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Da responsabilidade colectiva

por Sofia Loureiro dos Santos, em 26.12.15

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É-me tão difícil falar sobre este assunto como não o fazer. É de tal modo grave e inaceitável que a procura das razões é inevitável, ou deveria ser, para que tal não se repetisse.

 

Nos últimos dias ficamos a saber que desde 2013 não havia equipa de neurorradiologia e que, a partir de 2014 também de cirurgia neurovascular a operar aos fins-de-semana nos Hospitais de São José e de Santa Maria. Ficamos ainda a saber que o Ministério da Saúde foi indagado sobre este facto também desde 2013, pelo BE, e que o DN falou no assunto no início deste ano.

 

Multiplicam-se as justificações e as insinuações por parte dos envolvidos. Uma equipa é composta por vários tipos de profissionais e, portanto, basta que haja falha de um deles para que se inviabilize a existência da mesma. Entretanto já se brandem os juramentos de Hipócrates e os vários editoriais mais ou menos inflamados, mais ou menos informados.

 

Várias pessoas morreram. O que se passou depois da primeira morte? Como se chegou até ali? Ninguém fez nada, ninguém disse nada, ninguém fez um escândalo? Quando falo de ninguém englobo os próprios profissionais no terreno, todos, os Directores dos Serviços, os Chefes de Equipas de Urgência, os Directores das Urgências, os Directores Clínicos, as Administrações Hospitalares, os Sindicatos, as diferentes Ordens dos Profissionais. Onde estão as greves, as cartas abertas ou fechadas aos vários patamares de decisão técnica e administrativa?

 

E nós, que lemos o DN e não nos indignámos? E nós, cujo familiar morreu e não reclamámos? E nós médicos, quais as linhas vermelhas que nos traçámos? Hipócrates é apenas mais um anacronismo de uma pseudo deontologia que necessita de se alicerçar em grandes intenções e em grandes palavras. O que importa é aquilo que fazemos, não o que juramos seja lá por quem for. O que importa é que todos os dias actuemos empenhadamente para melhorar a vida dos nossos doentes, seja atendê-los o mais rapidamente possível, seja ajudá-los a entenderem o que lhes dizemos, seja investigarmos livros, consultarmos internet e incomodarmos outros colegas para fazermos um diagnóstico, seja perdermos tempo com papéis e administradores para conseguirmos medicamentos, seja recusarmo-nos a pactuar com situações que façam perigar a qualidade da nossa assistência.

 

A frase não me pagam para isto que tantas vezes dizemos ou ouvimos outros dizerem, pode ter consequências desastrosas de que nem nos apercebemos pois, em boa consciência, achamos que nos basta cumprir procedimentos, horários e/ ou formulários para justificarmos o descontentamento pela escassa e pouco digna remuneração, falta de condições de trabalho, horas de cansaço galopante.

 

A forma como se actuou na saúde, aliás como em muitos outros sectores, foi criminosa. Mas os cortes existiram em todo o País, pelo que não pode ser apenas essa a justificação de tanta incúria e desleixo. O sistema falhou não uma mas, pelo menos, 4 vezes e ninguém actuou nem ao fim da primeira, nem da segunda, nem da terceira, nem da quarta. E a única razão de ter sido divulgada agora é a existência de uma queixa dos familiares da última vítima, um homem de 29 anos.

 

É demasiado mau, demasiado grave, demasiado triste, demasiado assustador.

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publicado às 12:50


8 comentários

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De Cristina Loureiro dos Santos a 26.12.2015 às 14:31

Demasiado triste sim.
E aterrador também.
:(
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De Jaime Santos a 26.12.2015 às 19:23

Bravo pelo seu artigo. Uma reflexão serena, mas plena de indignação. As demissões atuais eram inevitáveis face até à necessidade de se conduzir um inquérito rigoroso e sem peias, mas tivessem elas ocorrido na devida altura e com o devido alarido, e quem sabe talvez se pudessem ter salvo umas quantas vidas...
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De Anónimo a 27.12.2015 às 11:59

Filho,irmão e cunhado de excelentes médicos,sinto-me muito constrangido quando tenho a tentação de comentar situações como esta. Afigura.se.me que o ACESSO ao Curso de Medicina se tornou um investimento,e o método de acesso ("bicha" única de nível nacional ) afasta muitos potenciais bons médicos,que nunca diriam,como Sofia lembra no "ponto fulcral"..." não sou pago para isto..." nem suportariam um bastonário que enlameia o MÚNUS médico ao argumentar,"urbi et orbi" com o preço HORÁRIO do trabalho médico,em comparação com uma "mulher-a-dias"
Cumprimentos afectuosos,"kyaskyas"
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De Sofia Loureiro dos Santos a 27.12.2015 às 16:41

Muito obrigada pelo seu(s) comentário(s).
O meu constrangimento é idêntico.
Desejo-lhe um bom ano de 2016.
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De João a 27.12.2015 às 22:11

Muito se escreveu sobre este caso, que acabou por ser mais do que isso, tornou-se um enorme assunto para séria reflexão sobre o SNS.
E de tudo o que li, embora útil, nada foi tão bem escrito como este post.
Ficam muitas dúvidas, mesmo muitas sobre o SNS, mais do que isso sobre as pessoas de carne e osso que fazem essa "máquina".
Mas fico bastante feliz com isto, em 8 parágrafos está aqui uma reflexão muito sóbria e nada política sobre um problema que nos pode afectar a todos. É obra.
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De Makiavel a 28.12.2015 às 10:29

O erro que originou directamente este trágico desfecho tem a a ver com o facto de, no hospital de Santarém (e pelos vistos, na maioria da população) não se saber que no Hospital de S. José e de Sta. Maria não havia equipas de neurocirurgia de prevenção ao fim-de-semana. Outros centros hospitalares no país têm essa valência. Tivesse o paciente sido enviado para Coimbra ou Porto e talvez o desfecho fosse diferente.
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De Teodoro a 28.12.2015 às 11:31

É de esperar sim, que algum dia, se dê inicio a uma responsabilização que não passe apenas pela destituição dos cargos, e neste campo o Ministério da saúde do anterior governo e a administração do hospital, têm graves responsabilidades. A responsabilização criminal por atos de gestão danosa é fundamental.

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