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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

O (in)esperado resultado do referendo Britânico

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The Spectator

 

Ao contrário do que tenho lido e ouvido em vários comentários, feitos pelos habituais políticos, economistas e jornalistas, não estou nada surpreendida com o resultado do referendo no Reino Unido. E tenho muita dificuldade em perceber a surpresa generalizada quando, até ao assassinato da deputada inglesa, todas as sondagens davam maior expressão ao resultado favorável ao BREXIT.

 

Por outro lado, há anos que se ouvem vozes muito críticas à deriva tecnocrática, neoliberal e austeritária da União Europeia, à incapacidade das instituições europeias de lidar com as crises humanitárias dos refugiados, demográfica, das dívidas soberanas nos países periféricos, da anemia do crescimento económico, com a divisão entre uma Europa a várias velocidades, com a hegemonia da Alemanha, com o aumento das desigualdades e da pobreza, enfim, com a previsão de que havia cada vez mais possibilidade de desagregação europeia.

 

Outro ângulo de análise a que tenho assistido é a discussão da oportunidade e das motivações do referendo, que todos sabemos ter sido uma manobra de Cameron para garantir a sua sobrevivência política, para desvalorizar o seu resultado. Ou discutir a pertinência de se referendarem assuntos tão complexos, em que a resposta dada pelos cidadãos seja motivada por motivos circunstanciais (como ouvi Helena Garrido defender).

 

Por outro lado, tenho ouvido análises em que se colocam de um lado os defensores do BREXIT como velhos, xenófobos, ignorantes e racistas, do outro lado os defensores do BREMAIN como jovens, informados, livres, tolerantes e solidários. Tenho mesmo visto defender a repetição do referendo, com difusos argumentos de escassa participação ou de campanhas populistas e de medo - será que aceitariam o argumento caso tivesse ganho o BREMAIN?

 

Penso que estamos todos a não querer ver a realidade. O referendo é um instrumento democrático e o maior problema foi o de ter sido parcas vezes usado no que diz respeito à integração europeia. Lembro-me perfeitamente da promessa não cumprida de Sócrates quanto ao referendo ao Tratado de Lisboa. A menorização dos cidadãos, assumindo-se que não compreendem as questões ou as implicações das respostas, de serem manipulados pelas campanhas populistas, etc., pode servir para qualquer tipo de consulta popular, desde as eleições autárquicas às do Presidente da República.

 

As diversas crises que se instalaram na Europa, levando à perda de qualidade de vida, de esperança e de perspectiva de futuro, o descrédito no projecto de solidariedade europeia, o empobrecimento e a sensação de injustiça associada às desigualdades galopantes, a arrogância e pesporrência das Instituições Europeias, com o alheamento dos cidadãos em relação à política, patente em todos os actos eleitorais, predominantemente nos europeus, criaram levam ao aumento do sentimento anti União Europeia, sem que necessariamente se seja xenófobo ou racista.

 

O simplismo da divisão entre os bons (europeístas) e os maus (secessionista) só fará aprofundarem-se as desconfianças e o sentimento de exclusão dos povos. Infelizmente, as Instituições europeias reagiram com o despeito de virgens ofendidas, em vez de permanecerem calmas e de assumirem o resultado do referendo como uma decisão respeitável e democrática, que urge entender, ameaçando e fazendo voz grossa exigindo uma saída rápida.

 

Quero crer que estas situações não se podem resolver rapidamente nem com atitudes de ultraje pessoal. Será a melhor forma de incendiar os sentimentos de rejeição à União Europeia por parte de outros países.

 

É urgente que a União Europeia se remodele e se auto critique, de modo a que os cidadãos dos países que a compõem sintam que a sua existência lhes garante uma vida melhor, mais próspera e mais segura. As pessoas que constituem os povos são soberanas para decidirem. Se deixarmos de acreditar nisso, deixamos de defender a democracia. E os resultados das votações livres são para respeitar, mesmo que sejam o contrário do que gostaríamos que fossem.

 

Continuo a acreditar que a União Europeia foi e é uma organização que nos dá mais garantias de paz, de solidariedade, de crescimento, de tolerância e de interligação cultural. Mas para que continue tem que evoluir e transformar-se, reassumindo esses valores numa União de países soberanos e iguais entre si, que pugnam pelo respeito e consideração mútuas. Para que esse desejo seja uma realidade precisamos de refundar as Instituições, sem medo nem vacilações.

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