Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

O ruído do tempo

o ruido do tempo.jpg

 

Desde que li O papagaio de Flaubert tornei-me assídua leitora de Julian Barnes.

 

O último livro deste autor é, como habitualmente, uma reflexão violenta e irónica sobre a relação entre os intelectuais, mais propriamente os artistas, a arte e o poder. Mas não só.

 

Julian Barnes usa Dmitri Shostakovich, um compositor russo que viveu as épocas da revolução russa, das duas Guerras Mundiais, do estalinismo, da ligeira abertura do regime com Nikita Khrushchov e de Leonid Brejnev, para discorrer sobre a humanidade, a nossa capacidade de resistir e de ceder ao poder ou a tudo o que nos é contrário e nos violenta em termos ideológicos ou morais, a forma como nos defendemos e justificamos, por aceitarmos aquilo que nos incomoda e revolta. A vida e os homens são feitos de cambiantes de tons e cores e todos somos capazes dos maiores heroísmos e das piores abjecções.

 

Numa escrita muito sintética e depurada, o autor encarna Shostakovich e conta a sua vida na Rússia soviética, que alternou períodos em que foi punido por escrever música que não agradava aos ideólogos estalinistas e ao próprio Staline, sendo afastado dos empregos e dos concertos, temendo pela sua vida e pela dos seus familiares e amigos, aguardando à noite, junto ao elevador da sua casa, que o viessem prender para o deportar e/ou matar, com períodos em que era bajulado e premiado pela nomenklatura, recebendo prémios e honrarias.

 

Shostakovich vive em sobressalto, depressão, ansiedade e negação de si próprio. Despreza-se e não se perdoa por aquilo que considera actos de cobardia - apoiar decisões e deportações lendo discursos ou assinando documentos que outros escrevem, negar apoio a quem, como ele, tinha caído em desgraça, como a última e ultrajante humilhação de se ter tornado membro do Partido Comunista da União Soviética, que tinha conseguido evitar até Khrushchov ter assumido o poder. Não poupa os intelectuais estrangeiros que se dão ao luxo de admirar a sociedade mais avançada do mundo porque nela nunca tinham vivido - Romain Rolland e Jean-Paul Sarte, por exemplo.

 

O ruído do tempo é muito mais que um romance, muito mais que uma biografia, sem ser nem um romance nem uma biografia. Nos tempos que correm em que assistimos impotentes ao ascender de ditadores, convém não nos esquecermos o que é viver num regime totalitário.

2 comentários

Comentar artigo