam. Suspeito que, no dia em que muitos desses detractores fossem condecorados, estas festas passariam a ser sofisticadas e a constituirem um insubstituível acto de cultura.

Sílabas

 

Almada Negreiros

Partida de Emigrantes

 

O meu país divide-se em sílabas

- por - ele tudo de nada acontece. Afunda-se

encolhe-se enruga-se esvazia-se em gente

mole e arrastada – tu - e eu manchamos a terra.

O meu país divide-nos e abre

os rios por onde se espalha e cresce

em múltiplas sílabas de dor – gal - de fim

afinal

Portugal.

 

As vozes dos outros (8)

 

(...) Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam dessa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida. (...)

 

Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980.- 5.

 

As vozes dos outros (7)

 

(...) Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos.

a) adaptabilidade, que no mental dá a instabilidade, e portanto a diversificação do indivíduo dentro de si mesmo. O bom português é várias pessoas.

b) a predominância da emoção sobre a paixão. Somos ternos e pouco intensos, ao contrário dos espanhóis — nossos absolutos contrários — que são apaixonados e frios.

Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim — Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, e quantos mais haja havidos ou por haver. (...)

 

 

Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966.