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Ser Mortal

por Sofia Loureiro dos Santos, em 15.08.21

ser mortal.JPG

Atul Gawande

 

Somos mortais embora cada vez nos lembremos menos disso. E deixamos cada vez mais de aceitar essa inevitabilidade.

Para a nossa sociedade e principalmente para nós, médicos, que encaramos a profissão como a obrigação de vencer a morte e, quando já não é possível, de a adiar, o envelhecimento não é mais que uma soma de disfunções das várias partes do corpo que são encaradas cada uma por si e não como um todo, em vez do normal e inevitável processo de nos irmos aproximando do fim.

Por isso, à medida que os nossos familiares, amigos ou nós mesmos, começam a ter dificuldades na mobilidade, a lentificar as reacções, a perder a memória, a cair, quando os nossos órgãos e sistemas se começam a desligar, a gastar todos os backups existentes, não aceitamos essa realidade e, em nome da segurança e da necessidade de viver, sempre mais e mais, utilizamos os conhecimentos técnicos para fazer mais qualquer coisa sem cuidar que é disso mesmo que precisamos, que é isso mesmo que queremos.

Em nome da vida tornamos a vida daqueles de quem cuidamos, pessoal e/ ou profissionalmente, num somatório de entradas e saídas do hospital, infantilizamos as suas vidas e proibimos-lhes aquilo que mais define o ser humano - a sua liberdade, a tomada de decisão, a privacidade.

Lares e casas de repouso que tudo proíbem, que homogeneízam as refeições, as horas de levantar e deitar, os quartos, as mobílias, as companhias, intervenções médicas e cirúrgicas que muitas vezes são a forma de apaziguarmos o medo e a incapacidade de encarar o inevitável e de o preparar, esticando a possibilidade de estender a existência com o objectivo desta ser o que queremos, mesmo com limitações, mas sem nos transformarmos num fardo para nós e para os outros.

Atul Gawande escreveu Ser Mortal com a ternura e a coragem de quem quer ser mais do que um médico que informa, mas transformar-se num médico que ajuda. Talvez tenhamos que aprender a olhar o fim da vida de outra maneira, a escutarmos e a deixarmos falar quem queremos tratar. A felicidade tem muitos matizes e é diferente para cada um de nós. A sensação de utilidade, de um compromisso com os outros, de amar e ser amado, de poder manter a individualidade, a privacidade e a capacidade de decidir, deveria ser o próximo passo na humanização dos cuidados de saúde. 

Um livro indispensável.

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publicado às 16:45


4 comentários

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De Jaime Santos a 16.08.2021 às 13:19

Suspeito que o problema principal em torno desta questão é simplesmente que a generalidade das pessoas que estão nos lares, se lhes pudesse ser dada a escolha, prefeririam viver com os seus familiares (com a excepção daqueles casos que requerem cuidados especializados, bem entendido).

Mas será que estamos preparados para aceitar tal coisa e voltarmos a ser cuidadores? Será que um homem ou uma mulher na casa dos 50-60 anos, ainda com vários anos de vida profissional útil à sua frente, estará disposto a ficar em casa para cuidar do seu Pai, Mãe, Sogro ou Sogra?

Quanto à questão do prolongamento da vida, ainda estou para encontrar alguém que colocado perante a hipótese de morrer mais cedo, diga que sim...

Nas belas palavras de Giacomo Leopardi, a morte apaga os prazeres mas também o seu desejo, ao passo que a velhice apaga os prazeres mas mantém o desejo. No entanto, os homens temem a morte e desejam a velhice...
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De Sofia Loureiro dos Santos a 16.08.2021 às 21:34

Não, nem sempre viver com a família é o que as pessoas querem. Muito pelo contrário. Querem independência e autonomia.
Também não é verdade que todas as pessoas queiram esticar a vida a todo o custo. Cada vez menos. As pessoas valorizam outras coisas que não o tempo de duração da vida.
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De Jaime Santos a 17.08.2021 às 01:29

Sem dúvida que muitos preferirão viver por si (sozinhos ou não) enquanto puderem. Agora duvido sinceramente que para alguém dependente, a escolha seja a de viver num lar...

Pelo menos nos moldes dos lares que temos. Se falamos de centros para seniores, em que cada um pode ter o seu próprio apartamento e apoio domiciliário, o caso muda de figura, mas isso não é nem será para todas as bolsas.

Quanto à duração da vida, com exceção daqueles que padecem de doenças profundamente debilitantes ou terminais (sou a favor da eutanásia, note-se), duvido muito que as pessoas desejem de facto despedir-se da vida mais cedo.

Num telefonema feito ao filho por uma utente de um lar durante a pandemia, a sua pergunta recorrente era porque ele não a tinha vindo visitar...
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De Sofia Loureiro dos Santos a 17.08.2021 às 23:07

Pois a questão é precisamente se o tipo de lares e se o tipo de acompanhamento é aquele que, de facto, é o mais indicado.

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