Da revolução dos cravos

Salvador Dali
Aquilo que move e embala o colectivo (nós - o povo), aquilo que nos faz sentir unidos e em marcha, é a partilha de um objectivo comum que nasce de um valor universal, algo que nos seja exterior e interior, que se ancore naquilo que podemos fazer pelos outros, pela comunidade, logo por nós próprios.
Somos capazes dos maiores sacrifícios se os entendermos necessários a um bem maior. Por isso prescindimos até da vida - seja por amor à liberdade ou aos filhos. Essas emoções são muito bem aproveitadas por todos os totalitarismos e também, mais raramente, pelos regimes democráticos, em épocas especiais e que se revelam revolucionárias, pelas consequências nas organizações e prioridades das sociedades em que nos inserimos.
Estamos a precisar de algumas ideias libertadoras, que nos unam e nos inspirem como comunidade, tal como aconteceu a 25 de Abril de 1974. Nessa altura a esperança e a mobilização pelos ideais de liberdade, democracia e desenvolvimento foram o cimento que nos uniu, com muitas dores mas com muita paixão e alegria.
Estou convencida de que precisamos de um novo contrato social, de uma nova organização laboral, de uma nova relação com a natureza, de uma nova realização na maternidade e na paternidades, de uma nova relação entre o individual e o colectivo. Precisamos de nos renovar e de nos inovar, reaprender a essência e redistribuir os excedentes. Precisamos de políticas que subordinem a economia ao bem público e aos cidadãos, que repense o território, que invista na criatividade e na cultura, que incentive o auto conhecimento e a solidariedade, que mobilize a generosidade, que semeie a igualdade de oportunidades, que saiba gerir as capacidades e que seja inclusivo.
Parecem palavras vagas e ocas. Mas convinha que lhes déssemos o seu verdadeiro significado e lhes retribuíssemos o seu verdadeiro valor. Às vezes são as coisas mais simples as que geram maior felicidade. Não vejo melhor forma de reafirmar a revolução dos cravos.