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Dos regimes que escolhemos

por Sofia Loureiro dos Santos, em 10.01.21

PR 2021.jfif

Os debates das presidenciais foram dominados por André Ventura. Não que André Ventura se tenha mostrado merecedor disso, mas porque os media o elevaram ao centro de todas as atenções. Não só lhe deram protagonismo naqueles em que era um dos oponentes, na maioria dos casos pela demissão dos moderadores em cumprirem o seu papel, como nos outros em que a sua presença, mais uma vez assegurada pelas perguntas dos moderadores, era imposta.

Mais uma vez o papel dos media nas democracias é crucial, tanto pela indispensável necessidade da sua existência, pela pluralidade de opiniões e pelo escrutínio dos vários poderes, como pela capacidade de manipulação e modelação da opinião pública.

A forma como as prestações são avaliadas, nomeadamente a unanimidade das loas a Vitorino Silva, pela autenticidade, pela criatividade e pelo fantástico uso das metáforas, é espantoso. Chego mesmo a pensar que devo ter uns óculos diferentes dos restantes, pois tudo o que vi foi uma lamentável tristeza de inanidades ditas e reditas por alguém que se está a candidatar, é preciso que não nos esqueçamos, ao cargo de Presidente da República.

Debates de 30 minutos são tudo menos esclarecedores, mesmo que tivessem corrido brilhantemente. Na maioria dos casos as perguntas versaram tudo menos o que de facto importa na Presidência da República. Com raras excepções, como a postura dos candidatos aos acordos e maiorias de governo, por exemplo.

Para conhecer os candidatos, as suas posições políticas e éticas, a sua forma e opções de vida, era preferível entrevistá-los com calma. Assisti a duas entrevistas feitas por Rui Unas a Ana Gomes e a Tiago Mayan que foram muito mais informativas e interessantes que qualquer dos debates.

Penso que o mais importante objectivo destas eleições é reduzir ao máximo a abstenção e tentar mobilizar, no meio da pandemia, os cidadãos a votar. Temos de nos convencer que quanto mais longe estivermos das nossas obrigações cívicas, quanto mais nos demitirmos de intervir e de escolher, participando nos actos eleitorais, mais frágil será o nosso regime democrático.

E todas as eleições são importantes. Esta também é. De um momento para o outro o Presidente pode ser a peça fundamental da nossa vida colectiva. Para isso temos que escolher aquele que pensamos ser a melhor e mais apta pessoa para o desempenho dessas funções.

Os adeptos dos extremismos nunca se abstêm. Os moderados é que negligenciam esse seu dever. Basta assistir ao que se está a passar nos EUA. A omissão e o oportunismo de muitos dos que estavam perto de Trump, que permitiram que aquela criatura se candidatasse a Presidente e que, após a eleição, se mantivesse no cargo à custa de mentiras e de atitudes indignas e que envergonham os mais distraídos, são exemplos a que devemos estar atentos para que não se repitam aqui.

Não, André Ventura não tem graça, não é um fenómeno ridículo e residual. A verbalização dos mais negros instintos do ser humano passou a ser a norma, os insultos e a gritaria, o abandalhar da moral e da ética passou a ser vista como o novo normal, para usar um dos jargões da época.

Ouvi há dias alguém defender que a redução e quase desaparecimento dos hábitos de leitura têm como consequência um enorme encolhimento do vocabulário e da capacidade de elaborar pensamentos mais complexos, o que deixa os cidadãos acríticos e crentes nas mais diversas idiotices, presos dos aldrabões e vigaristas que proliferam. Se olharmos para os nossos aprendizes de Trump não podemos deixar de concordar.

Em tempo de pandemia há formas alternativas de exercer o direito de voto. Basta ir a este link para nos informarmos.

E pensemos, interroguemos as nossas consciências. Julgar os outros é muito mais fácil do que tentar perceber as dificuldades pelas quais passa tanta gente, pelos mais diversos motivos. O racismo, a xenofobia, o desrespeito pelas mais elementares direitos humanos nunca resolveu problemas, só causou caos, miséria e sofrimento atroz. As ditaduras nunca foram a resposta a pandemias, desigualdades, corrupção ou pobreza.

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publicado às 09:27


11 comentários

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De Manuel Gonçalves Pereira Barros a 10.01.2021 às 16:02

Quem orienta a própria opinião pelo que lê nos jornais,ouve na TV e vê na NET ?
A pobre criatura,qual catavento,roda sem parar ao longo do dia e da noite,com saltos grandes quando muda de estação,de jornal ou de blog... frenético,inconstante e bipolar,pelo menos incapaz de encadear uma ideia,seguir um raciocínio, erigir um exemplo.
Os que vivem da palavra,compreensivelmente, tendem a exagerar-lhe a importância. Os comportamentos,a obra feita, a vida vivida,a calma serenidade riem-se das gritarias desbragadas, dos sinos a rebate, dos "ainda eu morra" da pior ralé !
Palavras, leva-as o vento ! Em jornais antigos, leiam o que a canalha do tempo disse e garantiu. Comparem com o dia de hoje e vejam quanto se materializou.
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De Anónimo a 11.01.2021 às 01:58

Relativamente ao que falou sobre "objectivo destas eleições é reduzir ao máximo a abstenção e tentar mobilizar, no meio da pandemia, os cidadãos a votar". É mesmo importante votarmos, não nos devíamos abster, para que como fala e bem, não surjam representantes políticos que tendem a levar-nos para uma não sociedade.

Mas os debates incentivariam as pessoas a irem às urnas numa situação dita normal.
No meio de uma pandemia, deveriam ter sido criadas condições para que as pessoas pudessem votar e que no meu entender não foram.
Deixo aqui uma petição que poderá já não ir a tempo para estas presidências. Mas que dê certo irá para umas legislativas ou autárquicas
https://peticaopublica.com/?pi=PT104953
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De Elvimonte a 11.01.2021 às 13:55

"(...) o que deixa os cidadãos acríticos e crentes nas mais diversas idiotices, presos dos aldrabões e vigaristas que proliferam. Se olharmos para os nossos aprendizes de Trump não podemos deixar de concordar."

Penso que se esteja a referir a isto:

"The Most Extensive Voter Fraud Organization In History"
https://newtube.app/TonyHeller/Ag4CS6F
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De Maria Araújo a 14.01.2021 às 09:12

Pode ser que com o confinamento, e a precisarem de sair de casa, os portugueses vão votar.
Assim espero.
Eu vou.


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De Konigvs a 14.01.2021 às 09:54

É curioso que acabei de aterrar aqui por mero acaso (este blog estava sugerido na newsletter de um outro blog) e, sem nada saber do que por aqui se escreve, gostei e em traços gerais concordo totalmente.
Este ano não será a praia ou o clássico de futebol a ser o bode expiatório duma abstenção de 50% mas sim aa costas largas da pandemia. Por estes dias uma colega dizia-me aqui no trabalho que não iria votar por medo da pandemia (tal como os meus pais já me tinham dito). Respondi-lhe perguntando - "mas medo de quê? Escolhes uma hora que saibas que tem pouca afluência, estás sempre a dois metros da pessoa da frente, levas a tua caneta de casa, pegas no papel e fazes a cruz, sais e desinfetas as mãos. Medo de quê? Não vais ao supermercado fazer compras? Acho que deverias votar, mesmo que fosse no facho, porque é aí que nos manifestamos verdadeiramente e a nossa opinião conta". Os meus pais irão votar no Vitorino Silva. Eu estou indeciso entre três candidatos e tenho motivos válidos para votar em qualquer um deles. Não tentei manipular os meus pais e poderia fazê-lo. Não acho que temos que menosprezar um candidato só por ser mais humilde no discurso e ter uma certa gaguez. Uma amiga minha esteve com ele na recolha de assinaturas e disse-me não tem dele uma boa opinião, porque tem um discurso ensaiado e não tem um pensamento profundo sobre temas que não domina. Mas, precisamente por estarmos a falar do carga de presidente da república e não de deputado (e possível 1ºministro) os candidatos só têm que saber ouvir, ouvir mais do que falar, e conhecer muito bem a Constituição (que outros querem rasgar e reescrever, como se os crentes quisessem queimar esta bíblia e escrever uma outra, com a palavra de Deus que lhes fosse mais favorável e menos austera.

Sobre a questão da leitura não sou assim tão perentório, e não creio que tenha sido por ter nascido num lar onde só existia um livro que ninguém lia: a Bíblia. Há uma frase que gosto muito e que Elis Regina disse numa entrevista, qualquer coisa como: "Se a gente conversar a fundo mesmo com o jardineiro que está lá arrumando nosso jardim, a gente aprende mais do que lendo O Capital Karl Marx. É essa sabedoria empírica da vida que o candidato calceteiro tem e que nenhum outro candidato possui porque vive numa bolha privilegiada. Mas sobre os livros, e agora que leio uns quantos por ano, não considero que as pessoas que lêem possam melhor capacitadas para exercer a sua cidadania. Recentemente ficamos a saber, por exemplo, que o escritor mais lido no país acha que havia piscinas em Auschwitz, e que os nazis eram pessoas beneméritas e faziam o bem aos levar os judeus para as câmaras de gaz. Depois temos outros exemplos mais práticos, como por exemplo, as pessoas do concelho com mais licenciaturas decidiram que a pessoa que melhor os representaria na câmara municipal era um cidadão condenado em tribunal a sete anos de cadeira por corrupção. Então tanta instrução e leitura serve afinal para quê? (continua)

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De Konigvs a 14.01.2021 às 09:54

O meu avô foi abandonado pelo pai (pessoa que até tinha terrenos) e  ficou sem nada e teve que andar a pedir com o irmão para sobreviver e depois a servir nas casas das "pessoas de bem" em que se passava fome de criar bicho mas em que se rezava sempre todos os dias a missinha. Ele mal sabia ler e escrever mas cresci a vê-lo indignar-se quando alguém falasse o nome de Salazar. Ouvi-o contar com orgulho, que nem à mulher (minha avó) dizia que votava sempre nas eleições (fraudulentas) contra o candidato do regime.

Há coisas que me chocam hoje em dia. Vivemos tempos de muita formação, diz-se até que nunca tivemos tantos universitários, tanta informação oficinal disponível à distância de um clique (já quase não é preciso ir para a biblioteca) mas ironicamente nunca fomos confrontados com tanta ignorância generalizada, ignorância que choca - como toda esta gente negacionista das máscaras - e se esta pandemia tem sido útil é mesmo a revelar uma ignorância transversal, não só de pessoas humildes que partilham notícias falsas na internet, mas de gente com relevância, médicos, historiadores, comentadores-tudólogos que sabem tudo sobre todos os assuntos a dizerem as maiores barbaridades

Vivemos uma cultura do espetáculo, de desinformação, de falta de valores. E talvez por isso mesmo nunca como hoje foi possível vermos o mal, o pior da sociedade a crescer e contaminar os ignorantes. Tivemos 48 anos de ditadura, uma polícia política, repressão e censura, milhares de mortos, um partido único e eleições fictícias, e não foi há tanto tempo assim e será que não aprendemos mesmo nada?
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De Sofia Loureiro dos Santos a 14.01.2021 às 16:40

Obrigada pelos seus comentários.
Penso que a leitura é um bem em si mesmo e sim, penso que ajuda à elaboração de pensamentos e crítica. Exemplos particularizados não o desmentem.
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De Anónimo a 14.01.2021 às 11:15

Calculo que anda distraído, ou talvez não,empurra-nos de mansinho para dois patarecos e mistura-se com eles. Gato escondido...
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De Joao Vimarae a 14.01.2021 às 12:34

Eu não voto neste sistema Republicano.

O meu sistema é outro e vamos ter a maior abstenção de sempre

Arranjem novas personagens como o Sr. André e outros, que o barco, qualquer dia fica sem vento, sem combustível, isto vai rebentar pelas costuras.

Em todos os governos era o défice, o aperto da Finança, os custos, os impostos, era uma loucura, então e agora os Impostos ?

Tanto sacrifício de todos nós, vocês todos não tem memoria curta ?

Só dividas, buracos financeiros e agora, onde para a história da Divida ?

Tanta mentira, para nada. Eu votar, não. Nem vale a pena.

Eles já escolheram entre os pares, precisam de nós todos, para lhes darmos a vida de Lorde e santa que esta gente tem, coitadinhos somos nós, que trabalhamos para esta coisa.


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De laf a 14.01.2021 às 16:26

André Ventura só serve para nos lembrar sempre onde traçar a linha. À partida se concordarmos, mesmo que em parte, com as coisas que vai dizendo, é porque provavelmente estamos errados.
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De pedro a 14.01.2021 às 20:31

o post é daquelas poucas peças , que qual frei qualquer coisa, só podemos elogiar. E até assinar por baixo. Mesmo se se for mais indiferente, se se for ceptico, todavia militante inegociável da superioridade total da democracia .

Diria até que o post é um bom favor.

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