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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Das eruditas refeições

Não sei porquê, mas já há algum tempo que tinha vontade de comida indiana. Suspeito que pela quantidade de saladas, frangos, galinhas e perus, peixinhos grelhados ou cozidos, 2 a 3 esquálidas peças de fruta por dia, iogurtes magríssimos e sem pinga de açúcar, sementes de linhaça, girassol e mais que agora me escapam, para além dos treinos dignos de uma recruta, a necessidade de desbundar é avassaladora.

 

Independentemente do motivo, decidi que era altura de avançar sem medo nem culpa para o Kerala, que a pesquisa na internet me devolveu como um dos melhores restaurantes de comida indiana em Lisboa, mais precisamente em Campo de Ourique, na Rua de Infantaria 16, nº 37A.

 

Convém dizer que Campo de Ourique é um bairro de que gosto particularmente, manifestando sempre esse gosto em voz alta, de cada vez que lá vou. Convém também dizer que sou muito ignorante em imensas coisas, sendo uma delas a geografia.

 

Lá fomos muito contentes, eu e o meu companheiro de aventuras culinárias (e outras), rezando para encontrar lugar de estacionamento, o que até nem foi difícil. Esperava-nos uma sala espaçosa, rectangular, com as mesas dispostas dos lados maiores, ao fundo a zona técnica, sobriamente decorada, com as cores habituais e alguns quadros nas paredes, também do tipo habitual. Comemos muito bem.

 

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Embora estas incursões na culinária possam estar associadas a acontecimentos insólitos que já não me deviam espantar, a verdade é que continuam a fazê-lo. Bem me lembro de um restaurante brasileiro em que o meu companheiro resolveu discutir com o empregado não só a sua naturalidade nesse imenso Brasil, como o conhecimento do hino brasileiro. Conversa puxa conversa e a certa altura estava o pobre empregado a cantarolar o hino para provar que o conhecia. De outra vez, a mesma excêntrica companhia levou para o almoço, num restaurante chinês a que íamos frequentemente, um livro que andava a ler para perguntar, indicando o nome numa página, como se pronunciava em chinês Chiang Kai-shek. A dona do restaurante, que falava muito mal o português, ficou embasbacada e muito divertida, apontando os seus 2 indicadores simetricamente para a sua testa, não sei bem se a louvar a curiosidade de quem perguntava se a chamar-lhe louco, ou se apenas a rir da pronúncia dele.

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Enfim, e para encurtar a história, no meio do caril de peixe, depois de uma famosa chamuça de vegetais, fiquei a saber que Kerala é um dos 28 estados da Índia, por sinal o mais alfabetizado, com melhores níveis de saúde e de cultura, que a língua lá falada é o malaiala, e que as religiões se distribuem entre 55% Hinduísmo, 26% Islamismo e 18% Cristianismo. Fiquei ainda a saber que os donos, de estatura baixa, eram de Kerala e que estavam cá há poucos meses, tendo aberto o restaurante em Março.

 

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Pode ser pela minha falta de conhecimentos em tanta coisa, mas fico sempre espantada com alguém que parece passar os dias a ler enciclopédias. Por isso quando, à noite, ao vermos um excelente documentário na Netflix sobre 5 realizadores de cinema importantíssimos durante a II Guerra Mundial – “Five Came Back” (John Ford, John Huston, George Stevens, Frank Capra e William Wyler), e se contava como John Huston tinha sido enviado às ilhas mais longínquas dos EUA, ao ouvir à minha direita “Pois, as ilhas Aleutas”, fartei-me de rir, causando o embaraço envergonhado do dito erudito.

 

A verdade é que ainda fiquei a saber que a capital de Kerala é uma cidade de nome impronunciável (Thiruvananthapuram), e que os naturais de Kerala comem arroz a todas, mas todas, as refeições.

 

De facto, adoro!