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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Das indignações de termo incerto

 

 

 

Devo andar muito distraída ou cada vez mais vendida ao grande capital e à exploração desregrada dos trabalhadores, visto que fui surpreendida com uma indignação que alastrou qual incêndio em palha seca pelo facebook, a propósito de iogurtes oferecidos pela Danone a alunos estagiários, de uma reportagem da RTP sobre a opinião dos jovens estagiários, e de um programa da Antena 1, com Isabel Stilwell e Eduardo Sá que opinavam contra a indignação dos estagiários.

 

Ou seja, a indignação é o elemento comum de toda esta história descabelada. Além disso descobri que, no serviço onde trabalho, afanamo-nos a proporcionar estágios curriculares a vários alunos mas, pelos vistos, deveríamos recusar-nos a fazê-lo, para não os humilhar. E ainda por cima há uma espécie de tradição em que os alunos oferecerem um bolo ao serviço, no último dia de estágio...

 

Antes de mostrarmos tanto escândalo, talvez não fosse má ideia perceber exactamente do que estamos a falar para não confundirmos as coisas.

 

Estágios curriculares - são períodos de semanas a alguns meses, integrados nos curriculos dos vários cursos/ licenciaturas, que as várias instituições de ensino contratualizam com empresas, para as vertentes práticas das várias formações. Estes estágios obedecem a um determinado programa, têm responsáveis ou tutores que, pelo menos no nosso caso, não auferem qualquer remuneração, que devem delinear o dito programa, supervisioná-lo e avaliá-lo, com provas práticas, relatórios, etc. Estes estágios são parte integrante dos cursos/ licenciaturas, que não podem ser concluídos sem eles. Os estagiários não são, como me parece absolutamente lógico, remunerados.

 

Estágios profissionais - períodos mais ou menos longos em que pessoas já com os graus de licenciatura e/ou cursos completos ficam em empresas, iniciado-se na actividade profissional, habitualmente ainda sem autonomia total, que funciona como integração, sujeitos a uma avaliação do desempenho pelo empregador. Estamos a falar de um contrato, mesmo que em períodos experimental e que deveria ser obrigatoriamente remunerado - coisa que não o é, na maior parte dos casos.

 

Estágios voluntários - períodos com duração máxima de 3 meses, segundo creio, em que pessoas já com os graus de licenciatura e/ou cursos completos pedem para se integrarem numa empresa que tenha possibilidade de os acolher, para enriquecimento curricular e aquisição de experiência. Estes estágios multiplicam-se por vários períodos dada a ausência de oferta de empregos. Estes estágios não são remunerados e, obviamente, deveriam sê-lo. Estes casos só existem porque o desemprego é galopante e são uma forma de mantenção do contacto com o mundo profissional. Esta é, de facto, uma exploração indevida de mão-de-obra a custo zero.

 

Os estagiários que tanto se indignaram com a Danone pertencem ao 1º grupo, pelo que não entendo a indignação deles, não percebo a razão da indignação incendiária do facebook e percebo, além de concordar, com a visão de Isabel Stilwell e de Eduardo Sá.

 

Estou portanto caduca e rendida aos mais férreos valores conservadores e opressivos do neoliberalismo, uma velha caquética que se esforça por colaborar na formação prática dos jovens.

 

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