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Da (re)afirmação democrática

por Sofia Loureiro dos Santos, em 26.06.16

democracia.jpg

 

Desfilam comentadores e jornalistas a repetir à exaustão que os jovens votaram a favor da manutenção da Grã-Bretanha (GB) na União Europeia (EU) e que agora vão ter menos oportunidades de emprego, para além de se informarem os cidadãos de que os jovens se manifestam na rua e na internet contra a saída da GB da EU.

 

Portanto: os jovens são, por definição, mais bem informados, e estão a sofrer as consequências da ignorância, xenofobia e racismo dos velhos, que os querem fechar dentro das suas fronteiras, impedindo-os de procurar a felicidade fora do seu país.

 

Convinha que alguém fizesse a pedagogia da democracia:

  1. As manifestações de rua e nas redes sociais não são semelhantes nem substituem os votos em eleições livres.
  2. As votos valem todos o mesmo, sejam eles de um analfabeto, de um universitário, de um velho ou de um jovem – alguém quer limitar o direito a votar? Quem será então detentor das condições para o poder exercer? Faz-se algum teste de cultura geral para assegurar uma informação mínima? Impede-se o voto após a idade da reforma ou aos 55 anos, dependendo da definição de velho?
  3. A democracia assenta na aceitação dos resultados, respeitando vencedores e vencidos.
  4. Sempre houve movimentos migratórios, antes e depois da EU, e sempre haverá, mais ou menos dificultados, mais ou menos burocratizados.

 

E já agora, que tantas estatísticas estão a ser feitas e analisadas, que tal perguntar a esses jovens que se manifestam nas ruas e nas redes sociais quantas vezes foram exercer o seu direito de voto, quantas vezes participaram em campanhas eleitorais, quantas vezes discutiram e debaterem política, nomeadamente os seus direitos e deveres de cidadania?

 

É muito importante que deixemos todos de nos comportar como crianças a quem tiraram um brinquedo. Temos que saber respeitar um povo que se exprimiu, gostemos ou não da sua vontade maioritária, perceber as razões dessa decisão e lutar, com argumentos e democraticamente, que a outra opção era melhor.

 

Talvez na próxima consulta eleitoral mudem de ideias. Essa é uma das vantagens da democracia – nada é imutável ou definitivo, tudo se pode alterar, sempre que o povo - todo - assim o decida. E o povo é a amálgama de velhos e novos, pretos e brancos, altos e baixos, ricos e pobres, ignorantes e sábios, rigorosos e mentirosos – um cidadão um voto – democracia.

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publicado às 09:48


4 comentários

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De Harmódio a 27.06.2016 às 16:48

Convém não esquecer que o desinteresse pelo processo eleitoral não é exclusivo dos jovens. É apenas mais claro neles porque são os que possuem uma visão mais mercantilizada da vida. Muitos já cresceram numa época sem pretensões a ideais de qualquer espécie, a luta do homem contra homem, numa feroz competição material. Onde está a responsabilidade de regimes "democráticos" (seria outra discussão mas em boa verdade a maioria seriam apenas republicanos) que cederam o poder político a interesses comerciais? Que falharam a inspirar as novas gerações? Que abandonaram grande parte da sua cidadania e apenas se lembram que existe um povo quanto precisam dele para validar a sua existência?

Não basta pedir aos cidadãos para serem activos. É preciso também exigir ao regime que tenha um mínimo de qualidade. Senão ninguém o irá defender.
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De Sofia Loureiro dos Santos a 27.06.2016 às 19:13

É verdade que o desinteresse pelo processo eleitoral não é exclusivo dos jovens. Apenas o referi a propósito do enfoque que se deu, neste referendo, aos jovens, coisa que não tenho visto ser analisado da mesma forma noutras eleições.

Quem senão os cidadãos para exigirem ao regime qualidade? Lamento mas não me parece que a responsabilidade seja exterior a nós - todos somos cidadãos, os eleitos e os eleitores.
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De Harmódio a 27.06.2016 às 20:22

Isso talvez fosse verdade se “nós”, cidadãos, fossemos o regime. Mas não somos. Vivemos sob a sombra das elites que raptaram as ferramentas de poder. Há uma diferença importante.

Não sendo nós o regime surge a inevitável pergunta. Com que poder é que fazemos essa exigência de qualidade? O do voto nos candidatos pré-seleccionados? O da manifestação higiénica que não perturba o trânsito? O da greve que não para a produção? O da petição online? São jogos viciados. São coisas que se fazem para tudo ficar na mesma - nada se altera mas os envolvidos têm uma vaga sensação agradável de serem "activos".

Mas concordo que existe de facto um nível de responsabilidade individual. O de dissipar ilusões e cortar o nó górdio das falsas opções e dicotomias que nos são apresentadas. Não somos o regime mas também não temos que o validar.
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De Jaime Santos a 03.07.2016 às 19:31

Completamente de acordo com a primeira parte da sua posta. Fiquei triste, mas acho que o resultado deve ser respeitado (mas isso é lá com os Britânicos). Agora, a segunda parte da sua mensagem baseia-se num equívoco. A participação de jovens neste ato eleitoral foi bastante elevada, mesmo se abaixo da média nacional, veja: http://blogs.ft.com/ftdata/2016/06/24/brexit-demographic-divide-eu-referendum-results/. Quanto à falta de participação em eleições gerais, ela tem vindo a declinar no RU, mas não devemos esquecer que o seu sistema não-proporcional favorece a abstenção (se o voto não conta, não vale a pena ir votar).

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