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O misterioso caso dos beeps televisivos

3. Entram em cena as caixas de música

por Sofia Loureiro dos Santos, em 24.07.20

caixa de musica 2.jpg

(A Coruña)

 

E assim continuámos, entre as finalizações de pequenos pormenores de arranjos, como o descortinar um carpinteiro para compor e restaurar as portas, que ao longo dos anos tinham perdido o aprumo da juventude e se tinham despedido de alguns bocados de puxadores, embaçadas e retorcidas por humidades e sem exercerem a sua mais nobre função: fecharem-se.

Estas finalizações são daquelas que nunca mais finalizam e a tolerância deixa de funcionar. Já se gastaram todos os restos de compreensão para com os atrasos tradicionais neste tipo de trabalhos e para com os pequenos ajustes daquilo que já devia estar prontíssimo. Ainda por cima com a pandemia pelo meio, as obras esticaram-se até não se poder mais.

Ontem trocávamos impressões sobre esta e outras irritações minhas, olhando displicentemente para o que estava a dar na TV, com olhos pouco observadores e, repentinamente, voltaram os beeps. Comigo estava o representante mais novo da novíssima geração internáutica, perita em Zoom e notificações de gadgets passados e futuros, pelo que exclamei: Estás a ver? São estes os ruídos que, de vez em quando e sem ninguém perceber porquê, a TV grita excitadamente!

Senti sobre mim um olhar apiedado e ligeiramente impaciente: Mas isto não é a TV, é a caixa de música! Depois de emudecer uma resposta torta que assomou aos meus lábios, olhei melhor para a colectânea de coisas que se empilhavam na prateleira imediatamente inferior à da TV, onde estava uma caixa de música com muitos, muitos anos.

Tinha-a comprado em A Coruña, penso que em 1994, quando demos uma volta pelo norte da península passando por Vigo, Santiago de Compostela, A Coruña e Ferrol. Lembro-me que o tempo estava chuvoso e que, ao deambular pelas ruas junto ao mar, encontramos uma loja de brinquedos.

Os meus filhos eram pequenitos e eu fiquei bastante tempo a olhar para vários bonecos, carrinhos e caixas de música. Acabei por comprar uma que mimetizava um baú com brinquedos, linda, linda, mais apreciada por mim do que por eles, diga-se em abono da verdade. Dois anos antes, em Roma, tinha comprado outra, dessa vez uns palhaços bem garridos.

caixa de musica 1.jpg

(Roma)

 

Pois era essa caixa de música, ninguém me pergunte como nem porquê, que estava a fazer aqueles ruídos. A corda está perra e, por vezes, não sei com que estímulo, dá um pouco de si e lá sai um beep. Animados de espírito científico demos corda à caixa e comprovamos que eram mesmo os ruídos da música repartida em sons isolados o que se ouvia.

Este nosso Sherlock riu-se perante o nosso espanto e a minha evidente frustração por não ter decifrado o mistério, devolvendo a caixa de música ao seu lugar ante-obras, na varanda-escritório, onde os beeps se produziam mas não eram ouvidos. Ficou patente a minha incapacidade de encarnar detectives amadores geniais. Estou mais perto dos polícias que só atrapalham as investigações.

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publicado às 18:40



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