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Há que reagir

por Sofia Loureiro dos Santos, em 15.10.20

Declaração De Great Barrington

"Como epidemiologistas de doenças infecciosas e cientistas da saúde pública, temos sérias preocupações sobre os impactos prejudiciais para a saúde física e mental das políticas prevalecentes da COVID-19, e recomendamos uma abordagem a que chamamos Protecção Focalizada.

Viemos tanto da esquerda como da direita, e de todo o mundo, e temos dedicado as nossas carreiras à protecção das pessoas. As actuais políticas de confinamento estão a produzir efeitos devastadores na saúde pública a curto e longo prazo. Os resultados (para citar alguns) incluem taxas mais baixas de vacinação infantil, agravamento dos prognósticos das doenças cardiovasculares, menos exames oncológicos e deterioração da saúde mental – levando a um maior excesso de mortalidade nos próximos anos, com a classe trabalhadora e os membros mais jovens da sociedade a carregar um fardo mais pesado. Manter os alunos fora da escola é uma grave injustiça.

Manter estas medidas em vigor até que uma vacina esteja disponível causará danos irreparáveis, com os mais desfavorecidos a serem desproporcionadamente prejudicados.

Felizmente, a nossa compreensão do vírus está a crescer. Sabemos que a vulnerabilidade à morte da COVID-19 é mil vezes maior nos idosos e doentes do que nos jovens. De facto, para as crianças, a COVID-19 é menos perigosa do que muitos outras doenças, incluindo a gripe.

À medida que a imunidade se desenvolve na população, o risco de infecção para todos – incluindo os vulneráveis – diminui. Sabemos que todas as populações acabarão por atingir a imunidade de grupo – ou seja, o ponto em que a taxa de novas infecções é estável – e que isto pode ser assistido por (mas não depende de) uma vacina. O nosso objectivo deve ser, portanto, minimizar a mortalidade e os danos sociais até atingirmos a imunidade de grupo.

Uma abordagem mais compassiva que equilibra os riscos e benefícios de alcançar a imunidade de grupo, é permitir que aqueles que estão em risco mínimo de morte vivam normalmente a sua vida para construir imunidade ao vírus através da infecção natural, ao mesmo tempo que protege melhor aqueles que estão em maior risco. Chamamos a isto Protecção Focalizada.

A adopção de medidas para proteger os vulneráveis deve ser o objectivo central das respostas de saúde pública à COVID-19. A título de exemplo, os lares devem utilizar pessoal com imunidade adquirida e realizar testes PCR frequentes a outro pessoal e a todos os visitantes. A rotação do pessoal deve ser minimizada. Os reformados que vivem em casa devem mandar entregar alimentos e outros bens essenciais ao seu domicílio. Quando possível, devem encontrar-se com membros da família no exterior e não no interior. Uma lista abrangente e detalhada de medidas, incluindo abordagens a famílias de várias gerações, pode ser implementada, e está bem dentro do âmbito e da capacidade dos profissionais de saúde pública.

Aqueles que não são vulneráveis devem ser imediatamente autorizados a retomar a vida normal. Medidas simples de higiene, tais como a lavagem das mãos e a permanência em casa quando estão doentes devem ser praticadas por todos para reduzir o limiar de imunidade de grupo. As escolas e universidades devem estar abertas ao ensino presencial. As actividades extracurriculares, como o desporto, devem ser retomadas. Os jovens adultos de baixo risco devem trabalhar normalmente, e não a partir de casa. Restaurantes e outras empresas devem ser abertos. As artes, música, desporto e outras actividades culturais devem ser retomadas. As pessoas que estão mais em risco podem participar se o desejarem, enquanto a sociedade como um todo goza da protecção conferida aos vulneráveis por aqueles que acumularam imunidade de grupo."

Dr. Martin Kulldorff, Dr. Sunetra Gupta, Dr. Jay Bhattacharya

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publicado às 08:45


4 comentários

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De JCR a 15.10.2020 às 16:58

São estas as ideias brilhantes, e a não as que ontem o nosso desgoverno deu-nos a conhecer, que todos nós precisamos desde o início desta pandemia!

Só tenho pena é a autora não ter mencionado que esta declaração, encabeçada por 3 epidemiologistas de doenças infecciosas e cientistas da saúde pública, e assinada por outros 36, vêm dos seguintes países, ajudando claro está nas propostas que eles dão, devido às condições existente nesses países:

EUA, Inglaterra, Escócia, Canadá, Israel, Suécia, Índia e Nova Zelândia

Tirando só a Índia, devido infelizmente às condições em que ainda grande parte da população vive, mas nos outros países, a chamada Protecção Focalizada é fácil de ser implementada, coisa que tenho grandes dúvidas que em Portugal se pudesse fazer o mesmo, dado o sistema de ajuda social, ser ainda mínimo, e muito fora do comum, já foi feito, durante o confinamento, mais ainda temos graves deficiências nesse tipo de apoios, com todos os problemas que isso traz à nossa população.

Mas de qualquer forma, agradeço a divulgação desta declaração, após o triste dia de ontem.
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De Jaime Santos a 18.10.2020 às 00:20

Façamos um cálculo simples. Admita-se que a taxa de mortalidade de infeções (não a de casos, que anda nos 2-4%) é de 0,6% como se verificou em estudos serológicos em Nova Iorque (sabe-se apenas que é uma cifra entre 0,15% e 1%).

Esta taxa de mortalidade define-se pelo número de mortos dividido pelo número total de casos, incluindo os assintomáticos, que só é possível estimar na ausência de testes para toda a população.

Como a Covid-19 é uma doença para a qual o R0=2,5 (depende claro dos Países, da cultura dos povos, da estrutura etária, da prevalência de doenças crónicas, etc, mas esse parece ser o valor em Portugal) a imunidade de grupo ou de rebanho seria atingida apenas quando uma fração da população de 1-1/R0=0,6=60% tivesse sido infetada e tivesse recuperado ou morrido.

Quem duvidar deste valor que consulte a apresentação de António Costa de 30/04/2020, página 4 e ainda o artigo relevante na Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Herd_immunity

Ora, 60% da nossa população são 6.000.000 de pessoas. E 0,6% desse valor, 6/1000, dá 6x6.000.000/1000=36.000 mortos.

Ninguém consegue isolar as pessoas mais velhas nos lares, a Suécia tentou uma estratégia de confinamento dito suave e falhou e já vai nos 6.000 mortos.

A ideia de que os trabalhadores dos lares podem ser escolhidos entre pessoas com imunidade adquirida não faz sentido, primeiro porque a reinfeção é possível, segundo porque não é qualquer pessoa que pode trabalhar num lar, é preciso formação.

Espero que os autores não estejam a sugerir infetar os trabalhadores dos lares deixar que se curem ou morram para depois os mandar para lá trabalhar...

A estratégia da imunidade de grupo na ausência de uma vacina é simplesmente imoral...

Quanto a este manifesto, aconselho a leitura do artigo crítico de Sónia Sodha no Guardian:

https://www.theguardian.com/commentisfree/2020/oct/11/the-rebel-scientists-cause-would-be-more-persuasive-if-it-werent-so-half-baked

Diz-se frequentemente que o confinamento é uma estratégia medieval, com razão, foi usada na sua forma presente no final do sec. XIV na atual Croácia:

https://en.wikipedia.org/wiki/Quarantine.

Mas a roda é do Neolítico e não consta que se tenha encontrado uma solução melhor até hoje para o problema da locomoção terrestre rápida.

Não existe naturalmente uma solução ótima para este problema até aparecer uma cura ou uma vacina (ou idealmente as duas). Mas quem fala de imunidade de rebanho na ausência de uma vacina ou não sabe do que está a falar ou espera que nós não saibamos do que fala...
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De Sofia Loureiro dos Santos a 18.10.2020 às 18:11

Vale a pena ouvir os 3 proponentes. Talvez saibam um pouco mais sobre "herd Immunity" do que nós. Do que eu, de certeza absoluta!
https://www.youtube.com/watch?v=rz_Z7Gf1aRE
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De Anónimo a 18.10.2020 às 18:47

Todos têm direito à tribuna, mas se querem realmente ser ouvidos enquanto cientistas e não simplesmente enquanto alguém que advoga uma posição, talvez devessem ter tido o cuidado de não fazer esta declaração num evento organizado por um think tank financiado pela Koch Foundation, como nota a Sonia Sodha no artigo do Guardian acima citado, think tank esse conhecido pela sua actividade de negacionismo em relação à crise climática.

Já sei que me dirão que os argumentos devem ser analisados pelo seu mérito, mas em Ciência eles são também pesados pela autoridade de quem os elenca.

Ora a autoridade destes Cientistas fica abalada nestas condições...

https://bylinetimes.com/2020/10/09/climate-science-denial-network-behind-great-barrington-declaration/

Ver também as sérias críticas à declaração por outros especialistas, assim como ao processo pelo qual outros cientistas podem tornar-se signatários...

Quanto aos cálculos apresentados acima, a sua vantagem é a sua universalidade, não fui eu certamente quem os inventou...

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