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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

De Dieppe a Dunkerque

 

A ideia era passar em Crecy, local da batalha do mesmo nome, um dos confrontos entre franceses e ingleses (que o ganharam) na Guerra dos Cem Anos (26 de Agosto de 1346). Sabíamos inclusivamente que havia um museu que gostaríamos de visitar.

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Sítio da batalha de Crécy 

 

Até lá percorremos quilómetros e quilómetros de terra plana, totalmente cultivada, em que não se via vivalma. Passámos por alguns agrupamentos de casas, de vez em quando, onde fomos obrigados a respeitar uma velocidade máxima de 50 ou 30 Km/h, até chegarmos ao poiso escolhido para a noite. Confesso que estava um pouco apreensiva, pois apesar do meu tão apregoado amor pelo campo, pelo silêncio e pela solidão, tanta solidão, tanto silêncio e tanto campo também me pareciam um pouco exagerados. Só me lembrava que de noite, se o céu estivesse limpo (o que não era o caso), poderíamos ver um céu totalmente estrelado, pois não se via uma única luz à volta, nem de casas nem pública. Ou como estava nublado, seria de uma escuridão assustadora.

 

Mas o sítio em que ficámos - La Nicoulette, em Saint Riquier, Gaspennes – era muito simpático, num quarto húmido, mas acolhedor e confortável. O rapazinho que nos recebeu, o filho do dono, aí com os seus 10 anos, totalmente desembaraçado, a explicar-nos as especificidades da chave e da abertura da porta, em francês e em inglês, era enternecedor.

 

Fomos então em busca do museu de Crécy, que encontrámos. Era composto de 3 salas, 1 dedicada à Batalha de Crécy, outra com a exposição de vários artefactos arqueológicos da Idade Média encontrados na zona, e outra dedicada à II Guerra Mundial, pois em Poitiers estavam localizadas as rampas de lançamento das bombas voadoras V1.

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Crónicas de Jean Froissart

 

O senhor que nos atendeu foi amabilíssimo, fartou-se de conversar sobre as batalhas de Crécy e Azincourt, sobre a Guerra dos Cem Anos e sobre bombas voadoras. A sua felicidade era evidente. Suspeito que não serão muitas as vezes em que um dos visitantes sabia tanto do assunto, dando-lhe oportunidade de trocar impressões e falar sobre as dinastias inglesas e francesas, dos Borguinhões e dos Armagnacs, das tácticas de batalhas medievais, etc. Acompanhava-o uma senhora, apresentada como sócia da Association EMHISARC, que estava verdadeiramente deliciada com o(s) visitante(s). Um muito pequeno núcleo museológico mas que nos deu um prazer imenso visitar.

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Museu de Crécy

 

No dia seguinte, depois de um pequeno almoço revigorante e completamente caseiro, partimos precisamente para Azincourt, onde partilhámos a visita ao museu com um grupo de miúdos de uma escola local, dos seus 8 ou 9 anos, que estavam divertidíssimos a experimentar a força que os besteiros tinham que fazer para poderem disparar as bestas, mas que se aborreceram mortalmente a ouvir excertos de Henrique V, de Shakespeare. A rapariga que guiava a visita, muito jovem, estava totalmente compenetrada do seu papel e desempenhava-o muito bem.

 

A seguir a 1944 (desembarque na Normandia) e a 1942 (Dieppe), só faltava uma batalha, ou o que dela resultara, de 1940 - Batalha de Dunkerque. Da praia foram depois evacuados cerca de 340.000 soldados, predominantemente britânicos mas também franceses (alvos fáceis de bombardeamentos inimigos), fugidos e cercados pelos alemães que, entretanto, tinham avançado pela França a uma velocidade avassaladora. Foram resgatados por milhares de barcos ingleses, numa operação chamada Dínamo (esta operação foi tema de um filme de que já aqui falei).

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A praia é grande, um areal imenso que é difícil imaginar pejado de homens, aguardando pelo seu resgate.

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 Finalmente, para descansar de tantas batalhas, fomos para Bergues, ao Bienvenue Chez Nous.

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Igreja de St. Martin

 

Sentimo-nos mesmo bem vindos, numa casa recuperada para turismo de habitação, com uma dona que adorava Portugal e nos contou as suas experiências gastronómicas em Guimarães, com cabrito assado.

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La vie en rose

Marianne Michel