Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Das proibições

Tenho estado um pouco afastada dos blogues, do facebook e das notícias em geral, um pouco pelos afazeres, muito por não ter nada de novo para dizer e muito também pelo mergulho nessa lama triste em que me sinto enrolada. Talvez por isso me assustem e me fascinem cada vez mais as ondas de indignação e violência que assolam as redes sociais e os media, a total inconsistência e superficialidade com que se abordam assuntos sérios, dramáticos mesmo, sem qualquer respeito pelos factos e pelas pessoas, utilizando-se em grande escala a boa-fé com que tantos se empolgam e exigem absurdos.

 

Transforma-se em assunto internacional os amores, desamores, infidelidades e arrufos do Presidente da República francês, trazendo para a praça pública as desavenças conjugais, os internamentos e os problemas psiquiátricos de Valérie Trierweiller que, pelo facto de viver com o Presidente francês, passa a não ter direito à reserva de intimidade. Qual é a relevância deste facto para os graves problemas políticos da República francesa e da Europa? Que nos interessa se François Hollande é a reencarnação de Dom Juan? Qual vai ser o limite para a polícia dos costumes nesta Europa tão liberal e democrática?

 

Tudo se comenta e expõe, desde as preferências sexuais aos hábitos tabágicos e alcoólicos, metendo tudo num saco em que a imagem das virtudes públicas  e a obrigação das virtudes privadas se impõe como modelo. A ditadura dos comportamentos, em que a vigilância mediática se empenha, desde a correcção da linguagem até ao esquadrinhamento dos hábitos gastronómicos, especialmente os de ingestão alcoólica, encontrou agora outra causa célebre – a proibição das praxes. A propósito de uma tragédia que ainda ninguém sabe exactamente como aconteceu, pede-se já o fecho da Universidade Lusófona com a punição dos responsáveis.

 

Uma vez mais sou, e sempre fui, contra as praxes. Acho ridículos os trajes académicos, que fingem uma tradição que não têm, acho disparatados os rituais, falta-me a paciência e o entendimento para aquela forma de iniciação de grupo, para aquela capacidade de pertença e de dependência total. Não compreendo estas entregas como não as compreendo nas claques de futebol, nas associações fundamentalistas de defesa dos animais, nos grupos que decidem apenas ingerir coisas cruas, e tantos outros. Mas isso não justifica a proibição da existência desse tipo de grupos, a não ser que pratiquem qualquer tipo de actos criminosos.

 

Que os responsáveis pela prática destes actos criminosos sejam punidos, que os dirigentes das universidades que aceitam que se cometam actos criminosos perpetrados por associações em seu nome, sejam responsabilizadas, é urgente. Mas convém que não caiamos na sanha persecutória e pirómana de queimar na santa inquisição tudo e todos os que defendem e praticam rituais de iniciação, mesmo que, para nós, eles sejam disparatados e ridículos, desde que sejam livremente aceites e não sejam crimes.

 

1 comentário

Comentar artigo