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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Dos enganos mexicanos

 

Hoje tem estado um verdadeiro dia de Verão, com sabor a férias. Pouca gente em Lisboa, o ar morno, uma leve brisa refrescante, ideal para se almoçar numa esplanada em frente ao rio.

 

E porque não o restaurante La Siesta? Já há muito tempo que não íamos lá, pois a penúltima visita tinha sido decepcionante e a última nem sequer se tinha concretizado. Mas os anos passaram e podia ser que as coisas tivessem melhorado.

 

Lá fomos, uns minutos antes das 13:00h. Muitos lugares de estacionamento, um homem velhote em calções (ou cuecas) em frente à porta, por baixo de uma palmeira, acompanhado por uma criança nos mesmos preparos, a gozarem banhos de sol. Uma parte da esplanada em obras, com os andaimes bem visíveis e os plásticos que os cobrem esvoaçando como roupa a secar em corda.

 

Mas isso são minudências de gente fina. Entrámos e o fresco e o ambiente ligeiramente sombrio foram muito acolhedores, com a decoração tal como a lembrava feita de chapéus, muito pau, palha, flores e cores garridas. Ninguém perguntou se havia reserva o que foi logo um alívio e uma surpresa muito agradável, pois a sala e a esplanada estavam praticamente vazias. Sentámo-nos e escolhemos: ensalada mixta con enderezo de aguacate (salada mista com abacate), tacos pastor (cubos de porco com queijo em totilhas de milho) e pollo con azafrán (frango com espinafres e açafrão). Nas bebidas as opções foram curtas - cervejas só de garrafa; das mexicanas - nem Sol, nem Dos Equis, só Corona. Portanto pedimos Corona e sangria a copo (estava bebível).

 

Para entreter fomos comendo totopos e salsa mexicana (salada de tomate em cubos com coentros e tiras de milho). O serviço não foi muito lento, felizmente, e os empregados são simpáticos, mas nada que nos envolva muito.

 

A comida, para dizer com franqueza, foi semelhante à que se comia num restaurante mexicano que existia no Centro Comercial Colombo, há bastante tempo já (não sei se ainda existe), na esquina daquela grande área de restauração, que ficou célebre porque, uma noite em que fomos lá jantar, a Empregada da recepção, devidamente paramentada com folclore mexicano, perguntou numa voz arrastada de quem está a fazer um frete monumental:

- Fumadores ou não fumadores?

Respondemos:

- Não fumadores.

Retorquiu:

- Só tem fumadores...

Houve logo quem se lembrasse de comentar, mais tarde e no recato de uma mesa dos fundos:

- Quer empregada esperta ou empregada burra?

- Empregada esperta.

- Só tem empregada burra...

 

Mas passemos adiante: a ensalada estava enjoativa, não sei se do abacate se do molho esbranquiçado e sem tempero, ou da cebola crua bastante potente; as tortilhas dos tacos pareciam ter sido compradas no Continente e descongeladas à pressa; o porco estava seco e a única coisa que ligava os vários pedaços era o queijo derretido, o que dificultava o trincar do taco, caindo inexoravelmente pedaços de porco para todo o lado; o frango estava razoável mas muito pouco condimentado.

 

As sobremesas ofereciam-se gulosas e ninguém resiste a um merengue con dulce de leche (caramelo) e manga ou a uma mousse de chocolate branco, que estava bastante boa e vinha com uma bola de gelado de chocolate e uma fatia de kiwi (dispensável).

 

O merengue, entre o pedido e a chegada à mesa, transformou-se em farófias; o dulce de leche desapareceu e a manga acompanhou-se de papaia. Não era mau, mas nem por sombras se aproximava do prometido. Café normal e conta astronómica!

 

À saída tinham desaparecido os veraneantes que deixaram, no entanto, um rasto de roupas e sacos amarrotados e pouco asseados.

 

Seguramente a não repetir. Estaremos outros 5 ou 10 anos sem nova investida experimental. Salva-se o espaço que é muito bom e a vista sobre o Tejo, de uma calma e uma paz deslumbrantes.