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Da mole humana

por Sofia Loureiro dos Santos, em 14.02.21

El Aquelarre Goya.jpg

Pinturas Negras

Francisco de Goya

 

A mole humana é tudo menos a divisão binária em bons e maus, mesmo que nisso tenhamos necessidade de acreditar.

As pessoas têm matizes e são também as suas circunstâncias. Além disso adaptam-se e habituam-se às condições mais extremas, tomando partido das fraquezas dos outros para sobreviver. Não somos heróis. Somos pessoas, naquilo que há de melhor e de pior.

Neste artigo do Público - Os portugueses foram vítimas ou cúmplices da PIDE? (de Duncan Simpson), o autor demonstra a forma como tanta gente usou a PIDE para resolver questões e vinganças pessoais ou para ter um modo de vida, como aceitou e integrou uma das mais poderosas armas da ditadura no controlo dos cidadãos, fazendo a sua vida quotidiana sem se importar com as dores, os medos e as injustiças a que eram sujeitos alguns dos seus amigos, familiares ou vizinhos. A PIDE estava no meio de tudo, entre casais, namorados, parceiros de negócios ou de jogatana.

Também tenho estado a rever uma série que já passou na RTP-2 – Un village français – que cobre o período entre a ocupação francesa e a sua libertação. O mais interessante da série, pelo menos para mim, é o perfil das vários personagens que, durante os anos do governo de Vichy, se misturaram e viveram com os alemães. Uns aceitando-os e satisfazendo-se com as suas ordens que lhes davam trabalho, o seu antissemitismo larvar, promoviam fortunas e ascensão social. Outros servindo o Estado Francês, mesmo a contragosto, tentando minorar as dores de quem estava sob a sua responsabilidade nem que, para isso, atropelassem os seus valores morais e fossem cúmplices das mais horrorosas atrocidades. Havia aqueles que não questionavam as ordens dos superiores, por mais contrárias que fossem à mais simples humanidade. Outros ainda amaram os invasores, constituindo famílias mais ou menos ortodoxas perante circunstâncias clandestinas ou duvidosas.

Aquando da libertação, é retratada a transformação dos cúmplices em algozes, no julgamento dos colaboracionistas, em que todos os que fizeram a sua vida à sombra e com os ocupantes eram os mais duros justiceiros defensores de judeus e comunistas, apontando os dedos para que ninguém os apontasse a eles.

Nada disto é novo nem surpreendente. É apenas a realidade, triste, suja, escura, a subterrânea gente que tem sentimentos e pulsões, que num dia é herói no outro vilão, que olha apenas o seu quintal, a sua vida, as suas necessidades, adormecendo as consciências e justificando as suas acções que, muitos anos depois dos acontecimentos, nos é fácil rotular e classificar.

Uma das grandes armas das ditaduras é o medo. Com o medo – da polícia, de perder o emprego, de ser repudiado socialmente, de morrer, do inferno, de dores, de passar fome e miséria, etc. – o medo é o que nos leva a revelar as nossas mais hediondas competências, se disso acharmos que depende a nossa sobrevivência.

Esta pandemia tem posto a nu muito desta nossa humanidade frágil, feia e mesquinha. O pensamento único no que diz respeito às estratégias de combate à mesma, a quantidade de Torquemadas e de iluminados que invocam a ciência em vão, negando a própria essência do que é o estudo e o método científico, a dúvida metódica, a investigação do que não se sabe, a certeza de que tudo pode mudar pelo evoluir do conhecimento. É terrível assistir ao inundar dos media com as certezas absolutas sobre vírus novos, sobre infecciologia, modelos matemáticos, previsões e epidemiologia, arrasando pessoas que põe em dúvida aquilo que não é certo mas que difere da doutrina oficial.

Transformou-se a ciência numa doutrina e numa ideologia – quem é a favor de medidas restritivas, confinamentos e fechamento das sociedades é de esquerda e quer salvar vidas, quem questiona estas estratégias é de direita, negacionista e precisa de ser calada e punida exemplarmente. Sofre bullying nas redes sociais, nos media e nas próprias instituições profissionais. Voltou o delito de opinião. Porque muito do que se diz sobre a gestão pandémica é opinião. Legítima, como é óbvio, mas opinião. Estudos científicos há vários e podem apontar para várias direcções. Vale a pena espreitar o Instituto de Saúde Baseada na Evidência e as newsletters sobre COVID-19.

É muito importante que os governos se baseiem em conhecimentos técnicos sobre a doença, a sua evolução, terapêutica, prevenção, factores de risco, etc. Mas também muitas outras vertentes sociais, económicas, de trabalho, de saúde mental, tudo aquilo que esperamos que os nossos responsáveis tenham em conta para tomar decisões.

Toda a minha vida de adulta tenho lidado com a doença, o rigor, o diagnóstico, a responsabilidade de observar as melhores e mais avançadas práticas na minha especialidade. Olho para o que se está a passar, com o mundo mergulhado numa voragem de abismo sem sequer poder ponderar, questionar, duvidar do que ouço, leio, vejo. Ou seja, negar tudo aquilo que me formou como profissional de saúde. Sinto-me perplexa e revoltada.

Mas sou humana e, como tal, nenhuma heroína. O mais fácil e mais confortável é seguir a onda. E se, mais tarde, quando houver tempo e estudos sérios e abrangentes que nos esclareçam tantas das nossas ignorâncias, a onda virar ao contrário, talvez fazer como farão os que agora não têm a mácula da dúvida, que defenderão com a mesma ferocidade o que agora repudiam e condenam.

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publicado às 17:09


4 comentários

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De Anónimo a 15.02.2021 às 18:29

Exactamente! Subscrevo.

Cump.

MRocha
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De Helena Andrade a 16.02.2021 às 16:20

Muito obrigada pela sua análise. Partilhei no facebook
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De Sofia Loureiro dos Santos a 16.02.2021 às 21:40

Obrigada eu, a ambos.
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De Jaime Santos a 20.02.2021 às 15:26

Lamento, mas continuamos a discordar sobre esta questão. O processo de discussão em Ciência não se faz sem o recurso a argumentos de autoridade, porque ninguém tem a capacidade de conhecer toda a literatura. E as opiniões dos peritos inclinam-se vigorosamente para um dos lados.

O debate científico não se coaduna com falsas simetrias entre diferentes argumentos. E também é vigoroso, por vezes injusto, sobretudo quando o que está em causa é algo tão importante como a gestão de uma pandemia.

O que não se pode certamente fazer é deflectir críticas alegando censura. Muito menos nos podemos dar ao luxo de prescindir do princípio da precaução e não agir, alegando ignorância. Os riscos que se correm são demasiado elevados.

Passa-se aliás exactamente o mesmo em relação ao aquecimento global, mesmo se as escalas de tempo são diferentes.

Há os que não seguiram a maioria, como Sunetra Gupta, mas a verdade é que as suas previsões se revelaram incorrectas (to say the least). E isso é algo que podemos afirmar com toda a segurança. Contrariamente ao que ela disse em Maio, a epidemia está longe de estar vencida.

É possível argumentar que o controle de contágios não é a única dimensão nesta pandemia (o que é uma evidência), e foi exactamente isso que um Governo como o nosso procurou fazer, mas numa estratégia que me suscita dúvidas, porque pouco consistente (provavelmente mais pela falta de recursos, incluindo humanos, do que por inépcia das pessoas), nomeadamente nas questões ligadas aos testes, à constituição de equipas de identificação de contactos e sobretudo ao desconfinamento de Natal, que toda a gente defendeu (eu próprio pensei que se não se fizesse, provavelmente as pessoas sairiam de casa mais cedo, muito simplesmente).

A Suécia teve pelo menos a vantagem de estar consistentemente errada... Mas os seus números são tudo menos lisonjeiros quando comparados com os dos vizinhos.

Parece claro que os Países que melhor lidaram com a pandemia foram aqueles, como a Coreia do Sul, Taiwan, a Nova Zelândia e a Austrália que optaram por uma estratégia de supressão, até ao aparecimento de uma vacina.

Só assim é possível pensar-se em imunidade de grupo, se ela existir de todo para um vírus respiratório como este, quer porque as mutações podem permitir reinfecções, quer porque a imunidade parece não ser longa.

Aliás, se deixarmos que o número de contágios cresça muito, o que estamos a fazer é a tornar essas mutações mais prováveis. Não é coincidência que haja uma variante inglesa, uma sul-africana e uma brasileira... Com a consequência de que podem aparecer variantes que tornam os nossos meios de combate ineficazes e nunca mais nos livrámos disto...

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