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RTP - serviço público ou privado?

por Sofia Loureiro dos Santos, em 20.10.16

cancro-da-mama.png

 

Assisti ao programa Prós e Contras sobre o cancro da mama, porque é um assunto muito importante e porque sou profissional de saúde. Pelo respeito que me merecem os doentes e todos aqueles que enfrentam a doença, no domicílio, nos Centros de Saúde e nas Instituições Hospitalares, grandes e pequenas, públicas e privadas, não posso deixar de me expressar quanto ao que penso ter sido um péssimo serviço público prestado ao País, principalmente a todos os doentes oncológicos, particularmente os que têm cancro da mama.

 

Perante o desconforto mais ou menos evidente da Presidente Sociedade Portuguesa de Oncologia e do Presidente do INFARMED, todo o programa foi um discorrer de razões para que a população percebesse que a única Unidade de Mama certificada no País era a da Fundação Champalimaud (FC), e que era portanto a única que sabia e estava em condições de tratar com qualidade os doentes a quem este fosse diagnosticado. Surpreendentemente, no site da FC afirma-se que a Unidade de Mama está em processo de certificação, o que acontece com várias unidades de mama (e não só) de outras Instituições Hospitalares, nacionais e internacionais. Por outro lado o Centro Hospitalar de Setúbal tem uma Unidade de Mama certificada desde 2015, pelos critérios do EUSOMA.

 

Repetiram-se à exaustão palavras como certificação, unidade multidisciplinar, qualidade, sem se explicar que a primeira decorre de um processo em que se procura que uma entidade externa assegure que um serviço/ laboratório/ hospital tem procedimentos padronizados e pode evidenciar que os cumpre, que o tratamento de cancro em consultas multidisciplinares existe nos hospitais há mais de 20 anos, e que a qualidade depende do cumprimento das boas práticas internacionais, que apenas se podem assegurar quando se demonstram resultados que são auditados por entidades externas.

 

Fizeram-se afirmações graves quanto aos excessivos e desnecessários tratamentos de cirurgia e quimioterapia a que as doentes eram sujeitas. Não se explicou que toda a terapêutica oncológica tem sofrido modificações ao longo do tempo, de agressiva para mais conservadora, fruto de investigação científica e de trabalhos de observação e comparação de períodos livres de doença e de sobrevida. Em concreto, o excesso de quimioterapia no cancro precoce da mama tem estado em estudo e os resultados desse trabalho foram publicados em Agosto. Isso foi dito, de facto, mas já depois de se ter criado a ideia de que as doentes eram sobre tratadas em Portugal.

 

Afirmou-se assertivamente que havia muitas discrepâncias de diagnóstico entre os efectuados na FC e nos outros serviços de Anatomia Patológica (SAP), colocando em causa todos os serviços, sem se detalhar as percentagens em que isso acontece, nem se explicando que as diferenças de interpretação dos são resultado das más condições de preservação das amostras biológicas antes de chegarem aos SAP – a chamada fase pré analítica. Já agora é bom que se divulgue que a imensa maioria, se não a totalidade, dos SAP, têm implementados controlos de qualidade externa das técnicas de imunohistoquímica (que estão em causa na determinação dos receptores hormonais) e muitos têm também controlos de qualidade externa do diagnóstico.

 

Foi ainda dito que muito Hospitais públicos dificultavam a disponibilização das amostras para revisão diagnóstica. Sempre trabalhei em hospitais do SNS e conheço a grande maioria dos SAP. Posso afirmar que nunca vi essa prática, muito pelo contrário. Os Patologistas são dos médicos que mais trocam opiniões, enviando amostras para peritos nacionais e internacionais, sempre que há dúvidas ou para isso são solicitados, utilizando inclusivamente os resultados dessas revisões como controlo de qualidade dos seus próprios serviços.

 

Em Portugal há várias unidades hospitalares a tratar cancro da mama, como se pode depreender pelos números de novos casos por ano, revelados no próprio programa. Se a FC trata 500 novos casos por ano, os restantes 5.500 são-no nas outras instituições, públicas e privadas. Todas as recomendações de boas práticas remetem para uma cada vez maior proximidade dos cuidados ao doente, assegurando os números mínimos por instituição (150 a 200 novos caso por ano), pelo que o que é imprescindível é multiplicar unidades que possam fazer o seu trabalho bem feito e em tempo útil. Isso sim, melhoraria a acessibilidade dos doentes e reduziria as desigualdades, existentes em todo o território nacional e por evidente falta de recursos humanos e técnicos.

 

Não, não está tudo bem no SNS. Há muitos constrangimentos e muitas insuficiências e, por vezes, erros e negligências. Devem ser conhecidos para que sejam resolvidos e para que os doentes sejam tratados com qualidade, em segurança e em tempo útil. A redução das desigualdades no acesso aos cuidados de saúde passa por ter um SNS bem equipado e bem organizado. Além disso a rede privada também tem o seu papel havendo, para além da FC, outras instituições privadas a tratar cancro, da mama e outros. Convém ainda lembrar que muitos dos profissionais que trabalham na FC também trabalham ou trabalharam no SNS onde, com certeza, aplicam e aplicavam as recomendações e guidelines internacionais quanto ao tratamento do cancro da mama, participam e participavam em reuniões multidisciplinares de decisão terapêutica.

 

Mas o que a mim mais me impressiona é que a ideia de que o SNS não responde à população, que é mau, que os seus profissionais não trabalham com qualidade e que os doentes têm que recorrer aos privados para serem bem tratados, está de tal forma enraizada, que todos acham normais as afirmações e sugestões proferidas durante todo o programa que, na realidade, se transformou em propraganda à FC, não se tendo ouvido nem lido qualquer reacção da parte de profissionais, associações de doentes, de responsáveis institucionais ou do governo.

 

E no entanto, todos os anos milhares de pessoas são tratadas, de cancro da mama, de outros cancros e de outras patologias, por profissionais dedicados e empenhados, que se deslocam semanalmente entre hospitais para assegurarem as reuniões multidisciplinares de decisão terapêutica, que inventam horas e coragem para enfrentar todas as limitações, falta de recursos e dificuldades imensas dos doentes, para lhes poder dar aquilo que as boas práticas e o estado da arte recomendam e que sempre se habituaram a fazer – a tratar bem os seus doentes.

 

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publicado às 14:24


21 comentários

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De A. Teixeira a 20.10.2016 às 18:52

Há uma actividade que em marketing se chama <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Marketing_indireto>«Product Placement»</a>, que consiste em promover de forma subtil e não ostensiva um produto ou um serviço no decorrer de uma transmissão televisiva. Parece-me que foi o que aconteceu com o Prós & Contras desta semana, com a agravante de se tratar de um programa de informação, daqueles que não costumam ser muito propensos a receber patrocínios comerciais. Mas como estas coisas são sempre o que são, não se deixa de registar a coincidência adicional do programa ter sido transmitido do auditório da Fundação Champalimaud...
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De Eddye a 21.10.2016 às 17:15

É frequente isso acontecer, ou seja, ser realizado e transmitido a partir deste auditório...
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De A.Teixeira a 21.10.2016 às 19:34

Não é frequente: de há uns tempos para cá, o programa tem sido sempre transmitido dali.
Mas é por isso mesmo que teria sido recomendável que os responsáveis do Prós & Contras não tivessem dado mostras de tanta parcialidade promocional quando o assunto estava directamente associado à actividade comercial da fundação.
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De sofia cabo a 21.10.2016 às 09:57

Sou profissional de saúde no SNS, tenho cancro da mama, sou tratada na FC. Antes de decidir onde me ia tratar avaliei as opções do processo de tratamento que me foram propostas no SNS e por algumas instituições privadas, a FC e foi com grande distância a minha opção e ao longo destes meses de tratamento continuo a achar que fiz a melhor opção! Os profissionais são empenhados no SNS mas movem-se num meio de profunda insatisfação, que se reflecte nos cuidados que prestam e quanto a recursos em físicos bem sabe que no SNS falta tudo, lamentavelmente!!! Tem que passar pela situação para entender que de momento a FC esta muito à frente de qualquer outra opção, eu também não fazia ideia que o fosso fosse tão grande mas é
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De Teo a 21.10.2016 às 14:31

Em grande parte...tretas
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De Jorge Caravana a 22.10.2016 às 19:12

Cara colega!

Estou bem dentro do "métier" , não me faça falar! Fico muito satisfeito por se estar a dar bem, tem sempre a minha solidariedade. E de resto o doente tem sempre razão .
Felicidades cara colega.
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De Anónimo a 04.01.2018 às 19:35

Lembro-me agora.... não é a colega que a FC, passeia por todos os congressos nacionais e internacionais para dar o seu testemunho? Eu já a ouvi numa reunião de propaganda para o público na FC e no congresso da ESMO, em Lugano na Suíça ! Ficou concerteza melhor instalada que eu... Bom ano de 2018!
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De luisa braga a 21.10.2016 às 10:40

Pois eu fui tratada nos Capuchos e em S. José e não podia ter sido melhor tratada
Obrigada a todos os funcionários do SNS.
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De Leonor Sa a 21.10.2016 às 12:16

tive cancro da mama no ano de 2000, fiz cirurgia no hospital de s. joao no porto onde continuo a ser tratada, em 2009 tive metastase na coluna vertebral novamente operada, nunca fiz quimioterapia por opçao minha, tratamento oral e de momento a base de injecçoes, mas fui sempre muito bem tratada por medicos, enfermeiros, pessoal auxiliar, bem haja a todos estes profissionais que me teem ajudado ao longo destes 16 anos
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De Teo a 21.10.2016 às 14:32

EXCELENTE artigo, Parabéns!
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De Licínia Maria F. Nogueira Maldonado a 21.10.2016 às 17:08

Li tudo o que foi escrito sobre o cancro da mama, e apenas quero referir que tive um cancro da mama há 28 anos que apesar de ter duas filhas médicas , escolhi ser operada ,pelo doutor João ganho - para mim o melhor cirurgião existente -e, depois fui sempre seguida no IPO de COIMBRA que me tratou o melhor possível até hoje .Acrescento que..
fiz uma mastectomia radical com radio, quimio e cobalto e entrei num programa com tamixófeno durante 5 anos
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De Anónimo a 21.10.2016 às 17:16

Tenho cancro de mama, estou a ser tratada no S Joao
Desde a cirurgia a quimioterapia , que terminei recentemente ,fui sempre muito bem tratada por todos os profissionais ,desde médicos a auxiliares .
O resultado final ainda não sei, mas isso também se aplicaria no privado.
Fui tratada com muito carinho e humanidade .
Muito diferente do que aconteceu Quando fiz uma cirurgia numa clínica privada, lá o único sorriso que recebi foi do meu médico .
Pudera foi ele que me encaminhou para lá
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De mlo a 22.10.2016 às 12:47

Os "prós e contras " tornou-se num programa sectário, a apresentadora está cada vez mais fuleira e a publicidade à FC foi escandalosa.
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De Sofia Loureiro dos Santos a 22.10.2016 às 17:29

Agradecia que se poupassem os ataques pessoais. Os gostos da apresentadora não são minimamente relevantes.
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De Jorge Caravana a 22.10.2016 às 19:08

Parabéns pelo seu artigo, deu voz à minha fúria.
Convido-a a conhecer o centro de mama onde trabalho no Hospital do Espírito Santo em Évora. Tomar conhecimento de estatísticas e entrevistar que quiser!
Cumprimentos
Jorge Caravana
Director do Serviço de Cirurgia
Responsável pela Umidade de Patologia Mamaria
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De Sofia Loureiro dos Santos a 22.10.2016 às 20:47

Obrigada, Colega. Talvez um dia, quem sabe, o possa fazer. Muito obrigada.
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De MC a 24.10.2016 às 09:46

Bom artigo!
Linguagem clara e abordagem simples mas exata do que interessa e é relevante.
Parabéns!

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